

MNICA DE CASTRO

EM

COM O AMOR NO SE BRINCA





(Ditado por Leonel_Dez 2002_355 Pg.)




Para meus sobrinhos, Fernando e Felipe,
Filhos do meu corao.










Sinopse:

H quem diga que o amor   base de tudo, porm eles se 
esquecem que:

H os que se anulam em nome do amor e acabam abandonados.

H os que investem tudo nos outros acreditando que sero 
correspondidos e vivem reclamando do egosmo alheio.

H os que sonham com um amor perfeito, pretendem encaixar o ser 
amado nesse modelo e acabam descobrindo que cada um  como  
e no temos poder para mudar ningum.

H os que confundem paixo com amor. No percebem que paixo 
 admirar no outro o que recalca em si. Quando a iluso projetiva 
desaparece percebemos o ridculo dos nossos atos apaixonados.

H os que confundem apego com amor. So egostas que esperam 
do outro exatamente o que no se do.

O amor verdadeiro nunca faz sofrer. Traz alegria, motivao e 
prazer, agindo sempre com seu poder de harmonizar as relaes 
humanas.

Quando ser feliz, passa a ser um objetivo srio ns logo percebemos 
que COM O AMOR NO SE BRINCA.        
 
Zibia Gasparetto




CAPTULO 1                                                                                

O dia amanheceu chuvoso e frio, mas todos estavam de p logo 
cedo, prontos para seguir a urna funerria at ao pequeno cemitrio 
da fazenda, onde Licurgo seria enterrado ao lado da filha, Aline, e 
do genro, Cirilo. O cortejo seguia em silncio, Palmira estampando 
no semblante toda a dor e a tristeza de haver perdido o 
companheiro de tantos anos. A seu lado, os filhos, Fausto e Rodolfo, 
tentavam ampar-la e consol-la da melhor forma possvel. Um 
pouco mais atrs, Camila, filha de seu primeiro casamento, ia 
cabisbaixa ao lado do marido e dos filhos, Drio e Tlio, talvez 
recordando as agruras por que passara naquelas terras. Junto de 
Palmira, sua irm, Zuleica, j bastante idosa, seguia de braos 
dados com a filha Berenice.

Ao fundo, Terncio, o capataz, chorava em silncio. Amara seu 
Licurgo e sentiria muito sua falta. Sabia que nem todos ali gostavam 
dele e muita coisa ele j fizera a seu servio, mas Licurgo sempre 
estivera a seu lado, protegendo-o e defendendo-o, at da prpria 
filha. Mas agora, o que seria dele? J estava velho tambm. O que 
faria se o mandassem embora? Abaixou a cabea e comeou a 
chorar, at que sentiu uma mo pousar sobre seu ombro e virou-se 
bruscamente. Era Aldo, o outro capataz, que lhe sorriu 
compreensivo. Ele respondeu ao sorriso com outro, meio sem jeito, 
e desvencilhou-se do companheiro, indo postar-se bem atrs de 
dona Palmira.

Parada um pouco mais alm, uma mulher ocultava o rosto no manto 
de veludo negro e pudo que lhe caa sobre as costas. Assistia a tudo 
 distncia, e apenas seus olhos eram visveis. Havia muita gente no 
enterro, e ningum lhe prestou ateno. Apenas Terncio, ao passar 
por ela, fitou seu rosto, e uma sombra de reconhecimento 
perpassou-lhe a mente. Aquela mulher era-lhe familiar, mas no se 
lembrava de onde a conhecia. No entanto, aqueles olhos... Onde j 
vira aqueles olhos escuros, de um verde quase cinzento?

Terminada a cerimnia fnebre, todos voltaram para casa, e 
Palmira ia pensando em sua vida. O marido morrera j bem idoso e 
lhe deixara dois filhos maravilhosos. Olhando para eles, sentiu um 
aperto no corao. Eram gmeos idnticos, e ela quase morrera ao 
d-los  luz. Lembrou-se do parto difcil que tivera e do dilema para 
amament-los, tendo que contar com o leite de Tonha para no 
matar seus meninos de fome.

Assim como Palmira, a negra Tonha tambm tivera um parto 
dificlimo, e a criana, pobrezinha, no resistira. Josefa e a velha 
Maria, antigas escravas da fazenda, tudo fizeram para salv-lo, mas 
o pequeno nascera mesmo sem vida. Tonha erguera o corpo do 
filhinho morto e chorara. Fora melhor assim. Ao menos a criana 
no teria o desgosto de viver como escrava. Seu filho nascera livre. 
Ao morrer, sua alma se libertara, e ele jamais conheceria o peso da 
chibata.

Por uma estranha coincidncia, Palmira estava para dar  luz na 
mesma poca em que Tonha. Quatro dias depois do beb de Tonha 
nascer, quando ela j havia voltado para a senzala, sentindo ainda 
as dores do parto, Palmira comeara a sentir contraes, e a 
parteira fora chamada s pressas. Palmira tivera gmeos e 
precisava de uma ama-de-leite para aliment-los. Mandaram 
chamar Josefa, indagando-lhe quem tivera filhos pela mesma poca, 
que pudesse amamentar os pequenos. Contavam com uma negra 
forte e robusta, de nome Jacinta, que tivera filho poucos dias antes. 
Jacinta, no entanto, no resistira ao parto e morrera. Josefa, 
acabrunhada, respondera:

        Sinto muito, sinh, mas a nica escrava assim  Tonha. 
Jacinta teve criana, mas morreu...
        Tonha? No quero aquela negra nojenta.
        Ento, a sinh me desculpe, mas no tem outra, no.
        No  possvel que ningum mais tenha dado cria por esses 
dias - objetara Licurgo.
        No deu no, sinh. Tenho certeza.
        E agora, Licurgo - considerara Palmira -, o que vamos fazer? 
No tenho leite para os meninos.

Josefa abaixara os olhos,  espera que lhe dissessem o que fazer. 
Licurgo mandara que sasse e esperasse na cozinha. Resolveriam e, 
ento, mandariam cham-la. Logo que ela sara, Palmira voltara-se 
para o marido e exclamara:

        No vou aceitar o leite daquela negra assassina!
        Palmira, pense bem. A idia tambm no me agrada, mas no 
temos escolha. Nenhuma outra escrava deu cria por esses 
dias, s Tonha.
        No, no quero. Mande Terncio  vila comprar uma escrava 
leiteira.
        Mas, minha querida, e se no houver nenhuma  venda?
        Ento, mande-o  vila vizinha. E mande Aldo  outra. Algum 
h de encontrar uma ama-de-leite.
        E enquanto isso, nossos filhos morrem de fome? Pense bem, 
Palmira, uma escrava leiteira no  assim to fcil de 
encontrar. E isso pode levar dias.
        Oh! Licurgo, por que no pensou nisso antes de nossos filhos 
nascerem?
        Eu pensei. Jacinta seria nossa ama-de-leite, mas teve que 
morrer. Que azar!
        E agora?
        Sinto muito, meu bem, mas no vejo outra sada. Temos que 
chamar Tonha.
        J disse que no quero aquela negra. Perdemos trs filhos por 
causa dela, no haveremos de perder outros dois.
        Palmira, seja razovel. Na verdade, sabemos que Tonha no 
matou ningum.
        Como  que sabe? Afinal, s ela sobreviveu. No acha isso 
estranho?
        Por que ela faria isso? Estava apaixonada, ganharia a 
liberdade. No v que isso no faz sentido?
        No sei. Vingana. Como vou saber o que se passa no corao 
desses negros ingratos? No, meu caro, desculpe, mas tenho 
todos os motivos do mundo para odi-la e no a querer perto 
de nossos filhos.

Licurgo, durante alguns segundos, estacara e ficara olhando para a 
mulher. No fazia nem um ano que perdera Aline, sua filha, e 
lembrava-se de tudo como se fosse ontem. Lembrava-se de que 
dera Tonha de presente a Aline quando ela era ainda menina, e que 
a escrava passara a ser sua protegida. As meninas cresceram juntas 
e, por uma cruel ironia do destino, Incio, sobrinho de Palmira, por 
ela criado como se fosse seu prprio filho, acabara se apaixonando 
pela negra Tonha, com quem mantivera sigiloso romance. Aline, por 
sua vez, casara-se com Cirilo, filho do primeiro casamento de 
Palmira e irmo de Camila. Contudo, Constncia...

Ele se lembrava bem de Constncia. Uma moa linda, filha, de 
Zuleica, irm de Palmira, era uma das preferidas no corao da 
mulher. Constncia tambm se apaixonara por Incio e tudo fizera 
para afast-lo de Tonha. No fosse seu dio por Aline tambm, e 
ele, Licurgo, nem teria se importado com suas maldades para com a 
escrava. Mas Constncia pretendia atingir tambm Aline, e isso ele 
no podia permitir, e acabara por expuls-la dali. Depois, soubera 
que a moa voltara para a corte e que fugira logo aps o casamento 
de Aline. Para onde fora? Ningum o sabia.

Os olhos de Licurgo encheram-se de lgrimas quando se lembrara 
da noite de npcias da filha. Ele fora chamado s pressas por causa 
de um incndio na fazenda Ouro Velho, para onde ela e Cirilo 
haviam ido, juntamente com Tonha e Incio. Inexplicavelmente, um 
incndio comeara, talvez por causa de um monte de palha seca 
deixado sob a janela do quarto dos noivos. O incndio destrura toda 
a ala sul da manso, e Aline, Cirilo e Incio padeceram sob as 
chamas. Apenas Tonha se salvara. Disseram-lhe que Aline, tentando 
salvar a negra, empurrara-a para fora do quarto no exato instante 
em que uma pesada viga desabara sobre ela. Fora uma tragdia 
horrvel, e s Tonha sobrevivera.

Pensando nisso, Licurgo no podia recriminar Palmira. Fora muito 
estranho, era verdade, e ele quase mandara matar a negra. Em vez 
disso, optara por faz-la sofrer todas as dores e humilhaes de sua 
condio de escrava, atirada na senzala, experimentando na carne 
a ponta afiada do chicote.

Voltando  realidade, Licurgo considerara:

        Eu sei. No tiro seus motivos. Em todo caso, no acredito que 
tenha sido ela. E depois, creio que ela j pagou um preo 
muito alto por seu atrevimento. Vamos, Palmira, reconsidere, 
pelo amor de Deus! As crianas esto famintas e precisam de 
leite. Ou quer que elas morram de fome?

Ao ouvir isso, Palmira no teve outro remdio seno aceitar o leite 
de Tonha. Afinal, era uma escrava e estaria apenas cumprindo suas 
ordens. Desse dia em diante, Tonha abandonara a senzala e voltara 
para dentro de casa, alojando-se no quarto dos meninos. Seria 
responsvel por sua criao, mas que no contasse com favores 
especiais. Cumpriria seu dever com zelo e perfeio, porque era 
uma escrava e devia obedincia a seus senhores. Mas no fosse 
esperando tratamento especial por causa disso. Ela fora chamada 
apenas porque as crianas precisavam de leite, e no por uma 
deferncia ou preferncia pessoal. Era apenas um dever que tinha a 
cumprir, e Palmira esperava que ela o desempenhasse da melhor 
forma possvel. Caso contrrio voltaria para a senzala, no sem 
antes passar pelo tronco.

Assim, Tonha passara a ama-seca dos meninos. A princpio, seria 
responsvel por eles apenas durante o perodo de amamentao e, 
logo em seguida, voltaria para a senzala. No entanto, Tonha 
desvelara-se em ateno e carinhos para com Fausto e Rodolfo, e 
os meninos acabaram se apegando a ela. Embora Palmira e Licurgo 
tudo tivessem feito para lev-la de volta  senzala, o fato  que as 
crianas viviam a cham-la e s iam para a cama se ela fosse junto, 
para contar-lhes as histrias maravilhosas que conhecia. Palmira no 
deixara de sentir uma pontadinha de cimes, mas acabara cedendo 
 vontade dos filhos, e Tonha fora ficando. Mesmo depois que 
cresceram, ela continuara como escrava de dentro, substituindo a 
velha Josefa, que falecera alguns anos antes.

Nesse ponto, alcanaram  casa grande, e Palmira pediu licena 
para se retirar. Estava cansada e precisava repousar. Afinal, j 
ultrapassara os setenta anos e as fortes emoes dos ltimos dias 
acabaram por deix-la extremamente fatigada. J ia subindo as 
escadas quando ouviu a voz da filha atrs de si:

        Quer que lhe faa companhia, mame?
        No, Camila, obrigada. Preciso ficar sozinha um pouco.        

Subiu vagarosamente. A cada degrau que avanava, ia pensando na 
filha. Camila fora uma moa bonita e inteligente, embora sem juzo 
algum. Perdera a honra para um canalha de nome Virglio, a mando 
de Baslio, um antigo namorado, que armara uma trama para lev-
la ao altar, s para ficar com seu dinheiro. Mas Camila, para 
surpresa geral, no aceitara despos-lo, optando por entregar a vida 
a Deus e enclausurando-se num convento em So Paulo. No 
entanto, poucos anos aps sua partida, Palmira recebera a notcia 
de que ela iria se casar. Fora um alvoroo geral. Ningum podia 
compreender o que havia se passado. Mais tarde, quando Palmira e 
Licurgo chegaram para o casamento, souberam de tudo. O rapaz, 
Leopoldo, era sobrinho da madre-superiora e se encantara com ela, 
tendo sido logo correspondido. A princpio, a madre no quisera 
permitir julgando aquele amor uma blasfmia. Mas depois, vendo 
que os jovens se amavam sinceramente, e no tendo Camila ainda 
feito o voto, resolvera ceder. Os dois se casaram em cerimnia 
simples e sem luxo, e continuaram a viver em So Paulo, onde 
Leopoldo era dono de prspero negcio.

Apesar de tudo, Palmira ficara feliz. No desejava mesmo que a 
filha terminasse seus dias num convento, embora concordasse que, 
dada sua condio de moa desonrada, aquela seria a melhor 
soluo. No entanto, se Camila encontrara um homem que a 
aceitara do jeito que era, e que no se importava em desposar uma 
moa j deflorada, para ela estava tudo bem. Licurgo tambm 
ficara satisfeito. A enteada j lhe havia dado trabalho demais, e 
seria um alvio saber que estaria segura e bem cuidada por um 
homem que a amasse e a sustentasse.

Palmira chegou a seu quarto e se deitou, virando-se para a janela e 
olhando o horizonte. J era quase meio-dia, e o cu continuava 
cinzento, com nuvens ameaando chuva. Estava cansada, muito 
cansada. Vivera muitos anos ali, naquela fazenda, sob a guarda de 
Licurgo, e fora feliz com ele. Ao contrrio do que muitos diziam, ele 
no fora um homem impiedoso e cruel; fora justo. Ainda com a 
imagem do marido no pensamento, adormeceu. J no o tinha 
mais, mas ao menos possua filhos. Eles, com certeza, no a 
abandonariam, e ela podia estar certa de que terminaria seus dias 
ali, junto dos seus.
      
CAPTULO 2
                                                               
Fausto entrou na sala no exato momento em que a porta da frente 
se abria, dando passagem a uma jovem, que entrava esbaforida. 
Chegava acompanhada de um escravo e, logo que entrou, soltou no 
cho o bauzinho que levava, suspirando aliviada.

        Oh, meu Deus, at que enfim! - desabafou.
        Perdo, senhorita - observou Fausto -, mas no creio que a 
conhea.

A moa olhou-o atordoada. Entrara to apressada que nem sequer 
percebera a presena de algum ali. Mais que depressa, tratou de 
se apresentar.

        Oh! Senhor, queira me desculpar. Meu nome  Jlia Massada, 
e sou irm de Leopoldo, marido de Camila. Conhece-a?

Fausto acenou com a cabea, e ela continuou:

        Pois . Vim aqui para o enterro do padrasto de Camila, mas 
creio que cheguei um pouco tarde.
        Sem dvida. Mas vamos, entre. Venha descansar.

Jlia sentou-se na poltrona e suspirou. Estava exausta. Viajara o dia 
inteiro e, ainda por cima, acabara se perdendo no caminho. Ela 
olhou rapidamente para o escravo, que permanecera de p, 
segurando a bagagem, e prosseguiu:

        O senhor  dono da casa?
        Sou sim. Chamo-me Fausto, e Licurgo era meu pai.
        Oh! Sinto muito. Meus sentimentos.
        Obrigado.

Ela ficou a olh-lo, meio constrangida, at que continuou:

        Senhor Fausto, ser que podia chamar minha cunhada? Sei 
que me demorei demais e no quero incomodar, mas...
        No  incmodo algum. Camila nos disse de sua chegada, mas 
no a espervamos mais.
         verdade. Peo que me perdoe. No conhecia a estrada e 
acabei por me perder.
        Se me permite a indiscrio, senhorita, por que no veio com 
seu irmo e sua cunhada? As estradas so perigosas para 
mocinhas desacompanhadas.
        Mas no vim s. Trajano me acompanhou - e indicou o 
escravo, que permanecia ainda na mesma posio. - Trajano! 
Ponha essas coisas no cho!

O escravo obedeceu e continuou ali calado, sem dizer nada, at que 
Fausto continuou:

        Pois  senhorita Jlia, at agora no me disse por que veio 
s...
        Oh,  mesmo. Bem,  que tive que resolver uns problemas l 
em So Paulo e s ento pude vir.
        No pretendo ser intrometido, mas que problemas seriam 
esses, que tiveram que retardar sua viagem?
        Que problemas? Oh, sim, problemas.... Bem, senhor Fausto, 
digamos que eu estava ocupada com meus... Afazeres 
pessoais.

Fausto, percebendo que ela se esquivava de revelar o motivo de sua 
demora, achou melhor no insistir. No queria parecer indelicado, 
ainda mais porque a moa o impressionara sobremaneira. Ela era 
linda, e ele estava admirado diante de tanta beleza.

A porta da frente se abriu e Camila entrou, em companhia de 
Leopoldo. Tinham ido dar um passeio a fim de desanuviar o 
pensamento, quando avistaram a carruagem de Jlia parada na 
porta.

        Jlia, querida! exclamou Camila, abraando-a.  J 
estvamos preocupados. Por que demorou tanto?

Ela deixou-se abraar e fitou Fausto pelo canto do olho. Ele a olhava 
com ar divertido, cheio de curiosidade.

        Perdoem-me, mas  que tive uns contratempos  finalizou 
Jlia.

Jlia lanou para eles um olhar extremamente significativo, que 
tanto o irmo quanto a cunhada pareceram compreender, e eles 
mudaram de assunto, deixando Fausto frustrado em sua 
curiosidade. Virando-se para Trajano, Leopoldo acrescentou:
        E ento, Trajano, cuidou dela direitinho?
        Cuidei sim, sinh. A sinhazinha Jlia  uma tima moa e no 
deu trabalho algum.
        Muito bem.
        Vejo que j conheceu meu irmo... Fausto, no ?  indagou 
Camila, e ele assentiu.
        Conheci, sim.
        Fausto  disse Leopoldo , como pode perceber, Jlia  
minha irm mais moa. E a caula de onze filhos. Por isso 
nossa diferena de idade  to grande. Jlia podia ser minha 
filha.
        E  como se fosse  acrescentou Camila.  Depois que meus 
sogros morreram, Jlia foi morar conosco, e ns nos 
afeioamos muito a ela.  um amor de menina.
        Obrigada, Camila.

Nesse momento, Palmira entrou na sala, amparada por Rodolfo, e 
foi sentar-se ao lado de Jlia, perguntando a Camila:

        Quem  a mocinha?
        Deixe que lhe apresente mame. Esta  Jlia, irm de 
Leopoldo, de quem j lhe falei.
        Jlia... Jlia. Ah, sim, Jlia, sua cunhada. Como vai, minha 
filha?
        Vou bem, obrigada, e a senhora?
        Como v nada bem - respondeu de m vontade.  Como 
pode uma viva estar passando bem, no  mesmo?
        Desculpe-me senhora. No quis aborrec-la.
        No aborreceu. Eu  que lhe peo desculpas. No quis ser 
grosseira.  que ainda no me acostumei.
        Deixe disso, mame - cortou Rodolfo, impressionado com a 
figura de Jlia.
        Jlia, esse  meu irmo Rodolfo  apresentou Fausto.  
Somos gmeos.
        Sim, eu sei, Camila me disse. E mesmo que no soubesse, no 
poderia deixar de notar. A semelhana entre ambos  
extraordinria!
        E sim, minha filha  concordou Palmira.  Mas no se 
preocupe. Com o tempo ir se acostumar e aprender a 
diferenci-los. Se observar bem, ver que Fausto possui as 
mas do rosto um pouco mais salientes do que Rodolfo. Alm 
disso, Rodolfo tem um sinal perto da orelha esquerda, que 
Fausto no tem.
         verdade  disse Jlia, estudando-lhes os rostos.  Mas a 
diferena  muito sutil. Ningum nota.
        Bem, por ora chega  disse Camila.  Vou mostrar a Jlia o 
seu quarto. Ela deve estar cansada.
        Obrigada, Camila. Estou realmente exausta. Trajano pode 
trazer minhas coisas, por favor?

O escravo apanhou a bagagem de Jlia e saiu atrs dela. J na 
escada, Camila observou:

         melhor no falar assim com Trajano por aqui.
        Assim como?
        No seja to educada. J lhe disse que os escravos aqui no 
so tratados feito gente.
        Mas eu no falei nada de mais.
        No importa. Mame no gosta de negros, e no queremos 
dar-lhe motivos para comear uma questo, no  mesmo?
        Claro que no. Mas onde ele ficar?
        Na senzala, junto com os outros escravos.
        Mas, Camila, Trajano  escravo de dentro.
        No aqui. No h escravos de dentro aqui. S as mulheres 
trabalham na casa grande.

Jlia olhou para Trajano com olhar penalizado, e este a consolou:

        No se preocupe sinhazinha, estarei bem.

Ela suspirou e entrou no quarto que Camila lhe indicara. No 
gostava daquilo, mas o que poderia fazer? Trajano era um escravo 
meigo e dcil, e fora seu amigo e protetor durante toda a sua vida. 
Como poderia deix-lo sozinho naquela senzala imunda? No entanto, 
teve que concordar com a cunhada. Era melhor no facilitar. 
Despediu-se de Camila e de Trajano e entrou, desabando na cama 
logo que a porta se fechou, adormecendo imediatamente. Estava 
exausta e s podia pensar em dormir.

Jlia s despertou no dia seguinte, bem cedo. Levantou-se da cama 
e desceu para a cozinha. Estava com fome e saiu em busca de um 
caf bem quentinho. Ao chegar, viu que uma escrava preparava o 
caf, cantando uma msica numa lngua que ela no conhecia. 
Achou aquela msica muito bonita e, quando a negra terminou, 
cumprimentou da porta:

        Bom dia!

A escrava assustou-se e voltou-se para ela.

        Oh! Sinhazinha, perdo. No sabia que estava a.
        No foi nada. Achei muito bonita a sua msica.
        A sinhazinha gostou?
        Hum, hum. Onde a aprendeu?
        Ah, sinhazinha, so cantigas l da minha terra. Ningum se 
lembra mais...
        Como  o seu nome?
        Tonha, sinh.
        Tonha? Voc  que  a Tonha?

Tonha olhou-a meio espantada. De onde  que aquela sinhazinha a 
conhecia? Ela nunca a vira por ali. Sequer estivera presente no 
enterro. Quem seria ela? Um pouco desconfiada, respondeu 
hesitante:

        Sou sim. Por que a sinhazinha quer saber?
        Oh! Desculpe-me, nem me apresentei. Sou Jlia, cunhada de 
Camila. Cheguei ontem.
        Ah, ento a sinhazinha  que  a irm de sinh Leopoldo?
        Sou eu mesma.  que me atrasei e no consegui chegar a 
tempo para o enterro.

Tonha olhou para ela e sorriu. Aquela menina, alm de linda, era 
tambm muito amvel. Tinha um semblante sereno, um ar assim de 
quem respeita a vida.

        A sinhazinha quer caf? - perguntou afinal.
        Por favor. Cheguei ontem  tarde e estava to cansada que 
nem comi. Ca na cama e dormi at hoje.
        Se a sinhazinha no se importar de comer na cozinha, sente a 
que lhe preparo um caf da manh especial.

Jlia sentou-se e Tonha serviu-lhe caf, leite, po, manteiga, queijo, 
bolo e outras guloseimas que havia preparado. Gostara muito 
daquela menina e queria agrad-la apenas para ver seu ar de 
satisfao. Estava parada, admirando Jlia comer, quando escutou 
batidas na porta. Voltou-se e deu de cara com Trajano, cabea 
baixa, segurando nas mos o chapu amassado.

        Ah! Trajano, entre!  chamou Jlia.  Est com fome?

Ele assentiu, e ela convidou-o a sentar-se  mesa. Tonha, 
desacostumada quelas intimidades, disse alarmada:

        Sinhazinha, perdoe-me o atrevimento, mas sinh Palmira no 
vai gostar nadinha de saber que a sinh tomou caf com um 
escravo.
        Ora, Tonha, mas o que  isso? Dona Palmira est dormindo.
        Mas ela pode ficar sabendo...
        Deixe de bobagens, Tonha. Trajano  meu amigo. E depois, 
quem contaria a ela? Voc?
        Deus me livre, sinh, que no sou dada a mexericos.
        Ento no se preocupe. Trajano est acostumado a sentar-se 
 mesa conosco e no far feio. Voc ver.
        No duvido disso, sinh. Mas  que me preocupo tambm com 
o rapaz. Sinh Palmira pode se zangar e...
        Sinh Palmira no  dona de Trajano e nada pode fazer contra 
ele.
        Eu sei, mas pode ficar de birra com ele.  isso o que quer? 
Que ela implique com o moo?

Jlia pensou por alguns instantes e concordou:

        Tem razo, Tonha. No vale a pena provocar dona Palmira. 
Trajano pegue seu caf e v tom-lo l no terreiro.  melhor.
        Tambm acho sinh. No quero criar problemas.

Trajano pegou sua refeio e saiu. Era um bom rapaz e gostava 
muito de Jlia para causar-lhe qualquer tipo de aborrecimento. E 
depois, no se importava. Era escravo mesmo, e lugar de escravo 
era na senzala. Eram poucos os que, como os Massada, tratavam 
negro feito gente.

Depois que ele saiu, Tonha indagou, curiosa:

        A sinhazinha vai me desculpar, mas no acha que esse seu 
jeito de tratar o escravo pode acabar mal?

Jlia olhou-a com ar divertido. Conhecia a histria de Tonha e disse:

        Ora, Tonha, mas logo voc? Pelo que soube, tinha uma 
amizade um tanto quanto especial com a filha de seu Licurgo, 
Aline.

Tonha parou estarrecida e, escolhendo as palavras, respondeu:

        Desculpe sinhazinha, mas como sabe de Aline?
        Sei de tudo o que aconteceu nesta casa. Minha cunhada me 
contou.
        Ah, sinh Camila,  verdade. Ela conhece a histria toda.
        Conhece sim. E gosta muito de voc.
        Eu sei. Tambm gosto muito dela, e fiquei com muita pena 
quando...
        Pode falar Tonha, sei disso tambm. Meu irmo e eu sabemos 
tudo sobre Camila e no nos importamos. Ela  como uma 
me para mim. Tonha lembrou-se de Aline, do quanto era sua 
amiga e do quanto se amavam. Por que tivera que morrer? 
Subitamente, duas lgrimas rolaram de seus olhos, e ela 
voltou o rosto para a janela, tentando ocult-lo de Jlia.
        Voc est chorando! Oh, sinto se a deixei triste. No devia ter 
tocado nesse assunto.
        No foi nada, sinhazinha, deixe estar.  que senti saudades...
        Posso imaginar. Mas, ento, no falemos mais nisso. No vale 
a pena desenterrar os mortos, porque eles no podem se 
levantar e voltar a viver entre ns.
        Tem razo, sinhazinha, desculpe.
        Deixe de bobagens. Voc no tem nada do que se desculpar.
        Sinhazinha?
        Hum? O qu?
        E esse rapaz, o Trajano?
        O que tem ele?
         um bonito rapaz, no  mesmo?
         sim, Tonha, muito bonito.
        A sinhazinha e ele... Quero dizer... Vocs no... Vocs no 
esto...

Jlia soltou uma gargalhada e respondeu, gracejando:

        Enamorados, voc quer dizer? No, Tonha, claro que no. No 
que isso fosse impossvel. Trajano  mesmo um rapaz muito 
bonito, e eu no tenho nada contra os negros. No entanto, 
Trajano e eu fomos acostumados um ao outro desde 
pequenos. Quando minha me morreu, eu era ainda muito 
criana e fui morar com meu irmo. Trajano ajudou a cuidar 
de mim, e tornamo-nos muito amigos.
        Fico feliz em saber disso, sinhazinha. O amor entre um branco 
e um negro pode ser muito doloroso...
        Eu sei Tonha, nem precisa dizer. Camila me contou sobre seu 
romance com o primo dela, Incio, e o quanto voc sofreu 
com sua morte.
        Foi muito triste, sinh. Todos aqui passaram a me acusar, at 
que os meninos, Rodolfo e Fausto, nasceram.
        Eu sei Tonha.
        Sabe sinh, eu tive um filho, mas ele morreu...
        Sei disso tambm, e sinto muito. O destino, s vezes, pode ser 
bem cruel.
        Ser? Ser que no foi melhor ele morrer ainda bebezinho? Ao 
menos assim no tive que sofrer vendo o sofrimento dele.
        No sei. Mas, por favor, no pense mais nisso. No falemos 
mais de coisas tristes.

De repente, a sineta tocou e Tonha foi atender. Era sinh Palmira, 
mandando servir o caf. Como Jlia j havia comido, levantou-se da 
mesa, apressada, e saiu para o terreiro.

        Diga a Camila e aos demais que sa para dar uma volta  
pediu.
        Pode deixar sinh.
        Obrigada, Tonha.

Jlia saiu para o terreiro e foi ao encontro de Trajano, convidando-o 
para um passeio. O escravo levantou-se sorridente e saiu em 
companhia da moa, seguindo pela estradinha que conduzia  
estrada principal.

A mesa do caf, a famlia encontrava-se reunida: Palmira, Leopoldo, 
Camila e os filhos, Rodolfo, Fausto, Zuleica e sua filha Berenice.

        Tia Palmira  iniciou Berenice , mame e eu devemos partir 
amanh pela manh.
        Mas, j?  indagou Palmira, surpresa.  Pensei que fossem 
se demorar ainda um pouco mais.
        Sinto titia, mas Miguel ficou sozinho cuidando dos negcios 
para que pudssemos viajar. Partiremos para Lisboa daqui a 
quinze dias, e sabe como so os homens sem suas esposas, 
no  mesmo?
        Pretendem demorar-se?
        Um pouco. Miguel j est h muito tempo longe e sente 
saudades da famlia.
        Tem razo, minha querida. Vo. Compreendo. E vocs, 
Camila, no vo ficar?

Leopoldo olhou para a sogra e respondeu:

        Eu no, dona Palmira, apenas Camila. Ela decidiu passar uns 
dias fazendo-lhe companhia, e os rapazes podem ficar com 
ela. Eu, porm, tenho que voltar. Tenho negcios em So 
Paulo. Creio que a companhia da famlia lhe far muito bem.
        Papai tem razo - concordou Drio.  Penso que vov ficaria 
feliz se estivssemos todos juntos.
        Ficaria sim, meu filho  tornou Palmira.
        E Jlia tambm pode ficar se quiser  acrescentou Leopoldo. 
 Por falar nisso, onde est?
        Tonha disse que foi dar uma volta  respondeu Drio.
        Ento, quando chegar, perguntaremos a ela.

Quando Jlia voltou, ficou muito feliz em poder passar uns dias ali na 
fazenda. Tinha planos e precisava de tempo para coloc-los em 
prtica. E depois, havia Fausto. Ela mal o conhecia, mas sentira uma 
emoo especial ao v-lo e pensou que seria maravilhoso conhec-
lo melhor.
      
      **********
      
Drio olhou pela janela com ar amuado. A manh fria e chuvosa 
impedia-o de sair pela fazenda, e ele no gostava de ficar trancado 
dentro de casa. Ouviu batidas na porta e disse sem maior interesse:

        Pode entrar.

A me entrou sorridente, sentou-se a seu lado e disse:

        E ento, meu filho, dormiu bem?
        Otimamente, mame. Pena que est chovendo novamente. 
Gostaria de caminhar um pouco mais pela fazenda.
        No se preocupe querido, haver ainda bastante tempo para 
isso.
        Quanto tempo pretende ficar?
        No sei bem. O suficiente para deixar Ezequiel e Rebeca  
vontade na fazenda Ouro Velho.
        Acha que encontraro algum tipo de problema?
        No creio. Seu tio Fausto tem bom corao. Creio que no 
criar embaraos ao arrendamento da fazenda.
        E vov?
        Sua av no pode saber. Ao menos enquanto o negcio no 
estiver concludo.
        E Jlia, conseguiu aloj-los?
        Sim. Pelo que me disse, ela acomodou os trs na estalagem 
da vila. Creio que hoje mesmo teremos notcias deles. A 
propsito, onde est seu irmo?
        No sei mame. No o vi.

A porta do quarto se abriu e Jlia entrou apressada. Estava ansiosa 
e no conseguira dormir durante quase toda a noite. A preocupao 
com os amigos a deixara acordada, pensando na sorte que o destino 
reservara  pobre Sara.
        Oh! Camila  comeou a dizer , que bom que a encontrei 
aqui. Estou to nervosa!
        Fique calma, minha querida. Tudo vai dar certo.
        O que faremos?  perguntou Drio.
        Creio que o melhor a fazer  conversar com Fausto  
ponderou Camila.
        Sim, creio que sim  concordou Jlia.  Voc vai falar com 
ele?
        Vou sim.
        Posso ir junto?  pediu Drio.
         claro, meu bem.
        Tambm gostaria de ir  acrescentou Jlia.
        Pois, ento, vamos todos agora mesmo procur-lo.

Os trs saram em busca de Fausto, que se levantara cedo e estava 
no estbulo, vistoriando os animais. Quando viu Jlia, seu rosto se 
iluminou. Ele j podia perceber que seu corao comeava a se 
render aos encantos da concunhada e estava deliciado com sua 
presena ali, em sua casa. Quando eles chegaram, cumprimentou-
os:

        Bom dia. O que os traz aqui logo pela manh?
        Fausto - principiou Camila -, temos algo importante para lhe 
falar.
        Comigo?
        Ser que podemos ir para algum lugar mais sossegado?
        Sim, claro que sim. Vamos para o gabinete que era de papai. 
Ningum nos incomodar l.

Os quatro seguiram em silncio. Fausto no podia atinar no assunto 
que levara sua irm, o filho e a cunhada a quererem falar com ele. 
Ser que precisavam de dinheiro e, agora que o pai morrera, 
resolveram pedir-lhe ajuda? No, certamente que no. Pelo que 
sabia, Leopoldo estava muito bem de vida e no precisava de nada. 
Mas, ento, o que poderia ser? Bem, fosse o que fosse o fato  que 
levara para perto dele a menina Jlia, por quem demonstrava um 
interesse forte e genuno. Ao entrarem no gabinete, Fausto fechou a 
porta e fez com que eles se sentassem, sentando-se bem  sua 
frente. Eles olharam-no por alguns instantes, sem dizer nada, at 
que ele os encorajou:

        Bem... O que tm de to importante para me falar?

Camila olhou para ele e tossiu. Tinha medo da reao dele ao 
conhecer o motivo que os levara at ali.

        Fausto  comeou , a fazenda Ouro Velho, que pertencia a 
meu pai, hoje  administrada por voc e Rodolfo, no  
mesmo?

Ele a olhou com ar interessado e respondeu:

        Sim, por qu? Por acaso tem algum interesse nela?
        Bem, sim e no.
        Como assim? Oua Camila, sei que parte daquelas terras lhe 
pertence, talvez at mais do que a mim. Afinal, voc herdou 
um bom quinho quando seu pai morreu, e ns no temos a 
inteno de les-la ou tomar o que  seu. Ns apenas a 
administramos como voc bem disse, porque voc se mudou 
para longe, e a fazenda ficou abandonada. Contudo, se voc 
veio reclamar sua parte,  mais do que justo. Afinal, tem 
filhos, e eles tambm tm seus direitos...
        Por favor, Fausto, no se justifique. Sei que vocs no tm a 
inteno de me lesar, e no  sobre isso que vim falar. 
Tampouco pretendo reivindicar a posse de nada. Meus filhos e 
eu, com a graa de Deus, no precisamos da fazenda. No 
entanto, h algo que gostaria de pedir.
        Verdade? O que ? Pode falar.
        Bem, a fazenda est abandonada, no  mesmo?
        Abandonada, no. Est desabitada. Mas ns continuamos a 
tratar da casa, e as terras continuam a ser cultivadas. Por 
qu?
        Bem, vou falar logo, porque sei que voc  um homem 
sensato e de bom corao. Ns temos uma famlia, muito 
nossa amiga, que est passando por srios problemas.
        Sim? Que tipo de problemas? Financeiros?
        No. Eles so ricos e no precisam de dinheiro.
        E de que precisam, ento?
        Digamos que precisam de... Sade.
        Sade? No estou entendendo. Aonde quer chegar Camila?
        Por favor, Camila, pode deixar que eu conto tudo  apressou-
se Jlia. - Afinal, Sara  muito mais minha amiga do que de 
vocs.
        Sara? Mas do que se trata pelo amor de Deus?
        Bem, Fausto,  o seguinte. L em So Paulo, temos um casal 
de amigos, cuja filha est seriamente doente e, por 
recomendao mdica, devia procurar um lugar nas 
montanhas onde pudesse se restabelecer. O mdico acha que 
o ar puro e o contato com a natureza poderiam ajud-la a se 
curar.
        E da?
        E da que, quando resolvemos vir para c, Camila se lembrou 
de que a fazenda Ouro Velho estava vazia e pensou que seria 
boa idia arrend-la para eles.
        Ah! Mas  s isso? Por que no falaram logo?
        Porque eles so judeus.

Fausto levantou a sobrancelha, espantado. No esperava por aquilo. 
No que tivesse alguma coisa contra os judeus, no era isso. Nem 
tinha contato com eles, no conhecia nenhum. Mas conhecia muito 
bem sua me e sabia que ela no gostava de ningum que no 
fosse catlico. Nem protestantes, nem muito menos judeus. Ele se 
levantou e caminhou para a janela, falando para Jlia, sem se virar 
para ela:

        Foi por isso que se atrasou Jlia?

Ela hesitou, mas vendo o ar de aprovao de Camila, respondeu:

        Foi... Foi sim. Tive que acomod-los.
        Bem, Jlia, voc no conhece minha me, mas Camila sim. 
Sabe que ser impossvel convenc-la.
        Eu sei  concordou Camila.  Foi por isso que vim falar com 
voc e no com ela ou com Rodolfo. Sei que voc  uma boa 
pessoa e saber compreender nossos motivos.
        Compreender, compreendo. Mas como acha que poderei 
convencer minha me a aceitar um negcio desses?
        Por que no trata de tudo voc mesmo?  sugeriu Drio.  
Vov no precisa ficar sabendo.
        Sim  acrescentou Jlia.  Diga-lhe apenas que h 
interessados em arrendar a fazenda. Voc no precisa 
especificar quem . Voc  o administrador legal, pode muito 
bem realizar o negcio.
        Eu, sozinho, no. A fazenda  administrada por mim e por 
Rodolfo. E no creio que ele concorde.
        Ele tambm no precisa saber  disse Drio, ansioso.  Por 
que teria que lhe contar?
        Sinto, mas o que me pede  impossvel.
        No  impossvel  contestou Jlia.  Se voc quiser, poder 
muito bem faz-lo.
        No posso.
        Por que no diz que no quer? Porque tem medo?
        No  isso. Mas no posso trair o mandato que me foi 
outorgado...
        No se esquea de que eu tambm sou uma das outorgantes 
 disse Camila.  E eu o estou autorizando a realizar o 
negcio.
        Por favor, tio Fausto, no seja to duro  suplicou Drio.  
No se sente condodo pela dor alheia?
        No se trata disso.
        E do que se trata, ento?  indagou Jlia com ar incisivo.  
De m vontade? Orgulho? Ou preconceito mesmo?

Fausto voltou-se para eles e encarou-os firmemente. Primeiro Jlia, 
depois Camila e Drio, at que levantou os ombros em sinal de 
resignao e disse:

        Est bem. Verei o que posso fazer.
        Oh, obrigada!  exclamou Jlia, ao mesmo tempo em que se 
atirava ao redor de seu pescoo, estalando-lhe um beijo na 
face.  Sabia que voc no nos decepcionaria.

Ele levou a mo ao rosto enrubescido e retrucou:

        Tenha calma. No estou lhes prometendo nada.
        S a compreenso j  o suficiente para tentar  concluiu 
Camila.

Saindo dali, Fausto foi procurar a me e o irmo, levando-lhes a 
notcia de que havia pessoas interessadas em arrendar a fazenda 
Ouro Velho. Tratava-se de um casal com uma filha doente, 
conhecidos de Camila, que gostariam de passar uns tempos nas 
montanhas, em contato com a natureza. Palmira, a princpio, quis 
recusar. A fazenda fora de seu primeiro marido, e eles viveram ali 
muitos anos. Alm disso, fora ali que perdera o filho, a nora e o 
sobrinho, mortos naquele incndio fatdico. Como permitir que 
estranhos ocupem a casa como se fossem seus donos? Rodolfo, 
porm, sem de nada desconfiar, acabou por concordar com o 
irmo.

        Creio que Fausto tem razo, mame. A fazenda foi reformada, 
mas est vazia h anos. Por que no arrend-la? Com o 
dinheiro, podemos pagar os impostos. Isso sem falar no fato 
de que haveria algum morando l, que a conservaria para 
ns.
        Sim, mame,  isso mesmo. E, depois, por que ficar apegada 
ao passado, a coisas e pessoas que se foram e que no 
voltam mais?
        No fale assim de seu irmo, Fausto, voc nem o conheceu. 
Quando ele morreu, voc ainda nem era nascido.
        Por isso mesmo. Ser que vale a pena fazer de uma casa o 
tmulo sagrado da lembrana de pessoas que j se foram?
        Vamos, mame, concorde. Ser s por uns tempos.
        Est bem  disse Palmira por fim.  Que seja. Mas avise a 
essas pessoas que no vou tolerar abusos em minha casa. No 
quero que tirem um s mvel do lugar nem que modifiquem 
nada.
        Pode deixar mame. Cuidarei disso pessoalmente, se Rodolfo 
no se importar.
        Ora, meu irmo, v em frente. Voc tem todo o meu apoio.

Dali, Fausto foi  busca de Camila e partiu com ela, Jlia e Drio 
para a vila, ao encontro de Ezequiel e Rebeca Zylberberg. Na 
estalagem, fecharam o negcio, e ficou acertado que a famlia se 
mudaria no dia seguinte. Foi uma felicidade geral. Ainda mais para 
Drio, cuja amizade por Sara havia muito se estreitava. Os dois 
eram inseparveis e poderiam continuar a se ver. Drio tinha 
certeza de que ali, a seu lado, Sara melhoraria e, com a ajuda de 
Deus, logo se restabeleceria daquela enfermidade maldita, que lhe 
ia minando as foras e o alento.

Captulo 3

O Sol finalmente se firmou, e os jovens resolveram sair para um 
piquenique. Apesar do frio, fazia uma linda manh, e todos se 
animaram. Trajano foi junto; no se separava de Jlia e dos 
meninos, como os chamava. Com eles, Etelvina, uma escrava 
bonitinha, de seus dezenove anos, que ia carregando as cestas com 
a comida.
J no terreiro, Drio perguntou  me:

        No quer vir conosco, mame?
        No, meu filho. Prefiro ficar fazendo companhia a sua av. E 
depois, a ocasio  para os jovens. Vo e divirtam-se.

Eles comearam a caminhada, rumo ao crrego que corria mais 
abaixo, seguindo a trilha no meio do mato. Fausto ia ao lado de 
Jlia, sem nem se dar conta do olhar de reprovao que Rodolfo, de 
quando em vez, lanava para eles. A moa, alegre e extrovertida, 
foi logo puxando conversa:

        Perdoe-me a indiscrio, Fausto, mas j que Camila disse em 
jovens, no pude deixar de observar que voc e Rodolfo j 
no so assim to moos.

Ele sorriu meio sem jeito e considerou:

         verdade. Quando nascemos, minha me tinha mais ou 
menos quarenta anos. Como sabe, somos filhos de seu 
segundo casamento.
        Eu sei. Por falar em casamento, por que no se casaram?
        Por qu? No sei ao certo. Creio que porque no houvesse por 
aqui muitas moas disponveis. Ou, pelo menos, alguma que 
valesse a pena... At agora.

Ela corou e abaixou os olhos, falando envergonhada:

        O que quer dizer? Est interessado em algum?
        No notou?
        No sei dizer...
        Pois ento, eu mesmo lhe direi. At agora, nunca havia 
conhecido moa alguma que me interessasse. No entanto, 
quando vi voc, confesso que fiquei impressionado.
        Impressionado com o qu?
        Com sua beleza, com sua bondade, com sua sensibilidade, 
com sua coragem. Isso basta?
        No acha que est exagerando?
        No, no acho. Acho que nem todos os elogios do mundo 
seriam suficientes para descrev-la.
        Por favor, Fausto, est me encabulando.
        Desculpe-me, mas  a verdade.
         sempre assim to direto?
        S com quem me interessa. E voc, mais do que qualquer 
outra coisa, despertou em mim um enorme interesse.

Ela j ia responder quando ouviu atrs de si uma voz familiar, muito 
parecida com a de Fausto, dizendo num gracejo:

        Posso saber sobre o que falam os pombinhos?  era Rodolfo 
que, um pouco mais atrs, escutara toda a conversa.
        Sobre nada de especial  disse Fausto em tom vago.
        Por que quer saber?
        Por nada. Apenas gostaria que no privasse os demais da 
companhia de to agradvel jovem.

Fausto olhou-o surpreso. S ento percebeu que o irmo tambm se 
interessara por Jlia e ficou desconcertado. Era uma situao 
delicada, e ele no queria mago-lo. No entanto, no abriria mo da 
moa. Gostava dela e tencionava cortej-la. Ainda que isso 
desagradasse o irmo.

A verdade, porm, era que Rodolfo no estava propriamente 
interessado em Jlia, e sim em competir com Fausto. Desde a mais 
tenra idade, Rodolfo desenvolvera uma inveja desmedida do irmo, 
que nem mesmo ele sabia explicar. O fato era que tinha que possuir 
tudo o que Fausto quisesse ou possusse. Era uma necessidade. E 
se Fausto desejava Jlia, Rodolfo decidiu que teria que t-la. Alm 
do mais, ela era linda, e no seria nenhum sacrifcio tom-la do 
irmo.
Jlia, por sua vez, tambm notara o interesse de Rodolfo e, pedindo 
licena a ambos, apertou o passo, indo juntar-se aos sobrinhos. 
Discretamente, achegou-se a eles e tomou o brao de Drio, que 
caminhava pensativo.

        O que h com voc?  indagou.  Parece triste.

Ele sorriu acabrunhado e, olhando para o cho, disse:

        Quer mesmo saber?
         claro que quero. Pode confiar em mim. Alm de sua tia, sou 
tambm sua amiga. Temos quase a mesma idade.
        Pois ...
        E ento? O que o aflige?
         Sara.
        Sara? O que tem ela? Que eu saiba, ela e a famlia j se 
instalaram na fazenda Ouro Velho. Assim que puder, irei v-
los.
        Jlia, Sara e eu, ns estamos apaixonados.
        Eu sei.
        E penso que j chegou  hora de nos casarmos.
        Mas isso  maravilhoso! E quando ser?
        No sei. Ainda no falei com seus pais.
        Pois fale logo. Vocs j esto namorando h algum tempo, e 
tenho certeza de que eles daro seu consentimento.
        Quisera eu estar assim to certo.
        Por qu?
        Primeiro, porque ns somos catlicos. E segundo, porque ela 
est gravemente enferma.
        E da? Sabe que no temos nenhum preconceito, nem ns, 
nem a famlia de Sara. E quanto  enfermidade, tenho f em 
Deus que ela ir se curar.
        Mas, e vov? Ser que aceitar?
        Drio, perdoe-me pelo que vou lhe dizer. Sua av j est 
velha e no pode mandar em voc. Ns moramos longe daqui, 
e ela pouco sabe a seu respeito ou de seu irmo. No creio 
que tenha fora suficiente para impedir seu romance.
        Espero que voc esteja certa.
        Ora, pare de se preocupar e ponha um sorriso nesse rosto. 
No quer que os outros desconfiem, quer?
        No, claro que no.

O grupo alcanou o crrego e Trajano foi ajudar Etelvina a estender 
a toalha para o piquenique. A escrava estava distrada, arrumando 
as comidas sobre a toalha, e nem notou a presena de Tlio que, 
um pouco mais atrs, fitava-a com olhar de cobia. Subitamente, 
como que guiada pela intuio, ela se voltou e deu de cara com ele, 
e assustou-se. Havia algo de estranho naquele olhar, e ela teve 
medo. 
No conhecia aquele moo, mas logo percebeu suas ms intenes.
Trajano, por sua vez, conhecia-o muito bem. Ajudara a cri-lo e 
sabia de suas tendncias. Trajano olhou para ele com ar de 
reprovao e pediu a Etelvina que fosse chamar os sinhs para o 
lanche. Ela dirigiu-lhe um olhar de agradecimento e foi cham-los. 
No gostara daquele moo e no queria ficar perto dele. Trajano, 
logo que ela se afastou, sentou-se ao lado de Tlio e disse em tom 
de reprovao:

        Sinhozinho, veja l o que vai fazer. Etelvina parece uma moa 
direita.
        Mas o que  isso, Trajano? Por acaso pedi sua opinio? E 
depois, no estou fazendo nada.
        Eu conheo o sinh e sei muito bem o que se passa na sua 
cabea. No pode ver rabo-de-saia.
        E da? Por acaso a negrinha  alguma coisa sua, ? Ou voc 
tambm est de olho nela?

Disse isso piscando um olho e dando um tapinha de leve no ombro 
do outro. Trajano, porm, respondeu calmamente:

        No, sinh. Mas ela  uma boa menina, e no quero que se 
magoe.
        Como  que sabe, hein? Por acaso a conhece?  Ele balanou 
a cabea.  Ento no se preocupe. Ou melhor, no se meta.
        Desculpe sinh, mas eu s estou falando porque depois o 
sinhozinho vem correndo pedindo para eu consertar suas 
besteiras.
        No faz mais do que sua obrigao. E para isso que serve.

Trajano olhou-o magoado e acrescentou:

        O sinhozinho  um ingrato, isso sim. Mas deixe estar, que vou 
contar tudinho a sua me.

Levantou-se rapidamente para ir embora, mas Tlio chamou-o de 
volta.

        Espere Trajano. Para que isso? Eu s estava brincando.
        No estava no. Conheo o sinhozinho muito bem e j vi esse 
olhar antes.
        Olhe, est bem. No vou bulir com a negrinha, est bem? No 
precisa contar nada a mame, est certo?
        Se o sinh prometer...
        Prometo.

Trajano no disse mais nada. O grupo ia se aproximando animado, 
e ele no queria que ningum soubesse o que estava se passando. 
No entanto, ficaria de olho em Tlio. Ele no era digno de confiana, 
e no valia  pena facilitar. Fitando Etelvina pelo canto dos olhos, 
Trajano pde perceber o quanto ela era bonita. Ela, por sua vez, 
lanava-lhe olhares discretos, contente em saber-se admirada por 
ele. S o que no lhe agradava eram os olhos de sinh Tlio, que 
tambm no paravam de segui-la.

 **********

J era tarde da noite, e Jlia no conseguia conciliar o sono. Por 
mais que quisesse, no podia parar de pensar em Fausto. Ele era 
um rapaz maravilhoso. Bonito, maduro e, acima de tudo, uma alma 
boa e generosa. Lembrou-se do piquenique do outro dia, do quanto 
riram e gargalharam juntos. Estava feliz. Gostava dele e sabia que 
ele tambm gostava dela. Quem sabe, finalmente, no poderia 
amar algum de verdade? Ela tambm j no era mais nenhuma 
menininha. J passara dos vinte e cinco anos e ultrapassara, em 
muito, a idade de se casar. No entanto, jamais se apaixonara por 
ningum. Todos os homens que conhecia eram frvolos e fteis, e 
nada tinham a oferecer. Jlia, ao contrrio das outras moas, no se 
importava de ficar solteira. O que no queria era casar-se por medo 
ou obrigao. No precisava de ningum, e pouco lhe importava a 
opinio que faziam a seu respeito. Se quisessem, que a chamassem 
de solteirona. Mas ela no se casaria sem amor. Isso nunca. S que 
Fausto... Era diferente. Era ntegro, honesto, interessante, e ela j 
no conseguia esconder de si mesma a atrao que sentia por ele.

Em seu quarto, Fausto tambm no parava de pensar em Jlia. Ela 
era maravilhosa! Linda, meiga, alegre e decidida. Tudo o que um 
homem feito poderia desejar numa mulher. Assim como Jlia, 
Fausto tambm se apaixonara. Sabia que seu corao ansiava por 
encontr-la novamente e sentia como se tivessem nascido um para 
o outro. No entanto, havia ainda Rodolfo. Ele conhecia o irmo 
muito bem para saber que ele tambm se interessara por ela. Mas, 
o que diria Jlia? Eles eram gmeos, e ser que ela j teria firmado 
uma preferncia entre eles? Fausto sorriu intimamente. Estava certo 
de que Jlia gostara dele e no do irmo. Eles no ficaram quase 
tempo nenhum junto. Ele sentiu pena de Rodolfo. Se tambm 
estivesse apaixonado, sabia que sofreria, porque ele no abriria mo 
da amada por ningum.

Rodolfo, por sua vez, passeava no jardim. Ia fumando seu charuto, 
caminhando vagarosamente, penetrando por entre a escurido que 
a madrugada sem lua deitava sobre a Terra. Tambm ia pensando. 
Jlia era uma moa encantadora, e ele no podia esconder seu 
interesse. Sabia, porm, que o corao dela j estava preso ao de 
Fausto. Pudera perceber que o irmo gostava dela e que era 
correspondido nesse sentimento. Pensando nisso, sentiu uma 
pontada de raiva, e o cime comeou a doer dentro do peito. O que 
fazer? Ele ficou ali, imaginando um meio de acabar com aquele 
encantamento entre Fausto e Jlia. Precisava tom-la do irmo a 
qualquer preo. Depois que conseguisse separ-los, veria o que 
fazer com ela.

Quando o dia amanheceu, Fausto e Rodolfo se encontraram, ambos 
carregando no rosto as marcas de uma noite mal dormida.

        Nossa!  exclamou Fausto.  O que houve com voc? Est 
horrvel. Por acaso no dormiu?

Rodolfo olhou para ele com ar de mofa e respondeu:

        Voc tambm no est l essas coisas. O que foi que houve? 
Algum lhe roubou o sono?

Fausto sentiu um qu de ironia nessa indagao, mas fingiu no 
perceber. Tentando mudar de assunto, perguntou:

        J tomou seu caf?  J, sim.
        Ento, podemos ir?
        Sim, claro. Dali partiria para a plantao. J estavam saindo 
quando escutaram a voz de Jlia, que ia correndo atrs deles.
        Esperem! Esperem! - gritava.
        Jlia!  fez Rodolfo espontaneamente.  Mas que surpresa. 
Aonde vai?
        Gostaria de dar uma volta e procuro companhia  disse, 
olhando para Fausto pelo canto do olho, e ele sorriu em 
resposta.  Ser que posso acompanh-los?
        Ora, mas ser um prazer desfrutar de to bela companhia  
apressou-se Fausto em dizer.
Como que se esquecendo da presena de Rodolfo, os dois puseram-
se a caminhar lado a lado, indo  direo das cocheiras. Iam alegres 
e sorrindo, e Fausto, de quando em vez, pegava sua mo e a levava 
aos lbios, o que irritou profundamente Rodolfo. S faltava se 
beijarem. E qual no foi o seu espanto quando Fausto, de repente, 
estacou na porta da cocheira e, tomando a cabea de Jlia entre as 
mos, pousou-lhe um beijo carinhoso e apaixonado, que a moa 
correspondeu sem relutar.

        Perdoe-me, Jlia...  comeou Fausto a gaguejar logo que a 
soltou ... No sei o que deu em mim...  que sua presena... 
Seu perfume... Jlia desculpe-me pelo que vou lhe dizer... Mas 
 que...  que...
        Sim?  indagou Jlia, aflita.  Vamos, diga logo.  que o qu?
         que... Bem...  que... Eu acho que... Acho que a amo...

Ele olhou para ela com tanto amor, que ela no se conteve e atirou-
se em seus braos, chorando de emoo.

        Oh! Fausto  exclamou entre lgrimas.  Nem pode imaginar 
o quanto fico feliz em ouvir isso.
        Quer dizer ento que... Que tambm me ama?
        Sim, estou certa que sim. Desde o primeiro dia em que o vi, 
senti que havia algo especial em voc e no pude mais parar 
de pensar em seu jeito, sua voz. Se isso no  amor, no sei o 
que  ento!
        Minha querida. Minha doce Jlia. Quero pedir permisso a 
minha irm para fazer-lhe a corte. Ser que consentir?
        Camila, alm de minha cunhada,  tambm minha amiga. 
Tenho certeza de que no s concordar como dar todo o 
seu apoio.
Beijaram-se novamente. Estavam to entretidos um com o outro 
que se esqueceram completamente da existncia de Rodolfo e nem 
se deram conta quando ele se acercou deles, falando com azedume:

        Ora, ora, mas ento os pombinhos resolveram colocar as 
asinhas de fora, ?

Os dois afastaram-se meio sem jeito, Jlia corando, at que Fausto 
respondeu:

        No  nada disso, Rodolfo. E no sei por que est sendo 
sarcstico. Jlia e eu nos amamos e vamos assumir 
compromisso.
         mesmo? Mas que notcia maravilhosa! Meus parabns, meu 
irmo, e que vocs sejam muito felizes.

Sem esperar resposta, Rodolfo montou no cavalo que o escravo lhe 
oferecia e saiu a galope, rumo  plantao. Jlia olhou para Fausto 
preocupada e comentou:

        Acho que Rodolfo no gostou da novidade.
        Creio que voc tem razo. Pelo que pude perceber Rodolfo 
tambm se interessou por voc e deve estar se sentindo 
rejeitado.
        J que voc disse, tambm notei algo diferente em seu olhar. 
Contudo, apesar de vocs serem idnticos fisicamente, meu 
corao pendeu para o seu, pois sua alma me parece 
diferente da dele, e sinto como se j o amasse h muito 
tempo.
        Engraado, tambm sinto a mesma coisa.  Ele a beijou 
novamente e indagou:  Acha-nos mesmo assim to 
parecidos?
        Sem dvida.
        Ainda no consegue nos distinguir?
        Quando esto prximos, sim. Mas de longe, confesso que no 
sei dizer quem  quem.
         natural. Mas no se preocupe. Com o tempo, voc ir se 
acostumar a perceber nossas diferenas.
         o que espero.
        Eu tambm. No gostaria de v-la nos braos de meu irmo 
pensando que est nos meus.

Ela riu e apertou suas bochechas, falando num gracejo:

        Tolinho isso nunca vai acontecer. Posso confundi-los na 
aparncia, mas s voc consegue balanar meu corao.
        Ser mesmo?
         claro que sim. E agora, pare com essa preocupao. Rodolfo 
 seu irmo e, por mais que tenha se interessado por mim, sei 
que isso  passageiro e, logo, logo, ele vai superar.

Fausto no disse mais nada, mas o fato  que estava preocupado. E 
se Rodolfo no se conformasse? E se ficasse com raiva? A rejeio, 
muitas vezes, estimula sentimentos que nem sequer conhecemos. E 
depois, Rodolfo sempre lhe parecera um tanto quanto invejoso. 
Desde pequenos, sempre cobiara seus brinquedos, suas roupas. 
Fausto achou melhor no pensar naquilo. Talvez Jlia tivesse razo, 
e ele estivesse fazendo mal juzo do irmo. Era s esperar e tudo se 
resolveria. Ou, ao menos, tudo se definiria.

Fausto no tocou mais no assunto e ajudou Jlia a montar no 
cavalo, saindo com ela em direo ao cafezal. Ela era exmia 
amazona, e ele ficou admirado. Gostava de mulheres que sabiam 
montar e cavalgar, e no daquelas que se limitava a sentar no 
cavalo e se deixar conduzir. Jlia era perfeita.
Quando chegaram  plantao, Rodolfo estava gritando com os 
escravos e distribuindo ordens ao capataz, nitidamente de m 
vontade. Rodolfo olhou para Jlia discretamente, mas ela fingiu no 
perceber. Estava claro que Rodolfo sentia cime e procurava 
descontar sua frustrao nos escravos. Chegou mesmo a dar umas 
chicotadas em alguns deles.

Jlia no gostou nada daquilo e, virando-se para Fausto, arrematou:

        Creio que no foi boa idia ter vindo at aqui. Seu irmo est 
zangado, e no gosto de presenciar crueldades.
        Sinto muito, Jlia. No sabia que isso poderia acontecer.
        No  culpa sua. No entanto, prefiro me retirar.
        Sinta-se  vontade. Compreendo seus motivos e no lhe tiro a 
razo.
        Obrigada. Ser que posso ficar com o cavalo por mais 
algumas horas? Gostaria de visitar minha amiga, Sara.
        Claro, nem precisava perguntar. Ele  todo seu.

Jlia despediu-se de Fausto e partiu rumo  fazenda Ouro Velho, 
onde Sara estava alojada, em companhia dos pais. No corao, 
uma angstia que no sabia definir. Sim. Ela estava certa. Apesar 
de Rodolfo e Fausto serem absolutamente idnticos, estava muito 
distante em seus valores morais, e ela ficou feliz porque seu corao 
soubera escolher exatamente aquele que poderia compartilhar de 
seus ideais.




CAPTULO 4

Sara estava sentada em um banco do jardim quando viu um cavalo 
se aproximando. Pelas roupas, podia perceber, mesmo ao longe, 
que se tratava de uma mulher. Quando se certificou de que era 
Jlia, levantou-se ansiosa, esfregando as mos com nervosismo. 
Jlia chegou e apeou, entregando o cavalo nas mos de Juarez, 
escravo da famlia, para ser cuidado. Ele segurou o animal e sorriu, 
e ela sorriu de volta. Ele era um bom rapaz, quase da mesma idade 
que Trajano, e tomava conta de Sara nas brincadeiras.

        Como est, Laurinda?  indagou, fazendo referncia  sua 
mulher.
        Muito bem, sinh, obrigado. Vou agora mesmo avisar que a 
sinhazinha chegou, e ela vai lhe preparar aquele bolo especial.
        Excelente idia!

Juarez saiu para cuidar do animal, e Jlia correu ao encontro de 
Sara. Ela estava plida, apesar do Sol que lhe banhava as faces. 
Segurou-lhe as mos gentilmente e indagou:

        E ento, minha amiga, sente-se melhor?
        Ainda no pude sentir muita diferena. Faz pouco tempo que 
chegamos, e o ar da montanha ainda no limpou meus 
pulmes.
        Mas limpar, tenho certeza.

Sara, voltando-se para a casa grande, comeou a chamar, com 
uma voizinha fraca:

        Mame! Mame! Venha ver quem est aqui.
A me apareceu na porta e, vendo Jlia em companhia da filha, saiu 
apressada, falando enquanto caminhava:

        Jlia, minha filha, h quanto tempo! Por que no veio logo nos 
visitar?
        Sinto muito, dona Rebeca, mas s agora pude sair.
        No faz mal. O importante  que voc est aqui. E Drio, no 
veio?
        No. Est ajudando mame e vov com alguns papis, mas 
vir depois. E seu Ezequiel? No est?
        Est descansando. Acho que estranhou um pouco os novos 
ares...
        No est se sentindo mal, est?
        No, no, minha filha. O mal dele  a idade. Bem, agora vou 
entrar e deix-las a ss. Devem ter muito que conversar. Mas 
no fique muito tempo aqui fora. Apesar do Sol, ainda faz frio.
        Pode deixar dona Rebeca. Daqui a pouco entraremos.

Sara olhou para Jlia com ar de ansiedade. Queria saber notcias de 
Drio, mas no tinha coragem de perguntar. A outra, porm, 
adivinhando-lhe os pensamentos, adiantou-se:

        Drio, em breve, vir v-la.

Ela corou e perguntou:

        Ele lhe contou?
        Sim.
        E o que voc acha?
        Acho que vocs no tero problema algum. Tanto seus pais 
quanto os dele no se importam com essas bobagens de raa 
ou religio. Voc sabe disso to bem quanto eu. Alis, nem 
entendo o porqu dessa preocupao, j que esto 
namorando h tanto tempo. No acha que se algum tivesse 
algo a opor, j o teria feito?
        Sim, creio que sim. Mas no  exatamente com isso que me 
preocupo.
        No? Ento com o que ?
        Com minha doena.
        Ora, Sara, mas que tolice. Voc vai ficar boa.
        No sei no, Jlia. Desconfio que esteja tsica.
        Deus me livre! Nem me fale uma coisa dessas. Voc tem os 
pulmes fracos,  s.
        Mas por qu? Por que so fracos, se sou to jovem?
        No sei, Sara. So coisas de Deus, que no podemos 
compreender. Agora pare de pensar nessas bobagens. Voc 
vai ficar boa, tenho certeza.

Sara desviou os olhos, que j comeavam a se encher de lgrimas, 
e mudou de assunto para disfarar:

        E dona Palmira, como vai?
        Bem, apesar da idade.
        Sabe Jlia, fiquei muito feliz em saber que dona Palmira no 
se importou de nos arrendar a fazenda, sabendo que somos 
judeus.

Jlia abaixou a cabea um tanto quanto desconcertada e disse meio 
sem jeito:

        Sara, posso lhe contar uma coisa? Voc jura que no conta a 
seus pais e que no ficar zangada?
        Sabe que sim. Vamos, Jlia, pode confiar em mim.
        Eu sei. Bem,  que dona Palmira e Rodolfo no sabe que 
vocs so judeus.
        No? Meu Deus, Jlia, mas por qu?
        Porque talvez no aceitassem. Dona Palmira  uma mulher 
extremamente preconceituosa e no concordaria em t-los 
aqui.
        Mas o senhor Fausto... Ele foi pessoalmente tratar dos papis. 
No  possvel que no tenha percebido.
        Fausto sabe, e s ele. Por favor, Sara, no fique zangada. Ns 
achamos que seria melhor.
        No sei no, Jlia. No gosto de fazer nada escondido, muito 
menos papai e mame. Tenho certeza de que, se 
descobrirem, no iro querer mais ficar aqui.
        Eu sei. Por isso  que lhe peo para no lhes contar.
        No contarei. Eu prometi. Embora no concorde, prometi no 
contar e no o farei. Mas que no est certo, no est.
        Tente compreender. Ns queramos muito que vocs viessem, 
e foi  nica soluo que encontramos. Se voc no falar, 
ningum precisa ficar sabendo.
        Ser mesmo, Jlia? A verdade sempre encontra um meio de 
se dar a conhecer.
        No pense nisso. Se ningum falar nada, dona Palmira nunca 
descobrir.
        Est certo Jlia, voc  quem sabe.
        Agora, fale-me de voc.
        O que h para falar? Essa doena maldita parece no querer 
ceder, e confesso que s vezes chego a perder as esperanas.
        Pois no perca. Tenho certeza de que voc vai se recuperar.
        No estou bem certa. s vezes me sinto to mal que chego a 
pensar que vou mesmo morrer.
        Nem me fale uma coisa dessas. Voc  ainda muito jovem e 
no vai morrer. Vai viver muitos anos, vai se casar com Drio, 
vai ter muitos filhos e conhecer seus netinhos. Agora vamos, 
deixe de bobagens e vamos entrar.

Depois do almoo, Jlia voltou para a fazenda So Jernimo e saiu 
logo  procura de Drio. Ele estava em seu quarto, lendo, e ela 
entrou:

        Ah! Jlia!  exclamou.  Onde esteve? Ficamos preocupados.
        Fui visitar Sara.
        Voc foi? E no me disse nada? Mas por qu? Poderia t-la 
acompanhado.
        Perdoe-me, Drio, mas nem eu sabia. Resolvi de repente, 
quando estava andando a cavalo pela fazenda, e voc estava 
aqui, com mame e vov.
        E como ela est? Melhor? Diga-me. Estou ansioso por v-la.
        No sei ao certo. Creio que s o tempo poder nos dizer.
        Quero v-la.
        Pois v logo. Ela est com muitas saudades de voc.
        Tambm morro de saudades dela. Mal posso esperar para t-
la em meus braos, como minha esposa.
        Eu sei. S que ela pensa que vai morrer.
        Morrer? Mas isso  um absurdo!
        Tambm acho. E  por isso que vocs devem se casar o mais 
rpido possvel.
        Tem razo. Falarei com mame agora mesmo e, se ela 
concordar, irei ter com seu Ezequiel e pedir-lhe a mo de Sara 
em casamento.
        Isso mesmo, v. E depois me conte como foi.

Ele saiu apressado e Jlia levantou-se para ir embora, quando algo 
do lado de fora da janela chamou sua ateno. Ela podia ver, ao 
longe, a figura esguia da escrava Etelvina, que ia chegando, 
trazendo nas mos um cesto de roupa lavada. A seu lado, Tlio ia 
animado e sorridente, falando-lhe coisas que, embora ela no 
pudesse ouvir, sabia bem do que se tratava. Etelvina, porm, 
mantinha os olhos pregados no cho e no parecia nada satisfeita 
com aquela insistncia. Ela passou pela lateral da casa, caminhando 
pela estradinha, sempre com Tlio a seu lado, at que se dirigiu 
para o terreiro atrs da casa, e ela os perdeu de vista. Seu corao 
se comprimiu e ela sentiu um leve tremor. Ser que Tlio estava 
interessado em Etelvina? Que Deus a perdoasse, mas dessa vez ela 
no consentiria. Estava disposta a tudo para evitar que o sobrinho 
destrusse a vida de mais uma mocinha. Ela virou as costas para a 
janela e saiu decidida. Precisava falar com Camila. A cunhada, com 
certeza, saberia como agir.
      
      **********
      
Camila recebeu a notcia com certa apreenso. Amava o filho, mas 
conhecia-o muito bem e tinha medo de suas tendncias. Em outra 
ocasio, Tlio envolvera-se com Raimunda, uma das escravas de 
sua casa, e a moa acabara por falecer, ao dar  luz um filho seu. A 
criana, pobrezinha, tambm no resistira e morrera logo em 
seguida  me. Tlio, embora um tanto quanto abatido, no se 
deixara impressionar, e logo tornara a voltar os olhos para as 
escravas jovens e bonitas.

Jlia, interrompendo o pensamento da cunhada, perguntou aps 
alguns minutos:

        E ento, Camila, o que faremos?
        No sei Jlia. Confesso que estou deveras preocupada. Ser 
que j aconteceu alguma coisa?
        Acho que no. No houve tempo ainda.
        Ento precisamos evitar que o pior acontea. Por favor, Jlia, 
v chamar Trajano. Quero falar com ele.
        Vai pedir-lhe ajuda?
        Sim. Ele tambm lamentou o que aconteceu no passado e 
gosta muito de Tlio. Afinal, viu-o nascer e crescer. Tenho 
certeza de que nos ajudar.

Jlia saiu e voltou logo em seguida, em companhia de Trajano, que 
ainda no suspeitava do assunto que o levava ali. Ao entrar, 
cumprimentou Camila com um sorriso, e ela foi logo dizendo:

        Trajano, mandei cham-lo porque preciso que me preste um 
favor.
        Pois no, sinh. Basta  sinh pedir que eu fao. Sei disso. 
Voc  um bom moo e muito fiel a nossa famlia, no  
mesmo?
        Sim, sinh. Por que pergunta?
        Bem, Trajano, gosto muito de voc e confio muito em sua 
discrio para fazer-lhe uma pergunta. Voc sabe de alguma 
coisa entre Tlio e uma escrava de nome Etelvina?

Trajano sobressaltou-se. Ele no dissera nada a ningum, mas do 
jeito que Tlio agia, com certeza, algum notara. Ele prometera no 
contar nada a Camila, mas no podia mentir. Cuidadosamente 
escolhendo as palavras, retrucou:

        Por que pergunta sinh?
        Porque preciso saber. Mas no me responda com outra 
pergunta. Diga-me, voc sabe de alguma coisa ou no?

Trajano estava confuso e embaraado. No sabia o que fazer. Era 
leal, sim, e no queria perder a confiana nem de Camila, nem de 
Tlio. Jlia, percebendo o conflito que lhe ia  alma, resolveu 
intervir:

        Oua Trajano, est claro, por seus gestos, que voc sabe de 
algo. E se sabe, no precisa ter medo. Pode nos contar.
        No  medo, sinh.  que prometi ao sinhozinho.
        Prometeu o qu?
        Prometi no falar nada, principalmente com a sinh sua me.
        Pois eu o estou liberando dessa promessa  interrompeu 
Camila.
        Vamos, Trajano, diga-nos.

Ele no falava, at que Jlia resolveu cham-lo  razo:

        Escute Trajano, voc se lembra muito bem do que aconteceu 
com Raimunda, no lembra?  Ele assentiu, sem tirar os olhos 
do cho.  E quer que isso se repita? Quer?
        No, sinh, por Deus. Raimunda era uma menina; no 
merecia aquilo.
        Pois ento?  continuou Camila.  O que est esperando para 
nos contar o que sabe?
        Bem, no sei muita coisa. Mas no dia do piquenique, 
sinhozinho Tlio no tirava os olhos de Etelvina. A moa at se 
assustou.

Camila olhou para Trajano com ar de preocupao e prosseguiu:

        Pois muito bem, Trajano. No queremos que Etelvina tenha o 
mesmo destino de Raimunda, no ?
        No, sinh.
        Pois, ento, voc tem que nos ajudar. Vigie os passos de Tlio. 
No o deixe sozinho com a moa.
        Hoje mesmo eu os vi juntos  contou Jlia.  E foi isso o que 
me chamou a ateno.
        Pois   tornou Camila.  Por isso  que voc deve vigi-lo 
constantemente. Mas no deixe que ele perceba. Faa 
amizade com a moa, acompanhe-a. Voc no  escravo 
daqui, e ningum pode impedi-lo de ir aonde quiser. Voc 
promete?
        Prometo sinh. Mas posso pedir uma coisa?
        Claro, fale.
        Gostaria que as sinhs no falassem nada disso com sinh 
Tlio. No quero que ele fique com raiva de mim.
        No se preocupe. Tlio no vai ficar sabendo de nada. Isso 
ficar apenas entre ns trs, est certo?
        Sim, sinh, obrigado.
        Agora pode ir, Trajano, e obrigada por sua compreenso.
        Ora, sinh, no precisa agradecer, no. Fao isso porque 
gosto das sinhs e dos meninos.
        Sei disso, Trajano, e agradeo. Agora pode ir. Procure-o e, 
disfaradamente, fique por perto. No o perca de vista um s 
minuto.
        No, sinh, pode deixar. No se preocupe que farei tudo 
direitinho.

Ele saiu em direo ao terreiro, onde as escravas estavam 
trabalhando. Ao passar pela cozinha, porm, quase esbarrou em 
Terncio, que ia entrando, atrasado para o almoo. Acabara de 
chegar do Rio de Janeiro, onde fora buscar umas encomendas, e 
chegava morto de fome. Trajano, acabrunhado, murmurou 
baixinho:

        Desculpe moo.

E saiu. Terncio, que nunca vira por ali aquele negro, resolveu 
indagar de Tonha:
        Quem  esse?
         Trajano, escravo de sinh Camila.

Depois de comer, levantou-se mal-humorado, saindo atrs de 
Trajano. Foi encontr-lo no terreiro atrs da casa, conversando com 
Etelvina. Terncio no gostou daquilo. No era de bom tom os 
escravos ficarem de prosa, ainda mais quando se tratava de um 
desconhecido. Com voz rspida, chamou:

        Etelvina, venha at aqui!

Etelvina largou a vassoura com que batia nos tapetes, estirados 
sobre o muro, e correu para onde ele estava.

        Sim, seu Terncio  disse humilde.
        Que histria  essa de ficar proseando na hora do servio? 
No quero isso aqui, no.
        Por favor, moo  interrompeu Trajano , no brigue com 
ela. Fui eu que puxei conversa.
        Pois no devia. Voc no  daqui e, pelo visto, no faz nada. 
Mas nossos negros esto acostumados ao trabalho, e sinh 
Palmira no gosta que fiquem de prosa. Atrapalha o servio.
        Sim, senhor, desculpe. Isso no vai se repetir.
        Acho bom mesmo. E agora, Etelvina, volte ao servio.
        Est bem, seu Terncio.

Etelvina voltou a seus afazeres, e Trajano pediu licena para se 
retirar, quando Terncio o alertou:

        Escute aqui, negro, fique longe das escravas, principalmente 
de Etelvina. Dona Palmira no gosta de namoricos entre os 
negros, e eles s se acasalam com a sua autorizao.
Trajano mordeu os lbios e respondeu com os olhos se enchendo de 
lgrimas de raiva:

        Sim, senhor. No precisa se preocupar que no quero nada 
com Etelvina. Estava apenas conversando.
        Acho bom. Caso contrrio serei obrigado a tomar certas 
providncias, digamos, um pouco mais drsticas. Entendeu?
        Sim, senhor. Entendi muito bem.
        timo. Voc me parece um escravo esperto. Continue esperto 
aqui e vamos nos dar muito bem.

Terncio virou-lhe as costas e saiu em direo  sua casa. Estava 
cansado e precisava dormir. Ia caminhando devagar e j estava na 
porta quando um vulto, esgueirando-se por detrs de uma rvore, 
saltou  sua frente, encarando-o com um sorriso sarcstico. Ele deu 
um salto para trs e j ia sacando a pistola, presa  cinta, quando o 
vulto levantou a cabea e afastou o capuz, mostrando-lhe o rosto 
envelhecido. Terncio levou um susto. Fitou demoradamente aquele 
rosto, tentando lembrar-se de onde o conhecia, at que soltou uma 
perplexa indagao:

        Voc?

Terncio olhou de um lado para outro, mas no viu ningum. 
Estavam ss. Acenou para que o vulto o seguisse e com ele entrou 
em casa. Fechou a porta rapidamente, e a mulher surgiu, deixando 
cair o manto e o capuz.

        Dona Constncia!  exclamou surpreso.  H quanto tempo! 
Julgava-a morta.

Ela olhou para ele com raiva e retrucou:
        Pareo morta?
        Bem, devo dizer que est um pouco... Digamos... Mudada.

Constncia fez um ar de desdm e desabou na cadeira. Estava 
mudada sim, mas, internamente, continuava a mesma. Vendo uma 
cmoda no quarto contguo, acima da qual estava pendurado um 
espelho velho e oxidado, correu para ele e, afastando os cabelos 
grisalhos e oleosos, exibiu profunda cicatriz, que lhe descia desde a 
altura da sobrancelha esquerda at a ponta da orelha.

        Aposto como est curioso para saber como ganhei isto  
disse, apontando para a cicatriz.
        Estou sim. No posso negar. Da ltima vez em que a vi, era 
uma moa bonita, esbelta, viosa. Mas agora...
        Agora sou uma velha gorducha, com a cara marcada.  Ele 
no disse nada, e ela prosseguiu:  Tenho uma longa histria 
para contar...
        Imagino. Gostaria de saber por onde andou durante todos 
esses anos. Seus pais tudo fizeram para encontr-la, mas foi 
em vo.
        Ora, o que poderia eu fazer? Fui expulsa daqui por seu 
Licurgo. Como poderia viver em sociedade, coberta pela 
vergonha?
        Para onde foi?
        No imagina?
        No, no imagino.

Ela hesitou durante alguns instantes antes de continuar:

        No sei se posso confiar em voc. Depois de tudo o que me 
fez,  bem capaz de me trair novamente.

Constncia virou-se para o outro lado. No queria que ele visse as 
lgrimas que brotavam em seus olhos. Em silncio, chorou baixinho, 
lembrando-se de que Licurgo a expulsara dali porque Terncio a 
delatara, contando-lhe que fora pago por ela para facilitar sua 
vingana.

Vendo que ela no respondia, Terncio disse, cortando-lhe os 
pensamentos:

        Isso foi h muito tempo. Ningum mais se lembra dessa 
histria.
        Ser que no? Nem Tonha?
        Tonha  apenas uma escrava. Quem se importa com o que 
pensam os escravos?

Ela suspirou e perguntou:

        E tia Palmira?
        Est em casa.
        Ser que me receberia? Hoje no sou mais aquela menina de 
antes. Receio que ela me repudie, tendo em vista minha atual 
condio.
        , pelo visto, a vida lhe foi madrasta.
        Voc nem imagina o quanto.
        Por que no me conta o que lhe aconteceu? Talvez possa 
ajudar.

Ela olhou para ele com ar malicioso. Afinal, o que tinha a perder?

        Bem  comeou ela pausadamente , depois que sa daqui, 
consorciei-me a Baslio...
        O qu? Casou-se com o homem que desgraou a vida de dona 
Camila?
        Casar-me? No. Mas Baslio e eu passamos a viver juntos. 
ramos iguais, ambos fracassramos em nossos propsitos, o 
que nos proporcionou um timo entendimento. Quando eu 
fugi, sa levando apenas algumas jias, que garantiram nosso 
sustento por algum tempo. Mas, depois, quando o dinheiro 
acabou, fui obrigada a me utilizar de outros recursos para 
sobreviver. Baslio, vendo a pobreza se aproximar, 
abandonou-me, e eu passei a viver da troca de favores com 
os homens. At que um dia, um marinheiro enciumado deixou-
me esta marca no rosto.
        .  uma histria bastante triste. E por que resolveu voltar 
agora?
        Porque seu Licurgo morreu, e pensei em pedir auxlio  tia 
Palmira, contando com sua discrio. No suporto mais essa 
vida e no tenho coragem de voltar para casa.
        Entendo... Sabe que Camila est aqui?
        Eu a vi no enterro, com os filhos. Teve sorte de encontrar 
algum que ainda a quisesse, no  mesmo?

O capataz meteu um pedao de fumo de rolo na boca, mastigou e 
cuspiu no cho, e Constncia virou o rosto, enojada. Apesar de 
tudo, ainda era uma dama.

        Escute dona Constncia, por que no espera enquanto vou 
chamar dona Palmira?
        Oh, no sei se poderia!
         claro que poderia. No foi para isso que veio?

Terncio saiu e voltou sozinho, quase uma hora depois.

Palmira no quisera acompanh-lo e no acreditara quando ele lhe 
dissera que sua sobrinha, Constncia, estava de volta. No entanto, 
ele jurara que o que dizia era a mais pura verdade, e ela mandara 
que ele levasse a mulher at ali.

Constncia entrou sozinha no quarto de Palmira. Ela estava s, 
sentada numa poltrona, perto da janela. Palmira permaneceu 
durante longo tempo a estud-la, sem que Constncia ousasse 
mexer um s msculo sequer. At que, subitamente, olhos rasos 
d'gua, ela abriu um sorriso e estirou os braos. Constncia correu 
para ela e atirou-se a seus ps, escondendo a cabea em seu colo e 
chorando, como h muito tempo no fazia.

Captulo 5

Drio acordou ansioso. Mal dormira na noite anterior, pensando na 
conversa que teria com Ezequiel. Levantou-se cedo e se aprontou, 
esmerando-se na vestimenta. Queria estar bonito para Sara. Ele a 
amava e estava decidido. J conversara com a me; falaria nesse 
dia mesmo com os pais da moa e pediria sua mo em casamento. 
J se amavam h muito, e no havia mais motivos para esperar.

Quando chegou  fazenda Ouro Velho, a famlia se encontrava 
reunida na sala. Ezequiel lia o jornal da manh, e as moas 
bordavam toalhas para a mesa. Drio entrou, cumprimentou a todos 
e disse encabulado:

        Seu Ezequiel, ser que eu podia falar a ss com o senhor?
        Aconteceu alguma coisa, meu filho?  perguntou ele.  Sua 
me est bem?
        Sim, senhor, todos esto passando muito bem, obrigado. O 
assunto no  esse, mas tem certa urgncia.
Ezequiel fez cara de dvida, mas aquiesceu:

        Est bem. Se for assim to urgente, venha at a biblioteca.

Os dois saram, e Rebeca olhou para Sara pelo canto do olho.

A moa apertava as mos com nervosismo. Ser que ele resolvera, 
finalmente, pedir a mo da filha em casamento? Ela sorriu 
intimamente e voltou  ateno para o bordado que tinha nas mos. 

Gostava muito de Drio e de sua famlia, e ficaria muito satisfeita 
em t-lo como genro.

Na biblioteca, Ezequiel indicou a Drio uma poltrona, sentando-se 
em outra, a seu lado.

        E ento?  comeou.  Do que se trata?
        Seu Ezequiel  comeou meio sem jeito , nossas famlias 
so amigas h muitos anos, no  mesmo?
        Sim. Por qu?
        Bem, como o senhor sabe, Sara e eu, j h algum tempo, 
dedicamo-nos mtua afeio...
        Sim?  fez ele, interessado.
        Por isso gostaria de me casar com ela, se o senhor consentir, 
 claro.

Ezequiel deu um salto e levantou-se, correndo para a porta e 
escancarando-a. Drio, assustado, pensou que ele o expulsaria dali 
e j ia atrs dele, tentando arranjar alguma desculpa, quando 
escutou a voz do outro, soando tonitruante na sala ao lado:

        Rebeca! Rebeca! Venha c, mulher, levante-se!
        Mas o que foi que houve meu Deus?  perguntou ela, 
espantada.
        Por que tanto alarde?
        Rebeca, hoje tive a notcia mais feliz da minha vida. Drio, 
finalmente, pediu a mo de nossa Sara em casamento.

Drio, que ia chegando logo atrs, quase desmaiou. No esperava 
que ele ficasse to contente e parou estupefato. Ezequiel, porm, 
voltou-se para ele e o abraou, enquanto Sara chegava, plida feito 
cera. Drio tomara aquela deciso sem consult-la, e ela ficara um 
pouco surpresa.

        Papai, o que houve?
        No ouviu minha filha? Drio disse que se amam e quer se 
casar com voc. No est feliz?

Ela comeou a chorar, e o pai abraou-a com carinho. Rebeca, 
ainda paralisada, balbuciou:

         uma notcia... Maravilhosa.
        Oh, papai, o senhor nos dar seu consentimento?
         claro, minha filha. Drio  como um filho para mim, e fico 
muito feliz com seu pedido. Sei que cuidar muito bem de 
voc e que a far feliz.
        E minha doena? Ser que no morrerei antes?
        Nem pense nisso, minha querida  protestou Drio, 
estreitando-a nos braos.  Vamos nos casar e viver felizes 
para sempre.
         verdade  concordou Ezequiel.  Voc j est bem melhor. 
A cor at j voltou a suas faces.
        Mas tenho medo.
        Medo de qu, meu Deus?
        Medo de contaminar algum.
        Ora, querida, mas que bobagem  objetou o pai.  Se 
tivesse que contaminar algum, no acha que j o teria feito?
        Mas o doutor...
        O doutor no sabe de nada. Voc est doente,  verdade, mas 
no  nada assim to srio. Tenho certeza de que Drio no 
contrair sua enfermidade.
        Mas e se for...
        Por favor, Sara, no diga mais nada. No sabemos o que .
        Mas papai...
        Nem mais nem menos. Voc vai se casar e pronto. Ou ser 
que no o corresponde nesse sentimento?
         claro que sim. Amo Drio, e ele sabe disso.
        Ento, querida  tornou ele , por que no podemos nos 
casar? Pensei que fosse isso o que quisesse.
         claro que quero. Mas no agora. No antes de ter certeza de 
que minha doena no  contagiosa.
        Meu amor, como seu pai mesmo disse se fosse contagiosa, 
todos ns j a teramos contrado. Vamos, deixe de tolices. 
Ns nos amamos voc vai ficar boa, e seremos muito felizes.
        Seus pais j sabem?  quis saber Rebeca.
        J, sim. Mame ficou muito contente e j escreveu a papai, 
contando-lhe tudo.
        Meu filho  tornou Ezequiel em tom grave , tem certeza de 
que  isso mesmo o que quer?
        Ora, seu Ezequiel, ento no me conhece? No acredita em 
meu amor por sua filha?
        No  isso. Mas  que voc  ainda muito moo, e sei como  
o corao dos jovens.
        J vou fazer vinte e trs anos e sei muito bem o que sinto. 
Amo sua filha mais do que tudo neste mundo e s posso ser 
feliz a seu lado.
        E voc, minha filha, tambm o ama assim?

Ela olhou para Drio com os olhos midos, cheios de amor, e 
respondeu:

        Sem sombra de dvida, papai. Amo-o alm desta vida.
        Pois bem. Ento est feito. Drio, assim que seu pai vier, 
poderemos marcar uma data para o noivado.
        Realizar-se- aqui mesmo, na fazenda?
        Provavelmente. Ainda vamos nos demorar por aqui, e creio 
que no querem esperar.
         claro que no, seu Ezequiel.
        timo. Assim sua av poder vir com seus tios. A exceo do 
senhor Fausto, ainda no os conhecemos.

Drio teve um estremecimento. No havia pensado naquilo. A av 
ainda no sabia que Sara e a famlia eram judeus. Ser que 
aceitaria? Contudo, achou melhor no pensar nisso no momento. A 
me, como sempre, saberia resolver aquele problema.

No dia seguinte, Drio saiu em busca de Camila, e ela prometeu 
pensar num meio de contar tudo a Palmira. Afinal, eles se amavam, 
e ela tinha que compreender. No entanto, aquele no seria o melhor 
momento para revelar-lhe a verdade. Ela j estava bastante idosa, 
e era preciso preparar-lhe o esprito. Camila procurou Rebeca e 
Ezequiel e contou-lhes seus temores.

        Mas, Camila  protestou Ezequiel , no podemos concordar. 
No est direito.
        Por favor, Ezequiel, tente entender. Eu no lhes pediria algo 
assim se no fosse extremamente importante e necessrio.
        Mas ns pensvamos que ela j sabia de tudo a nosso 
respeito. No posso concordar em permanecer incgnito. No 
tenho do que me envergonhar.
        No se trata disso.
        Trata-se de qu, ento?
        De uma caridade. Caridade para com uma senhora, velha 
demais para comear a entender certas coisas.
        Hum... No sei, no.
        Por favor, Ezequiel,  s por um tempo. Pense em nossos 
filhos, em como sofreriam se tivessem que se separar. E 
Sara? O que seria dela?
        Camila tem razo  intercedeu Rebeca.  Temos que pensar 
na sade e na felicidade de Sara.

Ezequiel apertou as mos, vencido. Embora no aprovasse aquela 
atitude, teria que concordar. Pelo bem de sua filha, no diria nada.
Saindo da casa dos amigos, Camila foi  busca de Trajano. 
Precisava saber como estava indo a vigilncia sobre Tlio. Trajano 
estava ajudando Tonha, cortando lenha para o fogo, quando ela 
chegou por trs e disse:

        Ol, Trajano, como est?

Ele se voltou sorridente e respondeu em tom jovial:

        Muito bem, sinh, obrigado.
        Ser que poderia me acompanhar por uns minutos?
        Claro sinh. Eu s estava ajudando Tonha porque no tinha 
nada para fazer, e a senhora sabe que no gosto de ficar  
toa.

Ele foi em direo  cozinha e chamou Tonha, avisando-lhe que 
precisaria interromper o servio. Depois que voltou, os dois se 
afastaram, caminhando lado a lado pela estradinha.

        E ento, Trajano, como est se saindo o meu menino?
        Tlio?
        Sim. Voc tem feito como mandei, no tem?
        Direitinho sinh. No perco o menino Tlio de vista um s 
instante sequer. Hoje ele ainda no saiu.
        E a?
        Para ser sincero, ele bem que anda atrs da Etelvina. Mas 
quando percebe que estou por perto, fica furioso e se afasta.
        No faz mal. Antes assim. Voc no lhe contou nada, no ?
        Deus me livre, sinh. Sinhozinho Tlio  at capaz de me 
matar.
        No diga tolices. Tlio no seria capaz de matar ningum. No 
 mau.  apenas meio doidivanas.
        A sinh est certa. Sinhozinho Tlio tem bom corao, mas 
ainda no sabe disso.
         verdade, Trajano. E ns precisamos mostrar-lhe, no  
mesmo? Ele precisa que ns lhe indiquemos o caminho do 
bem. Bem, agora vou voltar. Obrigada pela informao, e 
continue a vigi-lo.
        No se preocupe sinh.

No caminho de volta, Trajano avistou Etelvina voltando do riacho, 
carregando uma cesta de roupa lavada. Ficou encantado ao v-la. 
Ela era linda. Mais que depressa, correu ao seu encontro, tomando-
lhe das mos o pesado cesto.

        Deixe que ajude voc  disse solcito.
        Obrigado, Trajano. Voc  muito gentil.
        Ora, Etelvina, o que  isso?
         sim. Voc  fino, tem educao. Bem se v que no foi 
criado em senzala.
        Acha mesmo?
        Acho sim. Mas diga o que faz por aqui?
        Eu? Nada. Estava ajudando Tonha com a lenha.

Os dois seguiram conversando, at que avistaram Tlio saindo de 
casa. Ia ligeiro, segurando nas mos uma vara de pescar. Ao passar 
por eles, cumprimentou:

        Ol, Trajano.
        Bom dia, sinhozinho. Vai pescar?
        Vou sim.
        Posso acompanhar o sinh?
        Acompanhar-me? Depende. Se Etelvina vier junto, pode sim.

Etelvina abaixou os olhos e respondeu com voz sumida:

        Perdo, sinh, mas tenho que cuidar da roupa.
        A roupa pode esperar  concluiu ele, puxando-a pelo brao.

Ela se assustou e comeou a chorar, at que Trajano, segurando o 
brao de Tlio, disse pausadamente:

        Sinh Tlio, est assustando a moa.
        Estou? Ora, Etelvina, desculpe-me  zombou , no tive a 
inteno. Apenas pensei que gostaria de descansar um pouco 
da lida.
        Agradecida, sinh, mas no posso, no. Seu Terncio me 
castiga.
        Pode deixar que falo com ele.
        Sinh Tlio  interrompeu Trajano , a moa disse que no 
pode. Por que no a deixa ir embora?
        No se meta Trajano. J estou farto de ver voc me seguindo 
por a. V arranjar o que fazer.
        Sinto sinh, mas no vou deixar que maltrate a menina 
Etelvina.
        E quem disse que vou maltrat-la? Ao contrrio, vou trat-la 
com muito carinho  e soltou estrondosa gargalhada, olhando 
para ela com olhar lbrico.

Etelvina, assustada, pediu licena e desatou a correr. Tinha medo de 
sinhozinho Tlio e no gostava de ficar perto dele. Ao v-la correr 
desabalada, Tlio virou-se para Trajano e disse furioso:

        Viu o que voc fez? Seu idiota.
        Desculpe sinh, mas no pode tratar Etelvina desse jeito.
        E o que voc tem com isso? Por acaso  pai dela? No, claro 
que no. Voc est  interessado nela, no ? Mas no se 
preocupe. No pretendo tom-la de voc. S o que quero  
me divertir. Ela  uma cadelinha no cio e deve estar louquinha 
para ser possuda. Depois lhe conto tudinho como foi. Quem 
sabe at no abro caminho para voc, e voc pode servir-se 
dela? Depois de mim,  claro.

Trajano, perplexo, no conseguiu conter a indignao e acertou em 
cheio um soco no queixo de Tlio, que imediatamente tombou no 
cho, pondo-se a gritar. Na mesma hora se arrependeu e abaixou-
se para ajud-lo a se levantar. Tlio, porm, desfigurado pela raiva, 
revidou o golpe, desferindo no outro murros e pontaps, sem que 
Trajano se defendesse. Com a gritaria, todo mundo acorreu, e foi 
Palmira quem primeiro disse:

        Mas o que  que est acontecendo aqui, posso saber?

Vendo a av ali parada, apoiada em sua bengala, ao lado de sua 
me, Tlio soltou o escravo e respondeu com rispidez:

        Nada de mais, vov. Estou apenas dando uma lio nesse 
negro.
        O que foi que ele fez?
        Desrespeitou-me. Levantou a mo para mim, o insolente!
        Tlio, no acredito em voc  contestou a me.  Conheo 
Trajano e sei que ele no seria capaz de desrespeitar 
ningum. E, mesmo que o tivesse feito isso no seria motivo 
para espanc-lo.
        Mas ele me bateu primeiro!
        Mentira. Trajano no  violento e jamais bateu em ningum.
        Mas  verdade. Pergunte a ele.

Camila olhou para Trajano, que abaixou os olhos, j inchados de 
tanto apanhar. Sem esperar pela pergunta, ele foi logo falando:

         verdade, sinh. Eu perdi a cabea e bati no sinhozinho Tlio.
        Voc o qu?  indignou-se Palmira.  Como se atreveu a 
encostar a mo em meu neto, negro imundo?
        Perdo, sinh, isso no vai se repetir.
        Ora, mas no vai mesmo. Terncio! Terncio! Venha c! 
Terncio apareceu em poucos minutos.
        Chamou dona Palmira?
        Chamei sim. Quero que leve este negro para o tronco e lhe d 
uma lio.
        Sim, senhora.
        Espere Terncio  protestou Camila.  Isso no ser 
necessrio. Eu mesma resolverei esta questo.
        Mas, Camila, ele bateu em seu filho. No acha que merece um 
castigo?
        No, mame, no acho. Conheo muito bem a ambos e sei 
que, se Trajano tomou uma atitude dessas, deve ter tido seus 
motivos, e bem fortes.
        Mas que horror! Como pode defender um escravo, colocando-
se contra seu prprio filho? Voc enlouqueceu?
        No, mame, no enlouqueci. Mas, creia-me, sei o que estou 
fazendo.
        Mame  retrucou Tlio abismado , vai defender esse 
negro?
        Vou, meu filho, e voc sabe bem por qu.
        Camila, minha filha, no vejo que motivos possam existir para 
impedir o castigo do escravo que bateu em seu prprio filho. 
Seja o que for no est direito.
        Por favor, mame, sei o que estou fazendo. E agora, Tlio, 
venha comigo. Voc e Trajano. Precisamos ter uma conversa.
        Sinto muito, mame, mas no vou aceitar uma reprimenda 
por causa de um escravo que, alm de insolente, ainda me 
esmurrou.

Sem dar tempo a Camila para que esboasse qualquer resposta, 
Tlio se levantou e se afastou, seguindo em direo  trilha que ia 
dar no riacho. Foi to depressa que ningum teve tempo de impedi-
lo. Palmira, satisfeita, olhou para a filha com ar de reprovao e 
disse:

        Camila, voc me surpreende e me decepciona. Onde j se viu 
ficar contra seu filho, meu neto, e a favor desse negro?  Ela 
no disse nada, e Palmira continuou:  Pois muito bem. Vou 
dar-lhe um aviso. Ou voc manda castigar esse escravo 
insolente, ou ter que mand-lo embora. No quero mau 
exemplo aqui.
        Mame, a senhora no pode me obrigar!
        Voc tambm no pode me obrigar a t-lo em minha fazenda. 
Se aceitar o que ele fez, sem nenhum castigo, os outros 
pensaro que amoleci ou, pior, que no h mais ordem em 
minha casa. E isso no pode e no vou permitir.

Camila ficou abismada. No sabia como proceder numa situao 
como aquela. Castigar Trajano estava fora de cogitao. Mand-lo 
embora, impossvel. Trajano, sem saber o que fazer, permaneceu 
calado e imvel, parado junto a Jlia, que o incentivava com o 
olhar. Tentando apelar para a caridade, ela ainda arriscou:

        Dona Palmira, a senhora no conhece bem seu neto.

Trajano  nosso amigo e foi quem ajudou a nos criar, a mim, 
inclusive. Tenho certeza de que Tlio fez algo de muito grave para 
que Trajano tomasse a atitude que tomou.

Palmira olhou-a com desprezo e retrucou com azedume:

        No importa que meu neto no tenha sido criado perto de 
mim e que, por isso, no o conhea muito bem. O que 
realmente tem importncia  que ele carrega em suas veias o 
meu sangue e o sangue de meu primeiro marido, Gaspar, que 
Deus o tenha. E tanto eu quanto ele, e tambm Licurgo, 
jamais aceitaramos tamanha barbaridade. Um escravo 
sempre ser um ser inferior, no importa o quanto possa ter 
tentado agir corretamente. E enquanto eu for viva, jamais, 
ouviu bem? Jamais um neto meu ser humilhado por um 
negro sem o devido castigo. E quanto a voc, mocinha,  uma 
estranha nesta casa, e peo que se coloque em seu lugar, 
evitando dar opinies quando no solicitadas. Devo lembr-la 
de que a recebi aqui em considerao a minha filha, mas 
posso muito bem mudar de idia e mand-la embora junto 
com esse negro que voc se atreve a chamar de amigo.

Palmira voltou-lhe as costas e se foi, espumando de raiva, seguida 
por Terncio. Ento aquela atrevida ainda ousava question-la? 
Camila, por mais errada que estivesse ainda era sua filha, e ela 
tinha que tolerar. Mas uma estranha? Isso no. Apesar da idade e 
da bengala, ela atravessou o terreiro feito uma bala, dando de cara 
com Tonha, que permanecera afastada, presenciando aquela cena 
com uma pontada de amargura. Ao passar por ela, Palmira estacou 
e, olhando fundo em seus olhos, esbravejou:

        Deve estar satisfeita, no  negra? Pensa que se vinga de mim 
com isso? Pensa que s porque minha filha e aquela mocinha 
se voltaram contra mim voc pode me espezinhar? Pois est 
muito enganada. Ponho-os a todos para fora daqui, inclusive 
voc. No pense que vou admitir sem-vergonhices entre 
negros e brancos em minha casa novamente. No est 
satisfeita com o que me fez, roubando-me a vida de meu filho 
e de Incio? Pretende ainda desforrar-se de mim, acobertando 
pessoas que aqui vieram para me humilhar? Pois no vai, 
ouviu? Mato-a antes disso.

Tonha abaixou a cabea, envergonhada. Podia sentir em suas 
palavras todo o rancor daqueles anos em que vivera naquela casa 
sob o dio mal disfarado de Palmira. Ela ainda a acusava pela 
morte de Incio e de Cirilo, e aquela situao, no sabia por que, 
evocara todo o ressentimento que vinha ocultando dentro de si, 
fazendo com que voltasse contra ela sua ira desenfreada, como se 
ela fosse  culpada por aquele infeliz incidente.

Palmira nunca pudera perdoar Tonha pela morte de seus meninos. 
Mas a verdade  que, desde que Constncia ali chegara pobre e 
envelhecida, o dio de Palmira s fizera crescer. Ningum sabia de 
sua presena ali. Ela apenas dissera que recebera a visita de uma 
amiga que chegara para passar uns dias. Contara que a senhora 
estava velha e s precisava de um lugar para repousar. Por isso, 
ningum deveria incomod-la. A princpio, todos ficaram curiosos, 
mas, com o passar dos dias, ela acabou caindo no esquecimento, e 
ningum mais parecia se lembrar daquela velhinha. Contudo, 
Constncia estava ali, e sua presena avivava o dio de Palmira por 
Tonha e pelos escravos.

Nesse instante, Rodolfo e Fausto, que iam chegando da plantao, 
ainda puderam escutar parte da agresso da me e estacaram 
admirados.

        Mas o que  que est acontecendo aqui?  perguntou Fausto, 
indignado.  Por que est brigando com Tonha desse jeito?
        Nada!  gritou a me.  E saiam da minha frente. A ltima 
coisa de que preciso no momento  de mais um defensor de 
negros!

E empurrou-os para o lado, passando por eles feito um furaco. 
Rodolfo e Fausto entreolharam-se e deram de ombros, 
demonstrando que no haviam entendido nada daquela cena. 
Contudo, quando olharam mais adiante, avistando a famlia parada 
no terreiro, tiveram certeza de que algo muito srio deveria ter 
acontecido.

Rodolfo, mais que depressa, saiu atrs da me, na esperana de 
que ela lhe contasse algo. Fausto, por sua vez, foi ter com Jlia. A 
moa estava chorando, abraada a Camila, que acariciava seus 
cabelos, tentando consol-la. Preocupado, aproximou-se e indagou:
        Ser que algum pode me dizer o que est acontecendo por 
aqui?

Jlia olhou para ele em lgrimas e virou-lhe as costas, tomando a 
direo da casa grande. Ele tentou det-la, mas foi impedido por 
Camila que, segurando-lhe o brao, disse com voz pesarosa:

        Deixe-a, Fausto. Ao menos por enquanto.
        Mas o que foi que houve? Preciso saber.
        Venha comigo e lhe contarei.

Trajano, que permanecera quieto durante o desenrolar de todo 
aquele drama, levantou-se de sbito e disse:

        Sinh Camila, perdoe-me, eu no queria...
        Sei que no, Trajano.
        O que a senhora pretende fazer comigo?

Ela o olhou cheio de pena e disse para o filho:

        Drio, leve Trajano para a fazenda Ouro Velho e explique tudo 
a Ezequiel. Pea-lhe que o deixe ficar l at que resolvamos o 
que fazer.
        Est bem, mame  concordou Drio.  Ia mesmo sugerir 
isso.

Os dois saram em direo  senzala, onde Trajano pegou suas 
coisas, e partiram em seguida para a casa de Ezequiel. Camila, 
depois que eles se foram, puxou Fausto pelo brao e saiu em 
direo ao jardim, caminhando enquanto falava. Minuciosamente, 
contou-lhe tudo o que acontecera, desde quando escutara os gritos 
de Tlio, at aquela cena horrorosa que ele e Rodolfo haviam 
presenciado.
        Pobre Jlia - lamentou Fausto.  Mame sabe ser cruel 
quando quer.
        Jlia est arrasada. Francamente, mame no precisava ter 
falado com ela daquele jeito.

Fausto, estarrecido, ainda perguntou:

        Mas por que, meu Deus? Por que Trajano foi fazer isso?
        No sei, mas desconfio. No entanto, ele no teve tempo de se 
explicar. Mais tarde, depois que a poeira abaixar, irei at a 
casa de Rebeca para descobrir o que realmente aconteceu.
        Desconfia de qu?
        Sabe aquela escrava bonitinha, que vive pra cima e pra baixo 
com uma cesta de roupas, a Etelvina?
        Sei. O que tem ela? No v me dizer que Tlio est atrs da 
menina.
        Isso mesmo.
        Ora, Camila, desculpe-me, mas no creio que isso seja motivo 
para Trajano bater nele.
        Isso porque voc no conhece o seu passado.
        Como assim?

Camila narrou-lhe os antecedentes do filho. Fora um caso triste e 
trgico, a moa morrera na flor da idade, e ela no queria que isso 
se repetisse. Por isso mandara Trajano vigiar Tlio. Para impedir que 
uma nova desgraa sucedesse, repetindo aquela tragdia do 
passado.

        Compreendo  disse Fausto, pensativo.  Mas, ainda assim, 
minha irm, no creio que Trajano tenha agido direito. Afinal, 
 um escravo. Deveria t-la procurado e contado tudo.
        Fausto, no o julgue. No sabemos o que realmente 
aconteceu. Tlio, com certeza, fez algo de extrema gravidade 
para que Trajano lhe batesse.
        E o que pretende fazer?
        No sei. Preciso pensar. Acho que o melhor a fazer seria irmos 
todos embora daqui.
        Voc no pode fazer isso!
        Por que no?
        Por que... Por que... Jlia e eu... Ns nos amamos...

Ela o encarou e suspirou. Fausto era um bom rapaz, e ele e Jlia 
pareciam feitos um para o outro. Ambos j no eram mais crianas 
e saberiam construir uma vida segura e slida. No entanto, havia o 
problema com Trajano. Como poderia admitir que ele fosse expulso? 
Castig-lo, jamais o faria. Fausto, amargurado, replicou:

        Oua Camila, no estou pedindo para castigar o escravo. Nem 
que o expulse daqui. Mas se voc j o mandou para a fazenda 
Ouro Velho, por que no deix-lo l por uns tempos? Mais 
tarde mame voltar atrs. Conversarei com ela, farei com 
que veja o quanto foi injusta.
        Acha que poder?
        Tentarei. No posso viver sem Jlia, e se ela partir, meu 
corao partir com ela.
        Por que no vem conosco? Sabe que ser muito bem-vindo 
em minha casa.
        Eu sei Camila, e agradeo. Mas no posso partir assim, 
deixando a fazenda s com Rodolfo. Tenho minhas obrigaes 
aqui e gosto de administrar nosso patrimnio. Mais tarde, 
quem sabe? Mas agora, no. Mame precisa de mim.
        Entendo... Mas eu, sinceramente, no sei o que fazer. Jlia, 
provavelmente, est trancada no quarto, chorando. No sei se 
vai querer ficar aqui depois disso.
        Deixe-me falar com ela. Ns nos amamos e vamos encontrar 
uma soluo.

Ele abraou a irm e partiu em busca de sua amada. Jlia, 
conforme Camila previra, estava trancada no quarto e no queria 
falar com ningum. Mas Fausto tanto bateu e tanto insistiu que ela 
acabou cedendo e abriu a porta. Ele entrou rapidamente e, 
tomando-a nos braos, beijou-a com ardor.

        Oh, minha querida  sussurrou em seu ouvido.  J sei de 
tudo. Camila me contou.

Ela se apertou ainda mais contra ele e continuou a chorar, cada vez 
mais sentida.

        O que vou fazer, Fausto? No posso mais ficar aqui depois do 
que aconteceu.
        Pode sim. Isso vai passar. Tenho certeza de que mame s 
disse aquilo na hora da raiva. Ela vai reconsiderar voc vai 
ver.
        No estou interessada em sua reconsiderao. Sua me me 
ofendeu, humilhou-me, e isso no posso permitir. Tenho meus 
brios, meu orgulho. No vou me sujeitar a esperar seu perdo 
ou sua condescendncia. Prefiro antes partir, ainda que tenha 
que ficar longe de voc.
        Por favor, minha querida, no se v. No posso viver sem 
voc.
        Tambm no quero deix-lo. No entanto,  a nica soluo 
possvel.
        Deixe-me falar com mame primeiro. Tenho certeza de que 
ela vai cair em si e vir falar com voc, pedindo-lhe 
desculpas.
        Ela j est velha e deve estar um pouco senil.
        Sua me estava muito lcida quando me atirou na face 
aquelas barbaridades. Alm disso, ainda tem Camila. Com 
certeza, ela tambm desejar partir.
        J falei com minha irm, e ela concordou em esperar.
        Concordou?
        Sim. Eu praticamente lhe implorei.
        Ainda assim, no posso ficar. No quero.
        Por favor, Jlia, voc est sendo infantil.
        Infantil? Acho que estou sendo sensata. No preciso me expor 
a esse tipo de constrangimento.
        Sei que no. Mas voc no me ama?
        Voc sabe que sim.
        Ento, por que no me d uma chance? Por que no d uma 
chance a minha me? Deixe-me falar com ela, e se ela se 
recusar a pedir-lhe desculpas, voc poder partir, e eu irei 
com voc. Caso contrrio, voc fica. Ento, que tal? No  
uma proposta razovel?

Jlia pensou por alguns segundos, at que concordou:

        Est bem. Mas s esperarei at hoje  noite. Se ela no se 
conscientizar da injustia que cometeu, partirei amanh de 
manh, com ou sem voc.
        Est certo, querida, obrigado. Ver que no vai se arrepender.

Enquanto isso, no quarto de Palmira, Rodolfo tomava as dores da 
me, inflamando-a contra o escravo. No gostara dele desde o 
incio. Sempre andando de um lado para outro, de olho nas escravas 
de dentro. No fazia nada, vivia a vagabundear pela fazenda. No 
entendia por que Camila o trouxera. Ele era um intil, no servia 
para nada. E depois, bater em seu sinh? Era uma afronta que no 
merecia perdo.

Palmira, animada por suas palavras, cada vez mais se enchia de 
dio por Trajano, julgando-o um verdadeiro demnio, que 
enfeitiara sua filha para se apoderar de seus netos. Quem sabe at 
no fosse algum degenerado? Estimulada pela inveja de Rodolfo, 
que pretendia com isso vingar-se de Jlia, Palmira ia cada vez mais 
acreditando em suas fantasias e j pensava mesmo em mandar 
matar o escravo, quando ouviram batidas na porta. Maquinalmente 
ordenou:

        Entre.

A porta se abriu e Fausto entrou. Olhou para ela, depois para 
Rodolfo e disse:

        Como est, mame?
        Como queria que eu estivesse? Feliz?
        No, claro que no. Foi um lamentvel incidente.
        Chama de lamentvel a ousadia de um negro que encosta a 
mo em um branco? Chama de incidente o fato desse mesmo 
negro haver batido em seu prprio sobrinho? Por muito menos 
seu pai mandou um escravo para o tronco, s porque se 
atreveu a segurar em meu brao.
        No vim aqui para questionar isso, mame. No quero me 
envolver nessa histria.
        Ah, no? E por que veio ento?
        Para falar de Jlia.

Ao ouvir o nome de Jlia, Rodolfo apurou os ouvidos. O que estaria 
pretendendo o irmo? Mal contendo a surpresa e a ansiedade, 
indagou:
        De Jlia?
        Sim, de Jlia.
        O que quer?  retrucou Palmira, fuzilando de dio.  
Defend-la? Ela  uma atrevida e uma intrometida, isso sim. 
No pertence a nossa famlia e no tinha o direito de se 
meter.
        Mas o escravo  dela...
        Pare Fausto, no vou permitir!  cortou Rodolfo.  Se veio 
aqui para defend-la, pode ir dando o fora. Ela insultou nossa 
me, e voc deveria ser o primeiro a no apoi-la.
        Ela no insultou ningum. Apenas tentou defender Trajano.
        Com que direito? Ela  tia de Tlio. Deveria ter tomado sua 
defesa, assim como ns estamos fazendo.
        Ser? Ser que ele merecia mesmo ser defendido?
         claro que sim. Um negro o esbofeteou, e isso j  o 
suficiente para defend-lo.
        Est certo, Rodolfo, no vamos brigar ns dois.
        No quero brigar. Mas no vou admitir que voc contrarie 
mame s para ficar do lado daquela vagabunda que, 
provavelmente, at j se deitou com o negro!

Nesse instante, Fausto no conseguiu se conter. A exemplo de 
Trajano desferiu violento golpe no queixo do irmo, que rodopiou e 
bateu contra a parede, espumando de dio. Ele se recomps 
rapidamente e partiu para cima de Fausto, e os dois puseram-se a 
brigar, distribuindo socos e pontaps. Palmira, horrorizada, comeou 
a gritar:

        Parem com isso! J no basta aquele escravo ter batido em 
meu neto? Agora vou ter que presenciar tambm uma briga 
entre meus filhos, por causa de uma mulher?
        Foi ele quem comeou  disse Rodolfo, entre dentes.
        No importa quem comeou. No vou permitir que meus filhos 
se matem por uma estranha.
        Mas, mame  objetou Fausto , Rodolfo chamou Jlia de 
vagabunda. Acusou-a de se deitar com Trajano. Nunca ouvi 
ofensa maior.
        E da? O que isso lhe diz respeito? Ela  cunhada de sua irm. 
No tem laos conosco. Tlio sim.  meu neto, seu sobrinho, 
sangue de meu sangue. Voc devia se envergonhar de bater 
em seu irmo por causa de uma moa cuja reputao, ao que 
parece,  bastante duvidosa.

Fausto j ia retrucar quando Rodolfo, em tom sarcstico, antecipou-
se:

        Deixe mame. Sei por que Fausto a est defendendo.  
porque esto namorando, no ? Ela j se deitou com voc 
tambm? Fausto encarou-o com dio. Quase partiu para cima 
dele de novo, no fosse  me, que interveio perplexa.
        O qu? Meu filho, envolvido com uma defensora de negros? 
Jamais permitirei.
        Estou envolvido com Jlia sim, mas  porque nos amamos. E 
ela nada tem de vagabunda, nem nunca se deitou com 
ningum.  uma moa honesta e decente, e pretendo casar-
me com ela.
        O qu? Ficou louco? Se seu pai estivesse vivo, com certeza j 
lhe teria dado um corretivo.
        Acontece, mame, que papai est morto, e eu j estou bem 
grandinho para receber corretivos de quem quer que seja. 
Sou um homem, no um menino.
         um tolo, isso sim. Aquela moa no presta, no  mulher 
para voc.
        Posso saber por qu?
        Porque est do lado dos negros, e quem  a favor dos negros 
 contra mim.
        Lamento muito que a senhora pense assim, mame, mas j 
tomei minha deciso. Se no a aceitar, vou-me embora daqui 
amanh mesmo.

Palmira estacou, indignada. Amava os filhos, eram as nicas pessoas 
que tinha no mundo, e no admitiria perd-los para nenhuma 
aventureira. Um pouco hesitante, murmurou:

        No pode estar falando srio.
        Jamais falei mais srio em toda a minha vida. Amo Jlia e ela 
me ama, e no podemos mais viver separados. Se no a 
aceitar, partirei com ela.
        Deixe que v, mame  atalhou Rodolfo.  Ser melhor para 
todos.
        Quieto, Rodolfo, voc no sabe o que diz.  Voltando-se para 
Fausto, acrescentou:  Voc no faria isso. Est blefando.
        Acha mesmo? Ento experimente expuls-la.
        Meu filho, por favor, no faa isso  revidou em tom de 
splica.  No suportarei perd-lo.
        No se preocupe. A senhora ainda ter Rodolfo, com quem 
poder contar sempre.
        Mas voc  to meu filho quanto ele. No posso prescindir de 
nenhum dos dois. Vocs so minha vida. So tudo o que 
tenho. Por favor, meu filho, no me mate. Se voc for 
embora daqui, esteja certo de que no poderei agentar e 
morrerei logo em seguida.
        Mame, est sendo dramtica. A senhora no vai morrer.
        Ser que no? Quer experimentar? Ser que vai suportar 
carregar essa culpa pelo resto de sua vida?
Fausto titubeou.  claro que amava a me e no queria que ela 
sofresse muito menos que viesse a morrer. Contudo, no podia abrir 
mo de sua amada, e respondeu hesitante.

        No... Claro que no quero que a senhora morra... Contudo, 
no vou ceder ao seu apelo ou a suas chantagens.
        O que quer que eu faa? Que reconsidere e a deixe ficar?
        No exatamente. Quero que v falar com ela e lhe pea 
desculpas.         

Ela levantou-se, indignada.

        Isso nunca! Jamais descerei to baixo!
        Mame, deixe de lado o orgulho e pea-lhe perdo. A senhora 
errou, foi injusta.
        J disse que no. Pea-me o que quiser menos isso.
        Mas por qu?  to difcil assim desculpar-se com algum?
        Nesse caso, . Ela me fez uma desfeita, e no posso perdo-
la.
        Foi  senhora quem a desrespeitou, mame, humilhando-a na 
frente de todos.
        Pouco me importa.
         a sua ltima palavra?
        Sim.
        Pois ento, sinto muito. No tenho mais nada a fazer aqui. 
Amanh mesmo deixarei esta casa em companhia de Jlia. 

Ele virou-lhe as costas e dirigiu-se para a porta, passando por 
Rodolfo, que o olhava triunfante. J ia girar a maaneta quando a 
me o chamou de volta.

        Fausto, por favor, no faa isso, eu lhe imploro.

Ele parou e indagou, sem se voltar para ela:

        Vai fazer o que lhe pedi?
         isso o que quer?
         isso.
         a nica maneira de mant-lo ao meu lado?
        Sim.

Ela suspirou, deixando que os braos tombassem numa atitude de 
pura resignao, e disse com voz sumida.

        Ento est bem. Se for o que quer, seja feita a sua vontade. 
Falarei com ela, pedir-lhe-ei perdo. Mas no me pea que 
goste dela.
        Obrigado, mame  agradeceu emocionado.  Com o tempo, 
tenho certeza de que a senhora esquecer tudo e ver que 
moa maravilhosa ela .
        Duvido muito. No entanto, no posso perd-lo para ela, e se 
essa  a nica maneira de impedir que voc faa a besteira de 
partir daqui, eu me curvarei a sua vontade e me desculparei 
com Jlia.

Rodolfo, que at ento permanecera calado, no podendo mais 
conter o dio e a indignao, deu um salto na frente de Palmira e 
explodiu:

        Mame, a senhora no pode estar falando srio! No vou 
permitir que se rebaixe, pedindo perdo quela... quela...

Mas no concluiu. Olhando para Fausto, resolveu voltar atrs. No 
queria comear nova briga.
        No se meta Rodolfo. O que fao  para o bem de todos. O 
seu inclusive.

E saiu, em companhia de Fausto, dirigindo-se ao quarto de Jlia, a 
fim de pedir-lhe perdo. Embora Palmira, naquele momento, 
sentisse um dio desmedido pela moa, o fato  que soube muito 
bem disfarar e falou com ela amistosamente, como se estivesse 
realmente arrependida da injustia que cometera. Pediu-lhe 
desculpas, justificando suas palavras com a lembrana do filho e do 
sobrinho, que haviam padecido muitos anos atrs, vtimas de 
nefasto incndio, provocado por uma escrava.

Jlia, alma boa e generosa, embora no se tivesse convencido das 
palavras de Palmira, achou melhor no contestar. Tambm ela no 
queria deixar Fausto, tampouco queria for-lo a abandonar suas 
obrigaes. Assim, calou em seu ntimo a dvida acerca da 
sinceridade daquele gesto e aceitou o pedido de desculpas com 
simplicidade e humildade, permanecendo na fazenda, o que s 
serviu para inflamar ainda mais a raiva de Rodolfo.

Captulo 6

No dia seguinte, Camila foi ter com Jlia. Estava preocupada com 
Tlio e com Trajano. O filho sumira no meio do mato. Ningum 
sabia de seu paradeiro. E Trajano, quelas horas, com certeza j 
estava alojado na fazenda Ouro Velho.

        E ento?  comeou Camila a dizer.  Vamos saber notcias 
de Trajano?
        Sim, acho melhor irmos logo. Acha que ele est bem?
        Creio que sim. Rebeca  uma boa mulher, e Drio disse que 
ela o acolheu de boa vontade.
        E Tlio? Alguma notcia dele?
        Seu sobrinho desapareceu. Estou preocupada, mas sei que 
est bem. Do jeito que , deve estar esperando a poeira 
assentar para aparecer.
        Tem razo. Mas onde andar?
        No sei. Na vila, talvez. Com certeza, deve estar afogando as 
mgoas nos braos de alguma prostituta.
         verdade, Camila. Por que ser que Tlio  to sem-juzo?
        No sei minha filha. Mas deve ser culpa nossa. Minha e de seu 
irmo. Sinto que falhamos com ele em alguma coisa.
        Oh, no, Camila, no diga isso! Voc e Leopoldo so pais 
maravilhosos. Veja Drio, e at eu, que fui criada por vocs 
desde pequenina. No creio que tenham falhado com Tlio. 
Creio que ele  que no sabe reconhecer e agradecer pelos 
pais que tem.
        Voc  muito gentil, minha querida. Quisera pensar como 
voc. Bem, j est pronta? Ento vamos.

Quando saram, Drio j as estava esperando. Ele mesmo guiaria a 
charrete que os conduziria at a fazenda Ouro Velho.

        Tudo pronto, meu filho?  perguntou Camila.
        Sim, mame. Podemos partir.
        Aonde  que vocs vo?  indagou Rodolfo, que chegava de 
dentro de casa.

As moas tiveram um sobressalto, mas Camila respondeu:

        Vamos dar um passeio.
        Posso saber onde?
        No sei. Por a. Agora, com licena, Rodolfo. Estamos com 
pressa.
Sem dar-lhe tempo de responder, elas subiram na carroa, ao lado 
de Drio, e partiram. Jlia se foi sem nem ao menos falar com ele, 
e Rodolfo indignou-se. No era possvel que ela preferisse o irmo a 
ele. Eram iguaiszinhos, por que no gostara dele? Pensando nisso, 
Rodolfo imaginou que seria muito fcil afastar Fausto de seu 
caminho. Ele tinha que tomar Jlia do irmo. Jamais poderia permitir 
que Fausto tivesse algo que ele no possusse. Eram idnticos, e ela 
se afeioaria a ele tanto quanto se afeioara ao irmo. Rodolfo, em 
sua cegueira, no podia perceber que Jlia os distinguia, no pela 
aparncia, mas pela nobreza de sentimentos. Depois de tudo o que 
vira e ouvira, ela estava certa de que Fausto era de um carter 
nobre e digno, ao passo que Rodolfo parecia-lhe extremamente 
egosta, mesquinho e maldoso.

Quando chegaram  fazenda Ouro Velho, o prprio Trajano fora 
receb-los. Ia cabisbaixo, uma ruga de preocupao no rosto e 
profundas olheiras, demonstrando que quase no dormira. A seu 
lado, os amigos Juarez e Laurinda, que tentavam, a todo custo, 
anim-lo. Ele ajudou as moas a descer, e Camila perguntou:

        Como est, Trajano?
        Bem, sinh, obrigado. E sinhozinho Tlio?
        Ainda est sumido, mas no se demora a aparecer.

Jlia, vendo o arde tristeza estampado em seu rosto, resolveu 
consol-lo:

        No se preocupe Trajano, ele est bem. Depois que tudo se 
acalmar, com certeza, ele volta.
        Foi o que dissemos a ele  acrescentou Juarez.  Mas ele no 
nos d ouvidos...
        No  isso, Juarez  objetou Trajano.  Mas  que sinhozinho 
Tlio  um menino ainda. E depois, a culpa foi minha. No 
devia ter batido nele. No tinha esse direito.

Nesse instante, Rebeca chegou  companhia de Sara, e Drio correu 
para abra-la. Ela estava um pouco plida e no se sentia muito 
bem. Depois dos habituais cumprimentos, o grupo entrou em casa, e 
foi s ento que Trajano os colocou a par de tudo o que acontecera. 
No dia anterior no conseguira falar nada. Fizera todo o trajeto em 
silncio, um brilho de tristeza no olhar, e se recolhera logo que 
instalado. No quisera conversar com ningum. Apenas com Juarez, 
que alm de seu amigo, era tambm de sua raa e o nico ali capaz 
de entender o que lhe ia  alma.

Ao final da narrativa, Camila olhou para ele com ar grave e 
ponderou:

        No posso dizer que fez bem, Trajano, mas entendo seus 
motivos. Qualquer um, no seu lugar, teria feito o mesmo.
        No, sinh. Eu sou negro e escravo, e jamais poderia ter 
batido em sinhozinho Tlio.
        Deixe disso  cortou Jlia.  Voc s  escravo porque quer. 
Leopoldo bem que quis alforri-lo.
        Isso no vem ao caso, sinhazinha. O que faria sendo livre? 
Sou feliz onde estou e no saberia o que fazer com a 
liberdade. Para mim, a nica coisa que importa  servir sinh 
Camila e sua famlia.
        Sei disso, Trajano, e agradeo  disse Camila, emocionada.  
E agora, no pense mais nisso. Deixe tudo por minha conta.
        Est bem, sinh, mas o que ser de mim?
        Por enquanto,  melhor que fique aqui, se Ezequiel e Rebeca 
no se importarem.
         claro que no nos importamos  Ezequiel tratou logo de 
dizer.  No  mesmo, Rebeca?
        No, claro que no. Trajano sempre foi um bom rapaz, e 
vocs so nossos amigos.
        Ento est timo.
        Mas at quando, sinh?
        Por que, Trajano?  indagou Rebeca.  Por acaso no gosta 
de ns?
        Deus me livre de tamanha ingratido, sinh! No  nada disso. 
Mas  que sinto falta dos meninos, principalmente de 
sinhazinha Jlia.

Jlia sorriu e retrucou:

        Pois no precisa. Drio e eu estaremos sempre por perto. Sara 
 minha amiga e est quase noiva de Drio.
        Por falar em noivado  cortou Sara , ouvi dizer que voc 
tambm est comprometida.
        No  bem assim  contestou ela, corando.  Fausto e eu 
ainda no assumimos nenhum compromisso formal.
        O que no demorar muito a acontecer  acrescentou 
Camila, sorrindo.

De repente, Sara empalideceu e comeou a tossir. Era uma tosse 
rouca, e ela parecia que ia engasgar. Seu semblante, de plido foi 
passando a roxo, e todos pensaram que fosse sufocar. Foi um 
desespero geral. Rebeca, apavorada, dava-lhe tapinhas nas costas, 
tentando fazer com que o catarro se soltasse e liberasse passagem 
para o ar. Foi terrvel. Ningum sabia o que fazer, at que Camila 
tomou sua mo e tentou acalm-la, pedindo a todos que se 
aquietassem. Com voz suave, dizia:

        Calma, Sara, devagar. No fique nervosa. E s uma crise e vai 
passar. Procure manter a calma e respirar profunda e 
tranqilamente, sem pressa, sem afobao.

Sara fez como Camila lhe dizia e, aos poucos, foi recobrando o 
alento, e a respirao pareceu quase normalizar. Mas ela ficara 
exausta e deixara a cabea tombar sobre a almofada, quase 
desfalecida. A palidez voltou ao seu rosto, e ela ficou ali, de olhos 
fechados, parecendo dormir. Drio, apavorado, andava de um lado 
para outro, enquanto a me corria a preparar-lhe um ch. Camila, 
assustada, ainda indagou:

        Mas o que ser que tem essa menina?
        O mdico no sabe ao certo  respondeu Ezequiel, que no 
tirava os olhos da filha, certificando-se de que respirava.
        Mas nem desconfia? No  possvel que no tenha nenhuma 
suspeita.
        Ele no quer dar nenhum diagnstico precipitado ou 
equivocado.
        Sim, mas o que ele pensa que ?

Ezequiel encarou-a com amargor e respondeu, desolado:

        Ele pensa que ela est tsica.
        Meu Deus!
        Mas ela no est! Sei que no est!
        Por favor, Ezequiel, acalme-se  disse Rebeca, que chegava 
da cozinha.  Isso no vai ajud-la em nada. E depois, voc 
sabe que ela mesma pensa assim.
        Mas ela est enganada. Deve ser uma outra coisa qualquer. 
Ela no pode estar tsica.  to jovem, vai se casar. Isto , se 
Drio ainda a quiser...
        Escute seu Ezequiel  interrompeu Drio.  Amo sua filha 
acima de qualquer coisa na vida, esteja ela doente ou no.
        Mas todos sabem que a tuberculose  contagiosa.
        No estou preocupado com isso. Em primeiro lugar, porque 
no creio que ela esteja tsica. Em segundo lugar, porque no 
me importo.

Ezequiel olhou para Camila com ar interrogativo. O que ela pensaria 
de tudo aquilo? Afinal, era me e, com certeza, no gostaria de ver 
o filho padecer daquela doena horrorosa. Camila, adivinhando-lhe 
os pensamentos, foi logo o tranqilizando.

        No se preocupe com isso, Ezequiel. Deus sabe o que faz. E se 
meu Drio tiver que adoecer, no creio que seja por culpa de 
ningum.
        Como no? Se ele adoecer, com certeza, ter contrado a 
doena de minha filha.
        No estou bem certa disso. Acredito que as enfermidades 
tenham uma razo de ser, mas tambm creio que s as 
contraem aqueles que delas necessitam.
        No entendo voc, Camila  objetou Rebeca.  Quer dizer 
que acha que Sara precisava ficar doente?
        No  bem assim. Creio que as doenas servem para nos 
alertar de algo, s no sei o que . E no  que Sara 
precisasse ou merecesse ficar doente. Em absoluto. Apenas 
penso que essa doena deve estar sendo til a ela de alguma 
forma.
        Mame!  protestou Drio, indignado.  Por acaso 
enlouqueceu, ? De onde tirou essas idias?
        Da observao, da experincia. Todas as pessoas que 
adoecem possuem uma enfermidade na alma.
        Mas que enfermidade na alma?  contestou Ezequiel, que j 
comeava a se zangar.  Quer dizer que minha Sara possui 
algum tipo de vcio ou defeito?
        No, no  isso. Mas se vocs observarem bem, Sara sempre 
foi uma menina fechada, triste, amarga. Pouco sorri, e mesmo 
quando criana, no raras eram s vezes em que se isolava, 
afastando-se das brincadeiras e dos folguedos.
        Sim, mas, e da?
        E da que, durante os anos em que estive naquele convento, 
ajudei a cuidar de vrios doentes dos pulmes, e todos tinham 
uma caracterstica em comum: eram todas as pessoas tristes, 
solitrias, que se sentiam abandonadas por tudo e por todos.
        Francamente, Camila  censurou Rebeca , acho que voc 
est imaginando coisas.
        Ser mesmo? Pois bem. Prestem ateno ao comportamento 
de Sara e depois me digam se no  verdade.
        Camila tem razo  concordou Jlia.  Lembro-me muito 
bem de que Sara sempre foi dada a tristezas profundas, que 
nem ela sabia explicar.
        Bem, de qualquer forma  objetou Ezequiel , ainda que isso 
seja verdade, no acha que ela j se modificou? Tem o amor 
de todos ns, tem at um noivo que a ama. No vejo por que 
se sentir to triste ou abandonada.
        Voc no est entendendo, Ezequiel. Esses sentimentos vm 
da alma, e no do corpo. So muito mais profundos do que 
podemos compreender. Talvez nem ela mesma saiba o porqu 
de tanta solido. Mas o fato  que ns, muitas vezes, sentimos 
coisas que no sabemos definir e cujas origens no podemos 
precisar. Quem sabe por qu?
        Deus, talvez  arriscou Jlia.
        Com certeza, minha filha, Deus  nico e soberano, e 
conhecem todos os seus filhos, mesmo aqueles mais calados e 
distantes.
        Talvez voc tenha razo, Camila  comeou Rebeca a 
concordar.
        De hoje em diante, prometo prestar ateno em Sara.
        Faa isso. Tente falar com ela, fazer com que se abra e se 
sinta amada. Creio que s assim poder se livrar desse mal 
que a aflige.

Nesse instante, Sara tossiu levemente e abriu os olhos, dando de 
cara com Drio, que estava sentado a seu lado. Ela se levantou, 
ainda sentindo-se fraca, e Laurinda chegou com o ch, que ela 
bebeu rapidamente. Estava com sede e sentiu-se melhor. 
Intuitivamente, dirigiu um olhar de agradecimento a Camila e lhe 
sorriu. Sem saber por que, sentia como se Camila, de repente, 
houvesse atingido o mago de seu ser, iniciando a desvendar 
segredos e mistrios que nem ela, nessa vida, poderia imaginar.

Mais tarde, ao voltarem para casa, receberam a notcia de que Tlio 
havia retornado. Ele estava em seu quarto, em companhia de 
Rodolfo, e parecia no querer falar com mais ningum. Camila, 
indignada, partiu para l. Ele era seu filho, e ela precisava saber 
como estava. Cautelosamente, bateu na porta e esperou, at que 
uma voz l de dentro ordenou:

        Entre.

Ela abriu a porta lentamente e encontrou-o sentado a uma mesinha, 
jogando xadrez com Rodolfo. Aquilo no deixou de causar-lhe certa 
irritao. Ento ele fazia o que fazia e depois ficava ali sentado, 
jogando xadrez, como se nada tivesse acontecido? Ela teve vontade 
de gritar com ele, mas conteve seu mpeto. Queria evitar brigas e 
disse mansamente:

        Tlio, meu filho, onde esteve? Fiquei preocupada.

Ele a olhou com ar divertido e respondeu fazendo mofa:

        Ficou? Pois no devia.
         claro que devia. Voc  meu filho e preocupo-me com voc. 
Quero saber onde esteve.
        Muito obrigado, mame, mas no precisa se preocupar. Tio 
Rodolfo cuidou de mim.

Ela olhou para o irmo com ar interrogativo, e ele balanou a 
cabea, concordando com o que Tlio dissera.

        Como assim, cuidou de voc?
        Ora, querida irm  disse Rodolfo com desdm , Tlio 
passou a noite comigo, em meu quarto.
        O qu? Quer dizer ento que ele esteve aqui todo o tempo e 
voc no me disse nada?
        E por que deveria?
        Porque sou a me dele. Estava preocupada, e voc sabia 
disso. Devia ter-me contado.
        No devia, no. E depois, se voc se importasse tanto com 
seu filho, no o teria trocado por um negro!

Camila olhou-o magoada e respondeu:

        Isso no  justo. Eu jamais trocaria meu filho por quem quer 
que fosse.
        Ah, no, mame? E o que fez, ento, tomando o partido de 
Trajano, como se ele fosse o senhor e eu um maldito 
criminoso? Afinal, no fiz nada de mais.
        Tlio, meu filho, no vou levar em considerao o que diz, 
porque sei que est com raiva. Mas se fizer um exame em sua 
conscincia, ver que Trajano tinha certa razo.
        Mas que razo, Camila?  cortou Rodolfo.  Ora, 
francamente, minha irm, creio que voc perdeu o juzo. 
Onde j se viu tirar a razo de um branco para d-la a um 
negro?
        Rodolfo, por favor, no se intrometa. Voc no conhece os 
motivos que levaram Trajano...
        Conheo-os muito bem. E no vejo motivo para tanto alarde. 
Recriminar Tlio s porque se divertiu com uma negra? E da? 
 para isso que elas servem.
        Rodolfo, como pode dizer uma coisa dessas?  Camila estava 
horrorizada.  Voc, um homem civilizado, pensar isso de 
outro ser humano?
        Oua Camila, no quero iniciar uma discusso sobre a 
natureza dos escravos. Essa questo no me interessa. S o 
que sei  que os escravos tm por funo nos servir, sejam 
eles gente ou animais. E se Tlio escolheu servir-se de uma 
negra, fez muito bem. E se ela morreu, tanto melhor. Ao 
menos assim ele no teve que se expor, correndo o risco de 
ter um mulatinho bastardo a correr atrs dele, agarrando na 
barra de sua cala e gritando papai!

Nesse momento, Camila no se conteve. Sem pensar, ergueu a mo 
e desferiu sonoro tapa no rosto de Rodolfo, que ficou vermelho de 
raiva. Ele at pensou em revidar, mas Camila, alm de mulher, era 
tambm sua irm mais velha, e o pouco de respeito que lhe restava 
impediu-o de devolver a agresso. No entanto, engoliu em seco e 
disparou:
        Oua Camila, ainda vai se arrepender do dia em que resolveu 
me desferir esse tapa.

E saiu, batendo a porta atrs de si. Camila desabou na cama e 
comeou a chorar. Perdera a cabea. No queria, mas perdera a 
cabea. Olhou para o filho, como a pedir-lhe apoio e compreenso, 
mas ele disse amargamente:

        O que foi fazer mame? Como pde bater em tio Rodolfo?
        Ele me provocou meu filho, voc viu.
        Oh, sim, vi muito bem! No   toa que Trajano me bateu. 
Deve ter aprendido com a senhora, no  mesmo?
        Tlio, o que  isso? Perdeu o respeito, ? Sou sua me, e voc 
me deve respeito, ainda que no queira.

Ele abaixou os olhos, envergonhado. Estava coberto de dio, mas 
no podia deixar que isso transparecesse para a me. Sabia que o 
que dissera era uma injustia, mas no podia perder a oportunidade 
de provoc-la. Com os olhos pregados no cho disse, fingindo 
arrependimento e humildade:

        Tem razo, mame, sinto muito.

Ela se levantou e aproximou-se dele, envolvendo-o em um abrao 
amigo e amoroso, e desabafou, em lgrimas:

        Oh! Meu filho, por que teve que fazer isso, por qu? Voc  
jovem, bonito, inteligente. Pode ter as moas que quiser. Por 
que tem que se envolver com as escravas, abusando de uma 
superioridade ilusria para conseguir seus intentos? Por qu? 
Por qu?

Tlio, porm, no respondeu. Ao contrrio, fechou os olhos e riu 
intimamente. Se a me pensava que o comovia com aquela cena, 
estava muito enganada. Ele no dava a menor importncia ao que 
ela dizia ou pensava. Concordava com Rodolfo. Os escravos 
existiam para servir, e ele se aproveitava disso da melhor forma 
que sabia. E no se arrependia.

Fora dali, Rodolfo roia-se de raiva. Primeiro fora Jlia, que o trocara 
pelo irmo. Depois Fausto que o humilhara e espezinhara. Em 
seguida, a me, que no lhe dera ouvidos, preferindo fazer a 
vontade de Fausto. E ento Camila, que o agredia para defender os 
negros. Era uma verdadeira afronta. Todos pareciam estar contra 
ele, mas aquilo no ficaria assim. No era saco de pancadas de 
ningum, e cada vez mais sentia o dio crescendo dentro dele.

J era quase noite, e ele estava sentado na sala, no escuro, quando 
Tonha apareceu para acender as velas e os lampies. Ao vlo ali 
sentado, sozinho, compadeceu-se. Ele era seu menino. Ela ajudara a 
cri-lo e no gostava de v-lo to abatido. Chegando-se mais para 
perto dele, indagou preocupada:

        O sinhozinho est sentindo alguma coisa, est?

Ele olhou para ela como se no a conhecesse, e s depois de alguns 
segundos, quando conseguiu conciliar as idias, foi que retrucou:

        H? O qu? O que foi que disse?
        Perguntei se o sinhozinho est sentindo alguma coisa?
        No estou, no, Tonha. Est tudo bem.
        Mas o sinhozinho est com uma cara...
        Est tudo bem. No se preocupe. V cuidar de seus afazeres.

Tonha no insistiu. Conhecia o gnio de sinhozinho Rodolfo e no 
queria aborrec-lo. Em silncio, terminou de acender as velas e 
saiu, no mesmo instante em que Palmira chegava. Ela olhou para 
Tonha com raiva e virou-se para Rodolfo.

        Meu filho, hoje vocs conhecero minha visita.

Rodolfo, que alm de no perceber a entrada da me, nem se 
lembrava da hspede misteriosa, retrucou confuso:

        H? O qu? O que foi que disse mame?
        Minha visita. A mulher que est hospedada em nossa casa.
        Ah, sim. At j havia me esquecido dela.
        Pois no devia.  sua parenta.
         mesmo? Quem ?
        Voc no a conhece. Ela esteve fora durante muitos anos, 
perdeu o marido e agora retornou. Mas sossegue; logo, logo, 
voc a conhecer.

Em seguida, afastou-se enigmtica. J era quase hora do jantar, e 
ela faria a todos uma surpresa.

s sete horas em ponto, o jantar foi servido, e todos repararam que 
havia mais um lugar  mesa. Assim que se acomodaram, e Tonha j 
se preparava para servi-los, Palmira mandou que esperasse e 
anunciou:

        Meus filhos, meus netos, tenho uma surpresa para vocs.  
com muita satisfao que hoje dou a conhecer a identidade de 
nossa hspede secreta.

Apontou para a porta da sala, para onde todos voltaram suas 
atenes. Constncia entrou um pouco insegura, porm radiante. 
Passara algum tempo escondida, perdera alguns quilos, ajeitara o 
cabelo, voltara a vestir-se com apuro. Estava pronta, enfim, para 
enfrentar os seus.

Ao v-la, Tonha quedou estupefata, quase deixando cair  travessa 
de sopa. Reconhecera-a instantaneamente. Ela estava mudada, 
mais gorda, mais velha, ganhara aquela enorme cicatriz no rosto, 
mas era a mesma Constncia de antigamente. O mesmo rosto de 
esfinge, os mesmos olhos verde-escuros.

Camila, por sua vez, dando de cara com a prima, a quem chegara a 
julgar morta, deu um pulo da mesa e exclamou:

        Constncia!  voc mesma? Ser possvel? Mas como pode? 
Por onde andou?
        Calma, calma  interrompeu Palmira.  Por favor, Camila, 
no crive sua prima de perguntas.

Palmira fez com que Constncia se sentasse  mesa e, enquanto 
Tonha servia o jantar, apresentou-a formalmente aos filhos e aos 
netos, contando-lhes a histria que inventara. Ela fugira e se casara 
com um rico baro, partindo para a Europa em seguida. L viveram 
durante muitos anos, at que uma tragdia sucedeu. Um dos 
empregados do castelo, querendo vingar-se do baro, matou-o 
enquanto dormia, s no matando Constncia porque ela conseguira 
escapar e sara gritando pelos corredores do palcio. O malfeitor foi 
morto a tiros, no sem antes imprimir-lhe aquela cicatriz horrorosa e 
indelvel. Sentindo-se s e sem filhos, Constncia resolveu voltar 
para a terra natal, onde tencionava terminar seus dias.

Ao final da narrativa, todos a olharam estarrecidos. Aquela histria 
era fantstica e duvidosa, mas quem ousaria contest-la? 
        Constncia exibia at uma grossa aliana de ouro no anelar da 
mo esquerda, que Palmira lhe dera, s para imprimir-lhe maior 
credibilidade.

CAPTULO 7

No domingo pela manh, Fausto saiu bem cedo em direo  vila. 
Queria falar com o padre a respeito da capela que estavam 
construindo na fazenda. A capela era um projeto seu e de Rodolfo, 
que a idealizaram para satisfazer o desejo da me, que, bem 
velhinha, no tinha mais a mesma disposio de outrora para 
levantar cedo e ir  missa dominical.

Rodolfo, por sua vez, vendo que o irmo se ausentara, resolveu 
agir. Desceu cautelosamente e foi esperar Jlia na sala de jantar. 
Sabia que ela, em breve, desceria para o caf, e ele tencionava 
abord-la aps o desjejum. A famlia em breve despertou, e todos 
se reuniram. A me tinha gestos artificiais, e Constncia tudo fazia 
para esconder o nervosismo. At que Jlia, tentando parecer casual, 
indagou meio sem jeito:

        Algum viu Fausto?

Como ningum respondesse Tonha, que acabara de colocar a 
leiteira sobre a mesa, disse, sem tirar os olhos do cho:

        Saiu logo cedo e disse que ia  vila.
        Fazer o qu?  quis saber Palmira.
        Acho que foi falar com o padre sobre a capela.
        Capela? Que capela?  perguntou Constncia.

Palmira olhou para ela e respondeu orgulhosa:

        Fausto e Rodolfo resolverem presentear-me com uma 
capelinha, que est sendo construda aqui na fazenda.
        Mas que maravilha mame!  elogiou Camila.
         sim, minha filha. Bem, agora, se me do licena, vou me 
retirar.

Palmira terminou o caf e se levantou, seguida de Constncia, que 
no a largava. Desde que voltara a sobrinha no se mostrava 
receptiva a ningum e vivia a seguir Palmira por todos os lados. 
Depois que todos saram, Jlia se levantou e tambm pediu licena. 
Ia cavalgar. Rodolfo aproveitou, e com ar displicente, perguntou:

        Posso acompanh-la? Est um bonito dia, e no gostaria de 
perd-lo, trancado aqui dentro de casa.

Ela ficou desconcertada. No esperava por aquele convite 
inoportuno, mas no podia recusar. Se o fizesse, talvez estivesse 
declarando guerra aberta a Rodolfo e Palmira, e ela no queria se 
desentender com o futuro cunhado e, muito menos, com a futura 
sogra. Levantando os ombros, suspirou e disse:

        Pode sim.
        Ento vamos?

Ele estendeu o brao para ela, e Jlia o tomou sem muito interesse. 
Apesar de idntico a Fausto, Rodolfo no inspirava  mesma 
confiana. Havia algo nele que no a agradava. Sabia que ele era 
cruel e vingativo, mas no era s isso. Era certa inquietao que 
sentia em sua presena. Ela abanou a cabea, tentando espantar 
aqueles pensamentos, e sorriu. Rodolfo falava alguma coisa sobre o 
tempo, mas ela no lhe prestava a menor ateno. Seu pensamento 
estava voltado para Fausto. Ela o amava imensamente e gostaria 
que ele estivesse ali, para ampar-la e proteg-la.

Os dois tomaram as montarias e saram pela fazenda. Havia muitos 
lugares bonitos para se ver, muitos campos verdes para cavalgar, e 
eles iam em silncio, apreciando a paisagem. Rodolfo ia  frente, 
indicando-lhe o caminho, e Jlia seguia-o maquinalmente, sem 
prestar ateno por aonde ia. Breve, alcanaram um recanto bem 
afastado, no extremo oposto da fazenda, perto da diviso com a 
Ouro Velho. Era um lugar lindo, cercado de rvores, embora um 
pouco deserto e sombrio. As rvores ali eram bem altas, e o Sol 
quase no penetrava. Rodolfo apeou e dirigiu-se para Jlia, e s 
ento ela se deu conta do lugar em que estava, e sentiu medo. E se 
ele lhe fizesse algum mal? Ao v-lo se aproximar, disse mais que 
depressa:

        Vamos voltar Rodolfo. J nos afastamos bastante.
        Espere um instante  respondeu ele com voz melosa, ao 
mesmo tempo em que segurava o cavalo de Jlia pela rdea. 
 Por que no desmonta um pouquinho, s para descansar e 
desfrutar dessa paz?

Sem saber o que fazer, ela desmontou, deixando que Rodolfo a 
segurasse e a colocasse no cho. Ao contato de suas mos, ela 
sentiu um calafrio e se encolheu toda, j arrependida de haver 
apeado.

        Rodolfo, acho que quero voltar. J est ficando tarde e, logo, 
logo, Fausto estar de volta. Pode ficar preocupado.
        Ora, mas o que  isso? Ento no sirvo?
        Como assim? O que quer dizer?
        Voc sabe. Se gosta tanto de Fausto, por que no pode gostar 
de mim tambm?
        Rodolfo, eu... No entendo o que quer dizer.
        Ora, minha querida, entende muito bem. Fausto e eu somos 
iguais. Se sente atrao por ele, h de sentir por mim 
tambm. No h diferena entre ns.

Ao dizer isso, ele a segurou pelos punhos e tentou beij-la, mas ela 
desviou o rosto, enojada. Jlia estava apavorada. Sozinha ali, com 
aquele homem forte e ardiloso, sabia que corria grande perigo. 
Tentando manter a calma, ponderou:

        Por favor, Rodolfo, no faa isso.
        Por que no? No disse que ama meu irmo? Por que no 
pode amar-me tambm?
        Porque  diferente. Vocs so iguais na aparncia, mas 
internamente so muito diferentes.
        Diferentes em qu? Por acaso ele  melhor do que eu?
        Eu no disse isso. Vocs so diferentes,  s.
        Por que foi preferi-lo a mim? Por que no pde me amar em 
lugar dele?
        Porque no se pode mandar no corao.
        Mas eu a quero! No pode am-lo mais do que a mim!

Ela tentou se desvencilhar, mas ele no a soltava. Ao contrrio, 
cada vez apertava-a mais, at que ela gritou:

        Por favor, Rodolfo, solte-me, est me machucando!
        Oh, sinto muito. No quero magoar essa pele to alva e 
sensvel.

E afrouxou um pouquinho. Jlia, no auge do desespero, desferiu-lhe 
um golpe com os joelhos, atingindo-o bem na virilha, e ele a soltou, 
dobrando no cho e uivando de dor. Ela correu para o seu cavalo e 
montou, e Rodolfo, recobrando foras, levantou-se e correu atrs 
dela. Rapidamente, tornou a montaria e partiu em seu encalo. 
Jlia, sem saber que caminho tomar, deu rdea ao animal e saltou a 
cerca, passando para o lado da fazenda Ouro Velho, sempre com 
Rodolfo atrs dela. Os dois cavalgavam muito bem, e a perseguio 
prosseguia implacvel. Jlia, movida pelo instinto de preservao, 
corria em direo  casa grande, e Rodolfo, tomado pelo dio e pelo 
cime, corria o mais que podia, na inteno de alcan-la antes que 
chegasse.

Ele j a estava quase alcanando, cavalgando a seu lado e tentando 
segurar as rdeas do cavalo de Jlia, que o empurrava, dando-lhe 
tapas desajeitados. Rodolfo ria freneticamente, parecia 
enlouquecido, e gritava entre dentes:

        Vai ser minha, Jlia! No adianta fugir, porque voc vai ser 
minha. Fausto no pode t-la, no pode!

Ela j estava cansada, e Rodolfo j estava quase conseguindo 
agarrar as rdeas do animal, quando Jlia avistou um vulto negro ao 
longe, com um machado na mo, cortando lenha. Ela esporeou o 
cavalo e ele se afastou um pouco de Rodolfo, que logo chegou a seu 
lado. O vulto, ouvindo o barulho dos cascos dos animais no solo, 
parou o servio e olhou, tentando reconhecer os cavaleiros. A 
princpio, no os reconheceu. Mas depois, vendo a saia de Jlia 
voando ao vento, percebeu tratar-se de uma mulher, que acenava 
para ele, com um homem quase a alcan-la. Jlia logo reconheceu 
Trajano e comeou a agitar os braos, na esperana de que ele a 
visse e a ajudasse. Com efeito, assim que Trajano reconheceu 
sinhazinha Jlia, soltou o machado e correu, at que ela conseguiu 
chegar at ele. Rodolfo, a seu lado, no conseguia dissimular o dio. 
Diminuiu a marcha e disse, tentando disfarar:
        Bela corrida, Jlia.  exmia amazona.

Jlia olhou para ele, arfante, cheia de terror, e Trajano pde 
perceber o medo em seus olhos. Estava to ofegante que no 
conseguia falar, at que o escravo se adiantou, perguntando:

        Est tudo bem, sinhazinha Jlia?

Ela olhou para Rodolfo, que lhe endereou um sorriso diablico, e 
respondeu:

        Sim, Trajano, tudo bem.
        A sinhazinha estava apostando corrida, ?
        Estava sim  respondeu Rodolfo mal-humorado.  Por qu? O 
que tem com isso?
        Nada, sinh.  que sinh Jlia chegou to assustada que 
pensei...
        Voc no tem que pensar nada. Escravo no pensa, obedece.
        Desculpe sinh, mas no lhe devo obedincia, no.
        Ora, negro insolente. Como se atreve? J no basta o que fez 
a Tlio? Ainda me desafia?

Trajano no respondeu. Estava preocupado com Jlia. Ele a 
conhecia muito bem e sabia que aquele moo tencionara fazer-lhe 
algum mal.

        Sinh, com todo o respeito, vou pedir que v embora. Vou 
acompanhar sinhazinha Jlia at a casa grande.

Rodolfo, ainda no convencido de que perdera sua presa, levantou o 
chicote que trazia preso  cinta e desferiu em Trajano violenta 
chibatada, fazendo com que ele levasse a mo ao ombro, onde fora 
atingido, enquanto o outro vociferava:
        Isso  por meu sobrinho, Tlio!
        Chega Rodolfo!  gritou Jlia.  V-se embora daqui.
        Vou se quiser. No se esquea de que estas terras so minhas, 
e posso vir aqui  hora que desejar.
        A fazenda est arrendada, e voc no tem o direito de vir sem 
ser convidado. Agora v embora!

Mas Rodolfo no parecia disposto a ceder. Perdera e no queria 
admitir. Depois disso, Jlia, com certeza, contaria a Fausto o que 
acontecera, e o irmo, na certa, tomar-lhe-ia satisfaes. Vendo 
que o moo no se mexia, Trajano tratou de intervir novamente:

        No ouviu o que ela disse sinhozinho? Por favor, saia daqui.
        Ser que quer apanhar de novo, negro?
        No, sinh. Mas se o sinh tentar me bater novamente, no 
vou permitir. No sou seu escravo e no estou acostumado a 
apanhar.

Rodolfo fuzilou-o, abismado. Como era insolente aquele escravo! 
Merecia uma surra. Contudo, tinha que reconhecer que o negro era 
mais alto e mais forte que ele, e ser-lhe-ia muito fcil desarm-lo e 
at mat-lo. Temeroso, engoliu o dio e retrucou:

        Isso no vai ficar assim, Jlia. Quanto a voc, negro, no 
perde por esperar.

Virou as rdeas do cavalo e foi embora. Sentia tanto dio que 
parecia que ia explodir. Aquela era mais uma das muitas afrontas 
que vinha sofrendo e ele precisava se vingar. Daria um jeito de se 
vingar de todos e saborearia sua vingana pisando sobre seus 
inimigos.

Quando Fausto chegou da vila, recebeu a notcia de que Jlia no se 
encontrava em casa, pois havia sado logo aps o desjejum para um 
passeio a cavalo com Rodolfo e ainda no retornara.

        E meu irmo?  indagou Fausto ao escravo que o recebera. 
 Tambm ainda no voltou?
        O sinhozinho Rodolfo est l no rio, pescando.

Fausto rodou nos calcanhares e partiu em busca do irmo. Alguma 
coisa devia estar errada. Onde estava Jlia? Por que no voltara 
com ele? Encontrou-o sentado numa pedra, com as calas 
arregaadas e um canio na mo, pescando tranqilamente, como 
se nada tivesse acontecido. A seu lado, Tlio mascava um pedao 
de fumo de rolo e parecia desinteressado da pescaria. Fausto 
chegou por trs deles e chamou:

        Rodolfo, onde est Jlia?

Rodolfo olhou para ele com desprezo. Tinha vontade de esmurr-lo, 
mas conteve o mpeto e disse em tom de sarcasmo.

        No sei. Deixei-a na fazenda Ouro Velho, em companhia de 
um negro.

Fausto j ia responder, mas mudou de idia. No queria estragar 
seu domingo com uma discusso sem propsito. Sabia que Rodolfo o 
estava provocando, mas no queria responder a suas provocaes. 
Ele no deu resposta ao irmo e se foi, rumo  fazenda Ouro Velho. 
No lhe agradara nada aquele passeio. Ento Jlia no sabia que ele 
e o irmo haviam brigado?

Desde o dia em que ele e Rodolfo tiveram aquela briga em presena 
da me, nunca mais foram os mesmos. Mantinham um 
relacionamento cordial, mas Fausto podia perceber certa 
agressividade no tom de voz de Rodolfo todas as vezes que ele lhe 
dirigia a palavra. O irmo, sempre que podia, evitava encontr-lo e 
quase no olhava mais para ele. Nos dias que se seguiram  briga, 
Rodolfo no o esperou mais para vistoriar a plantao, como 
sempre fazia, preferindo sair sozinho, mais cedo, ou ento no indo 
mais.

Ao chegar  fazenda Ouro Velho, todos estavam reunidos no jardim, 
conversando, inclusive Drio, que chegara havia pouco para o 
almoo. Logo que Jlia o viu, levantou-se e correu. Estava ansiosa 
por v-lo e no pde ocultar que algo de muito errado se passara 
com ela. Ele a abraou e, sentindo seu corpo trmulo, indagou:

        Jlia, meu bem, aconteceu alguma coisa? Soube que saiu com 
Rodolfo...

Ela se abraou ainda mais a ele e comeou a chorar. No queria 
contar-lhe o ocorrido, mas sentia que no poderia guardar aquilo s 
para si. Na fazenda, nada dissera a ningum e pedira a Trajano que 
no comentasse o ocorrido. O escravo prometera guardar silncio, e 
ela passara ali a manh toda, sem que ningum desconfiasse do 
sucedido.

        Oh, Fausto!  respondeu ela finalmente  No queria que 
voc soubesse, mas creio que no conseguirei ocultar nada de 
voc.
        Diga-me, minha querida, o que foi que aconteceu?

Ele enxugou-lhe as lgrimas e, tomando-a pelo brao, saiu em 
direo oposta, acenando para os demais. Enquanto caminhavam, 
ela ia lhe contando tudo o que acontecera e podia sentir a raiva 
crescendo dentro dele. Quando terminou, ele disse entre dentes:

        Aquele cachorro! Miservel! Deveria mat-lo!
        Acalme-se, querido. Afinal, no aconteceu nada.
        Como no aconteceu nada? Ele quase a violentou.
        No creio que pretendesse chegar to longe. Penso que queria 
apenas me beijar.
        Beijar, pois sim. E pensar que eu, a princpio, at senti pena 
dele, julgando-o um pobre infeliz por se apaixonar por voc. 
Como fui tolo! Ele no presta e merece uma lio.
        No diga isso. Voc  um homem bom e compreensivo, e 
tenho certeza de que conseguir entender.
        Mas entender o que, meu Deus? Que ele a desrespeitou? Que 
quis me trair?
        No. Que agiu feito uma criana, incapaz de compreender a 
extenso de seus atos.
        Jlia, como pode ainda defend-lo?
        Mas no o estou defendendo. Estou apenas tentando mostrar-
lhe que Rodolfo ainda no aprendeu a respeitar seus 
semelhantes.
        E da? Isso por acaso  desculpa para ele fazer o que fez?
        No, mas  motivo para que possamos compreend-lo e 
ajud-lo.
        Ajud-lo? Mas como? O que quer que faa? Que o apie? Que 
a divida com ele?
        Fausto que horror! Como pode dizer uma coisa dessas?
        Desculpe-me, meu bem, no quis ofend-la. Mas  que essa 
sua atitude me deixou indignado. Pensei que tivesse ficado 
furiosa com o que ele fez.
        E fiquei. Mas Rodolfo  seu irmo, e acho que agiu movido 
pelo cime. Talvez no tenha tido inteno de ofender-me ou 
de tralo.
        E teve inteno de que, ento?
        No sei ao certo. Mas creio que Rodolfo est confundindo as 
coisas. Ele pensa que s porque vocs so gmeos, eu deveria 
gostar dele tanto quanto gosto de voc. No entende por que 
fui preferi-lo a ele.
        E da? Continuo achando que isso no  motivo para atac-la. 
Um homem de carter no agiria assim, no desrespeitaria 
uma moa s porque sente cimes. No, Jlia, isso foi coisa de 
um patife, e ele bem merece uma reprimenda. Eu deveria 
mat-lo!
        Pelo amor de Deus, Fausto, nem pense numa coisa dessas!
        Jlia, no entendo voc. H pouco, quando cheguei, voc 
chegava a tremer, no sei se de medo, de dio, de revolta ou 
de tudo isso junto. Mas agora, parece que mudou. De repente, 
 como se voc tivesse passado a aceitar tudo isso com 
extrema naturalidade.
        No  nada disso, Fausto, no interprete tudo errado. J disse 
que fiquei com medo e com raiva. Ningum gosta de ser 
atacado, agredido, humilhado. No entanto, isso nada tem a 
ver com o fato de que sinto pena dele.
        Pena? Era s o que me faltava!
        Pena, sim. Como disse Rodolfo ainda est muito longe de 
entender o que  o respeito e pensa que pode tudo, s porque 
 branco e rico.

Fausto estava desanimado. No adiantava tentar convencer Jlia de 
que Rodolfo deveria ser advertido. Ela possua bom corao e no 
queria que ele se desentendesse com o irmo novamente por causa 
dela. Esgotados seus argumentos, acabou por concordar:
        Est bem, Jlia, voc venceu. No quero mais falar sobre isso.
        Ento prometa que no tomar nenhuma atitude drstica 
contra ele.
        Est certo. Se for o que quer...
        Obrigada, Fausto. Sabia que voc entenderia.

Os dois se beijaram e voltaram para junto dos demais, que j se 
preparavam para o almoo. Quando chegaram, Ezequiel 
cumprimentou sorridente:

        Senhor Fausto! H quanto tempo no o vemos. Fico muito feliz 
que esteja aqui.
        Obrigado.  um prazer reencontr-los.
        Creio que ainda no conhece nossa filha, Sara  disse 
Ezequiel, mostrando-lhe a menina.
        No, ainda no. Muito prazer, senhorita.
        O prazer  todo meu  respondeu ela, acanhada.
        Sara e eu vamos ficar noivos  adiantou-se Drio.
         mesmo? Quando?
        No sabemos ainda. Logo que ela melhore.
        Senhor Fausto  interrompeu Rebeca , por que no fica 
para o almoo?
        Oh, no, obrigado. No quero causar incmodo.
        Mas no ser incmodo algum. Dar-nos-ia imensa satisfao.
        Bem, se  assim, aceito.
        timo. Agora, se me der licena, vou mandar pr mais um 
prato  mesa.

O almoo transcorreu sem maiores preocupaes. Sara e Drio fazia 
planos para o casamento, e todos estavam felizes. Fausto, porm, 
olhando mais para a moa, pde perceber a enorme palidez de suas 
faces. Ela era, com certeza, uma moa enferma, e embora 
desconhecesse a natureza daquela enfermidade sabia tratar-se de 
algo srio. De vez em quando, ela tossia de leve, tentando disfarar 
a falta de apetite. Quase no comia, e ele podia notar-lhe certo 
desnimo, como se estivesse muito cansada. Fausto teve um 
pressentimento ruim, mas no disse nada. No queria impressionar 
Jlia, e tampouco saberia definir o porqu daquela sensao.

CAPTULO 8

O clima na fazenda So Jernimo parecia haver retomado a 
normalidade, e ningum mais tocava no assunto das brigas que se 
haviam sucedido em to curto espao de tempo. Palmira, apesar de 
tudo, gostava muito da convivncia em famlia e, principalmente, de 
Tlio, por quem acabara se afeioando em demasia. O rapaz era 
muito parecido com seu primeiro marido, Gaspar, e isso a enchia de 
orgulho. Rodolfo, sempre que possvel, juntava-se a eles, e Fausto 
escolhia as horas em que sabia que ele no estava para ficar junto 
da me.

Constncia, por sua vez, comeou a sair sozinha.  medida que o 
tempo passava, foi se acostumando a sua nova situao e arriscava 
algumas incurses pela casa e pela fazenda. Aos poucos foi se 
soltando e, em breve, voltou a ser a mesma Constncia de sempre, 
alimentando seu dio por Tonha. Ela vivia a vigiar a escrava. No 
lhe dizia nada. Ficava apenas olhando-a, com ar mordaz. Nos lbios, 
um sorriso sarcstico a acompanh-la. Tonha no dizia nada. No 
gostava de Constncia, mas o que poderia fazer? Ela era sobrinha 
de sinh Palmira, e o melhor era trat-la com respeito e deferncia, 
sem, contudo, prestar-lhe muita ateno.

E ainda havia Tlio. Apesar da conversa que tivera com a me, ele 
no parava de pensar em Etelvina. Mesmo a av no aprovava 
aquele interesse. Certa vez at chegara a lhe contar que Licurgo, 
seu segundo marido, criara o hbito de dormir com uma negrinha 
de dentro, mas que ela o forara a abandon-la, e ainda mandara 
dar-lhe uma surra. Pretendia, com isso, deixar claro que no 
toleraria aquele tipo de envolvimento em sua casa.

Com isso, Tlio comeou a ficar desesperado. Ansiava pelo corpo de 
Etelvina, to jovem, to fresco. Ele vivia a segui-la com os olhos, 
mas ela, sempre que o via, fugia apavorada. Alm disso, seu 
corao j estava preso ao de Trajano, e ela muito lamentara sua 
partida dali. Mal via a hora de tornar a v-lo e rezava para que seus 
orixs o trouxessem de volta. Chegava mesmo a fazer diversas 
oferendas na cachoeira, pedindo a Oxum, a deusa do amor, que o 
levasse para seus braos. Nessas ocasies, Tlio sempre ia atrs 
dela, mas nunca tivera coragem de se aproximar, com medo de que 
algum descobrisse e contasse para a me ou a av.

Apenas Rodolfo conhecia seus desejos. S o tio era capaz de 
compreender sua aflio. Ele mesmo, por diversas vezes, servira-se 
das negras, a exemplo do pai, sem que a me jamais descobrisse. 
Ao saber disso, Tlio indagou abismado:

        Mas o qu? Quer dizer ento que voc j se deitou com as 
negras?
         claro que sim. Por diversas vezes.
        E vov nunca descobriu?

Ele soltou uma gargalhada e respondeu:

        Ela nunca nem sequer desconfiou.
        Mas como voc consegue?
        Sabe o Terncio?
        O capataz?
         ele quem me arruma as negrinhas, como fazia antes com 
papai.
        Mas vov disse que descobriu sobre seu pai e uma escrava, e 
que ele teve que parar de se encontrar com ela.
        Bom isso l  verdade. Ele parou de se encontrar com ela, 
mas, pouco depois, passou a se deitar com qualquer uma que 
estivesse disponvel. E vov tambm nunca ficou sabendo.
        Ora, vejam s!
        Pois . Por isso  que lhe digo. No tenha receio de tomar  
negra que quiser. Elas esto aqui para nos servir e no podem 
se recusar.

Tlio olhou-o com ar de cobia, j mordendo os lbios, o corpo se 
enchendo de desejo s de imaginar a negra Etelvina sob seu corpo.

        Ser mesmo?  perguntou com olhar lbrico.
         claro. Est interessado?
        Voc sabe que sim.
        Eu sei. Etelvina, no  mesmo?
         sim. Foi por causa dela que Trajano me bateu. Tenho 
certeza de que ele tambm gostou dela.
        Pior p'ra ele. Vai ter que suportar v-lo... - Rodolfo parou de 
falar e encarou o sobrinho com ar diablico, mudando de 
assunto  Hei, espere a. Quer se vingar daquele negro?
        Vingar-me? Como?
        Apenas me responda: quer vingar-se dele ou no quer?
        Sim... Seria divertido.
        timo. Ento, vai se vingar dele.
        Mas como? Em que est pensando?
        Quer mesmo saber?  ele assentiu.  Pois vou lhe contar.

Tlio chegou-se mais para perto de Rodolfo, profundamente 
interessado, e ele narrou-lhe em detalhes o plano que tinha para se 
vingar daquele negro imundo, como chamava Trajano. Tlio 
comeou a rir. O plano era perfeito, e Trajano receberia a lio que 
merecia.

        Mas, como faremos para execut-lo?
        Deixe tudo por minha conta. Na hora certa de agir, eu o 
informarei e explicarei direitinho tudo o que tem que fazer. Por 
enquanto, basta ficar de olho na negra.

Tlio saiu dali animado. Era uma excelente idia, e mataria dois 
coelhos com uma cajadada s. Passando pela porta da cozinha, 
dirigiu-se para o terreiro, onde Etelvina estava pendurando a roupa. 
Chegou perto dela e parou, encarando-a com um sorriso irnico no 
rosto. A moa assustou-se e encolheu-se toda, tentando realizar sua 
tarefa sem prestar-lhe ateno. Tlio, porm, sem tirar os olhos 
dela, disse com voz melflua:

        Etelvina, sabe que  uma escrava muito bonita, no sabe?

Ela abaixou os olhos, envergonhada, e suplicou:

        Por favor, sinh, deixe-me trabalhar em paz.
        Mas eu no estou atrapalhando. Ou estou? Pode falar.
        No, sinh, no est.
        Ento por que no me deixa ficar aqui e observ-la?
        Sinh Tlio, por favor...
        No se preocupe comigo, Etelvina. Ou melhor, faa de conta 
que no estou aqui. S quero admirar sua beleza.
Ela estava constrangida e com medo. Olhou para a porta da cozinha 
e viu Tonha l dentro, preparando o jantar. Tonha, como que 
sentindo o apelo mudo da outra, virou-se subitamente e logo 
percebeu o que estava se passando. Foi at a porta e gritou:

        Etelvina! Pode vir aqui um instante, sim?

Etelvina, agradecida, terminou de pendurar o lenol e correu para a 
cozinha, Tlio despindo-a com o olhar.

        Chamou Tonha?
        Chamei, sim. Ser que pode me ajudar com esse bolo?
         claro, Tonha. Agora mesmo.

Tlio chegou por detrs delas, sem que nenhuma das duas 
percebesse. Parecia um felino silencioso e traioeiro. Elas levaram o 
maior susto quando ele disse:

        Tonha, por que no se mete com sua prpria vida?

Tonha teve um sobressalto e respondeu as faces ardendo em fogo:

        O que disse sinhozinho?
        Voc ouviu muito bem. Meta-se com sua prpria vida e no se 
atravesse em meu caminho.
        No sei o que o sinhozinho quer dizer.
        Sabe sim. No pense que s porque tio Fausto e tio Rodolfo 
gostam de voc, pode fazer o que quiser. Lembre-se de que 
minha av somente a tolera aqui por causa deles, mas eu 
posso muito bem fazer com que ela mude de idia.
        Sinhozinho, perdo, mas no compreendo...
        No se faa de tonta, mulher, porque sei que no . Estou 
avisando: no se meta comigo. Voc no me conhece e no 
sabe do que sou capaz.
Sem dizer mais nada, voltou-lhe as costas e saiu porta afora. Tonha 
sentiu medo, e Etelvina comeou a tremer, dizendo em lgrimas:

        Oh! Tonha desculpe, no devia ter metido voc nessa histria.
        Minha filha, a histria de um negro  a histria de seu povo. O 
que est acontecendo com voc j vi acontecer muitas vezes 
e sei como sempre termina.
        Mas voc no devia ter me chamado.
        Senti que voc precisava de ajuda.
        A culpa foi minha. E agora, se sinhozinho Tlio fizer alguma 
coisa contra voc, no poderei me perdoar.
        No se preocupe menina. Nada vai me acontecer. E depois, 
no ser a primeira vez.
        Mas no quero, no quero.
        Ento pare de se preocupar e tenha cuidado. Evite sair 
sozinha.
        Mas eu tenho que lavar roupa l no riacho.
        Eu sei, e isso voc no pode evitar. Mas pode deixar de ir 
sozinha fazer oferendas a Oxum, no pode?
        Como sabe disso, Tonha?
        Por acaso pensa que sou boba, ? Oua Etelvina, j vivi muito 
e j amei tambm. Sei como so essas coisas. Mas no v 
mais fazer oferendas sozinha. Se no tiver com quem ir, no 
v.  perigoso. Sinhozinho Tlio pode segui-la, e s Deus sabe 
o que poder acontecer.
        Tem razo, Tonha. Estou sendo descuidada, no ?
        Est, e muito. Agora venha, acabe de bater esse bolo ou no 
ficar pronto a tempo para o jantar. Deixe que eu mesma 
termine de estender a roupa.
Tonha saiu para o terreiro e comeou a pendurar os lenis no 
varal. Estava preocupada com Etelvina. Sentia no corao um 
aperto de desgraa. Ela se abaixou para apanhar uma colcha na 
cesta e viu uma sombra de mulher projetando-se sobre seu corpo. 
Assustada, levou a mo ao peito e ergueu-se, virando-se apressada, 
dando de cara com Constncia, que a olhava com aquele sorriso 
sarcstico de sempre.

        Sinh Constncia!  exclamou.  Deseja alguma coisa?

Como Constncia no respondesse, Tonha voltou-lhe as costas e 
continuou a trabalhar, sob o olhar ameaador da outra. Ficaram 
assim durante cerca de dez minutos, at que Tonha, terminando o 
servio, disse acabrunhada:

        Licena, sinh.

Constncia chegou para o lado e Tonha passou de cabea baixa. 
Deu dois passos e parou, ao ouvir a voz esganiada da outra.

        No pense que j a perdoei pelo que me fez. 
        Tonha, ainda de costas, retrucou:
        Perdo, sinh, mas no fiz nada, no.
        Ah, no? Pois olhe para mim!  Tonha no se moveu, e 
Constncia puxou-a pelo ombro, fazendo com que se virasse e 
a encarasse.  Olhe para mim, estou mandando! O que v? 
Alguma beldade?

Tonha, sem saber o que dizer, comeou a gaguejar:

        Si... Sinh... No sei... No sei o que quer de... de... mim...
        Quero que pague os anos de alegria e juventude que me 
roubou!

A escrava, nervosa, comeou a chorar baixinho, e Constncia 
ergueu a mo para bater-lhe, quando ouviu uma voz atrs de si:
        Porque no a deixa em paz, Constncia?J no basta o que a 
fez passar?

Constncia abaixou a mo e virou-se furiosa, olhando o interlocutor 
bem fundo dentro de seus olhos.

        Camila!  gritou.  O que quer? Saia daqui. Meu assunto no 
 com voc.
        Mas o meu  com voc.  Virou-se para Tonha e disse:  
Pode ir, Tonha. Deixe que me entenda com sinh Constncia.

Mais que depressa, Tonha agarrou o cesto e voltou para a cozinha, 
de onde Etelvina as observava. Depois que ela se afastou, Camila 
continuou:

        Muito bem. Agora  entre mim e voc.
        Ora, ora, querida prima. Vejo que o casamento a tornou 
corajosa.
        Nunca fui covarde, Constncia, ao contrrio de voc, que 
amedronta escravas indefesas.
        Oh! Pobrezinha da Tonha! To indefesa...
        No estou aqui para ouvir suas ironias. Sei muito bem quem 
voc  e sei tambm do que  capaz.
         mesmo? E da? O que tem com isso?
        Pensa que pode me enganar com suas mentiras? Pois saiba 
que no acreditei em uma s palavra daquela histria absurda.
        Pois pouco me importa no que voc acreditou. No voltei por 
sua causa.
        E voltou por qu?
        No  da sua conta.
        No creio mesmo que seja. Mas vou lhe dar um conselho: 
deixe Tonha em paz.
        Por qu? O que vai fazer se eu no deixar?

Camila ameaou-a com o olhar e no respondeu. Rodou nos 
calcanhares e entrou em casa. Constncia havia voltado com algum 
propsito, e estava claro que era Tonha. Ser que ainda pretendia, 
depois de mais de trinta anos, prejudic-la? Era o que parecia, mas 
Camila no deixaria.

Apesar de contrariado, Fausto cumprira a promessa que fizera a 
Jlia e no tomara nenhuma atitude drstica contra o irmo. No 
entanto, no podia deixar aquilo passar em branco, e resolveu 
procur-lo, ao menos para dar-lhe um aviso. Bateu  porta de seu 
quarto e entrou, sem nem esperar resposta. Rodolfo estava se 
trocando para o jantar, e ele foi logo falando:

        Oua Rodolfo, prometi a Jlia que no faria nada contra voc, 
mas no posso ficar por a fingindo que nada aconteceu, 
quando a vontade que tenho  de mat-lo.

Rodolfo olhou-o espantado. Naquele dia, depois que o irmo sara 
para ir ao encontro de Jlia, ele pensou que teriam uma nova briga, 
e das mais srias. Mas quando Fausto voltou e no disse nada, ele 
pensou que Jlia no lhe tivesse contado o ocorrido, por medo ou 
vergonha ou, quem sabe at, porque havia gostado. Mas agora, 
vendo a atitude ameaadora do irmo, tinha certeza de que ele 
estava a par de tudo. No entanto, fingindo desconhecer do que se 
tratava, tornou indignado:

        Meu irmo! Do que  que est falando?
        No se faa de desentendido. Sei muito bem o que voc fez 
com Jlia. Mas quero que saiba que, apesar de ela no querer 
que eu brigue com voc, no vou tolerar que isso se repita. 
De hoje em diante, quero dar-lhe um aviso: fique longe de 
Jlia. Ela  minha namorada, e ns vamos nos casar.

Rodolfo escutava-o, pensativo. Ento Jlia no queria que 
brigassem. Por qu? Na certa porque gostara mesmo. Ficara 
nervosa, era verdade, com medo. Mas tambm, ele fora pior que 
um animal. Tentara agarr-la  fora, e ela se assustara. No  
assim que se trata uma dama. Mas, no fundo, ela gostara. Por que 
outro motivo pediria ao irmo que no fizesse nada contra ele, 
seno para proteg-lo, porque gostava dele? Sim, com certeza, era 
isso. Ele a estava conquistando e no podia pr tudo a perder. Era 
preciso no irritar Fausto, ou Jlia poderia assustar-se de novo, e ele 
acabaria por perder a oportunidade de vencer o irmo. Ele deu um 
sorriso maquiavlico, sua cabea j tramando um plano para 
derrot-lo, e retrucou:

        Fausto, contenha-se. No h motivo para ameaar-me.
        No o estou ameaando. Estou apenas avisando-o. No se 
meta mais com Jlia ou no responderei por mim.

Rodolfo abaixou os olhos e suspirou. Depois, olhou para o irmo com 
ar de fingido arrependimento e desabafou:

        Oua Fausto, perdoe-me. Sei que agi errado com voc, mas 
foi por amor.
Fausto retrocedeu confuso. No esperava um pedido de desculpas e 
indagou perplexo:

        Como assim, por amor?

Rodolfo ergueu os ombros, desalentado, e prosseguiu:

        Infelizmente, meu irmo, o destino pregou-nos uma pea. 
Apaixonei-me por Jlia e confesso que, por uns momentos, 
cheguei a ficar cego por esse amor e quase perdi a razo.
        Rodolfo, eu...
        No, deixe-me terminar, por favor. Sei que agi errado com 
voc, tentando envenen-lo com mame e depois ultrajando 
sua amada. Mas quero que compreenda que eu estava fora de 
mim, cego pela paixo. To cego que no podia enxergar 
nada nem ningum a minha frente. Foi por isso que fiz o que 
fiz. Foi por amor.

Fausto olhou-o desconfiado. Amava o irmo e sentia-se muito mal 
com aqueles desentendimentos.

        E por que s agora resolveu contar-me tudo isso?
        Porque, depois do que aconteceu entre mim e Jlia, percebi o 
quanto estava errado. Eu quase a desonrei e tra voc, meu 
irmo, a quem dedico todo o meu afeto. E por pouco no me 
arruno tambm. Eu queria muito lhe falar, mas no tinha 
coragem, com medo de que voc me repelisse. No entanto, a 
ocasio se fez, e quero que me perdoe. Estou sinceramente 
arrependido e juro que isso nunca mais se repetir. Vou tentar 
tirar Jlia de meu corao e transform-la em verdadeira 
irm.

Fausto estava emocionado. J no tinha mais dvidas da sinceridade 
de suas palavras. Rodolfo, por infortnio, acabara por se apaixonar 
por sua Jlia, e isso no era culpa de ningum. Afinal, quem pode 
mandar no corao? E ele estava certo de que o irmo s fizera o 
que fizera por amor e por revolta. Afinal, eram gmeos, e no seria 
nada difcil que Jlia se interessasse por Rodolfo, em vez dele. 
Contudo, o contrrio acontecera, e devia ser difcil ver-se rejeitado, 
trocado por seu irmo idntico. Fausto se imaginou no lugar do 
irmo fazendo-se sempre a mesma pergunta: "por que no eu"?

        Rodolfo, meu irmo, no sabe como fico feliz em ouvir isso. 
Estava muito triste, pensando que voc me havia trado.
        Como v Fausto, isso no  verdade. Eu jamais trairia meu 
irmo. Graas a Deus que logo despertei dessa paixo, que 
me toldava a razo, e pude novamente raciocinar com 
clareza. Voc  muito importante para mim, e no posso 
desentender-me com voc por causa de mulher nenhuma. 
Ainda que seja por uma mulher maravilhosa feito Jlia. E 
ento, ser que pode me perdoar?

Fausto abraou-o, emocionado, e respondeu com sinceridade:

         claro que sim, meu irmo, meu amigo.
        Sem ressentimentos?
        Sem ressentimentos.
        timo. E quero tambm pedir desculpas a Jlia.
        Acha isso necessrio?
         claro que sim. No quero que minha futura cunhada me veja 
como um inimigo ou um monstro. Ao contrrio, quero ser seu 
amigo e vou provar, a vocs dois que tudo isso, em breve, 
ser parte do passado.
        Muito bem. Acho que  melhor mesmo. S assim Jlia poder 
esquecer tudo o que aconteceu.
        Espero que tambm possa me perdoar e confiar em mim. 
Voc confia, no confia?

Fausto hesitou, mas acabou respondendo:

        Claro... Claro que sim...
        No vai ficar agora desconfiando de tudo o que fizer ou disser 
nem com medo de me deixar a ss com Jlia, vai?
         claro que no  Fausto queria acreditar.  Confio em voc 
e sei que no vai me decepcionar.

Rodolfo estava satisfeito. O irmo era um perfeito idiota. Sempre 
to impulsivo, de temperamento explosivo, mas ingnuo feito uma 
criana. Nem de longe percebera que ele estava mentindo o tempo 
todo. Arrependido... Pois sim. Eles que o aguardassem. 
Reconquistaria a confiana de ambos, e ento eles veriam. Jlia 
seria s dele, e o irmo perderia mais aquela disputa.

CAPTULO 9
      
Palmira estava sentada na sala de estar, tendo aos ps o filho 
Fausto, que lia para ela uma carta de sua sobrinha, Berenice, 
quando um "hum, hum" chamou sua ateno. Voltando-se na 
direo do rudo, encontrou o capataz, Aldo, que segurava nas mos 
o chapu e foi logo dizendo:

        Bom dia, dona Palmira.
        Bom dia, Aldo  respondeu ela.  Deseja alguma coisa?
        Sim, senhora, gostaria de falar-lhe um momento.
        Pois no. Do que se trata?
         que minha filha, Marta, terminou os estudos na corte, e hoje 
recebi uma carta da madre superiora, pedindo-me que fosse 
busc-la.

Palmira olhou-o surpresa. Fazia algum tempo que seu marido, 
Licurgo, enviara a menina para estudar no Rio de Janeiro, como 
reconhecimento pelos inmeros prstimos que Aldo lhes fizera 
durante todos aqueles anos. Era um bom capataz. Um homem digno 
e decente, e sempre executara suas ordens com zelo e cuidado. 

Quando a filha alcanara idade de estudar, Licurgo a enviara para 
um colgio de freiras na corte, para que recebesse uma educao 
mais refinada, o que, na certa, lhe facilitaria um bom casamento. 
No entanto, aquele dia no parecia assim to distante, e Palmira se 
surpreendeu com a rapidez com que o tempo passara.

        Mas j?  indagou perplexa.  Parece que foi ontem que 
partiu.
        Para a senhora ver. J faz sete anos que se ausentou.
        Tudo isso?
        Sim, senhora. Marta acabou de completar dezoito anos.
        J tem algum pretendente?
        No, senhora. Segundo me disse a madre superiora, ela no 
parece muito interessada em namoricos. A madre at pensou 
que ela quisesse ser freira, mas Marta, estranhamente, disse 
que no.
         o que se h de fazer? Vo-se entender os filhos, no  
mesmo? E quando pretende partir?
        Se a senhora no se opuser, amanh mesmo. Minha mulher 
morre de saudades da menina.
         natural. Bem, pode ir.
        Obrigado, dona Palmira.

Depois que Aldo saiu, Fausto olhou-a, curioso. Fazia muitos anos que 
no a via, e mesmo no tempo em que ali vivera no lhe prestara 
muita ateno. Lembrava-se apenas de que ela era uma menina 
feinha e um tanto quanto gordinha, que vivia correndo descala pelo 
terreiro. Depois de alguns instantes, indagou:

        Ser que ela mudou muito?
        No sei meu filho. Quando saiu, era ainda uma menina, e 
agora vai voltar uma moa. Pena que no tenha arranjado um 
bom casamento l mesmo, pela corte. Por aqui ser muito 
mais difcil. Os pretendentes so poucos, e ningum de nossa 
sociedade se interessar por ela. Apesar de tudo, ainda  uma 
moa pobre e sem bero.

No dia seguinte, quando ela chegou, foi um espanto geral. Marta 
tornara-se uma moa extremamente bonita e delicada. Perdera a 
gordura da infncia, as feies se afilaram, os cabelos tornaram-se 
cheios e um pouco mais escuros, de um louro quase castanho. Os 
olhos, tambm castanhos, tinham um qu de tristeza, disfarados 
por um sorriso gracioso, que deixava  mostra os dentinhos alvos e 
perfeitos. Rodolfo foi o primeiro a v-la. Ela havia acabado de 
descer da carruagem e estava abraada  me, enquanto Aldo 
retirava sua bagagem, quando ele se aproximou, indagando:

        Marta?  voc mesma?

Ela se virou para ele meio sem graa e respondeu com timidez:

        Sim, senhor...  e no terminou, sem saber com quem estava 
falando.
        Rodolfo  completou-o.  Ento no me reconhece mais?
        Perdo, senhor Rodolfo, mas  que faz muito tempo que no 
os vejo, e o senhor e seu irmo sempre foram to parecido...
        Entendo. Mas no precisa se desculpar. Agora veja em que 
bela moa voc se transformou!

Ela abaixou os olhos e disse as faces vermelhas, em fogo.

        Obrigada. O senhor  muito gentil.

Ele ficou parado, olhando-a embevecido, e no percebeu o olhar de 
desagrado de Aldo. O capataz no gostava muito de Rodolfo e 
estava cansado. Viajara o dia todo e s podia pensar em dormir. 
Tentando no desgostar o patro, disse com humildade:

        Desculpe-me, senhor Rodolfo, mas Marta deve estar cansada. 
Se nos der licena agora, gostaramos de entrar.

Rodolfo fuzilou-o com o olhar, mas no tinha o que dizer. Embora a 
contragosto, concordou:

        Sim, claro, fiquem  vontade.

Ele se foi, e Marta entrou em companhia dos pais. No corao, uma 
coisa diferente comeava a despontar. Sem nem perceber, ficara 
deveras impressionada com Rodolfo. Ela sempre achara os gmeos 
muito bonitos, mas nunca pensara em nenhum deles de maneira 
diferente. Eles eram mais velhos e eram os patres. Mas agora, 
percebendo o olhar de Rodolfo sobre ela, suas palavras gentis, seus 
gestos atenciosos, ela se impressionara. Ser que ele havia se 
interessado por ela? Discretamente, olhou para o pai, mas ele no 
disse nada. Aldo no queria nem pensar em um possvel interesse 
de Rodolfo por sua filha.

Aps o jantar, j na cama, Aldo confidenciou  mulher:

        No gostei do jeito como seu Rodolfo olhou para Marta.
        Por qu?  retrucou Anita, espantada.
        No sei. Ele a olhou de um jeito diferente, como se a estivesse 
desejando.
Ela ergueu-se na cama e encarou-o com gravidade.

        Tem certeza?  Ele aquiesceu.  Mas isso  maravilhoso!
        Enlouqueceu mulher? Seu Rodolfo  o patro. O que pensa 
que pode querer com uma moa feito Marta?
        Ora, Aldo, voc me surpreende. Marta  uma moa bonita e 
inteligente, e recebeu a melhor educao. Tornou-se uma 
moa fina, e  natural que os rapazes se interessem por ela.
        Oua Anita, no se engane. O interesse de seu Rodolfo no vai 
alm de uma noite de prazer.
        Acho que voc est exagerando.
        No estou no. Bem sei de suas conquistas.
        Mas que conquistas? E da? Por acaso ele no  solteiro? No 
tem o direito de se distrair? E depois, pelo que sei, ele nunca 
se interessou por ningum. S por uma escrava ou outra, para 
diverti-lo na cama, e por algumas cortess. E isso no  
exatamente o que se possa chamar de conquista.

Aldo no disse nada. Conhecia a mulher e sabia que ela era 
sonhadora e ambiciosa, e no hesitaria em incentivar um romance 
entre Marta e Rodolfo. Mas ele no. Era um homem honesto e no 
estava disposto a entregar a filha a um aproveitador qualquer, ainda 
que fosse seu patro. Em silncio, virou-se para o lado e fingiu 
dormir. No adiantava nada discutir. O jeito era ficar de olho na 
menina e rezar para que nada de mal lhe acontecesse.

Marta, porm, no partilhava da opinio do pai. Gostara do moo, 
do jeito como a olhara. Aquilo a impressionara sobremaneira, e ela, 
em sua inocncia, julgava que Rodolfo talvez se apaixonasse por 
ela. Afinal, era uma moa prendada, capaz de fazer qualquer 
homem feliz. No entanto, sabia que o pai no aprovaria. Ela 
conhecia seus olhares e pde perceber que ele no ficara nada 
satisfeito com o modo como Rodolfo a tratara. Mas ele no 
precisava se preocupar. Rodolfo era um bom moo, tinha certeza, e 
no faria nada que pudesse desgost-lo. Pensando nisso, 
adormeceu, guardando no pensamento a imagem de Rodolfo a lhe 
sorrir. No dia seguinte, levantou cedo e saiu. O pai j estava na 
plantao, e a me indagou, de forma intencionalmente casual:

        Aonde vai?
        No sei. Dar uma volta. Ver como vo s coisas. Estou fora h 
muito tempo e gostaria de rever a fazenda.
        Onde pretende ir primeiro?
        Hum... Acho que vou falar com dona Palmira.

Anita sorriu satisfeita. Dona Palmira, com certeza, era uma tima 
pessoa para se visitar. Quem sabe Rodolfo tambm no estivesse 
por l?

        Isso mesmo, minha filha, v.

Marta saiu apressada em direo  casa grande, entrando pela 
porta dos fundos. Tonha estava na cozinha, terminando de preparar 
o caf, quando ela cumprimentou:
        Bom dia.

Tonha olhou para ela, como que tentando reconhec-la. Ouvira 
comentrios de que ela estaria voltando e teve certeza de quem 
era.

        Meu Deus, sinhazinha Marta!  exclamou.  Como est 
bonita!
        Obrigada, Tonha. Como me reconheceu?
        Na verdade, no reconheci.  que ouvi falar de sua volta e 
no podia ser mais ningum. E ento, como foi l na corte?
        Muito bem. O Rio de Janeiro  lindo, e o convento foi 
maravilhoso. Aprendi muitas coisas e estou pronta para ser 
uma boa esposa.

Nisso, Rodolfo entrou na cozinha. Ia passando, quando escutara 
vozes femininas e reconhecera, numa delas, a vozinha de Marta.

        Ol  disse sorridente.  J por aqui to cedo?
        Bom dia, sinhozinho Rodolfo  cumprimentou Tonha.
        Ora, Tonha  censurou-o.  Por que foi estragar a surpresa? 
Queria ver se Marta sabia que era eu.

Marta sorriu acanhada e retrucou:

        Oh, senhor Rodolfo, ia zombar de mim, ?
        No. Ia apenas brincar com voc. E no precisa me chamar 
de senhor, no. Agora venha, entre. Deseja falar com minha 
me? Ela no tarda a descer.

Rodolfo saiu puxando-a pelo brao, enquanto Tonha os observava. 
Vendo-os juntos, podia perceber que Rodolfo estava encantado com 
ela, e que Marta estava apaixonada por ele. Aquilo no daria certo, 
ela temia. Silenciosamente, elevou uma prece a seus orixs, 
pedindo-lhes que no permitissem que nenhuma desgraa 
sucedesse.

Breve, toda a famlia se reuniu para o caf da manh, menos Jlia, 
que sara cedo para visitar Sara. Rodolfo convidou Marta a sentar-se 
com eles, sob o olhar reprovador da me. Palmira no gostara nada 
da companhia daquela empregadinha  mesa, mas no disse nada. 
No queria se aborrecer com o filho logo cedo e preferiu calar-se. 
Marta, contudo, sem nada perceber, ia contando suas peripcias na 
corte, embevecida com a ateno que Rodolfo lhe dispensava. 
Todos perceberam que o rapaz a cobria de ateno, e Fausto sorriu 
satisfeito. Embora a me no aprovasse, ele estava feliz por ver que 
o irmo logo se interessara por outra moa, fazendo-o crer que sua 
paixo por Jlia em breve estaria terminada.

Rodolfo, porm, ria intimamente. Ele at que havia gostado de 
Marta. 

A moa era, realmente, muito bonita, mas ele precisava conquistar 
Jlia. Era uma questo de honra. No entanto, por mais que se 
esforasse Marta no lhe saa da cabea. Ela era linda e meiga, e 
seu corao disparava todas as vezes que pensava nela. Mas ele 
no podia se deixar levar por aquela emoo. Marta era apenas 
uma moa, ao passo que Jlia era sua vitria. Conquistar Marta 
acalmaria seu corao. Conquistar Jlia aplacaria seu orgulho. 
Assim, Rodolfo comeava a desperdiar a maravilhosa chance de 
ser feliz, no apenas ao lado de uma mulher que o amava, mas 
daquela a quem comeava, verdadeiramente, a amar.

CAPTULO 10

Etelvina acabou de estender a roupa no varal e olhou para os lados, 
tentando ver se havia algum por perto. J eram quase duas horas 
e, com certeza, todos estavam recolhidos para a sesta ou, ento, 
ocupados com seus prprios afazeres. Ela deu a volta no terreiro, 
procurando por sinhozinho Tlio, mas ele no estava ali. Sorriu 
satisfeita. No havia ningum por perto, e ela podia sair. Iria at o 
riacho levar as oferendas que preparara e voltaria rapidamente, 
sem que ningum tivesse tempo de dar por sua falta. Lembrou-se 
dos conselhos de Tonha e ainda hesitou. E se algum a visse? Mas 
no. Ela se certificara: no havia ningum por ali, e ela poderia ir e 
voltar sem que ningum notasse. Satisfeita, correu para o jardim e 
olhou. Como no viu ningum, colheu algumas rosas brancas e 
voltou para o terreiro. No fora vista, tinha certeza, e no precisava 
se preocupar. Mas estava enganada.         Ao ver o vulto negro de 
Etelvina despontar do outro lado da casa, Tlio, que estava  janela 
de seu quarto, ocultou-se atrs da pesada cortina e espiou. Viu 
quando ela olhou para a casa grande e correu para o jardim, 
colhendo as flores da roseira branca. Seu corao disparou. No 
havia ningum por perto, e ele podia concretizar seus planos. 
Corao aos pulos, saiu em disparada rumo ao quarto de Rodolfo e 
entrou. O tio estava descansando e levou o maior susto quando o 
viu ali parado, esbaforido, gesticulando freneticamente.

        Tlio! Mas que susto voc me deu! O que foi que houve?
        Etelvina... Ela estava agorinha mesmo no jardim, colhendo 
flores.

Rodolfo lanou para ele um olhar de malcia e sorriu, passando a 
lngua nos lbios. O momento parecia propcio. A quietude imperava 
na casa, e no haveria testemunhas para o que pretendiam fazer. 
Mais que depressa, Rodolfo levantou-se e ordenou:  Venha.

Tlio saiu atrs dele, e os dois se dirigiram para o riacho, dando a 
volta pela frente da casa. Sabiam que Etelvina estaria l, 
oferecendo aquelas bobagens para seus deuses. A ocasio era 
perfeita. Em silncio, foram seguindo pela estradinha, at que, ao se 
aproximarem do riacho, comearam a escutar a voz de Etelvina, 
que cantarolava baixinho, em uma lngua que eles no 
compreendiam. Eles pararam, e Rodolfo disse a meia-voz:

        V buscar Trajano, rpido, e deixe Etelvina por minha conta.

Sem responder, Tlio rodou nos calcanhares e se afastou indo direto 
 cocheira buscar um cavalo. Montou rapidamente e partiu para a 
fazenda Ouro Velho. Quando chegou, foi informado de que Trajano 
se encontrava na pequena horta que cultivavam atrs da casa, 
auxiliando Juarez a plantar algumas verduras. Ao v-lo, o escravo 
franziu o cenho, preocupado. O que ser que sinhozinho Tlio estava 
fazendo ali? No estava com raiva dele? Ele se aproximou de 
Trajano e foi logo falando:

        Ol, Trajano, como est?
        Bem, e o sinhozinho?
        Bem... Isto ... Mais ou menos...
        Como assim?  fez Trajano, preocupado.
        Trajano, gostaria de falar com voc.
         claro, sinhozinho, pode falar.
        Aqui no. Gostaria que viesse comigo a um lugar mais 
reservado. O que tenho a dizer  muito importante, e no 
gostaria que ningum mais ouvisse.

Sem desconfiar de nada, Trajano saiu atrs dele, e Tlio disse:

        V buscar um cavalo para voc.
        Por qu? Aonde vamos?
        A fazenda, falar com minha me.
        Sinh Camila est doente?
        No. Mas est muito triste com o que aconteceu, e eu prometi 
a ela que me retrataria com voc.
        Ora, sinhozinho, no precisa no. J passou, e eu j esqueci. 
Alis, quem lhe deve desculpas sou eu. Fui eu que primeiro lhe 
bati.
        S porque eu provoquei. Oua Trajano, voc me conhece h 
muitos anos, sempre foi meu amigo. No me sinto bem 
estando brigado com voc.

Trajano ficou emocionado e seus olhos se encheram de lgrimas. 
Conhecia sinhozinho Tlio desde criana, e aquela briga o 
entristecera de verdade. Tambm sentia remorsos por haver batido 
nele. Sabia que se excedera que no devia ter feito aquilo e queria 
pedir desculpas a Tlio tambm.

        O sinhozinho  muito bondoso  disse com emoo.  Mas o 
mais errado fui eu. Jamais deveria ter-lhe batido.
        Isso no importa agora, Trajano. O que importa  que no 
devemos ficar brigados. Prometi a minha me que viria busc-
lo para nos reconciliarmos, e  isso o que farei.
        E sua av?
        Minha av no gostou nadinha do que voc fez. Mas agora, 
depois que eu mesmo falei com ela, resolveu reconsiderar.  
claro que est zangada. Mas no pensa mais em castig-lo.

Trajano calou-se, montou no cavalo e seguiu atrs dele. Queria 
muito fazer as pazes com Tlio, acabar com aquele 
desentendimento, e a oportunidade aparecera. E tudo isso porque 
Tlio era um menino de ouro que, apesar de seus deslizes e 
tendncias, tinha um corao bondoso e amigo. Precisava apenas 
de uma orientao com as mulheres. No era mau e estava claro 
que gostava muito dele. Caso contrrio, jamais se permitiria descer 
ao ponto de se desculpar com um negro.

Trajano estava cego. A bondade de seu corao no lhe permitia 
enxergar que Tlio mentia deslavadamente. Suas palavras soavam 
com um tom de falsidade to cristalino, que at uma criana poderia 
perceber. Mas Trajano, querendo acreditar que fosse verdade, no 
deu ouvidos  voz da prudncia e seguiu com ele. Tlio, em silncio, 
levava-o direto ao riacho, e Trajano sequer desconfiava do plano 
srdido que ele estava prximo de executar.
Enquanto isso, Rodolfo se aproximava de Etelvina. Chegou por trs e 
tocou em seu ombro, fazendo com que ela gritasse de susto e desse 
um salto para o lado, quase caindo dentro d'gua.

        Sinh...!
        ... Rodolfo.
        Sinh Rodolfo, o sinh me assustou. Ele a olhou com malcia e 
retrucou:
        Desculpe-me, Etelvina, no foi minha inteno.
        Deseja alguma coisa, sinh?
        Na verdade, desejo sim.
         algo que eu possa fazer?
        Digamos que seja algo que s voc pode fazer.

Ela sentiu medo e se encolheu, perguntando com voz sumida:
        Como assim?
        Est com medo?  Ela assentiu.  Pois no precisa. No vai 
lhe acontecer nada de mau. Pelo contrrio.

E desatou a rir. Ela se levantou devagar. Estava apavorada e 
pensou em fugir. Embora Rodolfo nunca lhe houvesse feito nada, ela 
sentia certo tom de perversidade em sua voz. Sem poder explicar, 
Etelvina sabia que algo de ruim ia lhe acontecer e comeou a 
tremer. J ia se virando para correr quando Rodolfo disse em tom 
incisivo e ameaador:

        Nem pense nisso. Se sair daqui, mato-a.
Ela voltou e sentou-se apavorada, olhando para ele com ar 
interrogador. Estava subjugada e paralisada pelo medo. Juntando 
foras, indagou trmula:

        Mas sinh, o que foi que eu lhe fiz?
        A mim? Nada.
        Ento por que faz isso comigo? Por que no me deixa ir?
        Porque no quero. Preciso de voc.

Etelvina, pensando que ele a quisesse como mulher, retrucou 
angustiada:

        Mas h muitas outras escravas que podem servir o sinhozinho 
melhor do que eu. Eu nada sei dessas coisas...
        Calada! No lhe perguntei nada. E depois, no  isso o que 
quero de voc. Voc no me atrai, e no sinto desejo por 
voc.
        Mas ento...

Rodolfo mandou que se calasse, e ela obedeceu cada vez se 
encolhendo mais. Estava sentada sob um tronco de rvore e 
recostou-se nele, tentando no pensar no que lhe aconteceria. 
Rodolfo, sentado defronte dela, no dizia nada. A todo instante 
olhava para a estradinha, como se esperasse algum. At que, 
finalmente, ela escutou o barulho dos cavalos se aproximando e 
teve certeza de que algum chegava. Ergueu-se curiosa, e qual no 
foi o seu espanto quando viu aparecer diante de si o sinhozinho 
Tlio, seguido de Trajano, que estacou ao v-la.

        Etelvina!  exclamou.  O que faz aqui? E por que viemos 
para c?

Tlio lanou para ele um olhar de dio e ordenou friamente:
        Cale-se, Trajano, e desa da.

Trajano no se moveu, e Rodolfo acrescentou:

        No ouviu o que ele disse? Desa da, negro, ou ser muito 
pior para voc.

Sem nada entender, Trajano olhou para Rodolfo, depois para Tlio 
e, finalmente, para Etelvina, toda encolhida perto da rvore. Apesar 
da semelhana entre os gmeos, ele sabia estar diante de Rodolfo. 
Fausto era um homem gentil e digno, e jamais usaria aquele tom de 
voz. Ele ainda no entendia o que estava para acontecer, mas sabia 
que no era coisa boa. Quis dar meia volta e sair dali, mas teve 
medo por Etelvina. Fosse o que fosse que estivesse planejando, o 
fato  que, se fosse embora, eles bem seriam capazes de tentar 
alguma coisa contra ela. Sem sada, Trajano desceu do cavalo e foi 
para perto de Etelvina, que no parava de tremer.
        O que est acontecendo?  indagou, acercando-se dela.

Trajano sentiu um golpe na cabea e tombou. Estava meio 
inconsciente, mas pde sentir que o arrastavam e erguiam seu 
corpo, amarrando-o de encontro  rvore na qual Etelvina estivera 
recostada. Pouco depois, atiraram-lhe gua fria no rosto, e ele 
despertou olhando para os trs sem nada entender. Tlio ria para 
ele com ar diablico, e Rodolfo, agarrando Etelvina pelos cabelos, 
disse-lhe com sarcasmo:

        Ento, o negro pensa que  gente e que pode bater num 
branco, no  mesmo?  Ele no respondeu.  Pois no 
pode.

Ainda mais se esse branco  meu sobrinho. E por qu? Porque est 
de olho na negrinha aqui, no  mesmo? O que queria? Deitar-se 
com ela? Pois no vai, est ouvindo? Ou melhor, pode at se deitar 
com ela, depois que Tlio se saciar e acabar com ela. A ento, 
dependendo, voc pode ficar com os restos.

Trajano olhou-os atnito e, virando-se para Tlio, suplicou 
amargurado:

        Sinhozinho, no faa isso! Sei que  um menino bondoso. No 
vai querer estragar a sua vida com o sangue de outra moa, 
vai?
        Cale essa boca, Trajano!  berrou Tlio.  Voc no devia ter 
se interposto em meu caminho. Mas, j que o fez, agente as 
conseqncias.
         isso mesmo  concordou Rodolfo.  E depois, quem foi que 
disse que negro tem sangue? Pode ter sangue, sim, mas  de 
bicho. Vocs so uns animais, e esto aqui para nos servir. 
Essa  a vontade de Deus. Foi isso o que ele reservou para 
vocs. E como animais, no devem desobedecer a seus 
senhores, muito menos levantar a mo para lhes bater. Os 
que assim procedem no merecem outra coisa seno o 
castigo. Muito bem, Tlio pode comear.

Tlio agarrou Etelvina, que desatou a chorar, e comeou a despi-la. 
Ela ps-se a espernear, e ele bateu em seu rosto, o que fez com 
que ela casse ao cho, tremendo sem parar. Estava apavorada e 
tinha medo de morrer.

        Quieta, negra  berrou Tlio , ou mato-a de pancada!

Etelvina, com medo de apanhar, deixou-se ficar e parou de se 
debater. Estava arrasada, mas no tinha foras para lutar. O medo 
da morte era maior, e ela fechou os olhos, pedindo a sua me 
Oxum que lhe desse coragem para enfrentar aquela triste prova. 
Trajano, por sua vez, tambm chorava. Chorava pela pobre 
Etelvina, por si mesmo, porque a amava, e chorava por Tlio, que 
enveredava pelo caminho do crime. No entanto, estava ali 
amarrado e no havia nada que pudesse fazer. Ele sabia que, 
quanto mais implorasse para que Tlio a largasse, mais ele a 
maltrataria, e fechou os olhos para no ver, at que sentiu uma 
chicotada no ombro. Abriu os olhos aturdidos e escutou a voz de 
Rodolfo, que lhe dizia cheio de rancor:

        Nada disso, negro! Voc vai assistir a tudo, e de camarote! Se 
fechar os olhos novamente, acabo com voc num piscar de 
olhos!

Trajano no teve remdio seno obedecer. Em silncio, com 
lgrimas nos olhos, foi obrigado a presenciar a violncia que Tlio 
cometia contra a indefesa Etelvina. Ele dava vazo a seus instintos 
mais primitivos e, vendo-a no cho, arrancou sua roupa com 
violncia e se deitou sobre ela, apalpando seu corpo com 
brutalidade. Em seguida, possuiu-a feito um animal, fazendo com 
que ela gritasse de dor. Quanto mais ela gritava, mais ele se 
excitava e investia contra ela, roando seu corpo na terra rida, 
causando-lhe imensurvel sofrimento.

Trajano assistia a tudo sem nada dizer, sem nem piscar. No 
corao, uma tristeza indefinvel, uma vontade enorme de morrer. 
Ainda tentou se soltar para impedir aquela barbaridade, mas suas 
mos estavam bem atadas, e ele no pde se mexer. Tlio a estava 
machucando e parecia no se importar com seu sofrimento. S o 
que lhe importava era o prazer que sentia dominando o corpo da 
negra. Ele ficou muito tempo ali, deitado sobre ela, e s a largou 
quando estava exausto, sem foras para continuar. Quando ele se 
levantou, Etelvina estava chorando de mansinho, os olhos cerrados, 
a respirao ofegante. Trajano, em silncio, agradeceu a Deus por 
tudo haver terminado, at que Rodolfo, virando-se para ela, 
comeou a desafivelar o cinto, olhando-a com cupidez. Tlio, 
percebendo o que aconteceria, desatou a rir e disse, gargalhando:
        Muito bem, meu tio, sirva-se  vontade. A pretinha at que  
bem apetitosa.

Rodolfo riu e se deitou sobre ela, que gemeu, no mais de dor, mas 
de humilhao. Ele comeou a dar-lhe mordidas pelo corpo, e ela se 
contorcia toda, sentindo na carne a dor que aquelas mordidas lhe 
causavam, at que ele tambm a possuiu, com mais violncia ainda 
do que Tlio. A moa, apavorada, comeou a gritar, pedindo que ele 
parasse, mas Rodolfo, possudo pelo desejo e pelos instintos, foi 
aumentando cada vez mais o ritmo, e ela, arfante, implorava quase 
sem foras:

        Sinh... Sinh... por... favor...

Como Rodolfo no parasse, ela, conseguindo movimentar as mos, 
comeou a dar-lhe tapas e arranhar seu rosto, at que ele, fora de 
si, ao mesmo tempo em que a possua, ia apertando seu pescoo, 
devagarzinho a princpio, e depois com mais fora. Foi apertando, 
apertando, sem dar ouvido a ningum, nem a Trajano, que 
suplicava que ele a soltasse, nem a Tlio, j ento apavorado, com 
medo de que ele a matasse. Rodolfo no se importava com nada 
disso e continuou a apertar, e a moa, desesperada, tentava 
arrancar suas mos de volta de sua garganta, abrindo a boca e 
lutando para respirar, at que ele, no auge da satisfao, ao mesmo 
tempo em que atingia o orgasmo, levava com ele o ltimo alento de 
Etelvina.

Aplacada a selvageria, ele olhou para ela e s ento se deu conta do 
que havia feito. A moa, morta sob seu corpo, fitava-o com olhos 
esbugalhados, a rouxido espalhando-se pelo pescoo negro. 

Trajano chorava e Tlio estava bestificado. Mas Rodolfo, 
recompondo-se, levantou-se, apanhou a roupa e vestiu-se 
cuidadosamente. Em seguida, virou-se para Tlio e disse:

        No se deixe impressionar por isso, meu sobrinho, e no fique 
triste. Prometo arranjar-lhe uma negrinha bem mais apetitosa 
do que essa a.  Tlio no respondeu, e ele virou-se para 
Trajano:  Quanto a voc, negro, no quero nem uma 
palavra do que viu aqui hoje. Se souber que abriu a boca, 
acabo com sua vida antes mesmo que voc perceba. 
Entendeu?

Trajano no disse nada. Limitou-se a assentir, cheio de tristeza, 
guardando nos olhos uma indefinvel sensao de dor.

Depois desse episdio infeliz, cada um voltou a seus afazeres, 
evitando tocar naquele assunto. Rodolfo fez com que Trajano 
enterrasse o corpo bem longe, do outro lado da fazenda, e deu-lhe 
ordens expressas para que se calasse. Se contasse algo a algum, 
estaria morto. No que sua me fosse castig-lo pela morte de 
Etelvina. Ela era uma escrava, e acidentes desse tipo no eram 
raros. Ele mesmo sabia que Terncio, por descuido, acabara por 
matar alguns escravos da fazenda, o que nunca dera em nada. Mas 
ele no queria provocar nenhuma reao dos negros e, 
principalmente, de Jlia. Sabia que ela era contra a escravido e, 
com certeza, ficaria desgostosa com ele, e ele veria perdidas todas 
as esperanas de algum dia conquist-la, e o irmo, novamente, 
sairia vencedor.

Trajano, humilde, teve que obedecer. O que lucraria falando a 
verdade? O tronco? Pior, a morte? Ele estava indignado, chocado, 
penalizado. Mas sabia que de nada adiantaria contar o que 
acontecera. Ele era negro, e ningum ousaria recriminar sinhozinho 
Rodolfo pelo acontecido, enquanto ele podia at ter a lngua 
cortada. J ouvira falar de casos assim, de negros que falaram 
demais e que acabaram sem lngua. E depois, havia sinhozinho 
Tlio. Trajano tinha certeza de que Tlio ficara muito abalado com 
aquilo. Era inconseqente, irresponsvel, mentiroso, conquistador... 
Mas no era um assassino. Mesmo quando Raimunda morrera, ele 
ficara um tanto quanto abatido. No queria tomar parte na morte de 
ningum, e sinh Camila ficaria muito decepcionada. No. 
Decididamente, no falaria nada a ningum. Eles que se 
entendessem, mais tarde, com a justia de Deus.

Tlio, por sua vez, estava contrariado. Queria divertir-se, era 
verdade. At dera uns tapas na negrinha, isso no era nada de 
mais. Mas mat-la era outra histria. Ele no conseguia 
compreender o que se passara na cabea do tio.  bem verdade 
que Etelvina gritara e esperneara, mas isso no era motivo para ele 
fazer o que fizera. Desde esse dia, Tlio passou a evitar a 
companhia de Rodolfo e tornou-se acabrunhado e desconfiado, com 
medo do que ele seria capaz de fazer.

Na manh seguinte, Tonha comeou a estranhar a ausncia de 
Etelvina. Onde aquela menina se metera? As horas iam se passando 
e ela no aparecia. Preocupada, procurou Aldo, que era mais 
humano, e contou-lhe que ela havia sumido. O capataz olhou para 
ela, desconfiado, e indagou:

        Ser que fugiu?
        No acredito. Para onde iria? E por qu?
        No sei. Ouvi dizer que vivia l na beira do riacho, fazendo 
oferendas para prender um amor.  verdade?

Tonha titubeou. Ser que aquela desmiolada havia ido atrs de 
Trajano?
        Bem, . Mas no creio que esteja com ele.
        Ele quem?  o tal de Trajano, no ? O que se encrencou com 
seu Tlio.
         esse mesmo. Mas duvido muito que ela esteja com ele. 
Trajano  um rapaz direito, est na fazenda Ouro Velho e no 
se atreveria a esconder Etelvina.
        Hum... No sei, no. De qualquer forma, vou at l averiguar.
        No vai avisar sinh Palmira?
        Por enquanto no. Dona Palmira no vai gostar nadinha disso, 
e voc bem sabe o que ela  capaz de fazer.

Tonha silenciou. Conhecia sinh Palmira muito bem. Conhecia seu 
dio pelos escravos, sua crueldade. Se ela descobrisse que Etelvina 
estava desaparecida, contrataria at um capito-do-mato para 
encontr-la, e a seria pior. O castigo seria certo, e ela levaria bem 
umas cinqenta chibatadas no tronco. Embora Aldo no gostasse de 
bater nos negros, Terncio, apesar de velho, ainda agentava 
levantar o chicote e no hesitaria em cumprir as ordens de Palmira, 
o que faria com a maior satisfao.

Aldo montou no cavalo e partiu, chegando logo em seguida  
fazenda Ouro Velho. L, ningum vira Etelvina nem ouvira falar 
dela. Mandou chamar Trajano, mas este dissera que no  vira 
tambm. Orientado por Rodolfo, contou que sara em companhia de 
sinhozinho Tlio, para desculpar-se com ele, e que no vira 
ningum.

Tlio confirmou a histria de Trajano, e ningum ousou desconfiar 
de sua palavra. Ele era branco, neto da dona da casa e no tinha 
por que mentir. Aldo, cada vez mais preocupado, dirigiu-se  beira 
do rio, l encontrando as oferendas que Etelvina levara  sua me 
Oxum, mas no achou mais nada. Nenhum outro sinal que indicasse 
que ela estivera por ali. Trajano apagara todas as pistas e no 
deixara uma pegada, um galho quebrado, um trapo de roupa que 
pudesse dar indcios do que acontecera.

Diante disso tudo, Aldo no teve outro remdio seno levar o caso 
ao conhecimento de Palmira. Ela franziu o cenho, contrariada, e 
considerou:

        Hum... Essa histria est muito mal contada.
        Tlio no sabe de nada?  perguntou Camila.
        No, senhora  respondeu Aldo.  Perguntei a ele, mas ele 
disse que no a viu.
        E Trajano?
        Tambm no sabe. Diz que saiu com o senhor Tlio naquele 
dia. Ningum a viu.
        No estou gostando nada disso - disse Palmira. - Ser que ela 
fugiu?
        No creio mame. Aonde iria? Etelvina, ao que parece, 
sempre foi escrava de dentro, e no est acostumada a viver 
sozinha. Como se sairia l fora, entregue  prpria sorte? E 
depois, Tonha disse que ela vivia a fazer oferendas para seus 
deuses l na beira do riacho.
        Ser que caiu e se afogou?

Aldo cocou o queixo e concordou:

         possvel. Eu no havia pensado nisso, mas  possvel. 
Quando fui at l, encontrei as oferendas que levara, e me 
pareciam ainda frescas. O riacho  pequeno, mas ela pode ter 
batido com a cabea numa pedra e se afogado, e a 
correnteza, na certa, a levou.
        O que voc acha Rodolfo?  indagou Palmira ao filho que, at 
ento, limitara-se a ouvir, sem nada dizer.
        Acho que foi isso mesmo o que aconteceu. Aquela Etelvina, ao 
que parece, no tinha juzo e vivia suspirando pelos cantos, 
apaixonada por aquele negro, o Trajano. Por diversas vezes 
foi sozinha ao riacho, mesmo contra as advertncias de 
Tonha. Na certa, num desses momentos, ela se distraiu, 
escorregou e caiu dentro d'gua, batendo com a cabea. 
Depois, a correnteza a levou, e o rio, mais abaixo, possui 
fortes corredeiras e se alarga bastante. Se for isso o que 
aconteceu, a esta altura seu corpo j deve estar longe.
         verdade  concordou Aldo.  No creio que valha a pena 
procur-la rio abaixo.
        Mas, e se estiver viva?  objetou Camila.  Pode estar ferida, 
precisando de ajuda.  nosso dever procur-la.

Aldo olhou para Palmira, que aquiesceu, e disse para Camila:

        Se a senhora quiser, posso reunir alguns homens e procurar.
        Acho que seria o mais conveniente  disse Rodolfo, com 
fingida preocupao.  Eu mesmo o acompanharei nessa 
busca. Tenho certeza de que, se Etelvina estiver viva, ns a 
encontraremos. Afinal,  uma escrava jovem e saudvel, e 
perd-la seria um desperdcio.

Rodolfo deu as ordens e foi para o terreiro esperar por Aldo, que 
fora reunir alguns escravos de confiana, para que sassem  
procura de Etelvina. Tonha, parada na porta da cozinha, rezava a 
seus orixs, no corao a certeza de que ela havia morrido. Tlio, 
por sua vez, foi chamado a juntar-se ao grupo, mas recusou, 
pretextando no possuir estmago para to dura empreitada. Afinal, 
no gostava de tragdias, e se a moa estivesse realmente morta, 
no lhe agradaria nada ver seu corpo inerte, inchado e coberto pela 
rouxido do afogamento.
Camila encarou-o, desconfiada. Sabia que o filho no gostava de ver 
gente morta, mas havia algo em suas palavras que a deixara 
inquieta. Eram estudadas demais, coerentes demais, decoradas 
demais. Havia algo de estranho ali, e ela, acercando-se do filho, saiu 
puxando-o discretamente pelo brao, conduzindo-o para a varanda 
que dava de frente para o jardim.

        Meu filho  comeou , no est me escondendo nada, est?
        Eu, mame?  o retrucou, sem coragem de encar-la.  O 
que poderia estar escondendo?
        No sei. Por isso  que lhe pergunto. Voc sabe de alguma 
coisa? Tem certeza de que no a viu?

Ele se remexeu inquieto e respondeu, sem tirar os olhos do cho:

        J disse que no. Por qu? Est desconfiada de mim?
        No  isso. Mas  que sei o quanto voc se interessou pela 
moa, e conhecendo-o como o conheo...
        Pare com isso, mame. Por quem me toma? Ento pensa que 
seria capaz de fazer-lhe algum mal?
        No, deliberadamente no. Mas acidentes acontecem.
        No aconteceu nada. Eu juro.
        Tem certeza?
        Sim.
        E por que foi procurar Trajano justo no dia em que ela sumiu?
        Porque queria falar com ele. Gosto de Trajano e queria que 
nos entendssemos. Se no acredita, pergunte a ele.
        No  necessrio. Acredito em voc.

Nisso, avistaram a tropa de homens, que saa a galope, rio abaixo,  
procura do corpo de Etelvina. Rodolfo ia  frente e acenou para 
Tlio, que estremeceu. Camila no pde deixar de perceber que o 
filho se inquietara com o cumprimento do tio e achou aquilo muito 
estranho. Eles, at ento, viviam de segredinhos, no se largavam. 
        Porm, parecia que Tlio evitava olhar para ele, e Rodolfo 
demonstrava certa influncia sobre o rapaz, como se o intimidasse 
s com o fato de olhar para ele. Contudo, no disse nada. O melhor 
seria observar. Se alguma coisa acontecera, ela no tardaria a 
descobrir.

A tropa retornou  fazenda cerca de trs horas depois. Haviam 
seguido a correnteza do rio, ladeando-o nas duas margens, mas no 
avistaram nada. Nenhum sinal da pobre Etelvina. No final da tarde, 
ao comando de Rodolfo, voltaram certos de que ela se afogara e 
que seu corpo fora arrastado pelas corredeiras, j se encontrando 
muito longe naquele momento ou, quem sabe, at comido pelos 
peixes.

Palmira ainda aventou a possibilidade de ela haver fugido, mas 
Rodolfo desconsiderou a idia. Era muito pouco provvel que uma 
escrava franzina e amedrontada feito a Etelvina tivesse fugido 
sozinha. Se algum negro forte houvesse desaparecido, a sim, essa 
hiptese seria vivel. Mas nenhum escravo fugira, e Trajano, por 
quem a tola da Etelvina se apaixonara, continuava trabalhando na 
fazenda Ouro Velho. No, decididamente, ela no fugira. Rodolfo 
estava convicto de que ela, efetivamente, se afogara, e deu por 
encerradas as buscas. Em pouco tempo o episdio foi esquecido, e 
tudo retomou a normalidade. Ou quase tudo.
        CAPTULO 11

Marta estava sentada sozinha na varanda, pensando em Rodolfo, 
quando uma vozinha delicada e meiga chamou sua ateno:

        Ol.

Era Jlia que, vendo-a ali sozinha, resolvera parar para 
cumpriment-la. Marta teve um leve sobressalto e, olhando para ela 
com ar de interrogao, respondeu confusa:

        Oh! Desculpe-me, no a vi chegar.
        No tem importncia. Voc  Marta, no ? A filha de Aldo, o 
capataz?
        Sou sim senhora. E a senhorita, quem ?
        Sou Jlia, cunhada de Camila. E no precisa me chamar de 
senhora ou senhorita, no. Est certo que devo ser mais velha 
que voc, mas nem tanto assim.
        Perdoe-me... Jlia... No foi minha inteno. Foi o respeito. 
Sou apenas uma criada aqui.
        Uma moa to fina e educada, que recebeu educao 
aprimorada na corte? No deve se sentir assim.
        Oh! Mas no tem importncia. Eu no ligo. Sou muito grata a 
seu Licurgo e dona Palmira por me haverem proporcionado 
uma boa educao, mas sei qual  o meu lugar. E digo isso 
sem qualquer peso ou mgoa.
        Que bom. Mas, ainda assim, no precisa de formalismos 
comigo. Podemos ser amigas, o que acha?
        Verdade? Eu adoraria. Sinto-me sozinha aqui, sem ningum da 
minha idade para conversar. Apenas Rodolfo conversa comigo 
de vez em quando...
        Hum... Rodolfo ? Ele est lhe fazendo a corte?
        No, Jlia, mas o que  isso? Ele  o patro e  apenas gentil.
        Gentil, sei. Minha querida, nenhum homem  gentil desse jeito 
se no est interessado em uma moa.
        Acha mesmo?
        Acho sim.
        Ser que Rodolfo est apaixonado por mim?
        Isso eu no sei. Pode ser que ele s esteja flertando com 
voc. Mas se gostar mesmo de voc, logo, logo, pedir para 
fazer-lhe a corte. E s esperar.

Marta suspirou e acrescentou com ar sonhador:

        Espero que esteja certa.

Jlia sorriu e, segurando-lhe a mozinha delicada, indagou com 
jovialidade:

        No quer sair e dar uma volta? Est fazendo um dia to 
bonito!
        Eu adoraria, mas no sei se posso. Minha me espera que a 
ajude com o almoo.
        Ora, pea a ela. E s um instante.

Marta entrou e foi procurar a me. Quando ela soube que a 
cunhada de dona Camila estava ali convidando a filha para passear, 
entusiasmou-se. Afinal, a moa era de famlia distinta e estava 
namorando o outro filho de dona Palmira, o que seria muito bom 
para Marta. Era uma amizade que ela no poderia dispensar, e Anita 
permitiu que a filha se ausentasse, recomendando-lhe apenas que 
tivesse juzo e bons modos. Podia demorar o tempo que quisesse. 
Ela j estava acostumada e podia muito bem dar conta do almoo 
sozinha.

        Ela deixou  disse Marta a Jlia, toda animada.
        timo.
        Aonde vamos?
        Conhece a fazenda Ouro Velho?
        Estive l uma ou duas vezes quando menina, mas no me 
lembro muito bem.
        Pois  para l que vamos.
         mesmo? Minha me me disse que est arrendada.
        Sim, est. Para uns amigos de nossa famlia.
        Vamos visit-los?
Sim. Eles tm uma filha, de nome Sara que est doente. Ela  quase 
noiva de meu irmo, Drio.
Ser que devo ir? Quero dizer no me leve a mal, eu adorei voc 
ter me convidado. Mas  que voc mal me conhece, e nem sei 
por que me convidou.

Jlia sorriu e acrescentou:

        Tambm no sei ao certo. Eu ia passando quando a vi sentada 
na varanda, e algo em meu peito me levou at voc. Era 
como se eu tivesse que cham-la.
        Eu, hein! Que coisa mais estranha.
        Para voc ver. Eu nunca a havia visto em toda a minha vida, 
mas quando a avistei, senti que j a conhecia. No sei 
explicar, mas senti uma imensa ternura por voc e quis 
conhec-la.

Marta olhou-a espantada. De alguma forma, as palavras de Jlia 
encontravam eco em seu corao, e ela tambm sentia como se j 
a conhecesse havia muitos anos. Seus olhos encheram-se de 
lgrimas, e ela respondeu emocionada:

        Obrigada. Sua amizade ser muito importante para mim. No 
sei por que, mas tambm sinto como se j a conhecesse. No 
 estranho?
        Sim, muito. Contudo, aprendi a no questionar os desgnios de 
Deus e a aceitar suas determinaes com confiana e 
naturalidade.
        Acha mesmo que  desgnio de Deus termos nos encontrado?
        No sei, talvez. Mas voc h de convir que essa sensao de 
que j nos conhecemos  muito estranha. E depois, sinto que 
posso confiar em voc como em uma irm, e eu nem a 
conheo!
         verdade. Tambm sinto a mesma coisa.
        Pois ento? Bem, agora vamos. Mandei preparar uma charrete 
para mim, coisa que raramente fao. Normalmente vou a 
cavalo, mas hoje, no sei por que, no senti vontade de 
cavalgar. E a encontrei voc, e uma charrete  bem mais 
apropriada para que viajemos juntas, pois assim poderemos ir 
conversando.

As duas subiram na charrete e Jlia, tomando as rdeas, ps os 
cavalos em marcha, seguindo pela estradinha ensolarada. No 
caminho, Marta ia dizendo:

        Ser que no se importaro? Afinal, nem me conhecem.
        Tenho certeza de que no. Seu Ezequiel e dona Rebeca so 
excelentes pessoas e ficaro felizes com sua presena. Voc 
vai ver.
        E a moa, como  mesmo o nome dela?
        Sara?
        Sim, Sara. Voc disse que ela est doente. O que tem ela?

Jlia entristeceu, e foi como se uma nuvem cinzenta encobrisse seu 
rosto. Com voz sentida, retrucou:

        No sabemos ainda. S o que sabemos  que  coisa do 
pulmo.
        Pobrezinha! Ser tuberculose?
        No sei. Por qu? Tem medo?

Marta hesitou e gaguejou:

        No... No... Creio que no.
        timo. Voc no deve se preocupar. Acredita em Deus?
         claro que sim. Recebi educao religiosa, no lhe disseram?
        Educao religiosa  uma coisa. F sincera  outra bem 
diferente.
        O que quero saber  se realmente acredita em Deus como 
uma fora superior a guiar e orientar nossos destinos.

Marta pensou por alguns instantes, at que respondeu convicta:

        Sim, certamente.
        Ento, no h o que temer. Sabe minha cunhada, Camila, que 
tambm viveu num convento, contou-me coisas muito 
interessantes sobre as doenas.
        Que tipo de coisas? O que quer dizer?
        Quero dizer que no acredito que tenhamos que contrair 
qualquer tipo de enfermidade pelo s fato de estarmos junto 
de algum doente. Creio que s contramos as doenas que j 
esto instaladas em nosso esprito, apenas esperando uma 
chance para refletir em nosso corpo de carne.
        Continuo no entendendo nada.
        Deixe p'ra l. So idias que tenho, mas que no posso 
provar.
        No, por favor, explique-me. No me julgue pelas aparncias. 
Posso parecer uma moa tola, mas acredito na fora do 
esprito.
        Como assim?  foi  vez de Jlia se espantar.
        Posso confiar em voc?
         claro que pode.
        Sei que sim. O que vou lhe falar  absolutamente sigiloso, e se 
algum descobrir, nem sei o que poder me acontecer.

Jlia virou-se para ela, curiosa, e incentivou:

        O que ? Vamos, fale.
        Bem, como sabe, fui mandada para um convento, a fim de 
terminar minha educao. Durante os primeiros meses tudo 
correu bem, e eu estava feliz, at que, de uma hora para 
outra, comecei a sentir coisas estranhas.
        Que tipo de coisas?
        Coisas, no sei. Sentia como se algum estivesse ao meu lado, 
por vezes at ouvia vozes.
        Credo! Isso parece at histria de fantasmas.
        Mais ou menos. No  estranho?
        Muito. E o que aconteceu?
        Bem, foi um rebulio danado. As freiras, a princpio, pensaram 
que eu estava louca. Depois, julgaram que algum demnio me 
havia possudo e chamaram frei ngelo para me benzer.
        O que ele disse?  Jlia estava visivelmente interessada.
        Promete que no vai rir?
        No, claro que no.
        Bem, ele disse que havia dois espritos ao meu lado.
        Espritos? Mas que espritos?
        Isso ele no soube dizer. Apenas me disse que eram espritos 
que, percebendo a minha sensibilidade, aproximaram-se de 
mim para se comunicar.
        Ser? E como ele sabe que eram espritos?
        Bem, frei ngelo me disse que h muito tempo vem estudando 
certos fenmenos, que nada tm de sobrenatural, e que 
chegou  concluso de que determinadas pessoas, por uma 
estranha razo, tm a faculdade de se comunicar com os 
espritos. Ele no sabe por que isso acontece, mas disse que  
bem freqente.

Ele mesmo me contou que sofrer interferncia dos espritos, que 
chegaram a falar atravs de sua boca.

        Nossa, Marta, ser verdade?
        No tenho dvidas. Eu mesma passei por isso.
        Um esprito falou atravs de voc? E o que foi que ele disse?
        Que me amava muito e que eu deveria ser forte.

Jlia ficou pensativa. Ao final de alguns minutos, tornou ainda em 
dvida:

        Que esquisito!
        No acredita?
        No sei. Quando comecei a falar sobre a doena de Sara, no 
estava me referindo aos espritos, mas a foras interiores que 
no conhecemos.
        E no  a mesma coisa?
        No. Espritos so criaturas externas a ns mesmos, enquanto 
que nossa fora interior vem de dentro de nosso ser mais 
profundo.
        Tem razo. So coisas distintas, mas que tm a mesma 
origem.
        Que origem?
        Deus.

Jlia no disse mais nada. Simpatizara com Marta desde o primeiro 
instante em que a vira e no sabia explicar aquele sentimento nem 
a confiana que, intuitivamente, sabia poder depositar nela. No 
comeo, pensou que ela fosse uma moa ingnua, que nada sabia 
da vida, mas se enganara profundamente. Marta demonstrava uma 
sabedoria muito superior  sua, e isso a assustava. No que temesse 
perder para a outra em inteligncia. No era isso. Mas temia as 
coisas que no podia compreender e as conseqncias que podiam 
ter em sua vida.

Marta, por sua vez, achou melhor no falar mais sobre aquilo. 
Embora tambm sentisse o mesmo por Jlia, o fato  que aquela 
revelao era um segredo que vinha guardando a sete chaves e que 
s ousara dividir com frei ngelo. Ele conseguira conversar com os 
espritos que visitavam Marta, rezara por eles e acabara afastando-
os. Com isso, afastara tambm as desconfianas das freiras, 
convencendo-as de que a menina era perfeitamente normal e que 
apenas atravessara uma fase difcil, dada a pouca idade com que 
fora arrancada do seio da famlia. As freiras se convenceram e, 
vendo que Marta no se queixava mais, julgaram que ela estava 
curada e pararam de importun-la.

As duas moas fizeram o resto do caminho em silncio. Tanto Jlia 
quanto Marta no queriam mais tocar naquele assunto. Ao menos 
por enquanto. Assim, entregaram-se a seus prprios pensamentos, 
certas de que uma amizade sincera e slida acabara de se 
estabelecer entre ambas.

Na fazenda Ouro Velho, as coisas no iam nada bem. Sara acabara 
de ter uma crise e, pela primeira vez, expelira sangue pela boca. 
Rebeca e Ezequiel estavam desesperados, j ento certos de que a 
menina estava tsica. A tristeza pairava no ar, a sensao de morte 
parecia ter invadido a casa. At as flores pareciam recusar-se a 
desabrochar e murcharam nos vasos, ainda botes.

Quando Jlia e Marta chegaram, o clima era tenso. Ezequiel 
chamava Juarez, para que juntos fosse  vila, o mais rpido 
possvel, ver se havia algum mdico disponvel. Estava to 
desnorteado que nem deu pela presena das duas moas, e Jlia 
correu para o quarto, com Marta atrs de si. Ao entrar, ficou 
chocada. Sara jazia na cama feito morta, uma palidez cadavrica a 
alastrar-se pela face alva, a respirao ofegante demonstrando 
exausto extrema. A seu lado, a me rezava fervorosamente, 
pedindo a Deus que salvasse sua filha. Jlia acercou-se de Rebeca e, 
colocando a mo em seu ombro, disse amargurada:

        Dona Rebeca, o que houve?

A outra a olhou assustada. Sequer havia notado que chegara. 
Vendo-a ali, preocupada, desabou num pranto convulso e 
respondeu:

        Oh! Jlia, no sei o que vai ser de minha menina. Veja!

Apontou para a toalha estirada no cho, salpicada do sangue da 
doente. Jlia sentiu um baque e fechou os olhos, tentando no 
acreditar no que via. Ao final de alguns minutos, porm, retrucou:

        Tenha calma, dona Rebeca. Tudo vai acabar bem.
        No, Jlia. Minha filha vai morrer. Minha filha, minha filhinha. 
Por que Deus h de lhe ceifar a vida assim, to jovem?

Marta, que at ento nada dissera, deu um passo  frente e 
objetou:

        Perdoe-me, senhora, mas sua filha no vai morrer, no.

Rebeca assustou-se. No notara sua presena e, com voz incrdula, 
perguntou:

        Quem  voc? O que faz aqui?
        Desculpe-me, dona Rebeca  respondeu Jlia.  A culpa  
minha. Na pressa e na angstia, esqueci de lhe apresentar. 
Esta  Marta, filha de um dos capatazes da fazenda, e acaba 
de chegar da corte.

Rebeca olhou-a com certa animosidade. No sabia por que, mas no 
simpatizara com a moa. Atribuiu o fato ao momento delicado por 
que atravessavam e no lhe agradava em nada dividir seus 
problemas mais ntimos e dolorosos com uma estranha. Olhando-a 
com rancor, revidou:

        Por que a trouxe aqui? Ela no faz parte da famlia.
        Pensei em chamar Sara para darmos um passeio. No sabia 
que a encontraria nesse estado.
        Pois no devia. Sinto muito, Jlia, mas voc fez mal. Essa 
moa  uma estranha e ainda corre o risco de se contaminar.
        No se preocupe dona Rebeca  interveio Marta.  No vou 
me contaminar, estou certa.
        Como pode saber?
        Eu sei.
Ela falou com tanta convico que at Jlia estranhou. Havia poucos 
minutos, quando lhe perguntara se tinha medo do contgio, Marta 
titubeara. Mas nesse momento falava com tanta certeza que era 
como se soubesse mesmo que nada de mal lhe aconteceria. 
Confusa, Jlia perguntou:         

        Ser que no  melhor irmos embora?
        Acho uma boa idia  concordou Rebeca.  No queremos 
correr riscos desnecessrios.
        Gostaria de ficar  teimou Marta.
        Mas por qu? No v que pode se contaminar?
        J disse que isso no vai acontecer.
        Por favor, mocinha, est sendo inconveniente. Isso no  hora 
para criar um caso.
        No estou criando caso algum. Apenas gostaria de ficar.
        Mas por qu?  perguntou Jlia, espantada.  Afinal, voc 
nem a conhece...
        No sei. Mas sinto que no devo partir.
        Olhe moa, sei que tem boas intenes, mas no precisa...

Marta fechou os olhos e, sem dar ateno s recriminaes de 
Rebeca, acercou-se do leito da enferma e estendeu as mos acima 
dela, deslizando-as suavemente por todo o seu corpo. Rebeca ia 
protestar, mas, subitamente, Sara teve um estremecimento, depois 
outro e mais outro, at que sua respirao comeou a se acalmar, e 
o peito logo voltou a subir e descer serenamente. As faces, em 
pouco tempo adquiriram certa cor, como se um punhado de vida se 
derramasse sobre aquela palidez de morte. Jlia, boquiaberta, no 
conseguia tirar os olhos daquela cena, e quando a menina se 
acalmou por completo, dormindo placidamente, indagou confusa:

        O que aconteceu? O que voc fez?

Marta abriu os olhos, assustada. Nem ela mesma sabia o que fizera. 
S o que sabia era que, de repente, sentira um desejo incontrolvel 
de se aproximar da doente e pr sobre ela suas mos, entregando-
se  vontade de Deus. Tinha conscincia de tudo o que fizera, mas 
no entendia como. Era como se uma estranha fora a impelisse 
para a cama de Sara, e ela acabou se deixando levar. Ela at sabia 
que poderia parar se assim o desejasse. Mas o mais estranho  que 
no queria. Tinha vontade de prosseguir, de ajudar  doente, e 
estava certa de que podia. Sentia uma confiana imensa em si 
mesma e no que quer que a esteja impulsionando. Sabia que aquela 
fora era benigna e, sem resistncia, entregara-se a ela, certa de 
que estava apta a levar um pouco de paz  doentinha. Encarando 
Jlia e depois Rebeca, Marta gaguejou:

        No... No sei... S o que sei  que no pude parar. Foi mais 
forte que eu...

Sara abriu os olhos e olhou ao redor, tentando fazer um 
reconhecimento de onde estava. Parecia um pouco confusa, area, 
e quando deu de cara com Marta, exclamou:

        Mame!  e logo adormeceu.

As trs se olharam atnitas, aproximando-se de Sara, preocupadas. 
Mas a moa dormia tranqilamente. O que teria acontecido? Por que 
ela chamara Marta de mame?

        Com certeza, nos confundiu  justificou-se Rebeca.  Afinal, 
em seu estado,  natural que esteja fraca e confusa.
        , tem razo  concordou Jlia.  Deve ter sido isso mesmo.
Marta no disse nada. Em seu ntimo, sabia que Sara no havia se 
confundido. Em seus olhos, quando a encarara, passara um brilho 
de reconhecimento, e Marta sentiu como se j a tivesse tido em 
seus braos inmeras vezes. Aquilo era muito estranho, e ela no 
sabia explicar. Pensou que deveria ser influncia dos espritos, mas 
preferiu no dizer nada. Na certa, ningum acreditaria, e ainda a 
tomariam por louca ou charlat. Pensou em escrever uma carta a 
frei ngelo. Ele teria uma explicao razovel para tudo aquilo.

Certificando-se de que a filha dormia, Rebeca convidou-as a passar 
para a outra sala. No sabia o que dizer. No simpatizara com Marta 
desde que chegara, mas o fato era que ela, por um inexplicvel 
motivo, tirara Sara daquela crise em que se encontrava, e a menina 
parecia bem melhor. Ao v-las acomodadas na poltrona, pediu que 
Laurinda lhes preparasse um pouco de ch e indagou com voz 
pausada:

        Algum pode me explicar o que aconteceu?

Jlia e Marta se entreolharam. Depois da conversa que tiveram Jlia 
bem desconfiava da interferncia dos espritos. Era bem possvel, ou 
melhor, provvel, que Marta tivesse agido influenciada por algum 
esprito bondoso, interessado em ajudar. Contudo, sabia que no 
seria prudente revelar suas desconfianas. Ao menos por enquanto. 
Embora Rebeca e Ezequiel fossem pessoas boas e religiosas, 
seguiam crena diversa, e aquela revelao poderia choclos. E 
Jlia no queria desgost-los ou transtorn-los. Ao contrrio, amava-
os muito e sabia que o respeito era poderosa arma de 
compreenso. O melhor a fazer seria esperar o momento mais 
oportuno para conversarem sobre aquilo, aguardando  hora em 
que ela estivesse pronta para compreender aquele novo caminho, 
que s ento comeavam a desvendar. Ela olhou para Marta com 
olhar significativo e respondeu:

        No sei dona Rebeca. Juro que no sei.

Rebeca, querendo respostas imediatas, encarou Marta com um ar 
entre desafiador e agradecido, e ela retrucou:

        No adianta olhar para mim. Nem eu mesma sei o que se 
passou.
        No entanto, parece que voc a curou s com a imposio de 
suas mos. Como isso  possvel?
        Dona Rebeca  intercedeu Jlia , no pode dizer que Sara 
est curada. Ela melhorou,  verdade, mas continua doente.
        Tem razo  acrescentou Marta.  No sei bem o que fiz, 
mas sei que no a curei.
        Mas ela est melhor e dorme placidamente. Isso voc no 
pode negar.
        Dona Rebeca, sinto se no lhe posso dar as respostas que 
tanto anseia. Como lhe disse, eu mesma desconheo o que se 
passou. S o que posso dizer  que senti uma enorme vontade 
de ajudar.
        S isso? Vontade de ajudar? Ora, francamente, ningum faz o 
que voc fez com a s vontade de ajudar. Deve haver algo 
mais.
        Dona Rebeca  interveio Jlia novamente , quer me parecer 
que a senhora no ficou satisfeita com o que aconteceu. Sara 
est melhor e, no entanto, a senhora parece at estar com 
raiva. Por qu?

Rebeca ficou confusa. Jlia tinha razo. Ela deveria estar agradecida 
quela estranha pelo que fizera, mas sentia como se Marta, 
ajudando-a, estivesse tentando roubar-lhe a afeio da filha, e isso 
a encheu de despeito. Contudo, sabia que isso era loucura. 
Conhecera a moa naquele momento. Sara nunca a havia 
encontrado. E depois, por que estaria ela interessada no amor de 
sua filha? No, aquilo era tolice. No havia nada de lgico nem de 
racional naquela antipatia, mas quem podia dizer que os sentimentos 
tinham que ser racionais? Eles simplesmente existem, sem que 
possamos explicar sua origem. Um tanto quanto envergonhada, 
Rebeca tornou:

        Desculpem-me... No tive a inteno de ser grosseira ou mal-
agradecida.  que fiquei confusa e curiosa. Nunca havia visto 
uma coisa dessas na vida e pensei...
        Pensou...  incentivou Jlia.
        Nada, nada.  E, voltando-se para Marta, acrescentou:  
Quero que me perdoe. Estou muito grata pelo que fez.
        Ora, dona Rebeca, no  preciso se desculpar  objetou 
Marta, cheia de compreenso.  Com tudo o que aconteceu, 
 natural que esteja transtornada.

A porta da frente se abriu e Ezequiel entrou, seguido pelo mdico. 
Era j um senhor idoso e entrou fazendo uma reverncia para as 
senhoras. Dirigiu-se para o quarto, em companhia de Ezequiel. 
Rebeca saiu logo atrs, na esperana de que ele tivesse um 
diagnstico mais animador. O facultativo examinou Sara e, aps 
alguns minutos, chamou os pais a um canto e considerou:

        Bem, a pequena est mesmo doente, embora seu estado 
agora parea estvel. Pelo que o senhor me disse, tossia 
muito e expeliu pus e sangue, no est certo.
        Sim, senhor  concordou Ezequiel.
        Hum... Ela est melhor,  verdade. Mas os sintomas so 
reveladores.
        O que quer dizer com isso, doutor?  indagou Rebeca, 
assustada.
        Senhora, lamento pelo que vou dizer, mas sua filha est com 
tuberculose.

Rebeca desabou mortificada e comeou a chorar. Ezequiel, tentando 
controlar as emoes, ainda indagou:

        Tem certeza? No pode ser outra coisa?
        Certeza absoluta. J vi muitos casos como esse.
        E o que faremos?
        Vou ministrar-lhe uma medicao, mas os resultados so 
imprevisveis. Infelizmente, essa doena no tem cura, e 
muitos j padeceram vtimas desse mal.        
        Oh! Meu Deus, meu Deus!  chorava Rebeca.  O que ser 
de minha filhinha?

O mdico olhou-a com bondade. J passara por aquilo diversas 
vezes e sabia o quanto era doloroso para os parentes. 
Principalmente quando a vtima era to jovem quanto aquela 
mocinha. Tentando anim-los um pouco, afirmou:

        Apesar de tudo, muitos conseguiram sobreviver.
         mesmo?  animou-se Rebeca.  Como? O que fizeram?
        No sei. S o que sei  que o tratamento  igual para todos. 
No entanto, inexplicavelmente, algumas pessoas conseguem 
significativas melhoras e prolongam em muito seu tempo de 
vida. Creio que uma alimentao saudvel e ar puro so os 
melhores remdios nesses casos.

O mdico encerrou a consulta e se foi. Ezequiel e Rebeca se 
abraaram, chorando. Amavam a filha mais do que qualquer coisa, 
e no suportariam perd-la. Era jovem, em breve se casaria. Como 
aceitar que Deus fizesse uma injustia dessas com eles, tirando de 
seu convvio uma moa to cheia de vida quanto sua Sara? Por que 
no levava bandidos e malfeitores, em vez de sua menina? Logo 
ela, to boa, to pura. Aquilo no estava certo. Eles no queriam se 
revoltar contra os desgnios de Deus, mas aquilo, decididamente, 
no estava certo.

No caminho de volta, Marta e Jlia iam conversando.

        Tem alguma idia do que aconteceu l?  indagou Jlia.
        Tenho. Embora no tenha certeza, creio que foram os 
espritos.
        Tambm pensei nisso. Mas por qu?
        No sei.
        Isso j havia acontecido antes com voc?
        No, nunca. Conforme lhe falei, sempre os senti junto de mim, 
ouvia suas vozes, e uma vez at um deles me possuiu. Mas eu 
nunca havia tomado uma atitude dessas.
        Acha que estava possuda?
        No sei dizer. Eu podia ver ouvir e sentir tudo o que fazia. 
Podia at parar, se quisesse. No entanto, sentia como se uma 
estranha fora me houvesse dominado, influenciando minha 
vontade e fazendo-me desejar fazer aquelas coisas. Foi muito 
estranho.
        Foi maravilhoso!
        Acha mesmo?
         claro que sim. Pena que Sara no tenha despertado. 
Gostaria que a conhecesse.

Marta olhou para Jlia com olhos midos e tornou:

        Sabe, gostaria de dizer-lhe algo, mas pode at parecer 
loucura.
        O que ?
        Lembra quando Sara olhou para mim e me chamou de 
mame?
        Lembro. O que tem? Ela, na certa, estava meio zonza e as 
confundiu.
        Pode ser. No entanto, quando vi seus olhos sobre mim, senti 
uma emoo estranha, como se no fosse  primeira vez que 
os estivesse vendo.
        Ser?  Jlia estava incrdula.  Mas, como pode ser? Sara 
no  daqui, veio de So Paulo. Nunca antes esteve por estas 
bandas. Como pode achar que a conhece?
        No sei dizer. Eu apenas senti, assim como senti que tambm 
a conhecia, Jlia, logo que nos encontramos.
        O que pretende fazer?
        Penso que seria bom escrever uma carta a frei ngelo. Com 
certeza, ele poder nos ajudar.

Jlia considerou por alguns instantes e acabou concordando:

        Tem razo. Ser que ele no gostaria de passar uns dias aqui, 
na fazenda?
        Seria maravilhoso. No entanto, que desculpa daramos para 
traz-lo?
        No sei. Mas prometo pensar em algo. Dona Palmira  muito 
religiosa, e os filhos esto construindo uma capela para ela. 
Quem sabe no gostaria de receber a visita de um frei? Para 
abenoar as obras, coisas desse tipo. Ento, o que me diz?
        A idia me parece boa. De qualquer maneira, no custa nada 
tentar.

Quando a charrete chegou  fazenda So Jernimo, Fausto correu 
ao seu encontro. Estava preocupado com Jlia. Ela sara e no 
dissera nada, demorando-se alm do habitual. Logo que o carro 
estacionou, ele a abraou e a suspendeu, puxando-a para fora. Jlia 
corou e olhou para Marta, que abaixou os olhos. Ao v-lo se 
aproximar, pensara que era Rodolfo, mas quando ele abraara Jlia, 
vira que estava enganada. No entanto, eram to parecidos! Marta 
estava apaixonada por Rodolfo e, por mais que tentasse, no 
conseguia tirar os olhos de Fausto. Jlia, percebendo o que ia ao 
corao da amiga, perguntou:

        Onde est Rodolfo?
        No sei. Deve estar na plantao. Por que a pergunta?
        Por nada  concluiu ela, lanando significativo olhar para 
Marta, que Fausto logo compreendeu.
        Por que no vamos para a varanda esper-lo? - sugeriu.
        tima idia.
        Sinto muito  interrompeu Marta.  Eu bem que gostaria, 
mas minha me j deve estar preocupada.
        Fausto pode mandar algum avis-la de que chegamos e que 
voc est bem.
        Acha mesmo?
         claro que sim. Por que no fica e almoa conosco?
        Eu adoraria!

Os trs seguiram em direo ao alpendre e se sentaram. J era 
quase hora do almoo, e estavam famintos. Jlia colocou Fausto a 
par do ocorrido, pedindo licena para contar tudo a Drio. Era noivo 
de Sara e precisava saber.

Drio estava sentado  sombra de uma figueira, calmamente lendo 
um peridico. Jlia chegou por trs dele e estalou-lhe um beijo na 
nuca, fazendo com que desse um salto.

        Jlia!  exclamou.  Sua louquinha, voc me assustou.
        Sinto muito, no foi por querer. Mas agora me escute. Preciso 
falar com voc.
        Aconteceu alguma coisa?
        Sim. E muito grave.

Antes mesmo de perguntar, Drio j sabia a resposta. Podia sentir, 
pelo tom de voz da tia, que algo muito srio havia acontecido com 
sua amada, e indagou:

        Com Sara?
        . Lamento pelo que vou lhe dizer, mas voc tem que saber.
        O qu?
        Sara est mesmo com tuberculose.
Drio enfiou a cabea entre os joelhos e desabafou, angustiado:

        Meu Deus! Como soube?

Minuciosamente, Jlia contou-lhe o que acontecera, sem omitir 
nenhum detalhe, inclusive sobre a interveno de Marta. Drio ficou 
confuso e transtornado, sem saber o que pensar. No conhecia 
Marta direito. Somente a vira uma vez e pouco falara com ela. Seria 
confivel?

        Creio que sim  afirmou Jlia.  Marta me parece uma moa 
muito sria e bondosa. Podemos confiar nela. E agora venha, 
vamos entrar.

Eles se levantaram e puseram-se a caminhar, at que Jlia o 
chamou e o advertiu seriamente:

        Outra coisa. Nem uma palavra sobre isso dentro de casa. 
Dona Palmira no pode nem de longe desconfiar que Sara est 
tsica.
        Tem razo. Seria extremamente desagradvel. Eu a conheo 
e sei o quanto ela  preconceituosa. Se souber que arrendou 
sua fazenda para algum com uma enfermidade dessa 
natureza,  bem capaz de expuls-los de l.
        E o mdico recomendou-lhe boa alimentao e ar puro.
        No se preocupe Jlia, no direi nada a ningum.
        timo.

Nesse ponto, Jlia sentiu como se algum os estivesse espionando e 
olhou para trs. No mesmo instante, sentiu o corpo todo se arrepiar, 
ao dar de cara com Terncio, que vinha logo atrs, com ar 
distrado. Ele olhou para ela, srio, e cumprimentou:

        Bom dia, dona Jlia. Seu Drio...
        Bom dia, Terncio  responderam em unssono.

Sem falar mais nada, chegaram para o lado, abrindo caminho para 
que Terncio passasse. O capataz bateu com a mo no chapu, em 
sinal de agradecimento, e passou por eles calmamente, apertando o 
passo logo em seguida. Assim que ele se afastou, Drio indagou:

        Ser que ele ouviu alguma coisa?
        No, tenho certeza. Estava muito longe, e estvamos falando 
baixinho.

Terncio, efetivamente, no escutara nada. Pensava em outras 
coisas e seguia preocupado. Havia pouco se encontrara com 
Constncia e no gostara nada do que ouvira. Constncia ainda 
pensava em vingar-se de Tonha e tivera a coragem de pedir-lhe 
ajuda. Mas ele no estava mais disposto a correr riscos. No 
naquela idade.

Captulo 12

 medida que o tempo passava Marta cada vez mais se aproximava 
de Rodolfo. Ele era gentil e amvel, e isso a encantava. Fausto e 
Jlia se alegraram imensamente com o interesse dos dois, certos de 
que Rodolfo, finalmente, havia se esquecido do surto de loucura de 
que fora acometido. Apenas Palmira no parecia satisfeita. Criara o 
filho com dedicao e esmero. Preparara-o para um casamento 
brilhante, com uma moa da mais alta sociedade, fosse da regio, 
fosse da corte. No que no tivesse por Marta certa admirao. 
Apreciava sua educao refinada e seus gestos delicados. No 
entanto, a moa era filha de seu capataz e, por mais educada que 
fosse, jamais poderia ocultar do mundo a inferioridade de sua 
origem.

Jlia, em sua inocncia, no via mais em Rodolfo nenhuma ameaa. 
Ele a tratava bem, mas com cuidados de irmo, e jamais se 
aproximava dela de uma forma que pudesse levantar suspeitas.

Os jovens pareciam satisfeitos naquela manh. Estavam animados, 
loucos para sair. Era dia de quermesse na vila, e estavam todos 
contentes. Apenas Drio, no querendo se afastar de Sara, recusou 
gentilmente o convite, pretextando no estar se sentindo bem, e 
Palmira estranhou. J tivera problemas com um dos netos. Ser que 
o outro tambm se metera em algum tipo de encrenca?

        O que foi que houve meu filho?  a indagou, olhando pelo 
vidro da janela, enquanto os demais se afastavam.
        H?  assustou-se Drio.  Por que pergunta vov?
        No sei. Voc anda estranho. Quase no sai com seus tios, 
com seu irmo. Aconteceu alguma coisa?

Drio olhou para ela, imaginando o que estaria pensando, at que 
respondeu:

        No, vov, est tudo bem  virou-se para a porta e 
acrescentou:  E agora, se me der licena...
        Vai sair? 

Ele hesitou:

        Vou... Vou sim.
        Posso saber aonde vai?
        Bem, pensei em cavalgar um pouco.
        Por que no foi com seus tios?
        Ora, vov, pense bem. Eles saram acompanhados. O que iria 
eu fazer no meio de dois casais enamorados? Com certeza, s 
atrapalharia.

Ela pensou um pouco e retrucou:

        , tem razo. Mas no fique triste. Por que no chama seu 
irmo para acompanh-lo?
        Tlio? No sei, vov. Tlio anda estranho, arredio, no quer 
falar com ningum.
         mesmo? No havia percebido.
        Mas  verdade. Desde que aquela escrava, a Etelvina, se 
afogou, ele anda esquisito.
        Porque ser?
        No sei. Ser que teve alguma coisa a ver com o 
desaparecimento dela?
        No creio meu filho. Seu irmo  um bom rapaz e no se 
envolveria com negros.

Ele abriu a boca para contestar, quando a entrada da me susteve 
sua observao.

        Ol! Posso interromper?
         claro, mame.
        Deseja alguma coisa, minha filha?  indagou Palmira, mal-
humorada.
        Nada de especial. Gostaria apenas de saber se Drio no quer 
me acompanhar num passeio pela fazenda. Est um dia to 
bonito...
        Gostaria muito, mame  respondeu ele aliviado.
        Vamos, ento?
Os dois saram, e Palmira ficou a olh-los. Eles andavam estranhos. 
Todos naquela casa j no eram mais os mesmos. Tocou a sineta e 
um negrinho apareceu.

        V chamar Terncio  ordenou.

O negrinho saiu e o capataz surgiu cerca de quinze minutos depois. 
Entrou, tirou o chapu e perguntou:

        Mandou chamar, dona Palmira?
        Mandei sim. H pouco, Drio me disse que Tlio anda 
estranho. Quero saber o que est acontecendo.
        Sinto muito, dona Palmira, mas no sei de nada. No o vejo 
h alguns dias.
        Tem notado algo de diferente em seu comportamento?
        Como disse, j faz algum tempo que no o vejo. Por que tanto 
interesse? Ele  jovem, pode estar enrabichado...
         isso o que me preocupa.
        Por qu? Acha que ele pode estar envolvido com alguma 
negra?
        No sei. Tlio  um bom rapaz, apesar de um pouco 
doidivanas. E depois do que aconteceu a Etelvina, no sei 
no...
        Etelvina sumiu.
        Por isso mesmo.

Terncio lanou-lhe um olhar interrogador e retrucou:

        Acha que ele deu sumio na negrinha?
        No sei. Mas desconfio. Drio me disse que foi depois que ela 
sumiu que ele comeou a ficar estranho.
        O que quer que eu faa dona Palmira?
        Quero que voc tente descobrir alguma coisa.
        Dona Palmira, se me permite a intromisso, para que quer 
fazer isso? Se o rapaz usou a negra e depois se desfez dela, 
que mal h nisso? No ter sido a primeira vez que isso 
acontece, e no  nenhum fim de mundo. Ou ser que a 
senhora pretende castig-lo?
         claro que no. Onde j se viu, castigar meu neto por causa 
de uma escrava?
        Ento, por que remexer nisso? Etelvina sumiu ningum sabe 
dela. Provavelmente se afogou. No acha que  melhor deixar 
as coisas como esto?
        Eu preciso saber.
        Mas por qu?
        Porque no quero que meu neto se envolva com esses 
animais. Essas negras so repulsivas, e no quero Tlio metido 
com elas.
        Mesmo assim. Se ele se envolveu com Etelvina, isso j 
passou. Ela no est mais aqui para reclamar.
        No  isso, homem. Ento no v? No  com Etelvina que 
estou preocupada nem com o que aconteceu a ela. Preocupo-
me apenas com meu neto. Se ele se deitou com uma negra, 
quero tomar minhas providncias para que isso no se repita 
nunca mais.

No est direito. Um moo branco, rico, metido com essa escria. 
Agora chega de perguntas, Terncio. Faa o que estou mandando, 
ou ser que agora deu para desobedecer minhas ordens?

        Eu? Mas o que  isso, dona Palmira? Sempre lhe fui fiel, a 
senhora sabe disso.
        Sei. Mas isso no vem ao caso. Faa o que estou mandando e 
avise-me se descobrir alguma coisa.
        Sim, senhora.
Terncio se foi e Palmira continuou pensativa. Ela j estava velha, 
mas no era nenhuma tola. Alm disso, seu instinto dizia que Tlio 
tinha alguma coisa a ver com o desaparecimento de Etelvina, sim. 
No princpio, no desconfiara de nada. Mas depois do que Drio lhe 
dissera, estava quase certa de que ele, efetivamente, envolvera-se 
com ela e depois lhe dera um sumio. Mas ela descobriria. No 
queria seu sangue misturado ao sangue daquela gente e tudo faria 
para impedir tamanha desgraa. Ela comeou a subir as escadas, 
quando Constncia a chamou:

        Tia Palmira?
        Sim, querida, o que ?
        Aconteceu alguma coisa? Posso ajud-la?
        Pensando bem, poderia mandar servir-me uma xcara de ch 
em meu quarto?
        Pois no, titia. Mandarei Tonha agora mesmo preparar o ch e 
lev-lo para a senhora.

Ao entrar na cozinha, Tonha no estava, e Constncia saiu  sua 
procura. Ela estava no quintal, regando algumas plantas, quando viu 
Constncia se aproximar, e disse com aparente normalidade:

        Bom dia, sinh. Deseja alguma coisa?

Constncia encarou-a com aquele sorriso enigmtico e disse:

        Tia Palmira quer ch. Leve-o imediatamente ao seu quarto.
        Sim, sinh.

Tonha largou o balde com que aguava as plantas e virou-se em 
direo  cozinha. Quando passou por Constncia, ela 
propositadamente esticou o p, e Tonha, nada percebendo, 
tropeou e desabou no cho, ralando o rosto na terra. Constncia 
desatou a rir e vociferou:

        Ha, ha, ha! Bem-feito, negra! Agora se levante! Ha, ha, ha! 
Ande, vamos! Levante-se e v preparar o ch!

Tonha, faces sangrando, levantou-se dolorida, sentindo joelhos e 
cotovelos arderem, tambm arranhados. Sentia dor e tremia, no 
conseguia se mover. Constncia, rindo cada vez mais alto, continuou 
a esbravejar:

        Ha, ha, h! Ande negra, o que est esperando? Tia Palmira 
quer ch! Ha, ha, ha! No se demore ou ser castigada!
        Sinh, eu...

Ela estava toda dolorida, humilhada, e no conseguia se mover. 
Constncia chegou perto dela e empurrou-a, e Tonha quase tombou 
novamente, comeando a chorar. Constncia ria cada vez mais alto, 
ao mesmo tempo em que bradava:

        O ch! O que est esperando? V buscar o ch ou ir se 
arrepender!

J ia empurr-la de novo quando Camila surgiu do outro lado do 
terreiro, em companhia de Drio. Estavam passando por ali e 
escutaram as gargalhadas desvairadas de Constncia, e Camila 
podia imaginar o que estava acontecendo. Ao v-la, Constncia fez 
uma careta de contrariedade e recuou. Camila aproximou-se delas, 
segurou Tonha pelo brao e fulminou a prima com o olhar, dizendo 
friamente:

        No se preocupe Constncia. Eu mesma levarei o ch para 
mame.

Tonha, auxiliada por Drio, voltou para a cozinha, e Camila ajudou-a 
a fazer curativo nas feridas. Em seguida, preparou o ch e levou-o 
para a me, pedindo a Drio que acompanhasse Tonha a seu quarto 
para descansar. Eram ordens dela, Camila, e que ningum a 
incomodasse.

Palmira estranhou a ausncia de Tonha, mas Camila disse que ela 
cara e que a mandara cuidar dos ferimentos. Palmira no disse 
nada. No tinha tempo para se ocupar com aquilo. Se ela se ferira 
era problema dela. S o que no queria era que deixasse de 
cumprir com suas obrigaes.

Depois que a me terminou, Camila pegou a bandeja e saiu. Pouco 
depois, entrava decidida no quarto de Constncia. A outra a olhou 
assustada, e Camila, olhos rasos d'gua, desabafou:
        Constncia, no sei o que aconteceu com voc. Houve um 
tempo em que ramos amigas, confivamos uma na outra. 
Mas agora...
        Por que a nostalgia, Camila? No foi voc mesma quem 
comeou a se afastar de mim por causa daquele traste do 
Baslio?

Camila olhou-a magoada e acrescentou com voz splice:
        Ser que no podemos voltar a ser amigas? Somos primas. 
No podemos esquecer o passado e recomear, vivendo em 
paz como antes vivamos?

Constncia dirigiu-lhe um olhar de desdm e redargiu com frieza:
        Voc hoje  uma estranha para mim, e no costumo manter 
relaes com estranhos. Ainda mais com aqueles que so 
amigos dos negros.

Diante dessas palavras, Camila silenciou. Rodou nos calcanhares e 
se foi, levando no corao a imensa mgoa de haver perdido a 
amiga, que continuava ainda entregue a sentimentos pobres e 
mesquinhos.

Na vila, Fausto e Jlia, Rodolfo e Marta passeavam de braos dados. 
Rodolfo parecia mesmo interessado em Marta. Cobria-a de 
atenes, comprava-lhe doces, flores e at um anelzinho de prata 
portuguesa, doado para arrecadar fundos para a igreja. Ele parecia 
 alegria em pessoa e realmente sentia-se bem na companhia da 
moa. No fosse aquela inveja do irmo, que o fazia desejar tudo o 
que fosse de Fausto, poder-se-ia dizer que era a imagem da 
felicidade. De to entretido com Marta, no deixara ningum 
perceber que, sorrateiramente, tomava conta de todos os passos de 
Fausto.   Remoendo amargo despeito, viu quando ele e Jlia, 
discretamente, beijaram-se, e quase enlouqueceu quando ele, 
rapidamente, cingiu-lhe a cintura pequenina. Tinha vontade de 
esgan-lo. No entanto, precisava manter a calma.

Jlia e Fausto, por sua vez, viviam uma felicidade plena. Amavam-
se com ternura e sentiam imenso prazer na companhia um do outro. 
Estavam confiantes no futuro. Apesar de saberem que Palmira no 
fazia muito gosto naquele romance, no havia nada que ela pudesse 
fazer para separ-los, e no lhe restava alternativa seno 
conformar-se com o destino. Em breve se casariam e seriam muito 
felizes.

O Sol estava a pino quando Jlia pediu a Fausto que a levasse para 
descansar. Sentia muito calor e no queria expor-se ao Sol em 
demasia. Fausto, gentilmente, conduziu-a para um banco na praa 
em frente ao ptio da igreja, e de l ficaram a apreciar a 
quermesse. Estava muito animada, com barraquinhas de quitutes, 
rendas, bordados e at algumas jias de pequeno valor. Jlia, vendo 
o interesse de Fausto naquela agitao, aproveitou a oportunidade e 
indagou:

        E as obras da capela, como esto?
        Bastante adiantadas. Creio que mais um ou dois meses e 
estar pronta. Vai ficar uma beleza, garanto.
        Estou certa que sim  ela se calou por alguns segundos e 
continuou:  Quem vai rezar as missas?
        Quem? O padre Joo, se no me engano.  ele quem reza 
missa em todas as fazendas da regio.
         mesmo?
        Sim. Ele escolhe um dia, vai at a fazenda e reza a missa.
         uma pena que no possa haver missa todos os dias, no  
mesmo?
        Sim, . Mas o padre Joo tem seus compromissos com a 
igreja aqui da vila e no pode se ausentar constantemente. 
Por qu?
        Por nada.  que andei pensando...
        Em qu?
        Quem sabe sua me no gostaria de ter um frei morando na 
fazenda? Assim poderia assistir  missa e confessar-se quando 
quisesse, sem ter que esperar pelo padre Joo.

Fausto olhou-a em dvida. A idia at que no era m. No entanto, 
trazer um frei para ali exigiria muitos gastos. Era preciso custear sua 
moradia, sua alimentao. E depois, no sabia se a Igreja 
consentiria. Teria que pedir autorizao ao bispo, era muito 
complicado. Cocando o queixo, ele respondeu.

        Hum... No sei, no. A idia at que no  ruim, mas no 
daria certo.
        Por que no?
        Ora, Jlia, no  assim to fcil como voc pensa. H os 
gastos, os transtornos e, alm de tudo, precisamos de 
autorizao do bispo. Afinal, uma capela no  uma parquia.

Ela pensou durante alguns segundos e acabou por concordar:

        Tem razo, esquea. Foi uma idia tola.
        Mas por que voc, de uma hora para outra, resolveu se 
preocupar com isso?

Jlia ficou ali a encar-lo. Eles se amavam, e ela sabia que podia 
confiar nele. Embora no soubesse se ele acreditava na influncia 
dos espritos na vida das pessoas, tinha certeza de que ele saberia 
respeitar suas crenas e no a julgaria louca ou tola.

        Quer mesmo que lhe diga?
         claro. Por isso estou perguntando.

Rapidamente, Jlia contou-lhe os acontecimentos dos ltimos dias. 
Como conhecera Marta e sua afeio imediata. A enfermidade de 
Sara, a crise e os episdios que Marta lhe narrara, terminando com 
a ajuda de frei ngelo e a carta que ela tencionava escrever-lhe. 
Fausto olhou-a incrdulo. No acreditava naquelas histrias de almas 
de outro mundo e achou aquele caso meio fantasioso. Por outro 
lado, conhecia sua Jlia e sabia que ela, alm de inteligente, era 
uma moa sensata e ponderada, e jamais se deixaria enganar pelas 
crendices de uma beata ou de uma impostora. E depois, havia Sara. 
Jlia lhe dissera que Marta a ajudara s com a imposio das mos. 
Apesar de um tanto quanto incrdulo, terminou por concluir:
        Bem, Jlia, o que voc me diz  espantoso.
        Mas  a mais pura verdade.
        No duvido. No entanto, mame jamais concordaria com uma 
coisa dessas. Chamaria de ignorncia ou de feitiaria, e 
trataria de denunciar o frei como herege e charlato.
        Ela faria isso?
        Sem dvida. Mame  uma pessoa muito ligada  Igreja e 
veria nesse frei ngelo uma ameaa s verdades constitudas 
por seus dogmas. Jamais acreditaria.

Jlia entristeceu. Gostava de Sara como de uma irm e no queria 
v-la morrer. Alm disso, ainda tinha o sobrinho. Drio a amava 
acima de tudo na vida e sofreria muito se a perdesse. Fausto, 
percebendo a decepo e a tristeza em seu olhar, ponderou:

        Por que no fala com seu Ezequiel e dona Rebeca? Afinal, eles 
so os maiores interessados. Quero dizer se no se 
importarem com a presena de um frei, sendo judeus.
         mesmo. No havia pensado nisso. Como frei ngelo  amigo 
de Marta, pensei que o melhor seria traz-lo para junto dela. 
Assim poderamos desfrutar melhor de seus ensinamentos. 
Mas lev-lo para a fazenda Ouro Velho seria bem melhor. E 
depois, dona Rebeca e seu Ezequiel no tm nenhum 
preconceito contra quem quer que seja. Do contrrio, jamais 
seramos amigos. Tenho certeza de que no se incomodariam 
com a presena de um padre.
        Pois ento? L, inclusive, ele teria mais privacidade para expor 
essas experincias. Isso sem falar no fato de que estaria mais 
perto de Sara e poderia atend-la com toda a urgncia que o 
caso requer.
        Acha que ele tambm poderia fazer o que Marta fez?
        No sei. Mas se voc diz que ele  como seu mentor, no vejo 
por que no poderia.
        Tem razo. Frei ngelo, ao que tudo indica, tem profundo 
conhecimento do mundo dos espritos, e se foi um esprito que 
ajudou Sara, ele poder invoc-lo com mais facilidade.
        Isso mesmo. Fale com seu Ezequiel. Tenho certeza de que ele 
concordar. Um homem na posio dele, com a filha doente, 
so capazes de qualquer coisa para salv-la.
        Voc est certo. Falarei com eles e depois pedirei a Marta que 
escreva uma carta a frei ngelo, explicando-lhe o caso e 
convidando-o h passar uns dias na fazenda.

Depois disso, a conversa mudou de rumo, e logo Rodolfo e Marta se 
juntaram a eles. Rodolfo, embora no desgrudasse de Marta, no os 
perdera de vista um instante sequer. Vira quando eles se afastaram 
em direo  praa e ficara a observ-los  distncia. Enquanto s 
conversavam, no se aproximou. Mas assim que Fausto tomou-lhe a 
mozinha delicada e levou-a aos lbios, Rodolfo no pde mais se 
conter e chamou Marta para, juntos, procurarem o irmo e Jlia.
        Ah! Ento foi a que vocs se meteram!  exclamou Rodolfo, 
tentando aparentar naturalidade.
        Jlia estava cansada e com calor  justificou-se Fausto.  Por 
isso viemos nos sentar aqui.
        Vocs encontraram mesmo uma boa sombrinha  concordou 
Marta, sentando-se ao lado de Jlia.  Estou com sede.
        Por que voc e Rodolfo no vo nos buscar uns refrescos?  
sugeriu Jlia.
        Com todo prazer  retrucou Fausto, que se levantou e saiu 
em companhia do irmo.

Vendo-se sozinhas, Jlia participou a Marta a conversa que tivera 
com Fausto. Ela encarou-a pensativa, at que respondeu:
        A idia me parece boa. Ser que seu Ezequiel concordar?
        Tenho certeza que sim. Amanh mesmo falarei com ele e com 
dona Rebeca.

Os rapazes voltaram com os refrescos e depois foram almoar. J 
passava do meio-dia, e eles estavam com fome. Animados, 
seguiram para a pequena taverna da vila que, naquele dia, estava 
cheia. A quermesse da igreja costumava ser bem movimentada e 
atraa gente de toda a regio, inclusive das vilas vizinhas. Jlia e 
Marta riam gostosamente, enquanto Fausto, embevecido com sua 
amada, sequer notava o olhar de rancor que Rodolfo, a todo 
instante, lanava para ele.

CAPTULO 13

Tlio ouviu batida na porta do quarto e disse sem maior interesse:

        Entre. No est trancada.

A porta se abriu e Camila entrou. Aproximou-se da cama, onde ele 
estava deitado com ar abatido, acariciou seus cabelos e perguntou:

        Meu filho, sente-se bem?
        Sim, mame. Por que pergunta?
        No sei. Voc anda estranho. At sua av j reparou.
        Vov?
        Sim. Ela veio me perguntar se eu sabia de alguma coisa.
        Sobre o qu?
        Sobre voc.
        Mas no h nada...
        Ser que no? Voc tem andado bastante estranho. Quase 
no sai, no conversa com ningum. Alguma coisa est 
acontecendo, sei que est. Meu corao de me no se 
engana.
        No est acontecendo nada, mame.

Camila, vendo que ele no estava disposto a dividir com ela seus 
problemas, mudou o tom de voz e disse, tentando imprimir-lhe 
cumplicidade:

        Oua, meu filho, seja o que for que tenha acontecido, pode 
me contar. Sou sua me.

Tlio, pouco  vontade diante daquela insistncia, levantou-se 
apressado e, bufando, revidou:

        J disse que no h nada. Por que no me deixa em paz?
        Mas o que  isso, meu filho? Isso  jeito de falar com sua 
me?
        Desculpe. No quis ser desrespeitoso. Mas  que sua 
desconfiana no tem fundamento.
        Que desconfiana?
        No sei. Diga-me a senhora. De que desconfia? Eu no fiz 
nada, no sei de nada.
        Meu filho, acalme-se. No sei do que est falando. No estou 
desconfiada de nada nem o acuso de coisa alguma. No creio 
que voc saiba ou tenha feito nada. Estou apenas preocupada, 
 s.

Tlio acalmou-se. Ela no sabia de nada mesmo, e no havia nada 
que o ligasse ao desaparecimento de Etelvina. Alis, desde o dia em 
que ela desaparecera ningum nunca mais tocara em seu nome. Era 
apenas uma escrava e seu sumio no era motivo de alarde para 
ningum. Em tom mais conciliador, argumentou:
        Oua mame, agradeo a preocupao, mas no est 
acontecendo nada comigo. Sinto-me apenas cansado.
        Cansado de qu?
        No sei. Desta vida. Tudo aqui  muito calmo, muito 
montono. No h nada para fazer.
        Por que no vai se distrair na vila?
        Ora, o que pode haver de interessante por l?  apenas um 
vilarejo, rodeado de fazendas e de florestas. No h teatros, 
sales, tavernas. Nada de interessante.

Camila suspirou e acrescentou:

        Se  assim que pensa, por que continua aqui?
        Quer que eu v embora?
        Eu no disse isso. Voc  meu filho, e sua companhia me  
motivo de imenso prazer. No entanto, no gosto de v-lo 
assim, triste. Voc  jovem, tem a vida toda pela frente. No 
deve perder seu tempo trancado dentro de casa.
        Tem razo, mame. Creio mesmo que j  hora de partir.
        Voc  quem sabe. Gostaria que ficasse comigo, e sua av 
tambm sentir muito sua falta. Ela se afeioou demais a 
voc.
Contudo, prefiro v-lo longe a ter que presenciar essa sua tristeza. 
Pense bem. No se apresse. Seja o que for que resolva, estarei do 
seu lado.

Ela se aproximou dele, ergueu-se na ponta dos ps e beijou-o de 
leve na testa, virando-se para sair, e Tlio disse emocionado:

        Obrigado, mame.
Camila sorriu para ele, abriu a porta e saiu. Tlio deitou-se 
pensativo. Talvez a me tivesse razo, e o melhor mesmo fosse 
afastar-se dali. Apesar de saber que Etelvina era apenas uma 
escrava, e que a av jamais o castigaria por haver-se envolvido em 
sua morte, o fato era que ele ficara profundamente impressionado 
com a atitude do tio. Servir-se da negra era uma coisa. Mat-la era 
outra totalmente diferente. Tlio no pensava como Rodolfo, que os 
escravos eram pouco mais do que animais. Sabia que eram 
pessoas, fora criado acreditando nisso. No entanto, o desejo nele 
falava mais alto, e no podia recusar as facilidades que as escravas 
lhe ofereciam. Tlio se utilizava delas no porque pensasse que 
eram seres inferiores, mas porque sabia que sua condio de 
homem branco o colocava em posio de superioridade, e ele 
aprendeu que podia se valer desse artifcio para obrig-las a se 
renderem aos seus caprichos.

Quando Raimunda morrera, ele lamentara, mas no se sentira 
culpado. Fora uma fatalidade, e ele no desejara nem tomara parte 
em sua morte. Mas com Etelvina fora diferente. Ele a violentara, o 
que at ento no era motivo de preocupao para ele, e o tio a 
matara num acesso de loucura. Embora ele nada dissesse, estava 
claro que Rodolfo sentira prazer em matar, e isso o estarrecia. 
Desde aquele dia, Tlio, efetivamente, afastara-se de todos, 
permanecendo quieto e acabrunhado, com medo de Rodolfo. O tio 
parecia desequilibrado, e ele passou a ver em Rodolfo certa dose de 
maldade, que o fazia estremecer a cada vez que olhava para ele.

De repente, a porta se abriu e Rodolfo entrou, fechando-a 
cuidadosamente atrs de si. Tlio, embora assustado, permaneceu 
impassvel, olhando-o com frieza.

        Aconteceu alguma coisa?

Rodolfo devolveu-lhe o olhar, e era como se lhe lanasse chispas 
ameaadoras, revidando:

        No sei. Voc  quem vai me dizer.

Embora assustado, Tlio sustentou o olhar do tio, tentando ocultar o 
medo que lhe ia  alma. Ele sabia que se deixasse transparecer o 
medo, Rodolfo o dominaria, e ele, apesar de tudo, no estava 
disposto a se deixar intimidar. Precisava manter-se calmo e 
confiante, mostrando ao outro que no o temia. Por dentro, 
contudo, Tlio tremia. O tio, de uma hora para outra, tornara-se 
para ele uma grande ameaa.

        Dizer o qu?
        Se aconteceu alguma coisa.
        No sei do que est falando.
        Sabe, sim. Estou falando do que fizemos.
        Eu no fiz nada.
        Estou certo, eu fiz. Mas voc tambm participou.
        Oua tio Rodolfo, se veio aqui me alertar, est perdendo seu 
tempo. No falei nada a ningum e nem pretendo falar.
        Sei que no.
        Ento, por que veio? Deixe-me em paz.
        Calma rapaz. Qual foi o bicho que o mordeu? Tlio virou-se 
para a janela e prosseguiu:
        Ento? O que quer?
        Vi Camila saindo de seu quarto ainda agorinha mesmo.
        E da?
        Quero saber o que ela queria.
        Nada de mais. Por qu? Ela  minha me, pode vir  hora que 
quiser.
        Sabe Tlio, no estou entendendo essa sua reao. Voc est 
agindo na defensiva, mas eu, em momento algum, o ataquei. 
Por que tem medo de mim?
        No tenho medo de voc.
        No? Ento por que me trata desse jeito?  
        Voc  um assassino.
        E voc, o que ?
        Nunca matei ningum.
        Pensa que sua atitude foi melhor do que a minha? Como pensa 
que Etelvina se sentiu quando voc a possuiu? E Trajano? Por 
acaso foi correto com ele?
        Isso no vem ao caso. Pelo menos no sujei minhas mos 
com o sangue de ningum.
        Voc se julga melhor do que eu, no  mesmo? Pois fique 
sabendo que no .
        Por favor, tio Rodolfo, no quero mais falar sobre isso. J disse 
que no vou contar nada. Vov nunca ficar sabendo.
        No me interessa o que voc vai falar. E depois, minha me 
jamais tomaria qualquer atitude contra mim ou contra ns.
        Ento, por que a preocupao?
        J disse. No quero provocar os negros.
        Pois ento, esquea.
        S vou lhe avisar uma coisa...
        Vai me ameaar?
         claro que no. Vou apenas pedir-lhe. Cuidado com sua me. 
Camila  amiga dos negros, e se voc der com a lngua nos 
dentes, ela bem pode me prejudicar.
        Escute tio Rodolfo, por mais que voc tema a reao dos 
escravos, no entendo por que tanta preocupao. Afinal, eles 
esto presos e desarmados. O que poderiam fazer contra 
voc?

Rodolfo abaixou os olhos por uns instantes e, quando tornou a 
levant-los, havia fogo em seu olhar. Era um misto de medo e de 
dio, e ele retrucou:

        Os negros so traioeiros e imprevisveis. Ningum sabe do 
que so capazes.

Depois disso, rodou nos calcanhares e saiu. Tlio, intuitivamente, 
desconfiava do que ele tinha medo. Embora ningum percebesse, 
ele achava que o tio estava interessado em Jlia, e se ela soubesse 
o que ele fizera, jamais tornaria a falar com ele. E Rodolfo, ao que 
parecia, estava disposto a enganar a todos, fingindo-se passar por 
um homem bom e generoso, s para cair nas boas graas de sua 
tia. Pensando nisso, Tlio sentiu um aperto no corao. Ser que 
no devia alert-la? Gostava muito de Jlia. Foram criados juntos, 
quase como irmos, e ele no queria v-la presa na teia urdida pelo 
tio. Mas o medo de Rodolfo falou mais alto, e Tlio estava disposto a 
fingir que nada percebera, s para que Rodolfo no o desafiasse. 
Jlia que o perdoasse. Gostava muito dela, mas no estava disposto 
a perder o pescoo s para salv-la.

        Tonha!  era a voz de Palmira, que a chamava com 
impacincia.
        Onde est, negra estpida?
Tonha chegou apressada l de dentro, segurando na mo uma 
colher de pau.

        Sim, sinh. Deseja alguma coisa?

Palmira olhou-a com desdm e tornou com rispidez:

        Onde est Tlio?
        No sei sinh, no vi.
        Mas onde se meteu esse menino?
        Ser que sinh Camila ou sinh Jlia no sabem?
        No. Ningum o viu. Por isso estou perguntando a voc. Quem 
sabe ele no passou pela cozinha?
        No, sinh. Pela cozinha ele no passou, no.
        Mande algum agora mesmo chamar Terncio.
        Sim, sinh.

Tonha voltou para a cozinha e Palmira ficou intrigada. Onde andaria 
aquele menino? Ningum o havia visto sair. Minutos depois, Tonha 
voltou com a notcia de que Terncio tambm no se encontrava, e 
Palmira suspirou. Talvez ele tivesse sado atrs do neto.

Em seu quarto, Camila tambm estava preocupada. Quando a me 
apareceu, procurando pelo filho, ela se sobressaltou. Em breve seria 
noite, e ele no devia andar sozinho pelo escuro. Camila chamou 
Jlia e contou-lhe de sua preocupao:

        Ser que aconteceu alguma coisa?
        No sei Camila. Vamos esperar.
        Ele anda to estranho...
        No devemos nos alarmar. Na certa, saiu para dar uma volta 
e logo, logo, aparecer. Voc vai ver.
        No sei. Mame falou com tanta preocupao...
        Sua me est velha, e qualquer coisinha para ela adquire 
propores imensas. Tenho certeza de que Tlio est bem.
        E Fausto? No est?
        No. Saiu com Rodolfo para tratar de negcios.
        Oh! Meu Deus cuide para que meu filho esteja bem.

Escutaram o rudo de uma porta batendo, e Camila correu para a 
porta, escancarando-a. Atravessando o corredor, foi ter no quarto 
de Tlio e bateu, chamando:

        Tlio? Tlio, meu filho, voc est a?

Logo em seguida, a porta se abriu e Tlio apareceu. Parecia calmo 
e, vendo o nervosismo da me, indagou preocupado:

        Aconteceu alguma coisa?
        Onde esteve, meu filho? Sua av e eu ficamos preocupadas.
        Por qu? Fui apenas dar uma volta.
        Sozinho?
        Algum problema?
        No, nenhum...

Tlio desvencilhou-se dela e voltou para o quarto, com a desculpa 
de que estava cansado e queria repousar at a hora do jantar. 
Camila, mais sossegada, virou-se para Jlia, que considerou:

        Viu s? Preocupou-se  toa.
        Tem razo.

Na biblioteca, trancada com Terncio, Palmira escutava o que ele 
tinha a dizer. Terncio, desde a ordem de Palmira, passara a vigiar 
a casa e vira quando Tlio sara sozinho, embrenhando-se no meio 
do mato. Mais que depressa, pusera-se em seu encalo, sem que 
ele percebesse, e vira aonde tinha ido.

        E ento?  perguntou Palmira, aflita.  Aonde foi?
        A lugar algum  respondeu Terncio, confuso.
        Como assim, lugar algum?
        Pois  dona Palmira. Quando sa atrs dele, at pensei que 
fosse se encontrar com algum. Esperava surpreend-lo nos 
braos de alguma negra. Contudo, qual no foi o meu espanto 
quando ele, simplesmente, entrou pelo meio do mato e foi 
caminhando, at chegar ao fim da fazenda. A parou, 
ajoelhou-se, pegou um punhado de terra e comeou a chorar.
        Mas o que significa isso?
        No sei dona Palmira. Nem eu entendi. Confesso at que fiquei 
espantado. Ele andou durante muito tempo, s para apanhar 
um monte de terra. Por qu?
         o que gostaria de saber.
        Ser que queria ficar sozinho?
        Mesmo assim. Sair andando por a, feito um doidivanas, 
embrenhando-se no mato para ficar chorando? Isso no est 
me cheirando nada bem.
        O que pretende fazer?
        No sei. Mas no faa nada e no diga nada a ningum.

Vou apurar essa histria direitinho.

        Pode deixar dona Palmira, que no direi nada a ningum.

No dia seguinte, bem cedo, Terncio apanhou uma p, montou em 
seu cavalo, certificando-se de que ningum o estava vendo, e partiu 
rumo ao local onde vira Tlio agachado, chorando sobre um monte 
de terra. Aquilo era muito estranho, mas tambm muito revelador. 
Pelo tamanho e pelo formato, aquele monte de terra mais parecia 
uma cova. Apesar da ordem de Palmira, ele estava disposto a 
descobrir quem estava enterrado ali, se  que havia mesmo algum 
enterrado.

Chegando ao local, desmontou e, segurando firmemente a p, 
comeou a cavar, parando de vez em quando para descansar. 
Terncio j no era mais nenhum rapazinho e logo se cansava. Mas 
estava disposto a desvendar aquele mistrio e no perderia essa 
oportunidade. Aos poucos, a terra foi sendo retirada, e logo 
apareceu uma coisa que parecia ser uma mo negra. Ele sorriu 
satisfeito e continuou a cavar, j sentindo o cheiro da podrido que 
exalava daquela sepultura improvisada. Em breve, o corpo de 
Etelvina surgiu nu e coberto de terra. Apesar de o processo de 
decomposio j se haver iniciado, ainda estava reconhecvel. 
Terncio apertou o nariz, tentando no sentir aquele odor ptrido, e 
observou-a melhor. Entre suas pernas havia uma crosta escura, 
parecida com sangue, o que indicava que ela havia sido 
desvirginada antes de morrer. Os olhos esbugalhados e a lngua de 
fora, somados  rouxido ao redor do pescoo, no deixavam 
dvidas de que Etelvina havia sido estrangulada.

Terncio afastou o rosto em busca de ar fresco e inspirou. 
Descobrira o porqu do comportamento estranho de Tlio e 
desvendara o mistrio acerca do desaparecimento de Etelvina. No 
entanto, tinha dvidas de se aquela descoberta era importante. 
        Por que Tlio ocultara o corpo? Por que simplesmente no 
contara  av o ocorrido? Dona Palmira, na certa, passar-lhe-ia um 
sabo, mas nada faria contra ele. Aquilo era estranho. Na certa, 
havia mais por detrs daquela morte. Tlio estava escondendo algo.

Cuidadosamente, recolocou o corpo de Etelvina na sepultura e 
cobriu-o de terra. O melhor a fazer seria esperar o desenrolar dos 
acontecimentos. J sabia o que acontecera, s precisava descobrir o 
motivo. Terncio nem imaginava que o motivo era Rodolfo e sua 
obsesso pelo irmo. De toda sorte, achou que o mais oportuno 
seria no revelar nada, principalmente a Palmira. No momento 
prprio, contaria tudo a Rodolfo. Ele saberia o que fazer.

Sem saber que o corpo de Etelvina havia sido descoberto, Rodolfo 
no se preocupava com nada. S pensava em Fausto e Jlia e, em 
silncio, via-os pela janela de seu quarto, passeando de mos dadas 
pelo jardim. Iam felizes e despreocupados, a ateno de um presa 
nos gestos do outro, sorrindo e se abraando inocentemente. Em 
seu enlevo, no perceberam que algum os espiava e, julgando-se 
sozinhos, pararam perto das roseiras e se olharam. De onde estava 
Rodolfo no podia divisar-lhes os rostos, mas sabia que 
expressavam felicidade. De repente, Fausto colocou a mo na 
cintura de Jlia e empurrou-a para dentro do caramancho, para 
onde convergiam todas as alamedas do jardim. Rodolfo, apesar de 
perd-los de vista, sabia o que eles estavam fazendo. Com certeza, 
beijavam-se apaixonadamente, e ficou a imaginar as mos de 
Fausto sobre o corpo da moa, acariciando-o, sentindo-lhe o frescor 
e a maciez. Sentiu imenso dio. Aquilo no era justo. Por que s o 
irmo podia t-la?

Rodolfo mordeu os lbios com raiva e afastou-se da janela. Ficou a 
imaginar o que fazer para impedir que Jlia e Fausto concretizassem 
seu amor. Ela era uma moa meio livre, criada sem pai nem me; o 
irmo, ausente, e a cunhada parecia no se importar. No havia 
ningum que tomasse conta dela, que lhe direcionasse os passos, 
que lhe dissesse o que devia e o que no devia fazer. Jlia era 
voluntariosa e estava acostumada a fazer o que bem entendia. Sua 
nica esperana era Fausto. Ele conhecia o irmo e seus pudores. 
Mas no podia facilitar. O amor e o desejo, numa hora dessas, 
podiam falar mais alto, e ele veria rurem para sempre seus sonhos 
de, um dia, tomar Jlia do irmo, fazendo-o sofrer.

Jlia e Fausto estavam longe de se amar antes do casamento. Ela 
era muito romntica e casta, e Fausto era por demais digno e 
correto para desonr-la. Queria-a virgem para a noite de npcias.
Ele a amava de verdade. Podia esperar. Quanto a Jlia, ansiava por 
entregar-se a ele, mas no queria fazer nada que pudesse macular 
sua pureza. Tambm o amava e tambm podia esperar. Sua 
intimidade no ia alm de beijos e de abraos apertados, e os dois 
se sentiam felizes e satisfeitos por poderem compartilhar daquelas 
carcias sem o peso da culpa ou do medo.

Completamente desnorteado, Rodolfo saiu para o jardim. Queria 
flagr-los em alguma atitude menos digna e saiu desabalado em 
direo ao caramancho. Caminhando por outra alameda, divisou o 
vulto de uma mulher, sentada em um banco, distrada com a leitura 
de um romance. Rodolfo logo reconheceu Marta e mudou de idia. 
Ela estava sozinha, entretida com a leitura, e nem percebeu que ele 
se aproximava. Chegando por detrs dela, colocou as mos sobre 
seus olhos, e ela teve um sobressalto:

        Adivinhe quem   disse ele, disfarando a voz. Ela apalpou-
lhe as mos e respondeu eufrica:
        Rodolfo!

Afastando-lhe as mos dos olhos, virou-se para ele, meio em 
dvida, e sorriu. Rodolfo sentou-se ao lado dela e disse com voz 
melflua:

        Como adivinhou que era eu?
        Ora, foi muito fcil. Primeiro, reconheci sua voz. Segundo, 
suas mos so inconfundveis... Se tivesse visto seu rosto, 
podia at ter me enganado, confundindo-o com Fausto. Mas s 
voc tem as mos midas e quentes, vibrantes de paixo.
Rodolfo olhou-a com interesse. Estava claro que ela gostava dele, 
ele j percebera isso. Mas at que ponto iria aquele amor? Ele, por 
sua vez, achava-a bastante atraente e amava-a sem perceber. Sua 
obsesso pelo irmo toldava-lhe a espontaneidade do corao, e 
Rodolfo, em sua cegueira, no podia perceber que seu interesse por 
Marta ia alm de uma simples atrao.

Pensando na cena que h pouco presenciara entre Jlia e o irmo, 
seu corpo encheu-se de desejo, e ele aproximou-se mais dela, 
segurando-lhe a mozinha e beijando-a com ardor. Marta assustou-
se e quis tirar a mo, mas ele no permitiu. Em vez disso, levou-a 
ao peito e sussurrou:

        Sente como meu corao bate forte?  Ela assentiu.  E por 
sua causa que ele bate assim. Eu a amo.

Rodolfo puxou-a para si e a beijou, e ela correspondeu. Estava 
extasiada, embevecida, enleada. Rodolfo era tudo com que sempre 
sonhara, e aquela declarao enchia-a de amor e desejo. Tomada 
pela paixo, ela gemia e sussurrava:

        Oh! Rodolfo, eu tambm o amo. Amo-o desde o primeiro 
instante em que o vi.
        Quer ser minha?  continuou ele em tom aucarado.
        Para sempre  respondeu ela, a voz trmula de emoo.
        Ento venha.

Ele se levantou e puxou-a pela mo, abraando-a em seguida. Ele 
mal podia se conter, o corpo ardendo de desejo, e beijou-a 
novamente, com tanta sofreguido, que ela quase sufocou. Em dado 
momento, ela tentou se esquivar, mas Rodolfo, completamente 
inebriado por aquele corpo jovem de mulher, buscou sua boca com 
furor e recomeou a beij-la, acariciando-a de forma ousada. Em 
seguida, deitou-a sobre o banco e deitou-se sobre ela, tentando 
levantar-lhe a saia, enquanto alisava seu corpo todo com a outra 
mo. Marta, apavorada, empurrou-o com fora, levantou-se 
assustada, tentando recompor-se, e balbuciou:

        Rodolfo... O que... O que houve com voc?

Ele, vendo que estava prestes a perder sua presa, partiu para cima 
dela e, enlaando-a pela cintura, suplicou:

        Nada, minha querida. Eu a amo. Deixe-me faz-la mulher.

Marta tentava, a todo custo, soltar-se das garras de Rodolfo,  mas 
ele era mais forte e no a largava.

        No, no  implorava.  No quero. Solte-me, por favor. 
Deixe-me ir, no posso...
        No, meu amor. Vou faz-la feliz, voc vai gostar. Venha 
comigo.
        No, por favor...

No auge do desespero, Marta conseguiu desvencilhar-se dele e, sem 
pensar, estalou-lhe uma bofetada no rosto, e ele imediatamente a 
soltou. A face comeou a avermelhar-se, tanto pela ardncia do 
tapa quanto pela vergonha de que era acometido. Rodolfo, 
transtornado, segurou-a pelos punhos e, sacudindo-a, comeou a 
gritar:

        O que deu em voc? Ficou louca? Como se atreve a bater-
me?

Marta, completamente amedrontada, choramingava:

        Perdoe-me, Rodolfo, no foi por querer. Tive medo... Pensei 
que fosse me fazer mal...

Rodolfo, percebendo o que quase fizera, retrocedeu. Ele no podia 
perder a confiana de Marta. Temia que ela contasse a algum, 
principalmente a Jlia. Soltando-lhe os pulsos, sentou-se no banco, 
afundou a cabea entre as mos e fingiu chorar:

        Oh! Marta, quem tem de lhe pedir perdo sou eu. Quase a 
machuquei. No tinha o direito. Mas  que o amor... Eu a 
amo, Marta, e no pude me conter. Por favor, perdoe-me, 
perdoe-me! Sou um cafajeste, no mereo voc!

Marta, penalizada e acreditando na veracidade de suas palavras, 
ajoelhou-se a seu lado, segurou-lhe as mos entre as suas e 
objetou:

        No fale assim, Rodolfo. Eu compreendo. Voc  um rapaz 
maravilhoso, e eu o amo.
        Voc me ama?  tornou ele com olhos midos.
         claro que sim.
        Pode perdoar-me por minha atitude indigna?
        Voc foi movido pela emoo. Acontece.
        Mas eu quase... quase...
        Nada aconteceu. Eu estou bem.
        Felizmente. Se algo tivesse acontecido, eu jamais me 
perdoaria.
        Se algo tivesse acontecido, seria porque eu tambm o amo.
        Mas no. Voc  uma moa pura, e eu no poderia abusar de 
sua inocncia. Mas  que o amor... Amo-a tanto, Marta, que 
quase no me contive. Por favor, diga que me perdoa.
        Est bem. Se for to importante para voc, eu o perdo. 
Agora no pense mais nisso. J passou.
Rodolfo abraou-a com mansido, e ela deixou-se abraar. J no 
havia mais o ardor de antes, e ela se acalmou. Sentira muito medo 
dele, mas amava-o tanto que seus olhos no conseguiram enxergar 
a realidade por detrs daquelas palavras. Em silncio, ela ergueu 
seu queixo e enxugou seus olhos, e ele, sem nem perceber, sentiu 
imenso prazer naquele gesto to simples. Instintivamente, segurou-
lhe a mo e beijou-a delicadamente, acrescentando com voz 
melosa:

        Obrigado.

Marta sorriu de volta e apertou a mo de Rodolfo, levando-a as 
faces. Estava, ela tambm, agradecida. Acreditava que ele a amava 
e sentia-se feliz com seu amor. Em sua ingenuidade, prosseguiu:

        Se me ama de verdade, por que no fala com meu pai? Tenho 
certeza de que ele ficaria muito feliz. Minha me no fala em 
outra coisa. Admira-o demais.                
        Vamos ver  concluiu ele.

Rodolfo no tinha a menor inteno de fazer a corte a Marta. Ao 
menos enquanto no destrusse a felicidade do irmo. Depois que 
afastasse Jlia dele, vendo Fausto vencido e humilhado, pensaria no 
que fazer com Marta. Ele gostava muito da moa, e no seria 
nenhum sacrifcio, mais tarde, t-la em seus braos tambm.

CAPTULO 14

Uma semana depois, Rodolfo, Fausto, Marta e Jlia partiam em 
viagem para o Rio de Janeiro. Estavam entediados com a rotina da 
fazenda e, como Fausto tinha negcios a resolver, aproveitaram 
para se distrair um pouco na corte. Camila achou a idia tima e at 
os teria acompanhado, no fosse por Drio que, por causa de Sara, 
recusara-se a ir. Aldo, embora a contragosto, no teve como 
recusar. Estimulado pela mulher, acabou por consentir que Marta os 
acompanhasse. Afinal, ia com os patres e com dona Jlia. Que mal 
poderia haver?

Ao chegarem  corte, foram para um hotel de luxo e hospedaram-
se. Marta ficou com Jlia, enquanto Fausto dividia o mesmo quarto 
com Rodolfo. A cidade fervilhava. Era o centro cultural do pas, e 
havia muitas coisas para ver. Visitaram ruas e palcios, tavernas e 
confeitarias, museus e teatros. Jlia, encantada com o brilho e a 
moda da corte, comprou vestidos, sapatos e jias, no se 
esquecendo de presentear Marta com diversos artigos finos e de 
bom gosto.

Certa manh, em que Rodolfo acompanhava as moas nas compras, 
devido a compromissos de negcio ao qual Fausto no podia faltar, 
Jlia, estranhando o calor, sentiu-se mal e pensou que ia desmaiar. 
Estavam em uma casa comercial muito requintada, escolhendo 
perfumes vindos diretamente de Frana, e a atendente ofereceu-lhe 
um div para descansar. Marta largou os frascos de perfume e 
aproximou-se dela. Vendo-lhe a palidez e o suor que lhe escorria da 
testa, disse alarmada:

        Meu Deus, Jlia, o que foi que houve?
        No sei. Sinto-me terrivelmente mal. A cabea me di, o 
estmago parece revirado.
        Deve ser o calor...  arriscou a atendente.
        Com certeza  concluiu a gerente.
        Creio que seria melhor lev-la para o hotel  acrescentou 
Marta.
        Oh! No  protestou Jlia.  Logo agora que voc est se 
divertindo.

Nesse momento, Rodolfo passou pela porta. Havia se separado delas 
apenas um instante, parando diante de uma loja de chapus 
masculinos. Depois de comprar o que queria, encaminhou-se para a 
casa de perfumes, onde sabia que elas estavam. Vendo Jlia deitada 
sobre o div, branca feito cera, correu para ela, indagando 
assustado:

        Jlia! O que aconteceu?
        Ah! Rodolfo, que bom que chegou  disse Marta, aliviada. 
Jlia sentiu-se mal e quase desmaiou. Acho que seria mais 
prudente voltarmos para o hotel.
        Mas o que  isso?  objetou Jlia novamente.  No 
precisam se preocupar comigo. Posso muito bem chamar uma 
carruagem e ir sozinha. No quero estragar suas compras, 
Marta.
        Nada disso. Voc est doente. No deve andar sozinha por a, 
pois nem conhece a cidade direito. Alm disso, j terminei de 
comprar o que tinha para comprar. Podemos ir.
        Mas voc ainda ia visitar frei ngelo.
        Frei ngelo pode esperar.
        Mas ele a aguarda. No  justo...
        O que no  justo  deixarmos voc sair daqui sozinha, 
passando mal.
        Se voc quiser Jlia  interrompeu Rodolfo , posso 
acompanh-la de volta ao hotel. Se Marta no se importar,  
claro.
         lgico que no me importo. Ficaria at muito grata. Assim 
poderia visitar frei ngelo despreocupada.
        No, Marta, voc  que no deve sair sozinha.
        Bobagem, minha querida. Conheo a corte. Fui educada aqui, 
lembra-se?
        Mesmo assim.
        No discuta Jlia. Voc e Rodolfo podem ir. Visitarei frei 
ngelo e, logo, logo, estarei de volta ao hotel.

Vendo que no adiantava discutir com Marta, Jlia no teve outro 
remdio seno aceitar a companhia de Rodolfo. O moo ficou 
extasiado. Teria algumas horas a ss com ela, e aquilo o encheu de 
desejo. E se ele tentasse novamente? No. Ainda no era a hora. 
Para alcanar seu objetivo, era preciso torturar o irmo, minando-
lhe a confiana que tinha em Jlia. Aquela seria apenas uma 
oportunidade para pr em prtica seu plano, e ele tinha que se 
controlar, caso contrrio, poria tudo a perder.

Rodolfo beijou Marta no rosto e, dando o brao a Jlia, saiu com ela 
para a rua, tomando a carruagem que os levaria de volta ao hotel. 
No caminho, iam conversando amenidades, e ele, a todo instante, 
perguntava se se sentia melhor. Jlia ficou encantada com a 
ateno do futuro cunhado. Ele estava mesmo mudado. Tratava-a 
com respeito e distino, no fazendo qualquer insinuao ou 
comentrio maldoso. Em vez disso, no se cansava de elogiar 
Marta, referindo-se a ela como a moa que lhe conquistara o 
corao.
De volta ao hotel, Rodolfo ajudou Jlia a se recolher ao quarto, 
pediu a presena de um mdico e prontificou-se a ajudar. Depois 
que o facultativo saiu, sentou-se  cabeceira de sua cama e ficou 
velando-lhe o sono, com a justificativa de que aguardava a volta de 
Fausto. Quando este chegou, foi informado na portaria de que a 
senhorita Jlia sentira-se mal, j tendo sido atendida pelo mdico, e 
que se encontrava descansando em seu quarto, em companhia do 
senhor Rodolfo. Fausto dirigiu-se para l apressado e entrou sem 
nem bater na porta. A meia luz viu que Jlia dormia tranqilamente, 
tendo a seu lado Rodolfo, sentado numa poltrona, semi-adormecido. 
Fausto no pde deixar de sentir certo cime e, batendo no ombro 
do irmo, despertou-o, chamando-o para a ante-sala.

        O que foi que houve?  indagou com certa exasperao na 
voz.
        Nada de mais  respondeu Rodolfo, com afetada 
preocupao.  Jlia sentiu-se mal na rua, devido ao calor, e 
eu a trouxe de volta. Mas agora j est melhor, graas a 
Deus.

Fausto encarou-o em dvida e continuou:

        E Marta?
        Foi visitar um tal de frei ngelo. J ouviu falar?
        J, sim. Foi seu amigo e confessor enquanto esteve no 
convento.
        Foi o que imaginei.
        Foi sozinha?
        Sim. Por qu?
        Deixa sua namorada sair sozinha s para trazer a minha para 
o hotel?
        Oua Fausto, sei o que est pensando, mas no  nada disso. 
Eu s quis ser gentil. Marta est bem e foi ela mesma quem 
insistiu para que eu trouxesse Jlia.

Vendo que deixara transparecer o cime e a insegurana, Fausto, 
no querendo parecer desconfiado, relaxou a voz e concordou:

        Tem razo, meu irmo, perdoe-me.  que fiquei preocupado.
        Esquea. Bem, agora que voc chegou, j posso voltar para o 
quarto. Quero descansar um pouco  j ia saindo, quando se 
voltou da porta e indagou:  E os negcios? Conseguiu 
resolver tudo?
        Sim. Tive sorte e vendi quase toda a prxima safra.
        Excelente. Sabe Rodolfo, estive pensando...
        Em qu?
        No  justo que voc se ocupe sozinho dos negcios da 
fazenda.
        Mas  voc mesmo quem diz que no tem tino para negcios 
e prefere cuidar da contabilidade.
        Eu sei. Mas se voc quiser, posso tentar ajud-lo. No  justo 
que voc fique trabalhando enquanto eu me distraio com as 
moas. Podemos dividir os encargos.

Fausto olhou-o emocionado, j sentindo remorso por hav-lo julgado 
mal.

        No  necessrio, meu irmo. Gosto do que fao e sinto 
imenso prazer em negociar.
        Est bem. Voc  quem sabe. Mas, se desejar, no se acanhe. 
Sabe que pode contar comigo.

Ele sentou-se ao lado de Jlia e passou a mo sobre sua testa, 
sentindo-a fresca. Abaixou-se e beijou seus cabelos, sentindo-lhe o 
perfume e a maciez. Amava Jlia mais do que tudo no mundo e 
tinha certeza de que ela o amava tambm. Sabia que no precisava 
sentir cimes, mas havia alguma coisa estranha no irmo que, 
inconscientemente, o alertava. Sem saber identificar suas 
desconfianas, Fausto sentia-se culpado e procurava no dar 
ouvidos  voz interior que, a todo instante, tentava chamar sua 
ateno para a realidade por detrs da solicitude de Rodolfo.
J no final da tarde, Marta chegou e encontrou Jlia acordada, 
tomando um caldo quente e saboroso, que Fausto, delicadamente, 
entornava em sua boca.

        Jlia, minha querida  cumprimentou Marta, beijando-a na 
face.
        Como se sente?
        Muito melhor, obrigada.
        O mdico a examinou?
        Examinou, sim  adiantou-se Fausto.  Rodolfo me contou 
que ele esteve aqui e disse que no  nada srio. Apenas uma 
leve indisposio, causada pelo calor. Jlia no est 
acostumada a clima to quente.
         verdade. Onde moro, o clima  bem mais ameno.
        Fico feliz em saber disso. Fiquei preocupada e quase no fui 
visitar frei ngelo.
        Por falar nisso, como foi seu encontro com ele?
        Melhor do que o esperado.
        Quer dizer ento que ele aceitou?
        Sim. No princpio relutou, mas depois que lhe contei tudo o 
que havia acontecido, acabou por concordar. Seguir logo 
aps a nossa partida, que  o tempo de que necessita para 
ajeitar tudo.
        No vai contar a Rodolfo?  perguntou Jlia.  Afinal, vocs 
esto namorando, e creio que deva confiar nele.
        Tem razo. Mas temo que ele no compreenda. O que acha 
Fausto?
        Sinceramente, Marta, no sei. Rodolfo  um homem estranho. 
Ao mesmo tempo em que  gentil, pode ser extremamente 
passional.
        Ser? Mas ele diz que me ama.
        De qualquer modo  cortou Jlia , no  justo engan-lo. 
Depois que descobrir, vai se sentir trado.
        Por que no lhe conta apenas que Sara est doente e que frei 
ngelo tentar ajud-la? Ele no precisa saber que ela  judia. 
Alis, com a presena de um frade, sequer ir desconfiar.
        Fausto tem razo. Quem ir imaginar que um frei estar 
auxiliando uma famlia de judeus, e mais, hospedado em sua 
prpria casa?

Marta olhou para eles e disse convencida:
        Tem razo. Farei isso agora mesmo.

Rodolfo recebeu a notcia sem maior interesse. Para ele, tanto fazia 
que a moa estivesse doente e que estivesse recebendo a ajuda de 
um frade, ou seja, l o que fosse. Desde que isso no atrapalhasse 
seus planos, ele nada tinha a opor. Afinal, a fazenda estava 
arrendada para aquela famlia, cujo nome nem conhecia, e eles 
tinham o direito de convidar quem quisessem para visit-los.

Fausto e Rodolfo, dada sua posio social, conheciam muitos nobres 
e fidalgos na corte, e foram convidados para inmeras festas e 
concertos. Haviam ido a um baile, em comemorao s bodas de 
prata de um baro, amigo de sua famlia, e Marta encantou-se com 
o luxo e a pompa que imperavam nos sales. Estava feliz da vida, 
danando com Rodolfo, enquanto Jlia e Fausto rodopiavam, 
aninhados nos braos um do outro. Rodolfo remoia cada vez mais a 
inveja e o despeito, mas no deixava transparecer. No intervalo da 
orquestra, as moas saram para tomar ar puro, e Fausto viu-se 
preso por um comendador, com quem mantinha importantes 
negcios. Aproveitando-se da situao, Rodolfo saiu em busca de 
Jlia, encontrando-a no jardim, em animada prosa com Marta.
        As moas querem beber alguma coisa?  indagou, logo que 
se aproximou delas.
        Oh! Rodolfo, por favor  respondeu Marta.  Estamos 
morrendo de sede.

Rodolfo saiu e voltou logo em seguida, trazendo nas mos duas 
taas de vinho, que imediatamente ofereceu a elas.

        Onde est Fausto?  quis saber Jlia.
        Conversando com um comendador, amigo da famlia. Ele 
mantm importantes negcios conosco.
        Oh, mas que maante! Tratar de negcios logo num dia de 
festa.
        No se importe Jlia. Tenho certeza de que ele conseguir se 
desembaraar do comendador e em breve se juntar a ns. E 
agora, se me der licena, gostaria de danar com Marta 
novamente.
        Rodolfo  objetou Marta , no seja grosseiro. No devemos 
deixar Jlia sozinha.
        No se importem comigo. Ficarei aqui, aguardando Fausto.
        Bem, se  assim...

Enquanto eles se afastavam, Jlia os ficou admirando. Formavam 
um bonito par, e ela estava satisfeita por Rodolfo t-la esquecido, 
voltando suas atenes para outra moa. Marta amava-o com 
sinceridade, e via-se o quanto estava feliz em seus braos.

Quando a valsa terminou, Rodolfo e Marta saram  procura de 
Fausto e Jlia, e foi encontr-la sozinha, sentada numa poltrona, 
admirando a beleza do baile. Fausto, lamentavelmente, no 
conseguira ainda livrar-se do comendador e continuava preso a sua 
conversa enfadonha. Reparando no ar de aborrecimento de Jlia, 
privada da companhia do amado, Marta sugeriu a Rodolfo:

        Por que no tira Jlia para danar? Ela j est ficando 
aborrecida com a ausncia de Fausto.
        No ser melhor esper-lo?
        Ora, querido, o que  isso? No  justo nos divertirmos 
enquanto Jlia fica sentada. Vamos, convide-a para danar.
        Tem certeza?
         claro que tenho.
        Est bem. Se for o que quer...

Rodolfo inclinou-se para Jlia, convidando-a para a valsa, mas ela 
recusou. No queria interromper a diverso da amiga e gostaria de 
estar ali para quando Fausto a procurasse.

        No seja tola  recriminou Marta.  Fausto no vai se 
importar se voc danar um pouco. E depois, eu estarei aqui e 
falarei com ele.

Jlia fez um ar de dvida, mas acabou aceitando. Adorava danar e 
j estava entediada de ficar ali sentada, sem ter o que fazer, 
enquanto todos se divertiam. Levantou-se com graa, tomou o 
brao de Rodolfo e partiu com ele para o salo. Dali a poucos 
instantes, Fausto, finalmente livre da conversa do comendador, saiu 
a sua procura, contrariado por hav-la deixado sozinha tanto tempo. 
No a encontrou, porm, mas avistou Marta, que ia caminhando em 
sua direo.

        Voc viu Jlia?
        Jlia est danando com Rodolfo.

Ele levantou uma sobrancelha, em sinal de indignao, e partiu para 
o salo. Havia muita gente ali, e ele ps-se a procur-la. Atrs dele, 
Marta seguia-o sem nada entender. Logo a avistou. Enlaada pela 
cintura, Jlia deixava-se conduzir pelos braos de Rodolfo. De vez 
em quando, ele sussurrava algo em seu ouvido, e ela sorria 
graciosamente. Fausto sentiu o sangue ferver. Sem conseguir 
explicar o motivo, a viso de sua amada, envolvida pelos braos de 
seu irmo, encheu-o de cime e despeito. J ia interromper a valsa 
dos dois quando Rodolfo o viu. Na mesma hora, parou a dana, 
cumprimentou o par e apontou para Fausto. Jlia sorriu e acenou 
para ele, correndo ao seu encontro. Assim que o alcanou, foi logo 
exclamando:
        Fausto! At que enfim. Pensei que no o visse mais hoje.
        Pelo visto, est se divertindo  retrucou-o com certa ironia, 
que ela no percebeu.
        Oh! Sim, graas a Rodolfo que, to gentilmente, convidou-me 
para danar. E a nossa Marta tambm que, de bom grado, me 
cedeu o par por alguns instantes.
        Bem, no foi nada  disse Rodolfo educadamente.  E agora, 
se me permitem, gostaria de voltar aos braos de minha 
amada.

Com um sorriso nos lbios, Rodolfo deu o brao a Marta e partiu 
com ela para o meio do salo, enlaando-a e rodopiando com ela. 
Fausto, envergonhado, no sabia o que dizer. Estava claro que o 
irmo apenas tentara ser gentil com Jlia, danando com ela para 
que no se sentisse s ou aborrecida. No havia nenhum outro 
interesse naquele gesto. Apenas a gentileza.

Quando voltaram para o hotel, j era tarde. Marta, desacostumada 
quelas festas, acabou por adormecer, e Fausto seguia silencioso, 
pensando em seu cime, enquanto Jlia ia conversando 
animadamente com Rodolfo. Falavam da msica muito bem tocada, 
da decorao magnfica do palacete do baro, dos trajes ricos e 
elegantes... Tudo fora perfeito naquela noite. At a inesperada 
ausncia de Fausto havia sido compensada pela gentileza de 
Rodolfo. Fausto no dizia nada. Ele no queria admitir, mas o fato 
era que estava morrendo de cimes. Embora Rodolfo fosse apenas 
gentil e educado, no demonstrando nenhum interesse maior em 
Jlia, Fausto sentia-se inseguro. Ele no sabia explicar, mas sentia 
no irmo uma grande ameaa  sua felicidade.

No dia seguinte, pensaram em visitar um museu. Havia uma 
exposio de pintores franceses na cidade, e Jlia estava louca para 
ver. J estavam na porta do hotel, aguardando a carruagem, 
quando um pajem saiu correndo ao encontro deles, pedindo para 
falar com Fausto.

        Senhor Fausto! Senhor Fausto! Fausto virou-se desgostoso e 
retrucou:
        O que  rapaz?
        Mensagem urgente para o senhor.

O menino estendeu-lhe um bilhete, que ele abriu e leu 
ansiosamente.  medida que lia, seu rosto ia se contraindo e, 
quando terminou, fez uma careta de contrariedade e disse 
desgostoso:

        Lamento, mas no poderei acompanh-los.
        Por qu?  indagou Rodolfo, mal contendo a alegria.
        Lamentavelmente, tenho negcios urgentes a resolver.
        Mas que negcios so esses que no podem esperar?  
perguntou Jlia, decepcionada.
        Um de nossos clientes. Parece que quer desistir da compra.
        Por qu?
        No sei. Mas parece que encontrou melhor preo.
        Isso no pode esperar?  insistiu Jlia.
        Infelizmente no, minha querida. Se perdermos esse negcio, 
teremos um prejuzo imenso.
        Quer que eu v em seu lugar?  ofereceu-se Rodolfo.
        No, claro que no. Voc no est acostumado a esse tipo de 
negcio. Deixe comigo. Assim que resolver tudo, partirei ao 
seu encontro.

A carruagem chegou e os trs se foram, enquanto Fausto pedia um 
outro carro para ele, espumando de raiva. Mas o que  que estava 
acontecendo? Parecia que de repente todos conspiravam contra ele, 
roubando-lhe a companhia de Jlia. Enfim, o que fazer? Perder o 
negcio era impossvel. Era de clientes como aquele que dependia 
todo o seu sucesso. Vendo que no tinha remdio, Fausto tomou 
outra carruagem e partiu ao encontro do comprador insatisfeito.

Enquanto isso, Jlia, Rodolfo e Marta chegavam ao museu. A 
exposio era lindssima, e eles se encantaram. Levaram a manh 
inteira apreciando os quadros, as obras de arte, at que a hora do 
almoo chegou. Os trs voltaram para o hotel, pediram a refeio e 
comeram, sem que Fausto desse sinal de vida. Terminado o almoo, 
Marta e Jlia pediram licena para se retirar. Estavam exaustas e 
queriam descansar at o anoitecer. Haviam combinado tomar ch 
em casa de uns conhecidos de Marta e queriam estar bem 
dispostas. Rodolfo, porm, tentando uma cartada para estar perto 
de Jlia, arriscou:

        Que pena. Queria tanto comprar um presente para mame!
        Oh! Meu querido  disse Marta.  Estou realmente cansada. 
Se no, at que o acompanharia.
        Eu sei. No quero insistir. Podem deixar que irei s.

Jlia, porm, no se esquecendo das inmeras gentilezas que ele, 
at ento, lhe dispensara, quis retribuir e chamou-o de volta:

        Espere. Irei com voc. No estou assim to cansada.
        Voc?
        Se Marta no se importar...
         claro que no me importo. Isto , se voc no estiver 
mesmo cansada.
        Pois no estou. E adoraria ajud-lo a comprar um presente 
para dona Palmira. Mas no vamos demorar, no ?
         claro que no.
Saram de braos dados. Caminharam pelas ruas agitadas, parando 
em frente s vitrines, sem saber pelo que se decidir.

At que, finalmente, Jlia escolheu em um lindo broche em forma 
de passarinho, todo de esmeraldas, e Rodolfo comprou sem hesitar. 
Levaram a tarde inteira naquilo e quando voltaram, j era quase 
hora do ch. Logo que entraram no saguo do hotel, avistaram 
Fausto, que estava sentado, esperando por eles. Havia chegado 
pouco depois que eles saram e fora informado por Marta que 
haviam ido s compras e que no se demorariam. Ao v-los entrar 
de braos dados, Fausto no se conteve e explodiu:

        Mas onde  que vocs estiveram? E fazendo o qu? Por acaso 
pensam que sou algum idiota, ?

Rodolfo olhou-o, fingindo-se magoado.

        Fomos apenas comprar um presente para mame  e exibiu-
lhe o pequeno embrulho, contendo o broche de esmeraldas.
        Jlia, gentilmente, ajudou-me a escolher. Veja, coloquei seu 
nome no carto.

Fausto olhou envergonhado. Deixara-se dominar pelo cime 
novamente e quase cometera uma injustia. O irmo e Jlia eram 
apenas amigos, seriam cunhados. Era natural que se entendessem 
bem. E depois, havia Marta. Ela no se importava porque sabia que 
no havia nada entre eles. Mal conseguindo conter a vergonha, ele 
rodou nos calcanhares e tomou a direo da rua. Precisava sair 
pensar, refletir. Estava ficando louco, e Jlia no merecia. Rodolfo 
tambm no merecia. Ele era seu irmo, errara uma vez, 
confessara-lhe o erro e pedira-lhe perdo. No havia motivo para 
desconfiar dele. No que ele soubesse.
Envergonhado com sua desconfiana, e mais, com sua reao 
impensada, Fausto s voltou ao hotel tarde da noite. Quando entrou 
em seu quarto, alm de Rodolfo, Jlia e Marta tambm se 
encontravam presentes. Estavam todos preocupados com seu 
desaparecimento, e ningum conseguira dormir. J passava da 
meia-noite quando ele abriu a porta, e Jlia, ao v-lo, correu para 
ele, atirando-se em seus braos.

        Oh! Fausto, meu amor!  exclamou ela, ao mesmo tempo em 
que comeou a chorar.  Por que fez isso conosco? Quase 
nos mata de susto e preocupao.

Fausto no conseguia encar-la. Nem a ela, nem a Marta, muito 
menos a Rodolfo. Tentando dissimular a vergonha, disse 
simplesmente:

        Perdo.
        Mas querido, no h o que perdoar.
        Isso mesmo, meu irmo  concordou Rodolfo.  O assunto j 
est esquecido. Voc ficou com cimes, foi s. Mas no 
precisava ter fugido daquele jeito.

Ele encarou o irmo com olhar de agradecimento. No fundo, ainda 
sentia cimes, mas no queria demonstrar. No queria nem ao 
menos sentir. Ele tornou a abraar Jlia e sussurrou em seu ouvido, 
de modo que s ela pudesse escutar:

        Eu a amo.

Ela o estreitou forte e respondeu:

        Eu sei querido. Tambm o amo muito.
        Perdoe-me.

Jlia no respondeu com palavras, mas pousou-lhe um beijo suave 
nos lbios, e havia tanto amor, tanta doura naquele beijo, que 
Rodolfo sentiu-se mal. Ele at que estava se saindo bem em sua 
silenciosa tarefa de incutir no esprito do irmo o cime e a 
desconfiana. Mas presenciar cenas de amor entre ele e Jlia era 
demais. Marta, por sua vez, estava feliz por ver que tudo acabara 
bem e abraou Rodolfo, que por pouco no a repeliu. Ela, 
intimamente, sentiu um qu de rejeio em seu corpo, pois todos os 
seus msculos se contraram ao toque de seus braos. Como, 
porm, amava-o loucamente, no conseguiu detectar o porqu 
daquela reao inesperada. Rodolfo, mal contendo a inveja e o 
despeito, rosnou entre dentes:

        Acho que j  hora de as moas se recolherem. Afinal, no 
fica bem permanecerem no quarto de dois rapazes solteiros 
at altas horas da madrugada.

Fausto soltou Jlia a contragosto e acabou por concordar:

        Tem razo, Rodolfo.  uma pena ter de deix-la, Jlia, mas  
para o bem de vocs.
        No queremos que as moas fiquem faladas, no  mesmo, 
Fausto?
        No, claro que no.
        Ento vamos.

Depois que elas se foram, Rodolfo voltou-se para Fausto e, mos 
pousadas em seus ombros, disse, cheio de emoo:

        Fausto, meu irmo. Peo que me perdoe se por acaso o 
ofendi. No tive a inteno.
        Rodolfo, no...
        Por favor, no me interrompa. Preciso me explicar.
        Mas voc no tem nada que se explicar...
        Mesmo assim. S sa com Jlia porque Marta estava cansada 
para me acompanhar, e Jlia me ajudou a escolher um 
presente para mame. Como  seu aniversrio no ms que 
vem, pensei que ela ficaria feliz com uma jia comprada na 
corte. Mas quero que saiba que Jlia, apesar de haver 
balanado meu corao no passado, hoje nele ocupa o lugar 
de irm, pois que o de amada  agora de Marta.

Fausto olhou-o emocionado. Apesar de tudo, amava o irmo e no 
podia esconder o arrependimento e a vergonha por hav-lo julgado 
mal. Segurando-lhe a mo pousada sobre seu ombro, retrucou 
agradecido:

        Sei disso, Rodolfo, e quero que voc me perdoe. Fui um tolo 
ciumento, mas prometo que isso nunca mais vai acontecer.

No dia seguinte, partiram de volta  fazenda. Ningum mais tocou 
no assunto da vspera, que pareceu haver ficado esquecido. Fausto 
tentava no demonstrar o cime que lhe corroia a alma. Mesmo 
aps as escusas do irmo, mesmo depois de saber-se injusto e tolo, 
no conseguia dominar seu cime. No sabia como explic-lo. Por 
mais que quisesse, sentia como se o irmo representasse uma 
ameaa a sua felicidade com Jlia. No havia razo plausvel para 
aquilo, mas quem podia dominar os sentimentos? E mais, as 
sensaes?

De volta  fazenda, foram recebidos com festa. Palmira, sabendo de 
seu retorno, mandara preparar lauto banquete. No estava 
acostumada a separar-se dos dois filhos ao mesmo tempo e sentira 
muitas saudades. Sentados  mesa do almoo, Rodolfo e Fausto 
participaram  me sua inteno de dar uma festa, em 
comemorao a seu aniversrio. As obras da capela tambm j 
estavam bastante adiantadas e, se tudo corresse bem, poderiam 
inaugur-la no mesmo dia, e a festa comearia com a primeira 
missa rezada na fazenda. Palmira encantou-se. Era tudo o que podia 
desejar de filhos to amorosos e dedicados.

J no final da refeio, Fausto mandou que servissem champanhe e 
pediu licena para falar. Certificando-se de que todas as atenes 
estavam voltadas para ele, comeou a dizer:

        Mame, Camila, talvez a hora no seja das mais prprias, mas 
no posso mais esperar  a me e a irm olharam-no 
surpresas, e ele prosseguiu:
        Como j  do conhecimento de todos, Jlia e eu nos amamos 
e, por isso, gostaria de pedir sua mo em casamento.

Um raio no teria atingido Rodolfo com maior intensidade. Ele se 
levantou de chofre e acabou por derrubar a taa de champanhe 
sobre a mesa. Vendo o lquido espalhar-se sobre a toalha branca, 
emudeceu e tornou a sentar-se. No havia o que dizer, e qualquer 
reao contrria poderiam pr todos os seus planos a perder. 
Palmira olhou o filho e uma desconfiana comeou a brotar em sua 
mente. Ser que Rodolfo tambm estava apaixonado por Jlia? Era 
s o que faltava.

Quanto a Jlia, ergueu-se surpresa. Aquele pedido fora inesperado. 
Fausto no lhe participara a inteno de pedir-lhe a mo naquele 
dia, e isso a deixou embaraada. No entanto, no podia esconder a 
felicidade. Amava-o imensamente e o que mais queria era tornar-se 
sua mulher. E depois, ele tinha razo. J estavam enamorados h 
algum tempo, e nenhum dos dois era mais criana. No havia 
motivo algum para que no concretizassem logo aquela unio.

Drio sorriu para ela e estendeu-lhe a mo por cima da mesa. 
Gostava muito da tia e de tio Fausto, e achava que haviam sido 
feitos um para o outro. Ela segurou-lhe a mo, agradecida e, em 
seguida, olhou para Tlio, que permanecia cabisbaixo, sem nada 
dizer, bem como Constncia, que comia a sobremesa sem prestar 
nenhuma ateno ao que se passava.

        Meu filho  comeou Palmira, dirigindo-se a Fausto , no 
acha que  ainda muito cedo?
        No, mame, no acho. Como disse, Jlia e eu nos amamos, e 
no sei por que esperar.
        Mas Fausto Jlia no tem pai e o irmo  que  responsvel 
por ela. Contudo, no se encontra aqui presente entre ns.
        Quanto a isso, mame  interrompeu Camila , no precisa 
se preocupar. Tenho certeza de que Leopoldo no se opor. 
Escrever-lhe-ei uma carta hoje mesmo, contando-lhe a 
novidade e pedindo-lhe que venha. Estou certa de que 
atender meu chamado.

Palmira lanou para ela um olhar de fogo. Aquele casamento no 
estava em seus planos, e ela no via meios de impedi-lo. Ainda 
pensou em tentar dissuadir o filho, mas achou que isso s serviria 
para aproxim-lo ainda mais de Jlia. Decidiu que seria melhor se 
calar. Ao menos por enquanto. Depois falaria com ele, longe das 
vistas dos demais, e tentaria cham-lo  razo.

Agindo por um impulso que no saberia explicar, Fausto perguntou 
inesperadamente, dirigindo-se a Rodolfo:
        Por que no aproveita e no pede tambm a mo de Marta?

Rodolfo remexeu-se, confuso. No tinha a menor inteno de 
desposar Marta, mas o irmo tratava de encurral-lo e forar uma 
atitude sua. A moa no estava presente. Fora direto para casa, e 
Palmira aproveitou para externar toda a sua indignao:

        O qu? Isso  que no!

Camila olhou para a me, indignada, e indagou:

        Por que, mame? Marta me parece uma excelente moa.
        Mas  pobre.  filha de capataz. Como Rodolfo pode pensar 
em despos-la?

Rodolfo comeou a ficar nervoso. Estava em territrio perigoso e 
precisava tomar cuidado para no se queimar. Se, por um lado, 
concordava com a me e no tinha a menor inteno de se casar 
com a filha de um mero capataz, por outro, no podia deixar que 
Fausto e Jlia percebessem suas reais intenes. Era uma faca de 
dois gumes, e ele precisava agir com muita cautela, a fim de no se 
delatar. Tentando escolher as palavras, disse de forma sutil e 
estudada:

        No  bem assim, mame. Marta e eu nos gostamos, mas 
ainda estamos nos conhecendo.
        Ora, Rodolfo!  interrompeu Jlia.  Ento j no se 
conhecem o suficiente? No estiveram juntos na corte?
        Como assim?  perguntou Palmira, aflita.
        Acalme-se, mame  tranqilizou Rodolfo.  No  nada 
disso que a senhora est pensando.
        Oh! No  apressou-se Jlia a corrigir suas palavras.  Por 
favor, dona Palmira, no me interprete mal. Marta  uma boa 
moa e muito direita tambm. No era a isso que me referia. 
O que quis dizer  que Rodolfo e Marta passaram muito tempo 
juntos, conversando e se conhecendo.
        Jlia est certa, mame  endossou Fausto.  Eu mesmo fui 
testemunha de que ela  uma moa muito honesta e digna.
        Est bem, est bem  cortou Palmira, j enjoada daquela 
discusso exaltando as qualidades morais de Marta.  Mas, 
ainda assim, penso que ela no  moa para Rodolfo. Ele  um 
rapaz fino, educado, merece uma esposa  altura de sua 
posio social.
        E voc, Rodolfo?  indagou Camila, voltando-se para o irmo. 
 No diz nada?
Ele levantou os olhos, em dvida.

        O que devo dizer? Marta  uma excelente moa, e gosto dela 
de verdade. No entanto, creio que ainda no chegou  hora de 
me decidir.
        Mas se foi voc mesmo quem disse que a amava  lembrou-o 
Fausto, recordando a conversa que tiveram na noite anterior. 
 Ou ser que j se esqueceu? Ou mudou de idia?
        No  nada disso.
        Mas voc disse que amava Marta.
        Eu disse que Marta ocupava o lugar de amada em meu 
corao.
        No  a mesma coisa?

Ele estava ficando confuso e transtornado. Queria fugir correndo dali 
e o teria feito, no fosse  me, que interviera em seu favor.

        Por favor, Fausto, no pressione seu irmo. Deixe que ele 
mesmo se decida. Eu, de minha parte, insisto em que essa 
moa no  para ele.
        Est bem, mame  arrematou Camila.  Deixemos essa 
conversa para depois. No v que Rodolfo no est gostando?

A conversa tomou novos rumos, mas Fausto no parava de exaltar 
seu amor por Jlia. At que Rodolfo, no podendo mais se conter, 
pediu licena e se retirou, saindo para a varanda em busca de ar. 
Estava ficando sufocado ali dentro e precisava respirar. J no 
suportava mais a felicidade do irmo. 

CAPTULO 15

Uma semana depois, frei ngelo chegou  fazenda Ouro Velho. 
Embora de religio e credo diferentes, ele logo simpatizou com a 
famlia de Ezequiel. O homem era amvel e corts, e sua esposa, 
gentil e educada, e ele, em pouco tempo, sentiu-se  vontade 
naquele ambiente. Marta, prevenida de sua chegada, tratara de ir 
esper-lo, juntamente com Jlia, Camila e Drio, que muito 
ansiavam por conhec-lo. Feitas as devidas apresentaes, Jlia 
disse emocionada:

        Frei ngelo,  um imenso prazer conhec-lo. H muito 
esperava essa oportunidade.
        Marta me falou muito bem da senhorita. Tem-lhe muito apreo 
e admirao.
        O sentimento  mtuo. Gosto de Marta como de uma irm.
        Ouvimos muito falar de sua habilidade  disse Rebeca.
        Que habilidade?
        Ora, com as coisas extraordinrias e sobrenaturais.

Frei ngelo sorriu complacente. No era velho, aparentando cerca 
de cinqenta anos, e guardava no semblante traos de uma 
bondade genuna e alegre.

        Minha senhora  disse , mas o que  isso? Tenho algum 
conhecimento do mundo dos espritos, mas posso assegurar-
lhe que ele nada possui de extraordinrio. Muito menos de 
sobrenatural. Isso so apenas crendices de gente ignorante.

Vendo que ela havia corado, frei ngelo tratou logo de se corrigir:

        Perdoe-me, no quis ofend-la. No queria dizer que a 
senhora  ignorante, seno apenas das coisas espirituais. Mas 
no h com o que se preocupar. Quase ningum tem acesso a 
essas informaes, porque os homens esto ainda muito 
atrasados em relao s coisas de Deus. Tudo pensa que  
obra do demnio, como se s o diabo fosse capaz de realizar 
feitos maravilhosos.
        Bem, frei ngelo  disse Camila , o senhor h de convir que 
fomos criados com essa crena.
        Sei disso e no pretendo mud-la. Creio que ainda no  
chegada a hora de se revelarem tais verdades.
        Por que no?  interessou-se Ezequiel.
        De que adianta uma revelao para ouvidos que ainda no 
esto prontos para ouvir?
        Como assim?  quis saber Jlia.
        Minha cara, de nada vale as verdades se quem as escuta 
permanece ainda preso a conceitos antigos. Por mais que 
tentemos e nos esforcemos, ningum vai acreditar. Pense 
bem. H quinhentos anos, tinha-se a crena de que a Terra 
era quadrada, e quem dissesse o contrrio era at queimado 
como bruxo. E isso por qu? Porque o homem de ento ainda 
no havia amadurecido suas idias para compreender que o 
mundo  redondo. A mesma coisa acontece com a verdade do 
esprito. Hoje, essa verdade  tida at como heresia, e mesmo 
eu corro o risco de ser expulso da Igreja e at excomungado.
        Bem, isso l  verdade  concordou Ezequiel.  E o senhor 
no tem medo?
        Medo? Eu? No, no tenho. Abracei a carreira religiosa por 
vocao, porque acreditava que poderia servir a Deus de uma 
forma til. Com o tempo, descobri que minha maneira de 
servi-lo era estudando e praticando seus ensinamentos de uma 
forma mais livre e consciente, menos arraigada a valores 
histricos e mais prximos das reais necessidades do ser 
humano.
        E quais seriam essas necessidades?
        Conhecermo-nos a ns mesmos, em primeiro lugar. Somente 
aquele que conhece a si prprio, seus pendores, instintos e 
sentimentos, est apto a compreend-los e transform-los em 
proveitosas lies de vida. Conhecendo-se, o homem pode se 
programar para ser feliz e evitar o sofrimento.
        Meu caro frei  tornou Ezequiel, incrdulo , sem querer 
ofend-lo, no acha que isso  um sonho? O sofrimento existe, 
faz parte da humanidade desde que o mundo  mundo. E  
atravs dele que aprendemos e nos aproximamos de Deus.
        De certa forma, sim. Mas no porque isso seja necessrio. 
No . Ns aprendemos com o sofrimento sim, porque ainda 
somos muito ignorantes para compreender que podemos optar 
por caminhos menos dolorosos para crescer. E se nos 
aproximamos de Deus, no  porque o sofrimento, por si s, 
nos tenha elevado a Ele, mas sim porque conseguimos, de 
alguma forma, tirar algum proveito da dor e transform-la em 
nosso prprio benefcio. Infelizmente, em nossa infncia 
espiritual, ainda no podemos compreender que ningum vem 
ao mundo para sofrer, seno para ser feliz.
        Mas o sofrimento existe, e isso o senhor no pode negar  
insistiu Ezequiel.
        Existe, no nego. Mas dia haver em que aprenderemos a 
transformar nossas imperfeies movidas pelo amor, e no 
pela dor.

Ezequiel continuava olhando-o incrdulo. Queria muito acreditar no 
que ele dizia, mas via no sofrimento algo que no se podia evitar e 
j comeava a se resignar com o infortnio de Sara.

        Veja minha filha, por exemplo. Por que sofre? Uma menina 
ainda, to nova, to meiga e, no entanto, padece vtima de 
maldita enfermidade.

Frei ngelo endereou-lhe um olhar bondoso e acrescentou:

        As enfermidades so apenas umas formas de nos mostrar que 
algo em nossa vida no vai bem. Elas nos indicam que h um 
desequilbrio em nossas atitudes, apontando-nos o caminho 
para nosso restabelecimento, no s fsico, mas tambm 
espiritual.
        Concordo plenamente com o senhor  interveio Camila.  Em 
minhas experincias no convento, tive a oportunidade de 
observar que todos aqueles que adoeciam tinham algum tipo 
de enfermidade da alma. Muitos eram tristes, outros eram 
rancorosos, outros ainda, viviam se atormentando por culpas, 
mgoas e ressentimentos.
        Minha querida  disse Ezequiel novamente , isso faz parte 
da vida.
        Mas por qu? Ser que a sade no  o caminho natural da 
vida? Por que temos que adoecer?
        No sei. Porque  a vontade de Deus.
        Por que Deus quer que Sara adoea, enquanto h outros por 
a, praticando o mal, que nada sentem de ruim?
        No sei. So os mistrios divinos, aos qual ningum tem 
acesso.
        Engana-se, meu caro  objetou frei ngelo.  Os mistrios de 
Deus esto a para serem desvendados. Cabem a ns, 
espritos eternos, descortinar o vu que encobre as 
maravilhosas lies de sabedoria escritas no sagrado livro da 
divindade.
        Tenho c minhas dvidas.
        Pois no devia. E quanto  senhora, dona Camila, est certa. 
Tambm j tive a oportunidade de observar a relao entre as 
enfermidades e os nossos conflitos internos. Servi, durante 
muitos anos, no hospital beneficente mantido por nossa 
parquia e, em minhas experincias, tambm pude tirar 
concluses muito interessantes.
        Que concluses seriam essas?
        Notem bem. Ningum nunca comprovou nada. So apenas 
dedues extradas dos muitos anos de convvio com os 
doentes, principalmente com aqueles ditos abandonados da 
sorte.
        Por favor, frei ngelo, prossiga  estimulou Camila, bastante 
interessada.  Conte-nos como conseguiu chegar a essas 
concluses.
        Em primeiro lugar, separei os doentes em razo de seus 
males. Em uma das alas do hospital coloquei aqueles que 
sofriam de doenas relacionadas ao aparelho digestivo. Em 
outra, acomodei os que sofriam dos pulmes, os que tinham 
problemas urinrios e assim por diante. E sabem quais foram 
s concluses que tirei?
        Quais?
        Em sua maioria, quem adoecia de problemas de fgado eram 
as pessoas que tinham muita raiva guardada dentro de si. 
Pessoas que alimentavam raiva por seus semelhantes, por 
seus pais, por seus desafetos, mas que nunca tiveram 
coragem de exprimir esse sentimento.
        No acha que fizeram bem?  objetou Ezequiel.  Ser que 
devemos agora sair por a ofendendo, matando ou 
espancando as pessoas, s porque sentimos raiva delas?
        No, em absoluto. O ser humano deve agir com discernimento 
e respeito, e jamais deve se deixar levar pelos impulsos e 
invadir a vida de seus irmos.
        Ento concorda comigo que a raiva  um sentimento que deve 
ser dominado, e no estimulado.
        No se domina um sentimento fingindo que ele no existe. 
Quem assim age apenas mascara o sentimento, mas ele 
permanece ali, escondido, latente, sendo reprimido, quando 
deveria ser compreendido e externado.
        Ora, frei ngelo  retrucou Rebeca , se eu invejo algum, 
por exemplo, sei exatamente por que estou invejando. Isso 
no  compreenso?
        No, se no aceitar para si mesma que o que sente e inveja. 
Na maioria das vezes, ns colocamos uma capa na inveja e 
ela vira crtica. Se eu invejo algum, no posso fingir que no 
tenho inveja s porque isso  feio ou reprovvel pela 
sociedade. No. Em primeiro lugar, tenho que aceitar que o 
sentimento existe e que  real. Em segundo lugar, devo tentar 
entender os motivos que me levaram a invejar, e eu preciso 
reconhecer que o sentimento parte de mim, nasce de uma 
incapacidade minha para alguma coisa. E, por fim,  preciso 
que eu o aceite e aprenda a conviver com ele, o que no 
significa que eu tenha que me resignar com a inveja e 
estimul-la. Quando digo conviver com o sentimento, quero 
dizer que devo aceit-lo como algo que existe em mim e que 
me incomoda, que faz mal a mim e a meus semelhantes. Se 
me faz mal,  preciso transform-lo em algo positivo, e eu 
posso ento aprender a direcionar essa inveja para construir 
algo que eu julgava impossvel, mas que s depende de minha 
fora de vontade e do meu grau de determinao.
        Com a inveja isso at pode ser fcil  ponderou Jlia , 
porque podemos lidar com ela sem que tenhamos que 
envolver mais ningum. Mas como externar determinados 
sentimentos, como a raiva, o dio, sem agredir o ofensor?
        Para que nos expressemos, no  necessrio agredir ningum, 
bastando que sejamos sinceros com aquele que nos ofendeu.
        Devolvendo a ofensa?  sugeriu Drio.
        No. Devolvendo o ato em forma de esclarecimento, para que 
nosso irmo tenha a oportunidade de rev-lo. Se voc me 
ofende e eu sinto raiva, no devo me calar, pois que, calando, 
transfiro para o meu corpo o que poderia ser devolvido ao 
universo em forma de expresso. No devemos guardar a 
raiva, devemos sempre express-la de uma forma saudvel, 
de preferncia falando, colocando-nos diante de nosso ofensor 
e expondo a ele a nossa insatisfao. E isso deve ser feito com 
qualquer sentimento, e no apenas com a raiva. Resolvem-se 
as mgoas, as tristezas, os medos; se assumimos o que 
sentimos, em vez de tentarmos nos enganar, mentindo para 
ns mesmos que no nos deixamos dominar por nenhum 
sentimento que costumamos denominar de ruim ou feio; se 
compreendemos por que sentimos, ento estaremos prontos 
para nos modificar para melhor. S assim poderemos manter 
nosso organismo em perfeito equilbrio.
        Mas que interessante!  impressionou-se Camila.
        Sim, muito interessante  concordou Ezequiel.  S no sei 
se acredito nisso. Perdoe-me, frei ngelo, mas isso so apenas 
palavras bonitas, que impressionam, no nego, mas cujo 
sentido prtico ainda est bem longe de ser comprovado. As 
coisas no so assim to simples quanto quer fazer parecer.
        Meu amigo, a vida, em si,  muito simples. Ns  que temos a 
mania de complic-la.
        E qual seria a frmula milagrosa para tanta simplicidade?  
ironizou Ezequiel.
        O amor e a compreenso  disse frei ngelo com convico. 
 Somente aquele que compreende a si e os seus irmos 
agem com espontaneidade e simplicidade, porque  capaz de 
colocar amor em seus gestos e em suas palavras, e nunca age 
por maldade ou vingana.
         verdade  disse Marta.
        E os problemas dos pulmes?  quis saber Rebeca, desviando 
o assunto.  A que se relacionaria?
        Normalmente esto relacionados a pessoas muito solitrias, 
tristes, carentes, que se sentem abandonadas ou rejeitadas.
        Viu s?  animou-se Camila.  Eu no falei?
         verdade  concordou Rebeca.  Camila j nos havia dito a 
mesma coisa.
        Ento minhas experincias no esto distantes da realidade!  
concluiu frei ngelo, com entusiasmo.  Se algum que no 
conheo, em um lugar distante, tira as mesmas concluses,  
porque estamos no caminho certo!
        No pode ser coincidncia?  arriscou Drio.
        No, meu filho. Acredito que coincidncias no existam. As 
coisas esto todas nos seus lugares, assim como as pedras de 
uma pirmide, que no esto dispostas ao acaso. Cada uma 
delas  essencial para a sustentao da construo inteira.
        Oh, frei ngelo, suas palavras me parecem de profunda 
sabedoria  elogiou Rebeca.  Mal posso esperar para que 
conhea minha filha Sara.
        Ento, o que estamos esperando? Por que no vamos agora 
mesmo ver a menina?

Frei ngelo entrou no quarto de Sara acompanhado apenas por 
Rebeca. Vendo-a deitada sobre o leito, a respirao meio ofegante, 
condoeu-se. Aproximou-se da cama e, tocando-lhe gentilmente a 
testa, despertou-a. Sara abriu os olhos e sorriu para ele. Embora 
nunca o tivesse visto, no estranhou sua presena ali, e era como 
se j o estivesse esperando. Com um sorriso nos lbios, murmurou:

        Que bom que veio!

Rebeca, pensando que a filha delirava, adiantou-se e disse:

        Minha filha, este  frei ngelo, de quem j lhe falei. Ele acaba 
de chegar. Veio aqui para tentar ajud-la.
        Como vai, Sara?
        Estou bem. Na medida do possvel, sinto-me bem.

Frei ngelo olhou para ela com ternura. Vendo-a assim to frgil, a 
impresso que dava era a de que ela no resistiria e perderia a 
batalha para aquela enfermidade cruel. No entanto, frei ngelo 
sabia do potencial interno da menina. Podia sentir isso. Voltou-se 
para Rebeca e pediu:

        Gostaria de ficar a ss com ela por uns instantes.

Rebeca assentiu e se retirou. Estava esperanosa. No sabia por 
que, mas tinha certeza de que aquele frei seria o nico capaz de 
ajud-los.
Quando frei ngelo saiu do quarto de Sara, todos o aguardavam 
ansiosamente, e a primeira pergunta que lhes chegou  mente, e 
que Rebeca externou, foi:
        Ela vai ficar boa?

Frei ngelo olhou-a penalizado. Podia sentir toda a sua angstia de 
me e gostaria de poder dar-lhe uma resposta mais conclusiva. No 
querendo, porm, dar-lhe esperanas vs, respondeu com a maior 
sinceridade possvel:

        Isso s vai depender dela.
        Como assim?  indignou-se Ezequiel.  Sara est doente e  
apenas uma menina. Como pode pretender que ela cure a si 
mesma?
        Seu Ezequiel  tornou frei ngelo, bondoso e paciente.  Sua 
filha est em desequilbrio e, por isso, adoeceu. Diante de um 
sentimento que no pde compreender, no soube como 
express-lo e acabou por imprimir a enfermidade em seu 
corpo de carne.          preciso que ela entenda seus prprios 
sentimentos para, compreendendo-os, transform-los em 
fonte de sade e de vida.
        L vem o senhor com as suas teorias...
        No foi para isso que me chamaram? Para tentar ajudar a 
menina com as minhas... Teorias?
        Sim, mas pensei que o senhor tambm conhecesse algum tipo 
de medicamento novo...
        Sinto decepcion-lo, seu Ezequiel, mas meus mtodos so 
esses, e o maior remdio que conheo  a f incondicional em 
Deus.
        Isso mesmo, Ezequiel  recriminou Rebeca.  Precisamos 
tentar de tudo e chamamos frei ngelo aqui porque ouvimos 
falar de sua bondade e de seus magnficos conhecimentos. 
No v voc agora querer atrapalhar.

Ezequiel encarou o frei com certo ar de dvida. Mas Rebeca estava 
certa. Era preciso tentar de tudo para salvar sua Sara, e se aquele 
frade dizia conhecer novos mtodos, precisava dar-lhe crdito. 
Afinal, o homem era simptico e parecia ter bom corao e boa 
vontade. Dera-se ao trabalho de deixar a corte e viajar at ali, era 
porque estava, realmente, disposto a ajudar.

        Est bem  suspirou convencido.  O que devemos fazer?
        Em primeiro lugar, abrir as janelas. Deixar que a luz do Sol 
penetrasse em seu ambiente e renove suas energias.
        Mas, e as correntes de ar?  foi  vez de Rebeca protestar.
        Minha senhora, no precisa se preocupar com isso. Afinal, ela 
veio aqui para respirar ar puro, e trancando-a no quarto ela 
estar respirando sempre o mesmo ar contaminado.
        Faz sentido...  disse Camila de si para si.
        Deixe-a sair, sentir o Sol em seu rosto, caminhar ao ar livre.
        Ah, mas ela sai. Todas as manhs, quando se sente bem, 
toma Sol no jardim.
        Deve tomar Sol sempre. Os raios solares so extremamente 
benficos  sade humana, desde que no haja uma 
exposio excessiva nem em horrios muito quentes.
        Devo lev-la mesmo quando est de cama?
        Dona Rebeca,  preciso ter bom senso. Se Sara no estiver 
disposta, no devemos for-la. S ela  capaz de dizer como 
est se sentindo. Mas se ela quiser sair, devemos fazer sua 
vontade e lev-la para passear.
        Passear?
        Sim, passear. Ela no caminha, no  mesmo?
        Bem, no. Ela se cansa facilmente, e temos medo de que o 
cansao excessivo acabe por enfraquecer-lhe ainda mais os 
pulmes.
        De certa forma, a senhora tem razo. Mas no devemos 
exagerar.  claro que Sara no deve fazer caminhadas longas 
nem exaustivas. Mas andar pela fazenda, ir at o riacho e at 
cavalgar so exerccios que s lhe faro bem. O Sol e o ar 
puro devem invadi-la por completo, tocar sua pele, seus 
pulmes, fazer com que ela perceba a maravilha que  estar 
viva. Alm disso, procurem sempre conversar com ela, dem-
lhe ateno, ajudem-na a sentir-se integrada  famlia e, 
principalmente, ao mundo.
        Muito bem  concordou Ezequiel, aps alguns minutos de 
silncio e expectativa.  E depois?
        Depois? Bem, estarei aqui para ajud-la a entender seu 
processo de adoecimento e buscar a cura.
        Mas s?  indignou-se Ezequiel novamente.  Nenhum 
remdio?
        Por enquanto, no.
        Pretende cur-la s com sua conversa?
        No, com meu auxlio. Pretendo ajud-la a abrir seu corao e 
fortalec-lo, para que ela acredite que a fora da vida  capaz 
de nela penetrar, levando a seu corpo tudo o que for 
necessrio para seu restabelecimento. Alm disso, creio que 
posso ministrar-lhe doses de energia com minhas mos.

Ezequiel estava incrdulo. Gostara de frei ngelo, sentia que ele 
estava disposto a ajudar, mas ainda no confiava em seus mtodos.

        Frei ngelo  prosseguiu , sei que suas intenes so boas. 
Contudo, quer negar o avano da cincia?
        Em hiptese alguma. A cincia vem prestando valorosos 
prstimos no auxlio aos enfermos, e no posso negar que est 
a servio de Deus. No entanto, a cura para a enfermidade de 
sua filha no foi ainda descoberta pela cincia. No futuro, 
quem sabe? Mas agora, precisamos lutar com outras armas.
        Que armas?
        A confiana e a f em Deus.
        No sei se acredito nisso. Curar uma doena sem nenhum 
remdio? Parece-me impossvel.
        Sabe seu Ezequiel, quando adoecemos j trazemos em nosso 
ntimo o germe da cura. Basta que acreditemos nele e o 
desenvolvamos.
        Hum... No sei, no.
        Por que no me deixa tentar?
        O senhor no est entendendo. E claro que deixarei que tente. 
Contudo, creio que seria melhor o acompanhamento de um 
mdico tambm.
        Faa como quiser. Um mdico em nada atrapalhar o 
desenvolvimento de meu trabalho. Ao contrrio, poder 
diagnosticar mais prontamente a melhora de sua filha.
        Ser mesmo?
        Estou quase certo. Como disse, a cura est nas mos de Sara. 
S o que vou fazer  auxili-la a descobrir como utiliz-la. E 
gostaria tambm de experimentar algumas ervas medicinais.
        Ervas medicinais? Acredita nessas crendices?
        No so crendices. Sabemos que os ndios sempre se curaram 
com o auxlio das ervas. Por que no podemos fazer o 
mesmo?
        Porque somos homens civilizados.
        A civilizao no est distante da natureza. Ao contrrio, a 
qumica tambm se utiliza de diversas plantas medicinais, e 
so bastante conhecidas suas propriedades teraputicas.
        Frei ngelo  interrompeu Drio, emocionado.  Se me 
permite, gostaria de fazer-lhe um pedido especial.
        Diga meu filho.
        Gostaria que me permitisse acompanhar o tratamento de 
Sara. Ns estamos apaixonados e em breve pretendemos nos 
casar.
        Isso ser maravilhoso. Tudo de que ela precisa  sentir-se 
amada e querida. Tenho certeza de que sua presena em 
muito a auxiliar, sobretudo a ter confiana em si mesma. E 
Marta tambm poder ajudar-me bastante.
        Como?  quis protestar Rebeca.  Ela no entende nada de 
medicina e cura.
        Engana-se, dona Rebeca. Marta possui o extraordinrio dom 
de se ligar ao mundo espiritual, e os espritos amigos nos 
podero ser de grande valia.
Rebeca abaixou os olhos, confusa. Continuava no simpatizando 
muito com Marta, mas no podia negar que fora ela quem iniciara 
tudo aquilo. Sem ter o que dizer, ela apenas balbuciou:

        Sinto muito, frei ngelo. Isso tudo  novo para mim.
        No se preocupe. Peo a vocs que confiem em Deus e que 
orem. Orem todos os dias, com f, com sinceridade. No 
profiram preces mecnicas e decoradas. Orem com fervor, 
que Deus jamais deixa de atender seus filhos.
        Frei ngelo, esquece-se de que no partilhamos de sua 
religio?
        Deus no possui religio, minha filha. A religio universal, 
aquela que liga os homens a Deus,  a que vem do corao. O 
amor, o respeito e a compreenso so as verdadeiras religies 
que nos aproximam do Criador.
        Sbias palavras, frei ngelo  concordou Ezequiel.  Tambm 
penso assim. Tanto que somos amigos h muitos anos.
         uma bonita amizade a de vocs.  muito bonito ver pessoas 
que se amam sem se importar com fronteiras ou diferenas.
        Creio que so as diferenas que nos fazem crescer  disse 
Jlia.
        Sem dvida, minha filha. Porque somos diferentes  que 
podemos trocar experincias e aprender uns com os outros.
        Bem, creio que frei ngelo gostaria de descansar um pouco 
agora  disse Rebeca.  Afinal, desde que chegou, nem foi 
conhecer seus aposentos.
        Tem razo  concordou Jlia.  Ns, em nossa ansiedade, 
acabamos por prend-lo e nem nos demos conta de que deve 
estar exausto da viagem.
        Confesso que estou um pouco cansado, sim. Mas no foi 
nenhum sacrifcio ficar aqui com vocs. So pessoas muito 
agradveis.
        Obrigado, frei ngelo. O senhor  que  muito gentil.

Rebeca tocou a sineta e Laurinda apareceu. Deu-lhe ordens para 
que levasse frei ngelo ao quarto que lhe fora reservado. Ele estava 
to cansado que logo adormeceu. Adormeceu e sonhou. Em seu 
sonho, via Sara, ainda criana, correndo por um campo muito 
verde, e Marta a seu lado, cuidando para que ela no se 
machucasse. Mais atrs, Rebeca surgiu e, a todo instante, chamava 
a ateno da menina. A menina, em dado momento, parou e sorriu 
para ela, estendendo as mozinhas para que ela a erguesse no colo. 
Rebeca, porm, no lhe deu ateno. Seus olhos estavam presos na 
figura de um homem, que ia se aproximando pelo outro lado. Ela 
empurrou a menina para o lado e correu para ele, atirando-se em 
seus braos. No mesmo instante, Sara comeou a chorar e logo foi 
atendida por Marta, que a colocou no colo e a embalou.

Frei ngelo acordou assustado. O que significava aquilo? Com 
certeza, revira fragmentos de uma outra vida de Sara. Sim, ele 
acreditava em vidas passadas, e naquela, com certeza, acabaria por 
descobrir as origens da enfermidade da moa. Pensando nisso, 
tornou a fechar os olhos e agradeceu a Deus por lhe permitir 
desvendar os mistrios que acabariam por indicar a Sara o caminho 
da cura.

CAPTULO 16

Na fazenda So Jernimo, Rodolfo se roia por dentro. Vira quando 
Jlia e Marta se afastaram, em companhia de Camila e Drio, e 
ficara curioso. Aonde teriam ido? Intuitivamente percebeu que se 
dirigiam  fazenda Ouro Velho. Lembrava-se de algo que Marta lhe 
dissera. Algo sobre a doena da filha de seus vizinhos, e que um frei 
estaria indo para ajud-la. Ser que teriam ido recepcionar o tal 
frade?

Subitamente, Rodolfo comeou a desconfiar que houvesse algo de 
errado com aquela famlia. Se eram amigos de Camila, por que ela 
nunca os apresentara? Por que nunca os chamara ali para 
conhecerem o resto da famlia, preferindo sair sorrateiramente, 
sempre sem dizer nada a ningum? Havia algo de estranho com 
aquela gente, algo que a irm no queria que eles descobrissem. 
Mas ele descobriria. Decidido, foi em busca de Tlio. Soube, pelos 
escravos, que o rapaz havia sado pelo meio do mato, sem dizer 
aonde fora. Rodolfo ficou intrigado. Aonde teria ido? Estava disposto 
a montar no cavalo e partir em seu encalo quando Terncio 
apareceu.

        Seu Rodolfo...?  indagou, querendo certificar-se.
        Sim.
        Procura seu Tlio?
        Por qu? Sabe onde ele est?
        No sei, mas posso imaginar.
        E onde seria?
        Quer que o leve at l?
        Quero. Se souber onde ele est, leve-me at ele.
Os dois montaram nos cavalos e partiram.  medida que ia 
avanando, Rodolfo ia reconhecendo o caminho e teve um 
estremecimento. Aquela era a direo do tmulo que improvisaram 
para Etelvina. Ser que Terncio descobrira tudo? Em breve 
chegaram ao local, e Rodolfo pde constatar que era para l mesmo 
que Tlio havia ido. Apearam e caminharam em silncio, at se 
aproximarem bem do lugar onde Etelvina estava enterrada. A seu 
lado, ajoelhado, Tlio segurava um punhado de terra e chorava. 
Rodolfo, impressionado com aquilo, tomou a dianteira e bramiu:

        Mas o que significa isso?
Tlio pulou assustado. No esperava que tivesse sido seguido e 
quase desmaiou de susto.

        Titio... O que faz aqui?
        Eu  que lhe pergunto. O que faz a ajoelhado sobre esse 
monte de terra, chorando feito um beb?
        Eu... Eu...
        Talvez o senhor Tlio esteja pranteando a morte de sua 
amada...  disse Terncio ironicamente.

Rodolfo alarmou-se. Estava claro que Terncio descobrira a 
verdade. Ele sabia que Etelvina jazia ali. Ser que imaginara que 
ele, Rodolfo, fora quem a matara?

        O que quer dizer com isso?  retrucou, tentando aparentar 
inocncia.
        Quero dizer seu Rodolfo, que a negra Etelvina est enterrada 
ali, bem debaixo dos ps de seu sobrinho.

Ele levantou a sobrancelha e encarou Tlio com fingida surpresa, 
perguntando logo em seguida:
        Isso  verdade?
        Como assim?
        Perguntei se Etelvina est enterrada a.

Foi  vez de Tlio encarar o tio, surpreso. Rodolfo tentaria jogar nele 
a culpa pela morte da escrava. Mas ele no permitiria. Estava certo 
de que era apenas uma escrava, e que seu crime passaria impune. 
No entanto, recebera criao diversa da do tio. Por mais que 
soubesse de sua condio de superioridade, no podia deixar de 
pensar que havia um ser humano enterrado ali, um ser humano de 
cujo assassnio participara.

        Mas... Mas...  gaguejou  por que a pergunta?
        Quero saber se a negra Etelvina est enterrada a.

Tlio, embora com medo, sustentou o olhar duro de Rodolfo e 
retrucou com raiva:

        Por que me faz perguntas cuja resposta j conhece?
        Como assim? No sei nada sobre isso.
        Olhe tio Rodolfo, no adianta que no vou levar a culpa por 
algo que no fiz.
        O que quer dizer, rapaz?
        Quero dizer que voc sabe que no fui eu quem a matou.
        Ento ela est mesmo morta?
        Est sim, seu Rodolfo  concordou Terncio.  Eu mesmo, no 
outro dia, a desenterrei.
        Voc fez o qu?
        Descobri o corpo enterrado a. Segui seu Tlio e o surpreendi 
na mesma atitude em que hoje o vimos. Depois que ele saiu, 
fui buscar uma p e cavei.  a negra Etelvina quem est 
enterrada a, pode ter certeza.
Tlio continuava a olhar para ele com ar desafiador. Estava 
morrendo de medo, mas no queria ser incriminado por aquilo. J 
se envolvera demais com aquela histria. Violentara a pobre da 
negra, humilhara seu amigo Trajano. No queria ser acusado de 
assassinato. Rodolfo, vendo que Tlio no assumiria a culpa pela 
morte da escrava, voltou-se para Terncio e ordenou:

        Terncio, quero que volte agora mesmo para a fazenda. E 
bico calado. Ningum deve saber o que houve aqui.
        Pois no, patro. O senhor  quem manda.

Terncio voltou para o lugar onde deixara seu cavalo e montou, 
sem maiores perguntas. Estava claro que fora Tlio quem matara a 
escrava. Quando ele se afastou, Rodolfo aproximou-se de Tlio e 
desfechou-lhe violento soco no queixo, fazendo com que o outro 
cambaleasse e casse deitado sobre a cova rasa de Etelvina.

        Idiota!  vociferou.  O que pensa que est fazendo?

O outro se levantou hesitante, as mos pousadas sobre o queixo, 
tentando conter o sangue que lhe escorria da boca. Lutando para 
conter o pnico que naquele momento o dominava, respondeu 
splice:

        Tio Rodolfo, por favor...
        Cale-se, imbecil! Quer nos destruir?
        No... No...
        Ento por que fez isso?
        Mas eu no fiz nada! Foi voc quem quis me acusar da morte 
de Etelvina.
        E da? Era s uma escrava.
        Se pensa assim, por que no assume logo que a matou?
        No posso, j disse. E voc no deve falar nada.
        O que quer que eu faa? Que assuma a culpa sozinho? Sinto, 
mas eu  que no posso fazer isso. No fui eu que a matei.
        Isso no faz a menor diferena.
        Pode no fazer para voc, mas faz para mim.
        Posso saber o que houve para que voc, de repente, sentisse 
arroubos de arrependimento?
        Se quer mesmo saber, estou realmente arrependido.
        Oh! Muito nobre de sua parte. E por isso pretende acusar-me?
        Eu no o acusei. Mas tambm no quero levar a culpa de algo 
que no fiz.
        No entendo por que a preocupao. J disse que Etelvina era 
s uma escrava. Quem se importa com os negros?
        timo. J que pensa mesmo assim, insisto para que diga logo 
que voc a matou. Com certeza, vov no far nada contra 
voc.
        J disse, no quero um levante entre os negros.
        No acredito em voc. Voc tem  medo de que certa pessoa 
descubra, no  mesmo?
        A quem se refere?
        A minha tia Jlia.
        Como se atreve? Jlia ficou noiva de meu irmo.
        Contudo, voc a ama e pretende roub-la dele, no  
verdade? E se ela descobrir o monstro que voc  no ter a 
mnima chance.

Rodolfo encarou-o, perplexo. O idiota at que chegara bem prximo 
da verdade.

        Cale essa boca!  gritou.  Voc no sabe de nada!
        Sei muito mais do que imagina. Mas no se preocupe. Seu 
segredo ficar bem guardado comigo, desde que no queira 
transferir essa culpa para mim. Minha me jamais me 
perdoaria.

Rodolfo soltou um riso sarcstico e considerou:

        Como v meu caro, estamos ambos preocupados em no 
desgostar algum que nos  importante.
        Com uma diferena. Eu sou inocente.
        Ser mesmo? Esquece-se de sua participao?
        No, no me esqueo. Mas no fui eu quem a estrangulou.
        Est bem, isso no vem ao caso. O que importa agora  que 
nos protejamos mutuamente. Terncio sabe de tudo e poder 
nos delatar.
        Protegermo-nos como?
        Tenho medo de que Terncio no guarde esse segredo por 
muito tempo. Por isso precisamos agir. Procurar um culpado.
        Um culpado? Mas quem, meu Deus?
        Aquele negro Trajano.
        Trajano? Mas ele no fez nada. Foi uma vtima.
        Oua Tlio, o que quer? Que sua me descubra o que fez, ?
        No... Claro que no...
        Ento cale essa boca e faa o que eu mandar. Daremos um 
jeito de incriminar Trajano, e tudo ficar por isso mesmo.
        Esquece-se de que Trajano  protegido de minha me?
        E da? O que ela far para defender um assassino? Todos 
viram seus interesses por Etelvina. Viram que bateu em voc 
por causa dela. No ser difcil fazer com que acreditem que 
ele, num acesso de cimes, a matou.
        Minha me jamais acreditar nessa histria.
        Pouco me importa. Ela nada poder provar contra ns. E 
depois, tudo isso poderia ter sido evitado se voc no casse 
na besteira de voltar aqui. O que deu em voc, afinal? Isso l 
 hora de sentir remorsos?
        Sinto muito, mas tenho conscincia.
        Pois agora no  mais hora para isso. Se quiser salvar a pele, 
no diga nada a ningum. Deixe tudo por minha conta. 
Quando estiver pronto, direi o que deve fazer.

Em seguida, voltaram para a fazenda. Tlio estava desgostoso 
consigo mesmo. No queria mais participar daquilo. J no 
prejudicara muita gente? Primeira fora Raimunda. Depois Etelvina, e 
agora Trajano? No queria, no podia aumentar ainda mais sua 
culpa. Olhou para Rodolfo e sentiu uma imensa raiva crescer-lhe 
dentro do peito. Apesar disso, estava atado ao poder do tio, 
sobrepujado por sua maldade. Mas precisava fazer alguma coisa. 
No permitiria mais injustias. Precisava pensar numa maneira de se 
livrar daquilo. Precisava confiar em algum.

Foi s quando voltaram que Rodolfo se lembrou do motivo que o 
levara a procurar Tlio. Queria saber mais a respeito da famlia que 
arrendara a fazenda Ouro Velho, e ele poderia ajud-lo. Quando 
chegaram, Tlio foi direto para o quarto, e Rodolfo foi atrs dele. 
Fechou a porta e sentou-se na beira da cama, encarando-o com 
olhar perscrutador.

        O que mais quer de mim?  indagou Tlio de m vontade.
        Mais um favorzinho.
        Que tipo de favor?
        Gostaria que me esclarecesse uma dvida. Quero saber tudo 
sobre a famlia que arrendou a fazenda Ouro Velho.

Tlio olhou-o desconfiado. Embora no fosse muito ligado aos 
Zylberberg, ele os estimava e sabia o quanto poderia ser perigoso 
falar sobre eles. Tlio sabia que seu irmo estava noivo de Sara, e 
que a famlia para ali fora a conselho do mdico, em busca de 
melhores ares para a doena da moa.

        Por que o interesse repentino?
        No sei. Mas alguma coisa me diz que me escondem algo.
        Ora, tio Rodolfo, o que poderia ser?
        No sei. E o que pretendo descobrir.
        De minha parte, sinto muito. No posso ajud-lo.
        No pode ou no quer?
        Oua titio, essas pessoas so amigas de minha me, no 
minhas.
        Vai querer me convencer de que no as conhece?
        Vagamente.
        Ora, Tlio, mas o que  isso? Por acaso pensa que sou algum 
tonto? Ento no vejo que todos os dias,  exceo de voc, 
vo algum para aqueles lados?
        E da?
        E da que  muito estranho.
        No vejo nada de estranho nisso. So amigos de minha me e 
de Jlia.  natural que vai visit-los.
        E seu irmo?
        O que tem Drio?
        Por que vai tambm?
        No sei. Por que no pergunta a ele?
        Porque quero saber de voc.
        Pois j disse que no sei de nada. So apenas pessoas, e eu 
no tenho a menor intimidade com elas.
        Como se chamam?
        No me recordo.

Rodolfo coou o queixo em sinal de dvida. Estava claro que o 
sobrinho mentia. Por alguma razo, ele tentava proteger aquela 
famlia.

        Escute Tlio, quer me fazer crer que sua me  amiga de uma 
famlia h anos e que voc sequer sabe seus nomes?
        J disse que no me lembro. Minha me tem muitos 
conhecidos. Pode ser qualquer um deles.
        Por exemplo?
        Por exemplo... Os Silva e Souza, os Carvalho, os Arcoverde, 
os Soares Ferreira e tantos outros. Como v, a lista  
interminvel.

Rodolfo encarou-o com ar ctico. No acreditara em uma palavra 
do que lhe dissera o sobrinho, mas achou melhor no insistir. 
Balanou a cabea em sinal de assentimento, levantou-se e saiu, 
acenando para Tlio da porta. Sem dizer uma palavra, dirigiu-se 
para o gabinete que fora de seu pai. Era ali que ele e o irmo 
tratavam de negcios e onde guardavam todos os documentos 
importantes. Rodolfo entrou sorrateiramente, fechando a porta atrs 
de si, e comeou a vasculhar as gavetas, somente encontrando 
papis relacionados  venda de sacas de caf, de gado, alguns 
ttulos, certides, contratos bancrios. Nada. No havia nada que 
pudesse esclarec-lo sobre os arrendatrios da Ouro Velho. At que, 
de repente, seus olhos se prenderam numa pasta de couro cru, 
cuidadosamente escondida sob um monte de papis velhos e 
amarelecida. Rodolfo retirou-os, afobado, e puxou a pasta, abrindo-
a com ansiedade. Dentro, o contrato de arrendamento da fazenda, 
contendo os nomes do arrendador e do arrendatrio. Como 
arrendador, constava o nome de sua me, Palmira Sales de 
Albuquerque, representado por seu filho, Fausto Sales de 
Albuquerque. Como arrendatrio, imagine um tal de Ezequiel 
Zylberberg. No era preciso dizer mais nada. Tudo estava 
esclarecido. Aquela famlia, que ningum nunca vira, pertencia  
desprezvel classe dos judeus. Era lgico. Bastava ler aquele nome. 
Fora por isso que Fausto se encarregara de tratar pessoalmente das 
negociaes. Ele sabia que a me jamais permitiria uma heresia 
daquelas, mas por estar apaixonado por Jlia, faria tudo o que ela 
desejasse. No bastava que fosse amiga dos negros. Era tambm 
dos judeus.

De posse de to preciosa prova, Rodolfo sentiu-se satisfeito. Colocou 
de volta no lugar a pasta incriminadora, cobriu-a com os mesmos 
papis velhos, fechou as gavetas e saiu. Aquilo era uma 
preciosidade. Era com aquela descoberta que ele pretendia, cedo ou 
tarde, ter Jlia em suas mos. Utilizar-se-ia de todos os recursos 
disponveis para t-la e, assim, atingir o irmo. Primeiro, tentaria 
conquist-la, oferecendo-lhe sua amizade e provocando a 
desconfiana de Fausto. Faria com que ela percebesse que ele era 
gentil, educado e galante, muito mais do que Fausto sempre 
ocupado com os negcios. Mas, se isso no desse certo, saberia 
valer-se das provas que tinha em mos. Mostr-las-ia a Jlia e a 
faria ver que s dependia dele a permanncia ou no de seus 
amiguinhos judeus em suas terras. Bastava mostrar aquilo  me 
para que ela mandasse expuls-los dali, com ou sem contrato.

Dali foi sentar-se na varanda. J entardecia, e logo Jlia despontaria 
com Camila e o sobrinho pela estradinha. Fausto, como sempre, iria 
ao seu encontro. Tudo parecia bem, e era assim que ele queria que 
continuasse.

Em pouco tempo a carruagem atravessou a cancela, e Fausto, 
montado em seu alazo, correu ao encontro da amada. Aquilo lhe 
dava nuseas. Ver como o irmo a beijava e a enlaava dava-lhe 
vontade de mat-los. Mas seria por pouco tempo. Logo que a 
carruagem se aproximou mais da casa grande, com Fausto 
cavalgando a seu lado, Rodolfo se levantou e foi ao encontro de 
Marta, que tambm vinha com eles. Ajudou-a a descer, beijou-a de 
leve na face e olhou discretamente para Jlia. Sentiu a raiva crescer 
dentro dele, mas no disse nada. Em vez disso, estendeu a mo 
para auxili-la tambm, e quando ela segurou a mo que ele lhe 
oferecia, Rodolfo propositalmente puxou-a para baixo, fazendo com 
que Jlia se desequilibrasse e quase fosse ao cho. Imediatamente, 
ele a amparou, sustendo-a por sob os braos. Jlia corou e 
agradeceu logo se endireitando, e Fausto fingiu no perceber que 
ela enrubescia, talvez seduzida pelo contato de Rodolfo.

Enquanto Fausto chamava um escravo e entregava-lhe o cavalo, 
Rodolfo tratou logo de despachar Marta, sob o pretexto de que o pai 
a procurava, e ofereceu o brao a Jlia, seguindo com ela para 
dentro de casa. Ele a cobria de atenes, mas sempre fazendo 
aparentar certa displicncia, certo desinteresse, no qual Fausto 
tentava acreditar. J na sala de estar, Rodolfo indagou:

        E ento, cara Jlia, divertiu-se hoje? Jlia fitou-o sem entender 
e retrucou:
        Por que a pergunta?
        Por nada.  que se ausentou to cedo...
        Sa em companhia de minha cunhada. Por qu?
        Por nada. S curiosidade  e aps alguns segundos, 
acrescentou: Foi visitar seus amigos?
        Amigos?
        Sim. Aqueles que arrendaram a Ouro Velho, como so mesmo 
o nome?  Jlia gelou, mas ele prosseguiu displicente:  No 
importa. E o tal frei? J chegou?
        Sim... J sim...
        Que bom. Imagine um frei vir de to longe s para rezar por 
uma doentinha. Deve ser muito bondoso, esse frei.
        ...  sim.
        E de que mal sofre mesmo a menina?

Jlia comeava a se sentir acusada. Por que Rodolfo, de repente, 
crivava-a de tantas perguntas?

        Ainda no sabemos ao certo.
        Nada grave, espero.
        No. Com certeza no.
        Fico muito feliz em ouvir isso.

Fausto chegou e pediu licena, segurando Jlia vigorosamente pelo 
brao e levando-a para varanda. Ela fez um ar de reprovao e 
disse, contrariada:

        O que h com voc, Fausto? Por que me trata desse jeito?

O moo, percebendo que apertava em demasia o brao de Jlia, 
soltou-o de repente, acrescentando envergonhado.

        Perdoe-me, querida.  que no gosto de v-la junto de 
Rodolfo.
        Por qu? Pois no foi voc mesmo quem disse que sentia 
cimes  toa? Que ele havia se arrependido e que estava 
apaixonado por Marta?
        E est. Mas no consigo evitar o cime e quase enlouqueo s 
de v-la perto dele.

Jlia riu gostosamente e estalou-lhe um beijo na testa, 
acrescentando bem-humorada:

        Mas que tolinho! Ento no sabe que o amo, e s a voc?
        Eu sei minha querida. Perdoe-me a insegurana. Eu tambm a 
amo e confio em voc. Mas  que Rodolfo e eu somos to 
iguais...
        Engana-se, meu amor. Hoje j posso distingui-los.
        Verdade? Como?
        S voc possui nos olhos o brilho do meu amor.

Fausto tomou-a nos braos e beijou-a com paixo, esquecendo-se 
da dvida que o atormentava dia aps dia.

Vendo o contato entre Fausto e Jlia, Rodolfo saiu desabalado. 
Sentia nuseas e precisava de ar puro. Correu para o jardim e 
inspirou. Era preciso acabar logo com aquilo. Enjoado, sentou-se 
num banco e ocultou o rosto entre as mos, at que escutou um 
estalido prximo, como de passos quebrando um galho seco. Ergueu 
os olhos, assustado, e encontrou a prima parada diante dele, 
sempre com aquele sorriso diablico, que lhe repuxava a cicatriz.

        Voc j no pode mais suportar, no  mesmo?  disse ela.
        Prima Constncia! Que susto me deu.

Ela continuava com aquele sorriso diablico e acrescentou:

        Estou certa ou errada?
        Certa ou errada de qu?
        Do fato de que voc j no pode mais suportar a felicidade de 
seu irmo.
        No entendo o que quer dizer.
        No mesmo? No precisa fingir para mim. Estou do seu lado e 
posso ajud-lo.
        No sei do que est falando e no preciso de sua ajuda para 
nada.
        Ser que no? Nem para conquistar Jlia?
        Est louca.
        No estou no. Pensa que no percebi o modo como olha para 
ela?
        No a olho de modo algum.
        Est bem. Se quiser acreditar nisso...
        Por que est me dizendo essas coisas?
        Porque quero ajud-lo.
        A troco de qu? Ns mal nos conhecemos e no temos nada 
em comum.
        Nada, a no ser um objetivo.
        Como assim?
        Digamos que ambos queiramos destruir algum.

Rodolfo calou-se e ficou olhando para ela. O que estaria 
pretendendo? Constncia era praticamente uma estranha, e ele 
pouco sabia a seu respeito. S o que sabia era que ela era filha da 
irm de sua me e que fugira de casa, rejeitada por seu primo 
Incio. Durante todos aqueles anos, quase no se tocara em seu 
nome. Ela havia sumido desaparecido na poeira dos anos, e acabara 
por cair no esquecimento. O que estaria pretendendo, ento? Ele a 
encarou com ar perscrutador e indagou:

        O que quer? Vingar-se de algum?

Ela escancarou a boca num riso diablico e respondeu:

        Vejo que  um rapaz esperto.
        No respondeu minha pergunta.
        Est bem. Sim. Quero vingar-me de algum. Quero vingar-me 
de Tonha.
        E por que acha que eu a ajudaria? Afinal, Tonha foi minha 
ama-de-leite, e at que gosto dela...
        No seja fingido. Sei que voc no gosta de negros.
        Mas Tonha  diferente. Foi quem nos criou.
        Voc  quem sabe. Mas pense bem. Pense no que  mais 
importante para voc: defender Tonha ou conquistar Jlia?

Intimamente, Rodolfo sabia que o mais importante para ele era 
destruir a felicidade do irmo e respondeu sem hesitar:

        Jlia.
        Pois muito bem. Deixe-me ajud-lo. Em troca, s lhe peo que 
me entregue  negra.
        O que far com ela?

Sem nem pestanejar, Constncia retrucou, a voz vibrando de dio:

        Vou mat-la. Vou fazer o que deveria ter feito h muito 
tempo.

Rodolfo empalideceu. Tonha sempre fora uma boa ama-seca, e ele 
bem que se afeioara a ela, apesar de seu desprezo pelos negros. 
Ele no desejava v-la morta, mas se a proposta da prima valesse  
pena, ela que o perdoasse, mas consideraria justa a troca. Suspirou 
fundo e indagou:

        E qual seria sua oferta?
        Muito simples. Em dia e hora combinados, quando todos 
estiverem dormindo, voc entra sorrateiramente no quarto de 
Jlia, vestido com as roupas de seu irmo. Procure agir feito 
ele, com seus gestos, sua voz.
        E da?
        Aproxime-se de seu leito. Deite-se ao lado dela, seja gentil.
        Est louca? Jlia saber que no  Fausto e, ou me repelir, 
ou far um escndalo.
        No, se voc agir direito. No a force a nada. Limite-se a 
fazer o que ela permitir. Voc e Fausto so gmeos. No 
escuro, ser difcil distingui-los. Beije-a, acaricie-a, sopre-lhe 
palavras de amor. Diga-lhe que a ama e que est louco para 
t-la. Mas no a force. Ao contrrio, diga que, apesar de seu 
amor, no se importa de esperar. Mas diga isso ao mesmo 
tempo em que a beija. Se ela ceder, timo. Consume o ato. 
Se no, no insista. Diga que compreende, beije-a 
profundamente e saia.
        E depois?
        Deixe o resto por minha conta. Na manh seguinte, saberei 
agir, e bem rpido, antes que Jlia e Fausto tenham tempo de 
se falar.

Rodolfo ergueu as sobrancelhas e replicou:

        Ser que dar certo? Ela vai desmentir. E se Fausto acreditar 
nela?
        Duvido. Pelo que pude observar, seu irmo  muito ciumento 
e j est meio desconfiado. E depois, no se engane meu 
bem. Conheo os homens e sei muito bem do que so capazes 
em nome do cime e da traio.

Constncia alisou a cicatriz, lembrando-se do marinheiro que, num 
acesso de cime, quase a matara. Rodolfo, por sua vez, ps-se a 
pensar. Talvez ela tivesse razo, e aquela fosse  oportunidade que 
vinha esperando havia tanto tempo. Havia muito vinha instigando o 
cime e a desconfiana do irmo, e no seria difcil incutir-lhe na 
mente a idia de que Jlia o estava traindo. Ainda mais se pudesse 
contar com as oportunas e desinteressadas observaes de 
Constncia que, aparentemente, no teria motivo algum para fazer 
intrigas. E depois, ele e Fausto no eram iguais? Jlia no poderia 
mesmo diferenci-los. Pensando em tudo isso, Rodolfo prosseguiu:

        O que acontecer ento?
        O resto  com voc. Talvez Jlia fique com raiva e nunca mais 
queira v-lo. Talvez se sinta envergonhada e o aceite, para 
encobrir sua vergonha. No sei. E voc, faa como quiser. 
Poder escolher.

Rodolfo silenciou. Depois que conseguisse o que queria no se 
interessaria mais por Jlia e abandon-la-ia tambm. Ela s serviria 
a seus propsitos de destruir o irmo. O que lhe aconteceria depois 
era problema dela. Que voltasse para So Paulo. Isso pouco lhe 
importava.

        E quanto a voc?  tornou.  O que devo, exatamente, fazer 
para pagar esse favor?
        S o que quero  a oportunidade de cravar um punhal no 
corao de Tonha. Arranje-me uma emboscada, um momento 
a ss com ela, e eu a matarei em silncio. Ningum saber 
que fui eu.

Rodolfo assentiu. Apesar de sentir pena de Tonha, aquilo ainda 
serviria para desgostar o irmo ainda mais. Sabia o quanto ele 
gostava da escrava, e sua morte seria para ele motivo de grande 
pesar. Olhando para a prima, Rodolfo sentiu uma grande admirao 
por ela. Era uma mulher extraordinria e, no fosse  diferena de 
idade, muito gostaria de t-la por amante. Fariam grandes coisas 
juntos!

        Agora v  ordenou Constncia.  Volte para casa e aguarde. 
Quando a hora chegar, eu o avisarei.

Rodolfo levantou-se, tomou a mo da prima e beijou-a suavemente. 
Em seguida, voltou para casa sorrindo. Estava certo de que a 
felicidade do irmo tinha os dias contados. E a sua... Bem, estava 
por comear.

CAPTULO 17

Frei ngelo, sentado no jardim em companhia de Sara, observava-a 
com estudada ateno. Apesar de tudo, ela era uma menina muito 
estranha, muito triste e fechada, e somente depois de muitas 
tentativas foi que ele conseguiu que ela se abrisse com ele. Aps 
alguns instantes, Laurinda apareceu, trazendo na mo o ch que frei 
ngelo lhe preparara com algumas ervas medicinais. Ela sorveu o 
lquido calmamente e sentiu-se melhor. Encarou o frei e perguntou:

        Por que  to bom comigo?
        Porque quero que fique boa.
        No sei mais se acredito nisso.
        Sara,  muito importante no desistir. Se voc desistir da vida, 
a morte tomar conta de voc. No troque pela morte uma 
vida que mal comeou.

Sara desatou a chorar e frei ngelo, gentilmente segurando-lhe as 
mos, retrucou com voz doce:

        Chore criana. Chorar nos ajuda a ser mais humanos.
        No entendo o que diz.

Frei ngelo tomou-lhe novamente as mozinhas finas e disse:
        Gostaria de lhe fazer uma pergunta.
        Que pergunta?
        Voc  feliz?

Ela o encarou com ar de dvida e respondeu indecisa:

        No sei.
        Por que no sabe? Por acaso no gosta de sua me, de seu 
pai? No tem um noivo que a ama?
        Sim...
        E, mesmo assim, sente-se infeliz?
        Sabe frei ngelo, eu nunca fui uma menina alegre. Lembro-
me de quando era criana... Sempre me sentia um estorvo na 
vida de minha... de meus pais.
        Como assim? Seja sincera, conte-me tudo.
        Bem,  que eu sentia como se os estivesse atrapalhando.
        A ambos? Ou somente a um deles?

Ela levantou para ele os grandes olhos azuis e implorou:

        Promete que no conta nada?
        Pode confiar em minha discrio. Entenda isso como um 
segredo de confessionrio.
        A minha me.
        Interessante. Por qu?
        No sei definir. Mas desde cedo sentia como se ela no me 
quisesse. Como se eu a estivesse atrapalhando de algum jeito. 
E acabava me sentindo culpada, porque minha me, ao 
contrrio dos meus sentimentos, sempre se desvelou para me 
agradar. Tenho certeza de seu amor por mim.
        E ainda assim sente-se um estorvo em sua vida?
        Sim. E sinto-me culpada por isso. Ela no merece. Por causa 
disso, fui me tornando cada vez mais arredia. Sempre tive 
poucos amigos, porque sempre achei que no gostavam de 
mim. Com o tempo, comecei a me isolar de todos, e no fosse 
pela companhia de Jlia e Drio, de quem sempre fui amiga, 
creio que no teria mesmo mais ningum.
        Mas por que isso Sara? Sua me parece muito preocupada 
com voc. No acha estranho que tenha essa sensao?
        Sim, acho muito estranho e at quero lutar contra isso. Mas 
no consigo. Embora ela tudo faa por mim, deixa sempre a 
impresso de que s faz por obrigao, de que no gosta de 
mim. Mas eu sei que gosta. Pensando nisso, a conscincia me 
di e fico confusa.
        E seu pai?
        Meu pai  diferente. Sinto nele um estranho. Tambm no sei 
definir.
        Mas no  o mesmo que sente com relao  sua me?
        No. Como disse, sinto que minha me me rejeita.  um 
sentimento, de alguma forma. Com relao a meu pai, no.  
como se ele fosse um estranho em minha vida. Gosto dele, 
mas  como se entre ns s existisse um vazio. Como se ele 
no fosse meu pai. Cheguei mesmo a pensar se no seria.
        No entanto, a semelhana entre vocs  muito grande.
        Eu sei. E  s por isso que hoje no desconfio mais de que no 
seja sua filha.
        E quanto a Jlia e Drio?
        Gosto muito deles. Sinto que so pessoas amigas. E Marta 
tambm. E sabe o que  mais estranho? Quando conheci 
Marta, logo gostei dela, e era como se j a conhecesse 
tambm.
        O que a leva a pensar assim?

Ela abaixou a voz e disse em tom de confidencia:
        J sonhei com ela. Diversas vezes.
        Verdade?

Frei ngelo estava profundamente impressionado. Tambm sonhara 
com Sara no dia em que chegara  fazenda, mas fora apenas um 
sonho isolado, sem continuao. Contudo, algo lhe dizia que Sara 
guardava dentro de si muitos segredos, segredos que tinha medo de 
partilhar com algum. Cada vez mais interessado, continuou:

        Que tipo de sonhos voc tem?
        So estranhos. Sonho com as pessoas, mas com outros rostos, 
com outras roupas, em outros lugares. So diferentes, mas 
posso reconhecer cada um naqueles rostos estranhos.

Aquilo estava ficando cada vez mais interessante. Aquela menina, 
alm de comprovar sua teoria a respeito da causa das 
enfermidades, tambm o auxiliaria a provar que havia outras vidas, 
e que essa no seria a primeira vez que estariam no mundo. Frei 
ngelo estava certo de que ela se lembrava de uma outra vida, uma 
vida na quais todos os personagens daquela vida atual estavam 
interligados. Mal contendo a ansiedade e a euforia, continuou 
investigando:

        Vamos, Sara, conte-me esses sonhos.
        No vai me achar louca?
        Sara voc no  louca. Quero que entenda que esses sonhos, 
ao que parece, so memrias de outras vidas, que muito nos 
podem ajudar a solucionar seus problemas de hoje.
        No sei se acredito nisso.
        Ento, como explica o fato de que j sonhou com Marta, antes 
mesmo de conhec-la?
        No sei.
        Pois eu sei. Voc, de alguma forma, consegue estabelecer um 
contato com o mundo invisvel e tem vises de fatos que se 
passou com voc h muitos anos.
        Mundo invisvel?
        Sim, o mundo dos espritos.  como se eles nos auxiliassem a 
ver e compreender certas coisas que aconteceram muito 
antes dessa vida atual.
        No sei frei ngelo. Isso tudo  muito novo para mim.
        Por favor, acredite em mim. Voc ver que tenho razo. E 
agora vamos, conte-me seus sonhos.
        So muitos...
        Conte-me um.
        Est bem. Da primeira vez que sonhei, vi-me como uma 
menina, correndo por um campo verdejante, e uma moa 
seguia ao meu lado. Mais tarde, vi que era Marta, e isso me 
assustou.

Nesse sonho, minha me me deixava para estar com um homem, 
no sei quem  no consegui v-lo, mas parecia meu pai.

 medida que Sara falava, frei ngelo estremecia. Tivera o mesmo 
sonho e sabia que aquilo no podia ser coincidncia.

        Prossiga.
        Bem, quando minha me chegou perto desse homem, eu corri 
para ela, pedindo-lhe colo, mas ela me ignorou, empurrando-
me para o lado. Depois, Marta chegou e me segurou.
        E o que mais?
        Mais nada. O sonho se misturou e tornou-se confuso.
        Pode-me dizer quando foi que esses sonhos comearam?
        Sim. Logo que chegamos aqui.

Frei ngelo estava satisfeito. Sabia que estava no caminho certo e 
tinha certeza de que, se o tempo no estivesse contra ele, ajudaria 
Sara a encontrar a cura para sua doena, desvendando, ainda, 
alguns dos mistrios que velavam a natureza da morte. No entanto, 
sabia que s aquilo no bastava. Aliado ao conhecimento das vidas 
passadas, era necessrio uma mudana de postura.

Sara tinha que se reaproximar das pessoas, no fsica, mas 
espiritualmente. Frei ngelo sabia que a solido era um estado de 
esprito e que, muitas vezes, embora rodeada de vrias pessoas, 
podia-se ter a sensao do isolamento. Por isso era importante que 
Sara comeasse a ver nos pais e nos amigos pessoas capazes de 
complet-la intimamente, com ela trocando experincias, sensaes 
e sentimentos. Sara precisava ligar-se s pessoas, envolver-se com 
elas, buscar sua companhia s pelo fato de poder partilhar o mesmo 
espao emocional.

Deu-lhe uma tapinha no joelho e continuou:

        Convidei Marta para vir aqui. Ela me ajudar.
        Como?
        Marta possui o estranho e maravilhoso dom de curar. Seus 
fluidos benficos sero de grande valia no reequilbrio e na 
reestruturao das clulas enfermas.

Pouco depois, Marta chegou em companhia de Jlia e Drio. Aps os 
cumprimentos usuais, Marta levou Sara para dentro, para ministrar-
lhe a troca energtica. Depois que elas se afastaram, frei ngelo 
disse a Drio:

        Meu filho, como sabe sua ajuda tambm  de grande valia. 
Sara o ama muito, e voc deve estar sempre a seu lado, no 
propriamente com o corpo, mas com a alma e o corao. 
Sara deve sentir sua presena como algum especial, em 
quem pode confiar e partilhar sua vida. Quando estiver com 
ela, esteja por inteiro. Mostre-lhe que seu pensamento est 
voltado para ela, no como se no existisse nada no mundo 
alm dela, mas como se ela fosse uma parte importante do 
universo.  muito importante que ela se sinta parte de um 
todo, e voc, mais do que ningum, pode ajud-la a integrar-
se a ele.
        Creia-me  retrucou o rapaz,  farei o possvel e o impossvel 
para ver Sara bem e feliz.
        timo. Assim  que se fala. Conto com a ajuda de todos.
        O que, mais especificamente, devemos fazer?  quis saber 
Jlia.
        Bom, para comear, convidem Sara para sair.  importante 
que ela se identifique com um grupo.
        Podemos organizar passeios e piqueniques  sugeriu Drio.
        Isso seria excelente. Coloquem-na em companhia de gente 
jovem e saudvel. Ajudem-na a sentir-se querida e amada.

Pouco depois, os jovens se reuniam para uma prosa. Rebeca 
mandou servir limonadas, e o assunto do dia era o passeio que 
fariam  cascata da Esmeralda no dia seguinte. Apesar de um pouco 
distante, era um lugar lindo e maravilhoso.

Quando Jlia e Marta voltaram para a fazenda So Jernimo, foram 
ter com Camila e Fausto. Era hora de formarem um grupo, e seria 
divertido passearem juntos. Fausto ficou encantado com a idia e 
logo concordou em ajudar. O problema seria Rodolfo. Ningum 
julgava que ele j conhecesse a procedncia da menina, e tinham 
medo de contar-lhe a verdade.

        Acho melhor no dizermos nada  opinou Drio, preocupado. 
 No  necessrio que ele saiba.
        No seja tolo, Drio  objetou Fausto.  No precisa ser 
muito esperto para concluir, pelos nomes, que so pessoas de 
origem judaica.
        Isso no quer dizer nada  considerou Camila.  So todos os 
nomes bblicos. Qualquer um poderia adot-los.
        E o sobrenome? Zylberberg  muito revelador.
        Mas ele no precisa saber  sugeriu Jlia.
        E se ele perguntar?
        Ora, no sei  respondeu Drio, comeando a ficar mal-
humorado.  Invente qualquer coisa.
        No ser melhor contarmos logo a verdade?  ponderou 
Marta.  Mais cedo ou mais tarde ele vai acabar descobrindo 
mesmo. E depois, o que poder fazer? Contar a dona Palmira? 
Expuls-los daqui?
        Marta, voc no conhece Rodolfo to bem quanto eu. Ele  
igual a minha me. Odeia os negros, os protestantes, os 
rabes e os judeus. No sei o que ser capaz de fazer, mas 
sei que no ser boa coisa.
        Posso dar uma sugesto?  indagou Camila.  Sei que no  
o mais correto, mas, em vista das circunstncias, criem um 
sobrenome fictcio, ao menos por um tempo. Enquanto isso, 
Marta o vai preparando aos pouquinhos, ao mesmo tempo em 
que o contato com os Zylberberg poder mostrar-lhe o quanto 
eles so maravilhosos. Depois que se afeioar a eles, tenho 
certeza de que os aceitar e acabar compreendendo nossos 
motivos.
         uma boa idia  concordou Drio.  No entanto, a senhora 
mesma disse que seu Ezequiel no havia gostado nada dessa 
histria de mentir.
        Mas acabaram concordando. No se preocupem. Deixem-nos 
por minha conta.

Acertada a histria, Marta partiu em busca de Rodolfo, fazendo-lhe o 
convite para o passeio, e ele aceitou sem titubear. No perguntara 
nada, e embora todos estranhassem sua falta de curiosidade, 
acharam melhor silenciar. No dia seguinte, bem cedinho, partiram 
de charrete para a cascata da Esmeralda. Sara foi apresentada a 
Rodolfo e, apesar de no simpatizar com ele, no disse nada. Estava 
feliz ao lado de Drio, e s ele j lhe bastava.

O passeio transcorreu maravilhoso. O lugar era lindo e paradisaco, 
e as moas chegaram a se banhar no lago, longe das vistas dos 
rapazes.  tardinha retornaram, e Jlia ficou satisfeita. Sara, 
deliciada, ria-se, abraada a Drio. O passeio e os amigos fizeram-
lhe muito bem, e ela pouco tossira durante o dia todo. J comeava 
a crer que se curaria.

CAPTULO 18

Aproximava-se o dia do aniversrio de Palmira, e a capela j estava 
praticamente pronta para a inaugurao. Fausto, em companhia de 
Jlia, acompanhava os ltimos retoques, opinando sobre detalhes da 
pintura, aqui e ali. Estava entretido nessa tarefa quando Constncia 
aproximou-se e elogiou:

        Est mesmo ficando uma beleza!  uma capela digna de uma 
rainha!
        Obrigado, prima  agradeceu ele, todo orgulhoso.  Mame 
merece.
        Fausto tem muito bom gosto  disse Jlia.  Foi ele mesmo 
quem escolheu as cores e as gravuras.
        Est muito bonito. Parabns!
        No se deixe impressionar pelo que Jlia diz. Ela tem a mania 
de enaltecer tudo o que fao.
        Ora, seu ingrato  protestou Jlia, num gracejo.
        Deixe estar, minha menina  objetou Constncia.  Os 
homens so assim mesmo. Todos uns mal-agradecidos.
        Mas  verdade  tornou Fausto.  Tudo o que toco lhe 
parece fabuloso.
        As jovens apaixonadas so assim mesmo... Bem, agora vou 
deix-los a ss. Imagino que devam ter muito que fazer.

Desde esse dia, Constncia no perdia a oportunidade de elogiar a 
dedicao de Jlia, ressaltando o quanto era apaixonada por Fausto.

        Que sorte voc tem  disse certa feita.  Fisgou-a antes de 
seu irmo.
         mesmo muita sorte  concordou Fausto, com desagrado.
        Vocs so to parecidos... No sei como Jlia os distingue.
        Reconheo Fausto por sua maneira de ser  interrompeu Jlia 
, pelos olhos cristalinos e sinceros, por sua voz, que  
sempre to amorosa...
        Voc  mesmo um homem de sorte. Mas, cuidado; qualquer 
descuido e ser bem fcil para Jlia troc-lo por Rodolfo. E 
sem que voc nem se d conta.
        Isso jamais acontecer!  contestou Jlia, indignada.  Amo 
Fausto e somente a ele. Jamais o trocaria por quem quer que 
fosse. Ainda mais por seu irmo.
        Ora, ora, minha querida, por que ficou to zangada? No quis 
ofend-la e no falei por mal.

Jlia estava furiosa. Sem responder, levantou-se da poltrona onde 
estava sentada e saiu da sala, murmurando um "at logo" quase 
inaudvel. Fausto levantou-se para ir atrs dela, e Constncia, 
fingindo falar para si mesmo, disse baixinho:

        Ora, vejam s. Parece at que se doeu porque tenho razo.
        O que disse?  perguntou Fausto, perplexo, estacando 
subitamente.
        Quem, eu? Nada, no, Fausto. Pensava aqui com meus 
botes.

No disse mais nada. Passados alguns minutos, Fausto encontrou 
Jlia na cozinha, bebendo gua, o semblante transtornado.

        Por que se zangou tanto?  perguntou desconfiado.  
Constncia no disse por mal.
        No sei, Fausto. Mas algo em seu tom de voz me soou falso. 
Aquela conversa parecia um discurso decorado e 
encomendado. Como se nos quisesse envenenar.
        Minha querida, voc est imaginando coisas. Constncia no 
tem motivo algum para isso.
        Pode at ser que voc tenha razo. Mas a fala dela no me 
convenceu.
        Est bem, Jlia, deixemos isso pra l.
        Sim, Fausto, esqueamos sua prima. Afinal, so apenas 
observaes maldosas e infundadas.

Fausto puxou-a para si e beijou-a delicadamente, pousando, em 
seguida, sua cabea em seu peito. Embora no dissesse mais nada e 
preferisse at no pensar mais no assunto, no conseguiu mais tirar 
as palavras de Constncia da cabea. Ele no queria, mas a dvida 
o assaltava cada vez mais. Ser que a prima tinha razo? Ser que 
Jlia, inconscientemente, pendia para Rodolfo e no tinha coragem 
de lhe contar a verdade? Ele balanou a cabea e voltou sua 
ateno para ela. No. Ela o amava. Tinha certeza. Queria ter.
Conforme ficara acertado, todos os domingos os jovens 
aproveitariam o dia para passear juntos, e naquele domingo no 
seria diferente. Fazia um bonito dia de Sol, e Rodolfo, que acordara 
cedo e ficara  espreita,  espera que Jlia descesse, encontrou-a 
sentada na varanda, apreciando os passarinhos que se banhavam 
ao Sol.

        J de p, logo to cedo?  indagou, sorrindo polidamente.
        Ah! Bom dia... Rodolfo  respondeu ela com um pouco de 
dvida.
         que est fazendo tanto calor... No pude mais dormir.
         verdade. Tambm eu no pude mais ficar na cama. Dias 
como este  que so bons para passear.
        Tem razo. Est mesmo um dia muito bonito. Hoje iremos at 
o riacho fazer um piquenique. Acho at que j vou chamar 
Fausto.
        Ele ainda no acordou.
        Pois ento, vou acord-lo.
        Por que primeiro no vamos buscar Marta? Com certeza j se 
levantou. Na volta, irei ao quarto de meu irmo e o acordarei.
        Hum... Est bem. Vamos. Deixemos que o preguioso durma 
um pouco mais.

Quando Fausto desceu para o desjejum, toda a famlia j estava 
reunida  mesa, com exceo de Rodolfo e Jlia. Estranhando a 
ausncia de ambos, indagou:

        Onde esto Rodolfo e Jlia?
        Creio que saram bem cedo  disse Constncia, com certa 
malcia na voz.
        Onde foram?
        No sei. Saram sozinhos por a...

Fausto silenciou sombrio. No queria deixar transparecer, mas 
estava furioso. Como Jlia se atrevia a sair de manh, em 
companhia do irmo, sem nem ao menos falar com ele? Constncia 
ria intimamente. Estava claro que Fausto roia-se de cime de 
Rodolfo. Terminada a refeio matinal, todos se levantaram, e 
Fausto saiu apressado. J na varanda, avistou Terncio, que 
chegava pelo outro lado da casa. Correu ao seu encontro e, fingindo 
naturalidade, disse:

        Bom dia, Terncio.
        Bom dia.
        Por acaso voc viu Jlia?
        Vi sim. Estava agorinha mesmo l atrs, no pomar, em 
companhia de seu irmo.

Ele empalideceu. O que estariam os dois fazendo sozinhos no 
pomar? No era o lugar mais apropriado para sua noiva estar em 
companhia de Rodolfo. Sentindo a raiva crescer dentro do peito, 
Fausto partiu para l. Ao longe, viu-os colhendo limes, e estacou 
estarrecido. Rodolfo, na tentativa de apanhar as frutas, tocava as 
mos de Jlia, e ela sorria, apanhando os limes de suas mos e 
deitando-os numa enorme cesta de palha. Aquilo o enfureceu. Rosto 
ardendo em fogo saiu em disparada, alcanando-os no exato 
instante em que a cesta tombava ao cho.

        Fausto!  exclamou Jlia.  Que bom que j acordou. Fausto 
olhou-a com raiva e retrucou:
        O que esto fazendo?
        Ora essa, colhendo limes  apressou-se Rodolfo em dizer.  
Marta vai nos preparar uma torta.
        Marta?
        Sim, Marta  concordou Jlia.  Viemos cham-la para um 
piquenique, e Rodolfo sugeriu que ela fizesse uma torta de 
limo para voc. Disse que  a sua preferida. Ainda  cedo, e 
h bastante tempo para ass-la.
        Por que no me chamaram?

Os olhos de Fausto soltavam chispas de fogo, mas Rodolfo fingiu no 
perceber. Tentando um tom amoroso e acolhedor, Jlia retrucou:

        Voc estava dormindo, e no quisemos acord-lo logo. 
Preferimos esperar que tudo esteja pronto.
        Mas quanta gentileza de sua parte! Deixar-me dormir 
enquanto se diverte com meu irmo!

Jlia, percebendo o tom de ironia em sua voz, revidou magoada:

        Por que fala assim comigo? No fiz nada.
        Fausto, meu irmo, o que  isso? De novo com esse cime? 
No seja tolo.

Fausto j ia retrucar quando a voz de Marta se fez ouvir atrs deles.

        Ento, como ? Esses limes vm ou no? Assim no haver 
tempo de assar a torta, e nos atrasaremos para pegar Sara.

Ela se aproximou e, vendo os limes cados ao cho, comeou a 
cat-los, quando Fausto declarou:

        No se preocupem comigo, no quero torta alguma. E podem 
ir sem mim.
        Mas Fausto sem voc no tem graa nenhuma  protestou 
Jlia.
        No  o que parece.
        Posso saber o que  que est acontecendo aqui?  interveio 
Marta.

Fausto encarou-a e respondeu entre dentes:

        Pergunte a seu noivo. Ele sabe melhor do que ningum.

Sem esperar resposta, rodou nos calcanhares e saiu desabalado, 
sumindo por detrs das rvores. Marta, ainda sem entender, 
segurava os limes, perguntando indignada:

        Mas o que foi que deu nele?
        Nada, Marta, no houve nada  respondeu Rodolfo, com um 
sorriso triunfante nos lbios.  Creio que Fausto no sabe 
controlar seus impulsos.
        Ainda vamos fazer o piquenique?
         claro que sim. No foi o que combinamos? Passeios aos 
domingos? E depois, Sara nos aguarda, no ?
        E a torta de limo? Era para Fausto, mas se ele no quer ir...
        Ora, deixe a torta pra l. Prepare apenas alguns sanduches e 
vamos embora. Drio j deve estar  nossa procura...
        Perdo, Rodolfo, mas vo sem mim. De repente, perdi toda a 
vontade de ir.
        Ora, Jlia, o que  isso? No vai deixar que o mau humor de 
Fausto estrague nossos planos, no  mesmo?
        No  isso.  que perdi mesmo a vontade de ir. Sem Fausto, 
nenhum passeio, por melhor que seja, tem graa. Se ele no 
vai, eu tambm no vou.
        Mas Jlia, ns j combinamos.
        Sinto, mas no vou. Vo vocs e divirtam-se.
        Sem voc eu no vou  protestou Rodolfo, amuado.

Marta estacou. Ela o amava muito, e tudo com ele era divertido. 
Estar junto dele era tudo o que queria, e ela no podia entender por 
que ele precisava tanto da presena de Jlia.
        Por que no?  perguntou perplexa.  Por acaso minha 
companhia no lhe basta?
        No  isso  respondeu confuso.   que talvez Sara no se 
sinta  vontade sem a presena de Jlia.
        Isso  tolice  censurou Jlia.  Sara tem Drio. E voc tem 
Marta...
        Jlia tem razo. Mas se no quiser ir, ento est bem. Talvez 
eu no seja mesmo uma companhia to interessante.

Marta estava profundamente sentida. Esperava que Rodolfo 
apreciasse sua companhia, mas de repente pde perceber que ele, 
o tempo todo, ansiava por estar junto de Jlia. Como fora tola e 
ingnua! Estava claro que Rodolfo s a cortejava para disfarar suas 
reais intenes. Era em Jlia que ele estava interessado, e Fausto j 
percebera isso. Apenas Jlia no percebia. Ou ser que fingia no 
perceber?

Olhando para a amiga, Marta teve a certeza de que Jlia no estava 
interessada em Rodolfo. S tinha olhos para Fausto, e Rodolfo nada 
significava para ela. Procurando disfarar a dor que sentia naquele 
momento, com os lbios trmulos, acrescentou:

        Bem, acho melhor deixarmos nosso piquenique para outro dia. 
Vou avisar Drio que hoje no iremos.

Com um meio sorriso, Jlia foi embora. No tinha mais vontade de 
fazer nada. Se Fausto estava aborrecido com ela, ela iria esclarecer 
aquela situao de uma vez por todas.  claro que ele sentira cime 
de Rodolfo. Mas aquilo era uma tolice. Rodolfo era apenas seu 
amigo, e ela faria com que ele compreendesse isso de uma vez por 
todas. Amava-o e a mais ningum, e provaria seu amor.

Quando Fausto deixou Jlia, partiu em desabalada carreira para a 
plantao. No queria ver ningum e pensou que ningum se 
lembraria de procur-lo no meio do cafezal, em pleno domingo. 
Quando Jlia chegou, procurando por ele, ningum sabia onde 
estava. Ela ficou durante muito tempo esperando, mas nada. Fausto 
parecia haver desaparecido. Cansada de esperar, Jlia resolveu sair 
 sua procura. Mandou que lhe preparasse o cavalo e se foi. Depois 
de cerca de uma hora de cavalgada, finalmente, resolveu procur-lo 
na plantao. Era o nico lugar em que ainda no tinha ido, e talvez 
ele se houvesse refugiado ali. Com efeito, na entrada do cafezal, 
Jlia avistou o cavalo de Fausto amarrado a uma rvore, mas nem 
sinal de seu amado. Disposta a encontr-lo, Jlia apeou e comeou 
a caminhar por entre os ps de caf. Foi andando pelas trilhas que 
se formavam entre uma fileira de cafezal e outra, at que 
finalmente o viu. Ele estava sentado do outro lado da plantao, 
recostado  cerca que demarcava a rea do plantio, joelho dobrado, 
cabea afundada nas mos. Estava to quieto que parecia dormir. 
Jlia chegou mansamente, ajoelhou-se ao seu lado e, tocando-lhe 
gentilmente as mos, declarou:

        Fausto, por que no acredita quando digo que o amo?

Ele ergueu a cabea, assustado. Estava to absorto em seus 
pensamentos que sequer escutara os passos de Jlia se 
aproximando. Vendo-a ali parada, olhos serenos, brilhantes, 
transparentes de amor, ele se comoveu. No era possvel que 
aquela mulher, cujo olhar cristalino derramava sobre ele fulgores de 
amor, estivesse mentindo. No. Ela o amava. Tinha que am-lo. Por 
que outra razo estaria ali, ajoelhada a seu lado, enfrentando seu 
prprio orgulho s para convenc-lo? Sentindo o corao 
descompassado, Fausto puxou-a para si e a beijou, e aquele era o 
beijo de uma mulher apaixonada. Depois, gentilmente afastando-a, 
acariciou suas faces, enxugou-lhe as lgrimas e disse com emoo:

        Jlia, minha querida, perdoe-me.

Ela o abraou forte e desabafou, sentindo na voz um misto de medo 
e desespero:

        Por que, Fausto, por que duvida de mim?
        No sei... No duvido de voc. Mas  que quando a vejo com 
Rodolfo, no sei, o sangue me ferve, morro de cimes.
        J no lhe disse que isso  bobagem?
        Ser mesmo, Jlia?
        No acredita em mim?
        Em voc, sim, mas quanto a Rodolfo, tenho c minhas 
dvidas. Ele sempre arranja um jeito de se aproximar de 
voc. E muito solcito, est sempre disponvel a ajud-la. E faz 
com que tudo parea casual. Na verdade, no faz nada que 
possa, realmente, compromet-lo, mas age de forma 
sorrateira, utilizando-se de palavras e gestos estudados, 
sempre dando a impresso de que  um amigo 
desinteressado, e eu  que sou o tolo ciumento, desconfiado 
do irmo que s quer ser gentil.

Jlia balanou a cabea em sinal de compreenso e acrescentou:  
Sei Fausto, no comeo eu at pensei que voc pudesse ter razo. 
Mas depois, vendo o modo como Rodolfo me trata, percebi que est 
errado. Ele  muito solcito sim, e s vezes at um pouco artificial. 
Mas creio que  o jeito dele.  porque tem medo do que voc possa 
pensar.

        Acha mesmo?
        Acho sim. Ele teve diversas oportunidades para me abordar, 
mas nunca o fez. No nego que ele possa at sentir certa 
atrao por mim, mas ele est se esforando. Caso contrrio, 
j teria tentado alguma coisa. Como disse no lhe faltaram 
ocasies.
        No sei Jlia. No sei explicar, mas no confio nele.
        Pois confie em mim. Quantas vezes tm que repetir que o 
amo?

Ela o beijou suavemente, e ele respondeu:

        Tem razo, Jlia. Sou mesmo um tolo.
        Um tolo apaixonado.

Ele suspirou e prosseguiu:

        Agora vamos voltar. No quero que Rodolfo pense que estou 
zangado com ele ou que dou tanta importncia ao que ele faz.

Ele se levantou, puxando-a pelas mos e, antes que sasse, ela 
disse:

        Espere um instante. Quero que me prometa uma coisa.  O 
qu?
        Prometa-me que nunca mais vai desconfiar de mim.
        Eu prometo.
        E que tambm no brigar comigo, haja o que houver.
        Prometo.
        E, acima de tudo, prometa nunca mais duvidar de meu amor.
        Prometo.

Beijaram-se apaixonadamente e voltaram para a fazenda. Quando 
chegaram, Rodolfo os esperava ansiosamente. Eles desmontaram e 
seguiram em direo  casa grande de mos dadas. Quando se 
aproximaram mais, Rodolfo, ocultando o despeito, interpelou-os:

        Vocs esto bem?
        Melhor impossvel  respondeu Fausto.  Sabe Rodolfo, quero 
que perdoe a minha atitude de hoje cedo. Foi tolice de minha 
parte. No h motivo algum para sentir cimes de voc.
        Sim...  isso mesmo...
        Sei que Jlia e voc so apenas bons amigos, e agora percebo 
que no tenho com o que me preocupar. Ela jamais me 
trocaria por voc ou por qualquer outro homem.
        Sem dvida  rosnou entre dentes.

Fausto beijou Jlia suavemente nos lbios, e Rodolfo se afastou, 
fuzilando de dio. Quanto mais os via juntos, mais sentia a 
necessidade de separ-los. Era preciso colocar logo seu plano em 
ao, ou ele sentia que estouraria. 

CAPTULO 19                                                                                                          

Rodolfo deixou Fausto e Jlia s pressas e correu em direo  
biblioteca, quase esbarrando em Tlio, que ia descendo as escadas.

        Tlio!  esbravejou.  Por que no olha por onde anda?

Tlio no respondeu e j ia seguindo avante, quando Rodolfo o 
deteve, entrando com ele na biblioteca.
        O que quer?  indagou Tlio de m vontade.
        Falar com voc.
        No tenho mais nada para falar com voc. J no chega o 
quanto me atormenta?
        Quero que saiba que j descobri o segredinho de seus amigos 
 ele no disse nada, e Rodolfo prosseguiu:  Zylberberg, 
hein? Ezequiel Zylberberg.

Tlio empalideceu e lanou-lhe um olhar frio, perguntando a meia-
voz:

        O que tem isso de mais?
        Ora, no teria nada de mais se no fossem judeus.
        E da? So apenas pessoas, como todo mundo. E depois, no 
devia falar assim. No ficou amigo deles?
        Isso no vem ao caso. Mas  uma pena que minha me no 
pense como voc, no  mesmo?
        Acho que est valorizando demais a informao que possui. 
No creio que vov fosse se ocupar de coisas to pequenas.
        Acha mesmo que so pequenas? Pois deixe que o esclarea. 
No so. Talvez at fossem para qualquer outra pessoa, mas 
no para minha me. Ela no gosta de negros, nem de 
protestantes, nem de judeus. No gosta de ningum que no 
idolatre Jesus pendurado na cruz. Alis, para ela, os judeus 
so os nicos responsveis pela morte de Jesus, e ela no lhes 
perdoa a imolao do Cordeiro.
        Tudo isso so tolices.
        Tolices que podem levar  expulso de seus amigos daqui. 
Tlio no estava gostando nada daquela conversa. No sabia 
aonde o tio queria chegar, mas sabia que ele deveria estar 
planejando alguma coisa srdida e cruel. Tentando no 
demonstrar nenhum receio, procurou sondar:
        Por que est me falando tudo isso?
        Porque preciso de sua ajuda. Se quiser salvar seus 
amiguinhos, ter que me ajudar.
        O que o faz pensar que eu o ajudaria? Os Zylberberg so 
amigos de minha me, no meus. Pouco me importa o que 
acontecer a eles.
        No creio que voc seja to indiferente quanto quer parecer. 
Sei que gosta de sua me e de Jla, e no gostaria de v-las 
sofrer. Isso sem falar na tola paixo de seu irmo por aquela 
moa enfermia. E agora, saia da minha frente. Se no quer 
me ajudar, no me atrapalhe. Mas depois, no diga que no 
avisei.

Ele j ia empurrando o sobrinho para fora da biblioteca, mas Tlio o 
impediu:

        Espere! O que quer que eu faa?

Rodolfo voltou-se para ele e dirigiu-lhe um sorriso diablico, 
murmurando entre dentes:

        Agora estamos comeando a nos entender. O que quero de 
voc  muito simples. Quero que me ajude a separar Jlia de 
Fausto.
        Est louco. No posso fazer isso.
        Ah! Pode sim.
        No posso, no. E depois, no tenho a menor influncia sobre 
eles.
        Mas no se trata disso. Pretendo usar outros artifcios.
        Que artifcios?

Rodolfo chegou mais para perto dele e, abaixando a voz, sussurrou:

        Etelvina.
        Etelvina? Por acaso est louco, ? O que tio Fausto e tia Jlia 
tm a ver com isso?
        Muita coisa. Imagine se Jlia descobre o que Fausto fez com a 
negrinha.
        Mas ele no fez nada.
        S que ningum precisa saber disso.
        No entendo aonde quer chegar. No estava disposto a 
incriminar Trajano?
         que mudei de idia, sabe? Resolvi que no me convm que 
Trajano tenha matado Etelvina. Para mim, melhor seria que o 
assassino fosse outro. Acho que Fausto seria excelente!
        Voc enlouqueceu de vez. No v que isso  sandice? Que no 
dar certo? Ningum acreditaria.
        Caber a voc convencer a todos.
        Quer me dizer como farei isso?
        Contando-lhes a histria, praticamente como aconteceu. 
Apenas troque alguns personagens. Diga que, em vez de estar 
comigo, voc estava com Fausto, e que foi ele quem violentou 
e matou a escrava.
        Mas como? E eu? Devo assinar minha confisso de culpa?
        No seja tolo. Diga que Fausto mandou que voc levasse 
Trajano  beira do riacho para conversarem, fazerem as 
pazes, e que l encontraram Etelvina. Voc, impressionado 
com a fatalidade que ocorreu no passado, desistiu da 
negrinha, mas seu tio Fausto, movido pelo desejo, tratou de 
violent-la e depois, arrependido, para esconder o que fizera, 
resolveu mat-la, para no perder Jlia.
        Ningum vai acreditar. Tio Fausto no costuma se deitar com 
as negras.
        Ah, mas isso foi antes de Jlia. Sua tia  muito casta, sabe? E 
no permite que Fausto a toque antes do casamento. Por isso, 
ele precisava aliviar o desejo que sentia por ela com outra 
pessoa. E s podia ser uma escrava.
        Voc  completamente louco. Essa mentira no funcionar.
        Alm do mais, h testemunhas...
        Testemunhas? Quem?
        Trajano. Chame o negro e faa com que confirme a histria 
de que voc o levou l s para conversarem, e que ele viu 
Fausto matar a negra, sem que nada pudesse fazer.
        Trajano nunca far isso.
        Far se voc o ameaar. Diga-lhe que, se ele cooperar, 
salvar a pele do tronco. Caso contrrio dar um jeito para 
que ele seja acusado e aoitado at a morte.
        Tio Rodolfo, essa  a maior insanidade que j ouvi. No daria 
certo. Tio Fausto se defenderia. Ningum acreditaria, e voc  
quem ficar desacreditado e vencido.
        No diga isso. Se eu cair, levo-o comigo.

Rodolfo, furioso, virou-lhe as costas e saiu da biblioteca, deixando 
Tlio entregue a seus prprios pensamentos. Estava claro que o tio 
enlouquecera. Aquela idia, alm de absurda, era totalmente 
inverossmil. Ningum, em s conscincia, acreditaria naquela 
verso. Contudo, Tlio tinha que concordar que o testemunho de 
Trajano em muito influenciaria naquela infmia. A me e a tia 
tinham total confiana no negro, e se ele confirmasse aquela verso 
da histria, as duas no duvidariam, e todas as evidncias 
apontariam mesmo para Fausto.

Tlio estava com medo. Se concordasse em levar aquele plano 
adiante, poderia ser responsvel pela infelicidade de Jlia e de 
Fausto. Do contrrio, se recusasse talvez o mundo inteiro viesse 
sobre sua cabea, e ele fosse obrigado a conviver com o repdio e 
a indiferena da famlia. Quanto mais pensava, mais Tlio sentia que 
deveria fazer alguma coisa para evitar uma tragdia. Sentia como 
se a soluo daquele caso estivesse em suas mos. Precisava deter 
Rodolfo, mas, o que fazer? Em seu ntimo, sabia que s precisava 
ter coragem. Errara, sim, e muito. Mas no havia mais como apagar 
seu erro, e viver para o resto da vida carregando aquela culpa 
parecia-lhe um fardo pesado demais para suportar. Tlio sentia que 
chegava a uma encruzilhada em sua vida. Precisava decidir-se: ou 
falava a verdade e suportava o peso das conseqncias de seus 
atos, ou mentia e tentava resguardar sua imagem, j to 
comprometida por um erro do passado. Pensando em tudo isso, 
tomou sua deciso. Salvar-se-ia.

Rodolfo, por sua vez, parecia fora de si. Pretendia no apenas 
acabar com a felicidade do irmo, mas tambm desmoraliz-lo e 
aniquil-lo. O plano de Constncia, por si s, j seria suficiente para 
acabar com ele. Mas Rodolfo queria mais. Queria destru-lo 
totalmente. A histria de Etelvina faria com que Jlia, Camila e Drio 
vissem nele um monstro, e ele teria sua imagem comprometida por 
aquele incidente. E ainda havia os Zylberberg. Fausto sabia, desde o 
princpio, que eles eram judeus e, ainda assim, arrendara-lhes a 
fazenda, ocultando da me  verdade sobre sua origem. Mas logo 
que ela descobrisse que Fausto silenciara s para agradar Jlia, 
voltar-se-ia contra ele tambm. A sua vingana estaria completa. 
Alm de infeliz, desmoralizado e repudiado por todos, Fausto 
passaria por verdadeiro cafajeste, mentiroso e ardiloso, que 
enganara Jlia, a me e o resto da famlia s para conseguir seus 
objetivos. O que mais poderia desejar?

J se passara muito tempo desde o fatdico episdio que culminara 
com a morte de Etelvina, e desde esse dia, Trajano nunca mais fora 
visto na fazenda So Jernimo. Palmira, do alto de sua soberba, no 
esquecia que o escravo se atrevera a encostar a mo em seu neto e 
nunca mais permitiu que ele se aproximasse da fazenda. Se Camila 
queria proteg-lo, que o fizesse longe dali. Trajano at que estava 
feliz na fazenda Ouro Velho. No havia outros escravos vivendo ali, 
 exceo de Laurinda e Juarez, e ele no precisava ficar trancado 
na senzala. Ajudava nos servios domsticos, fazia compras, 
cortava lenha. E  noite, quando todos iam dormir, recolhia-se ao 
quarto contguo ao de Juarez e Laurinda e, muitas vezes, chorava 
sozinho a perda da doce Etelvina, a quem poderia ter amado e 
tomado por esposa.

Em seu ntimo, contudo, lamentava a separao de seus senhores. 
Gostava de Camila, de Jlia e dos meninos. Apesar de v-los 
constantemente, pois que sempre apareciam em visita a Sara, era 
diferente. Era obrigado a viver separado deles, e era como se 
houvesse sido arrancado do seio de sua famlia. Ainda sentia imensa 
mgoa de Tlio. Sempre fora seu amigo, encobrira suas peraltices 
da infncia, justificara suas loucuras de juventude. E tudo isso para 
qu? Para terminar rejeitado pelo rapaz, odiado como se fosse seu 
inimigo. Apesar de tudo, Trajano continuava a gostar de Tlio. Sabia 
que o moo no era propriamente mau, e muito lhe doa perceber 
que enveredara por um caminho de perdio.

Naquele dia, em especial, Trajano no conseguia parar de pensar 
em Tlio. Chegara a sonhar com ele, e em seu sonho, o rapaz 
pedia-lhe perdo e ajuda. Ele no compreendia aquele sonho, mas 
temia que alguma coisa estivesse errada com o sinhozinho. Desde 
manh no conseguia tirar Tlio da cabea, e qual no fora seu 
espanto ao encontr-lo na fazenda, sentado na sala de visitas, em 
companhia de Ezequiel e Rebeca. Quando o viu, Trajano no pde 
conter a surpresa. Laurinda fora cham-lo, dizendo que havia visita 
para ele, mas ele jamais poderia supor que fosse Tlio. Ao entrar na 
sala, passado o susto do primeiro momento, abaixou os olhos e 
indagou humilde:

        A sinh mandou me chamar?
        Mandei sim  respondeu Rebeca.  Tlio veio visitar Sara e 
pediu para falar com voc tambm.

Trajano levantou os olhos para ele, esperando encontrar algum tipo 
de ressentimento em seu olhar. Em vez disso, s o que pde 
perceber foi  dor e a frustrao, e isso o condoeu.

        Como vai, Trajano?  indagou Tlio, levantando-se e 
aproximando-se dele.
        Muito bem, sinhozinho, obrigado.
        Tlio quer lhe falar  adiantou-se Ezequiel.
        Ser que podemos sair?
        Como o sinh quiser.

Tlio pediu licena e saiu com Trajano para o quintal. Estava 
emocionado, e s ento percebera o quanto sentira sua falta. Afinal, 
estava acostumado  presena do negro. Tinha-o como amigo e 
protetor, e muito lamentava tudo o que o fizera passar. Vendo que 
Trajano seguia mudo a seu lado, Tlio, escolhendo bem as palavras, 
principiou:

        H muito queria falar-lhe.

O escravo pousou sobre ele os olhos negros, nos quais refletia a 
angstia da dvida, do medo e da desconfiana, e retrucou:

        Por qu?
        Por que... Porque desejava pedir-lhe... Perdo. Trajano deu 
um salto para trs e disse, indignado:
        Mas o que  isso, sinhozinho? Quer me enganar de novo, ?
        No, Trajano, no  nada disso. Queria falar-lhe. Estou 
arrependido do que fiz.
        O sinh vai me desculpar, mas no acredito, no.
        Por favor, Trajano, acredite,  a verdade.
        O sinhozinho est tramando alguma coisa?
        Mas que horror! No estou no.
        Ento por que veio?
        J disse. Queria falar-lhe. Estou arrependido. A culpa vem me 
corroendo por dentro. No sei mais o que fazer.

O outro ainda o olhava em dvida.

        Hum... No sei, no. Acho que o sinhozinho est querendo 
alguma coisa. Mas o qu? J no basta o que fez com a pobre 
Etelvina? Comigo, no reclamo. Mas Etelvina... O que foi que 
ela lhe fez? Sinceramente, sinh, ela no merecia...

Tlio desatou a chorar, atirando-se nos braos de Trajano, que ficou 
confuso, sem ter o que fazer. Estava sem jeito, sem saber o que 
pensar, e quanto mais tentava afastar-se do rapaz, mais Tlio se 
apegava a ele, chorando copiosamente. At que Trajano, no 
podendo mais suportar aquela cena, acabou por convencer-se da 
sinceridade daquelas lgrimas e perguntou condodo:

        Mas o que houve? Por que chora assim?
        Oh! Trajano, ento no percebe? A culpa me consome dia a 
dia. Sinto-me responsvel pela morte de Etelvina. No queria. 
Foi um acidente.
        O sinhozinho vai me desculpar outra vez, mas acidente no foi 
no. Sinh Rodolfo matou a pobre da Etelvina muito bem 
matado. Eu vi. Ningum me contou.
        Eu sei, eu sei. Mas eu no queria. Juro que no queria. E 
agora... Tenho medo.
        Medo de qu?
        Medo do que possa acontecer. De ser descoberto.
        No sei do que tem medo. Seu tio nunca falar nada, e eu... 
Bem, o sinhozinho soube calar a minha boca direitinha.
        No, Trajano, voc no est entendendo.
        No estou mesmo.
        Guarda raiva de mim?

Trajano hesitou.

        Raiva, no. Acho que fiquei magoado. Pensei que fosse meu 
amigo, que me quisesse bem como eu quero bem ao 
sinhozinho. Foi muito triste descobrir que sou apenas um 
monte de lixo.
        No diga isso, Trajano. Voc  uma pessoa muito especial.
        Hum... Sei. Especial para qu?
        Especial. S especial.
        Escute sinh Tlio, no acredito que veio at aqui s para me 
dizer essas coisas meio sem p nem cabea. No estou 
entendendo aonde quer chegar.

Tlio suspirou e virou a cabea para o outro lado, fitando o 
horizonte. Era preciso acabar logo com aquilo. Fora at ali com uma 
misso e precisava desincumbir-se dela o mais rpido possvel. 
Quanto mais demorasse, mais difcil se tornaria. Passados alguns 
instantes, Tlio encheu-se de coragem e, olho nos olhos, declarou:

        Pois bem, Trajano, vou lhe dizer a que vim. Tio Rodolfo est 
desesperado. Quer, a todo custo, separar minha tia Jlia de 
meu tio Fausto.
        Por qu?
        Creio que est apaixonado por ela.
        Sinceramente, sinhozinho, sinh Rodolfo no merece 
sinhazinha Jlia, no.
        Eu sei. Mas ele insiste, e o fato  que esboou um plano para 
desacreditar tio Fausto, no s diante dela, mas de toda a 
famlia. E para isso conta com a sua... Colaborao.
        Minha colaborao? No estou entendendo.
        Deixe que lhe explique.

Em poucas palavras, Tlio narrou a Trajano o plano traado por 
Rodolfo. O escravo,  medida que o outro falava, ia ficando cada 
vez mais horrorizado. No imaginava que podia haver tanta 
maldade no corao do ser humano. Quando Tlio terminou, 
Trajano estava arrasado. Aquilo era demais para ele. Fora obrigado 
a silenciar sobre o assassinato de Etelvina. Mas ter que mentir para 
incriminar um inocente? Ele cobriu o rosto e chorou, e Tlio pousou 
as mos sobre seus ombros e disse, tentando parecer confiante:

        No se preocupe. Tenho certeza de que tudo dar certo.

Caa uma chuva fininha, e Marta apressou o passo, encolhendo-se 
dentro da capa, tentando no se molhar muito. O caminho cheio de 
lama dificultava-lhe a caminhada, mas ela ia resoluta. Precisava 
falar com Rodolfo e no podia mais esperar. Encontrou-o na 
biblioteca, aprontando a contabilidade, pediu licena e entrou. Ao 
v-la, ele demonstrou certa contrariedade. Sem lhe dar chance de 
falar, disse rispidamente:

        O que quer aqui, Marta? No v que estou ocupado?
        Preciso falar com voc.
        Agora no.
        Mas no posso esperar.
        Seja o que for que tenha a me dizer, vai ter que esperar, sim. 
Agora, por favor, saia. Est me atrapalhando.
        O que h com voc, Rodolfo? Por que me trata assim? Por 
acaso no me ama mais?
        Oua Marta, no estou com vontade de escutar suas lamrias.
        Lamrias? Mas quando foi que me lamuriei com voc? Ao 
contrrio, sou sempre amvel, gentil... Desvelo-me para 
agrad-lo.
        Pare com isso, por favor. No estou com pacincia para 
choramingo.
        Mas o que h com voc? H pouco dizia que me amava.
        Pare, j disse! V-se embora daqui. No me aborrea mais! 
Marta comeou a chorar e, atirando-se a seus ps, suplicou:
        No me trate assim. Eu o amo.
        No me interessa o seu amor.
        O que houve para voc mudar to de repente? Era to 
carinhoso...
        Marta, j estou farto dessa ladainha. Saia daqui, ou serei 
obrigado a expuls-la.
        Pensa que no sei?
        No sabe o qu?
        Pensa que no sei que voc me usou esse tempo todo, s 
para se aproximar de Jlia?
        Est louca  respondeu num sussurro.
        Ser que estou mesmo? Ou ser que foi voc quem perdeu a 
cabea por causa da noiva de seu irmo?
        Cale-se!
        No, no vou me calar. Eu j percebi tudo. Voc me usou. 
Nunca me amou. S tem olhos para Jlia. Mas no adianta. 
Ela no o ama, e sim a Fausto. E por mais que voc faa, 
nunca conseguir ser igual a ele.
Rodolfo, sentindo j o sangue subindo s faces, no se conteve e 
esbofeteou Marta vrias vezes, arrancando-lhe sentidas lgrimas de 
dor e de humilhao.

        Ordinria!  vociferou.  Quem pensa que  para falar 
comigo assim desse jeito?
        Eu o amo, Rodolfo. Quero ser sua mulher. No importa o que 
faa, amo-o ainda assim. Meu amor  puro e verdadeiro. S 
aqueles que conhecem a real acepo do amor so capazes 
de compreender e aceitar o ser amado como ele . E eu, 
Rodolfo, por am-lo demais, posso compreender e perdoar 
todas as suas atitudes impensadas e inconseqentes.

Vendo-a ali cada no cho, chorando, o rosto inchado das bofetadas, 
Rodolfo retrocedeu. Ele no queria que ningum soubesse daquela 
cena. Aquilo s atrapalharia seus planos. Era preciso fazer com que 
Marta se calasse.

        Oua Marta, no quero brigar com voc. Perdoe-me por ter-
lhe batido. Perdi a cabea, voc me provocou.
        Sinto muito, mas eu s disse a verdade.
        No, Marta, est enganada. No sinto nada por Jlia. E de 
voc que gosto.
        A quem quer enganar? A mim? Ou a voc mesmo?
        No quero enganar ningum. Estou dizendo a verdade. Um 
dia, pensei mesmo que amasse Jlia. Mas depois percebi que 
tudo no passou de iluso. E quando a conheci, apaixonei-me 
por voc.
        Suas atitudes no so as de um homem apaixonado.
        Uma coisa nada ter a ver com outra. Sou um homem 
estouvado, tenho o sangue quente. No consigo me conter 
quando me provocam. E voc me tirou do srio. Mas no 
queria bater em voc e estou arrependido. Juro que isso no 
vai mais acontecer.
        Isso no me importa.
        Mas importa para mim. No quero que pense que sou um 
canalha.
        Por qu? Por haver me batido ou por desejar a futura mulher 
de seu irmo?

Rodolfo mordeu os lbios, segurando a raiva dentro de si. Tinha 
vontade de esgan-la, mas precisava se controlar.

        Por favor, Marta, pare com isso  retrucou, rangendo os 
dentes.
        Vou parar sim, Rodolfo, mas no porque est me pedindo. Vou 
parar porque j confirmei minhas suspeitas. No entanto, no 
se preocupe. No pretendo dizer nada a ningum.
        O que quer dizer?
        Quero dizer que eu o amo, no importa o que faa. E mais dia 
menos dia, voc mesmo vai perceber que seu sentimento por 
Jlia  um erro. Ela no o ama e no  mulher para voc. Dia 
chegar em que voc s ter a mim para apoi-lo.

Marta saiu e Rodolfo ficou pensativo. A tola! Pensava que ele estava 
apaixonado por Jlia. No fundo, sabia que gostava mesmo de Marta, 
mas o sabor da vingana era mais doce no corpo de Jlia. Embora 
Rodolfo nem soubesse bem do que pretendia se vingar...






CAPTULO 20

Sara conversava com frei ngelo no jardim. Apesar de mais 
animada com os freqentes passeios e a conversa com os amigos, 
naquele dia estava muito abatida. Quase no comera, e o peito 
doa-lhe a cada vez que respirava.

        E ento, Sara?  indagou o frei.  No quer me contar o que 
houve?

Ela olhou para ele desanimada. Estava cansada e sem muita 
vontade de conversar.

        No sei  respondeu ela, afinal, sem muita convico.  No 
sei ao certo.
        Voc hoje no est muito bem.
        No sinto vontade de conversar.
        No quer nem tentar? Por que no continua a me contar seus 
sonhos?
        Meus sonhos?
        Sim. No outro dia, voc me disse que tinha sonhos muito 
estranhos e at me contou um deles, que achei muito 
interessante. No quer me contar outro?
        Acha mesmo necessrio? No estou com muito nimo para 
isso agora.
        Acho que, alm de necessrio, ser muito til. Mas, se voc 
no quiser se no estiver disposta, no faz mal. Podemos 
deixar para outro dia.

Ela suspirou fundo e retrucou:

        Est bem. Se acha que  importante  ela fez uma pausa, 
tentando lembrar-se de algo, e comeou:  Bem, teve uma 
vez que sonhei com minha me chorando muito. Estava toda 
de preto, debruada sobre um caixo. Dentro, um homem 
jazia. Era seu marido e meu pai.
        Na vida atual?
        No, apenas no sonho.
        Sabe quem era hoje?
        No, no sei. Acho que no o conheo.
        Bem, no importa. E voc?
        Em meu sonho, eu era ainda um beb. No devia ter mais do 
que um ano, um ano e meio.
        E o que aconteceu?
        Como disse, minha me chorava muito. Eu estava no colo de 
Marta, sem entender bem o que se passava. Era um enterro, 
e havia muitas pessoas conhecidas.
        E depois?
        No me lembro direito. S o que sei  que minha me s 
pensava no marido morto. Lembro-me de seu olhar para mim. 
Um olhar de dio, de mgoa, como a perguntar: "por que ele, 
e no voc?.
        S isso?
        Sim.
        Hum... Interessante. Esse sonho s vem reforar a minha 
teoria.
        Que teoria?
        De que voc comeou a se sentir abandonada em outra vida e 
trouxe para a atual esse sentimento.
        Ser mesmo?  ela ainda duvidava.
        Estou quase certo.

Sara ficou pensativa. Aquilo tudo era muito confuso, mas fazia 
sentido. No entanto, no tinha elementos suficientes para acreditar 
completamente.

        Bem  prosseguiu ela , seja como for, o fato  que o sonho 
me pareceu bem real.
        E foi com certeza. Na verdade, no foi propriamente um 
sonho, mas uma evocao, uma lembrana de outra vida.
        No sei frei ngelo, ainda no acredito muito nisso.
        Mas vai acreditar.  Ele fez uma pausa e continuou:  No se 
lembra de mais nada? Outro sonho?
        Sim. Houve uma vez em que sonhei novamente com mame 
e Marta. E adivinhe!  frei ngelo remexeu-se na cadeira, e 
ela prosseguiu:  Elas eram irms.
         mesmo?
        Sim. Nesse sonho, Marta vinha me visitar e trazia muitos 
presentes. Pegava-me no colo, dava-me beijos, estreitava-me 
de encontro ao peito. Eu a adorava e costumava cham-la, 
inclusive, de me.
        Interessante...
        Sim. E depois teve outro, em que eu via o segundo casamento 
de minha me, dessa vez com meu pai de verdade. Lembro-
me de ouvi-lo falar para minha me que gostava muito de 
crianas e que gostaria que ela lhe desse filho. Como minha 
me no conseguia engravidar, ele queria que eu gostasse 
dele como pai, e disse que minha me deveria tratar-me com 
mais ateno. Depois a cena se modificou, e vi mame 
brigando com Marta, acusando-a de querer me roubar, e 
Marta foi proibida de me ver. Fui trancada em casa e chorei 
muito.
        E depois?
        No sei. Tenho lembranas confusas.
        Agora compreendo por que sua me no simpatizou com 
Marta.
         verdade. E segundo Jlia me disse, da primeira vez em que 
ela aqui esteve eu estava delirando, mas de repente abri os 
olhos e, quando a vi, chamei-a justamente de mame. Minha 
me ficou indignada. Pensou que fosse devido ao meu estado.
        Imagino.
        Em outro sonho, eu estava sentada na sala, brincando de 
bonecas, e o marido de minha me falava comigo. Ela, 
sentada numa poltrona, bordava uma toalha de linho e sorria 
para mim. De repente, meu pai se levantou e saiu, atendendo 
ao chamado de um criado. Eu voltei-me para minha me, 
mostrando-lhe a boneca, mas ela no me deu a menor 
importncia. Ao contrrio, repreendeu-me por atrapalhar seu 
bordado.

Frei ngelo ficou pensativo. As coisas comeavam a se encaixar, e 
ele disse para Sara:

        Isso que voc me conta  muito revelador.
        Acha mesmo?
         claro que sim. No tenho mais dvidas de que essa sua 
enfermidade comeou em outra vida. Voc perdeu o pai ainda 
beb. Sua me no lhe dava ateno, obrigou-a a conviver 
com um homem que lhe era praticamente um estranho e, 
alm disso, afastou-a da nica pessoa a quem voc realmente 
amava que era sua tia, hoje Marta. No v como tudo se 
encaixa?
        No ser apenas coincidncia?
        Acredita mesmo em coincidncias? No acha que  
coincidncia demais voc sonhar com essas pessoas, nas 
situaes em que me descreveu, exatamente em 
circunstncias que justifiquem o porqu de sua enfermidade?
        Pensando bem,  estranho, sim. No creio, realmente, que 
tudo seja obra do acaso.
        Tampouco eu, minha cara. H, por detrs dessa histria, uma 
fora em muito superior a ns, que entrelaa os destinos de 
forma a que tudo se encaixe perfeitamente, sem deixar uma 
pea sequer fora do lugar.
         verdade.
        Est cansada? Aborrecida?
        No, frei ngelo, estou bem e gostaria de continuar.
        timo.

Ela olhou para o alto, tentando se lembrar de mais alguma coisa, e 
prosseguiu:

        Lembro-me de haver sonhado com crianas brincando no 
jardim ao lado de minha casa. Elas me chamavam, e eu as 
olhava com olhar entristecido, recusando-me a brincar com 
elas.
        Foi se fechando.
        Sim. Fui me fechando e me isolando cada vez mais, e passei a 
me alimentar mal. At que um dia...

Sara abaixou os olhos e comeou a chorar de mansinho. Era bvio 
que as lembranas que evocava eram profundamente dolorosas. 
Embora frei ngelo percebesse isso, sabia que era fundamental para 
o tratamento e incentivou-a a continuar:

        Um dia...
        Um dia sonhei que corria na chuva, contra o vento. Depois, vi-
me deitada numa cama imensa, ardendo em febre. Vi minha 
me entrar com o mdico. Ele se abaixou sobre mim e disse: 
pneumonia. Em pouco tempo fui definhando, at que no pude 
mais resistir e morri ainda bem pequenina.
Ela ainda chorava, e frei ngelo a abraou. Podia imaginar como 
Sara estava se sentindo com tudo aquilo. Seus sonhos eram muito 
significativos, e ele estava certo de que os fatos ocorridos em sua 
vida passada acabaram por imprimir na menina o mal de que antes 
padecera e de que ainda hoje sofria. A conversa foi encerrada. No 
precisava dizer mais nada. Todos os sonhos que tivera 
posteriormente estavam relacionados ao mesmo assunto: o 
sentimento de abandono por causa da me, que no a desejava, e 
porque Marta, a nica pessoa que realmente se importava com ela, 
fora afastada de seu convvio. Sara conseguira alcanar o mago de 
sua prpria alma e s com o tempo poderia aprender a transformar 
a dor que sentia em lio de vida para o presente e o futuro.
Sara despediu-se de frei ngelo e foi ao encontro de Drio, que 
chegava. O rapaz enlaou-a pela cintura, beijando-a suavemente, e 
disse:

        Vim fazer-lhe um convite especial.
        Para qu?
        Vamos todos  vila hoje  tarde. No gostaria de vir conosco? 
Sara entristeceu e replicou:
        Eu adoraria, mas no me sinto com foras para sair. Uma 
coisa  passear com voc, Jlia, Marta, Fausto e Rodolfo. 
Outra coisa  estar no meio de gente estranha. Isso me 
assusta.

Frei ngelo, que passava nesse exato momento, ouvindo as ltimas 
palavras de Sara, repreendeu-a:

        Sara, Sara. Quando  que vai aprender?
        Aprender o qu?
        Quantas vezes tm que lhe dizer para no fugir do contato 
com as pessoas?  importante para voc sair, misturar-se a 
elas, divertir-se.
        Era o que eu ia dizer-lhe, frei ngelo  concordou Drio.
        Pois ento, minha querida? No perca essa oportunidade. Voc 
tem feito excelentes progressos, em grande parte graas a 
seu prprio esforo. Por que recuar agora?
        E isso mesmo, Sara. Nosso bom frei tem razo, como sempre. 
Vamos no se enterre dentro de casa. Voc no morreu. Ou 
ser que j se julga morta?

Sara mordeu os lbios e acabou por concordar:

        Est bem. Convenceram-me.
        timo. Assim  que se fala! V e se entregue. No pense em 
nada e viva o momento. Faa de todos os momentos de sua 
vida um momento especial e voc descobrir como a vida 
pode ser maravilhosa!

Mais tarde, Sara partiu em companhia de Drio para a vila. 
Encontrar-se-iam com Fausto, Jlia, Rodolfo e Marta. Havia uma 
companhia de teatro amador na vila, e os atores encenariam 
Hamlet no pequeno teatro da escola dominical. Sara divertiu-se 
muito. Quando voltou para casa j era noite, e os pais estavam 
preocupados. J ia repreend-la, mas, ao notarem o ar de felicidade 
com que chegou, desistiram. Se ela estava feliz, no seriam eles a 
estragar sua felicidade. Porque a felicidade para Sara era mais do 
que um estado de alegria transitria. Era o caminho para a cura.







CAPTULO 21

Na vspera do aniversrio de Palmira o alvoroo j era geral na 
fazenda So Jernimo. A capela, finalmente, seria inaugurada, e 
Palmira queria que tudo estivesse perfeito. Desde cedo j se haviam 
iniciado os preparativos para a festa, e os escravos foram para 
frente da capela, enfeitando o terreiro com bandeirolas e 
lanterninhas. Todos os fazendeiros da regio haviam sido 
convidados, e Rodolfo, logo pela manh, tivera uma idia que 
colocaria Jlia em pnico. Ele bateu na porta do quarto da me e 
entrou. Ela estava sentada em frente ao espelho, e uma escrava 
bem novinha escovava-lhe os cabelos encanecidos. Quando viu o 
filho, abriu um sorriso, e ele disse, logo aps beij-la nas faces:

        Ento, mame, amanh  o grande dia!
        Parece mentira que a capela ficou pronta.
        E a senhora far mais um ano de vida...
        Na minha idade, meu filho, contamos anos a menos.
        Ora, mas o que  isso? A senhora  ainda muito jovem.
        Deixe de bobagens, Rodolfo. Ento no sei que j estou bem 
prximo da morte?
        No diga isso. A senhora ainda viver muitos anos.
        Deus o oua, meu filho, embora no creia muito...

Rodolfo foi at a janela, olhou para fora e disse, sem encar-la:

        Mame, gostaria de falar com a senhora.
        Sim, meu filho, o que ?
        Estive pensando... J que convidamos todos os fazendeiros da 
regio, por que no convidarmos tambm nossos inquilinos da 
Ouro Velho?

Palmira levantou as sobrancelhas e retrucou, sem maior interesse:

        Por qu? Nem os conhecemos.
        Por isso mesmo. Arrendamos a fazenda para eles, mas nunca 
fomos apresentados. No acha uma indelicadeza?
        No, no acho. O que temos com eles so negcios. No so 
pessoas de nossas relaes.
        Mas por que no podemos convid-los? Poderia ser 
interessante. E depois, eles so amigos de Camila.
        De Camila?
        Sim, mame. A senhora no sabia?

Palmira pensou durante alguns segundos e respondeu:

        No me recordo.
        Pois Fausto lhe disse. A senhora  que no se lembra.
        Se no me lembro  porque no deve ser importante. Pois se 
nem Camila fala neles...
        Pois . No acha isso estranho?

Ela torceu os lbios. Sim, no fundo, era estranho. Nunca pensara 
sobre aquilo, mas j que Rodolfo falara, tinha que concordar que ele 
no deixava de ter razo. Se aquelas pessoas eram amigas de sua 
filha, por que ela nunca falava nelas? Por que nunca os convidara 
para ir at l? Seria natural que se interessasse em aproxim-los. 
Pensando nisso, indagou:

        Ser que no  gente direita?
        No creio. Afinal, so amigos de Camila, e ela no faria 
amizade com pessoas desonestas ou de m ndole.
        Mas ento, por que nunca nos apresentou?
        Para falar a verdade, j vi a moa algumas vezes e at j a 
acompanhei em alguns passeios.
        Ento, j os conhece?
        No, somente Sara, a filha. J participei de alguns passeios em 
que ela estava presente, mas ainda no fui apresentado a 
seus pais. Seria uma tima oportunidade para conhec-los 
tambm.
        Acha que devemos?
        Sim, mame, acho que sim. Afinal, Camila falou deles muito 
por alto, e eu, at hoje, s vi a filha doente.
        Doente? Que doena tem ela?
        No sei ao certo, mame. Mas Camila nos contou. No se 
lembra?

Palmira apertou os olhos, tentando se lembrar. Sim, realmente, 
Camila falara algo sobre uma famlia com uma filha enferma, que 
para ali fora em busca de melhores ares. Lembrava-se de que, a 
princpio, relutara em arrendar-lhes a fazenda, mas Fausto acabara 
por convenc-la e resolvera tudo, e ela no dera muita importncia 
ao caso. Ela j estava ficando velha e cansada, e sua memria 
tambm j no era mais a mesma. Costumava lembrar-se apenas 
do que era importante. Tentando recordar o que lhe dissera a filha, 
respondeu indecisa:

        Lembro-me de que Camila disse algo sobre eles...
        Ento? Por que no os convidamos tambm?
        No sei meu filho, no estou bem certa. Se a moa  doente, 
talvez seja melhor deix-los quietos em seu canto.
        Mas que bobagem, mame. Talvez at lhe faa bem. Afinal, 
so pessoas de posses e posio.
        Meu filho, no entendo o porqu desse interesse repentino.
        J disse. Porque so pessoas diferentes e devem ser 
interessantes.
        Mas vir tanta gente...
        Gente que estamos mais do que acostumados a ver.
        E da? So todas as pessoas de bem.
        Mame, posso saber por que a relutncia em convid-los?

Ela estacou e encarou o filho. Na verdade, ele tinha razo. Ela 
estava mesmo relutando em convidar seus vizinhos, mas nem sabia 
por qu. Nunca ouvira nada a seu respeito, mas sentiu certa 
inquietao ao pensar neles. Contudo, no havia nenhum motivo 
para recusar-se a convid-los. No os conhecia, mas sabia que 
eram pessoas ricas e direitas. Que mal faria? Pesando bem os 
motivos, acabou por dizer:

        Est bem. Voc tem razo. No h motivo algum para no os 
convidarmos. Mande um escravo hoje levar-lhes um convite.
        Obrigado, mame.

Rodolfo estalou-lhe um beijo na bochecha e correu em direo  
porta. A me, de repente, como que se lembrando do motivo que a 
levara a no se interessar por aquela gente, gritou l de dentro do 
quarto, to alto que Rodolfo escutou-a j do alto da escada:

        Mas que no me tragam aquele negro insolente!

Partindo dali, Rodolfo saiu em busca de Tlio. O rapaz estava no 
terreiro, acompanhando a decorao da festa, e franziu o cenho 
quando viu o tio se aproximar. A seu lado, Camila, Jlia e Marta, 
animadas, davam ordens aos escravos, indicando-lhes onde 
deveriam prender as lanternas e as bandeirinhas. Ao ver o irmo se 
aproximar, Camila se retraiu e olhou para o filho, que lhe devolveu 
um olhar imperceptvel, afastando-se logo em seguida. Rodolfo foi 
atrs dele e, segurando-o pelo brao, disse:

        Aonde pensa que vai?
        Solte-me  respondeu Tlio de m vontade, puxando o brao 
com violncia.
        Espere um instante, rapaz. Quero falar com voc.
        O que quer dessa vez?
        Adivinhe.
        Olhe tio Rodolfo, no estou nem um pouco interessado em 
seus gracejos. V logo ao assunto ou ento me deixe em paz.
        Nossa, mas que mau humor!
        No sei por que voc est to bem-humorado.
        No sabe? Pois vou lhe contar  respondeu cantando.  
Mame deu autorizao para convidar seus amiguinhos, os 
Zylberberg, para a festa de amanh. No  fantstico?

Tlio gelou. O que o tio pretendia com aquilo?

        Ficou louco?  revidou em tom agressivo.  O que quer? 
Arruinar minha me e minha tia? Por que no procura algo 
melhor para fazer e nos deixa em paz?

Rodolfo, visivelmente irritado, agarrou o sobrinho pelo colarinho e, 
olhos nos olhos, esbravejou, destilando veneno:

        Oua aqui, garoto, no se faa de sonso comigo! Sei muito 
bem que voc no  nenhum santinho!

Assustado, Tlio segurou-lhe as mos e, sustentando-lhe o olhar, 
respondeu com aparente firmeza e ousadia:

        Solte-me. No sou seu escravo para voc me tratar desse 
jeito.

Rodolfo soltou um riso de escrnio e largou-lhe o colarinho, que 
Tlio logo tratou de ajeitar. Encarando-o ainda, ameaou:

        No se esquea do que combinamos.
        No me esqueci.
        Acho bom mesmo. Seno...
        No me ameace tio Rodolfo. Voc j me bateu uma vez, mas 
no me conhece e no sabe do que sou capaz.
        Ficou valente, rapaz? O que vai fazer? Bater-me tambm? 
Matar-me?

Tlio no respondeu. No fundo, morria de medo de Rodolfo. 
Julgava-o louco e bem sabia que, ele sim, era capaz das maiores 
barbaridades. No entanto, o temperamento ousado e atrevido de 
Tlio no lhe permitia enfraquecer, e ele tentava, a todo custo, 
manter sua hombridade, no se deixando acovardar diante de 
Rodolfo. Tinha medo, sim. Mas o tio no precisava saber disso, e ele 
pretendia no deixar transparecer. Ainda encarando-o, afirmou:

        De voc, s quero distncia.
        No enquanto eu no conseguir o que quero. E para conseguir 
o que quero, preciso de sua, digamos, cooperao.
        O que quer que eu faa?
        Quero que v  fazenda Ouro Velho convidar seus amigos. 
Diga-lhes que  um convite especial, da parte de minha me, 
e que no faltem.
         s isso?
        Sim. Agora, v.

Sem contestar, Tlio se foi. O que estaria Rodolfo pretendendo? Em 
silncio, passou pelo terreiro e dirigiu-se para as cocheiras. Camila, 
vendo-o passar apressado, chamou-o, mas ele no respondeu. Mais 
que depressa, ela seguiu em seu encalo e viu quando ele encilhou 
o cavalo, partindo em disparada em direo  fazenda Ouro Velho. 
Ela pediu que lhe preparassem uma charrete e saiu atrs dele. Tlio, 
no meio do caminho, freou um pouco o animal e foi seguindo 
devagar pela trilha, sem pressa de chegar. Pouco depois, Camila o 
alcanou. Emparelhou com ele e dirigiu-lhe um olhar perscrutador, e 
ele saltou do cavalo, olhando para a me com ar de splica. Ela 
desceu da carruagem e o abraou, e ele comeou a chorar. Tlio 
era um doidivanas, ela sabia, mas era um menino. Seu menino, a 
quem ela sempre amaria e ajudaria.

Voltando para o terreiro, Rodolfo saiu  procura de Marta que, 
juntamente com Jlia, ajudava os escravos com as bandeirinhas. O 
terreiro estava ficando uma beleza, e a festa seria um sucesso. Logo 
que as viu, correu para elas, beijando Marta friamente nos lbios. 
Sorriu para Jlia e disse com excitao:

        Vocs nem imaginam a surpresa que lhes preparei para 
amanh.
         mesmo, Rodolfo?  retrucou Jlia com interesse.
         sim.
        Podemos saber o que ?  indagou Marta.
        No, no podem. Pois se  surpresa...
        No pode nem nos dar uma pista?
        Bem, s o que posso lhes dizer  que atingir o corao de 
Jlia mais do que o de qualquer outro.
        De Jlia?
        Sim, minha querida. Mas no precisa ficar com cimes.
        No estou com cimes  disse Marta zangada.  Sei que Jlia 
 minha amiga.
Fausto aproximou-se. Vinha apressado, olhos fixos em Rodolfo. 
Embora lutasse desesperadamente contra si mesmo, ainda no 
conseguia confiar no irmo.

        Ol!  cumprimentou.  O que esto fazendo?
        Nada de mais  disse Rodolfo.  Apenas apreciando os 
preparativos da festa. Parece que ser um sucesso!
        Com certeza, meu irmo. Ser uma festa muito especial.
        Disso eu no duvido  concluiu Rodolfo, soltando uma 
gargalhada estridente, enquanto se afastava, levando Marta 
pela mo.

Do outro lado, Constncia os observava com ar malicioso. J 
planejara tudo. S precisava falar com Rodolfo e instru-lo bem, 
para que no fizesse nada de errado. Quando eles passaram perto 
dela, Constncia chamou:

        Rodolfo, ser que poderia vir comigo um instante?

O rapaz encarou-a com ar significativo, pediu licena a Marta e saiu 
com a prima. Os dois foram caminhando lado a lado, e Constncia ia 
dizendo:

        Ser amanh.
        Amanh? Mas  a festa de mame...
        Por isso mesmo. Depois da festa, todos estaro exaustos e s 
pensaro em dormir. Ocasio ideal para uma pequena traio, 
no acha? Todos pensaro que Jlia, aproveitando-se do 
cansao e do sono pesado de Fausto, atraiu voc a seu quarto 
para que lhe fizesse o que seu irmo se recusa a fazer.

Rodolfo soltou uma gargalhada. Se aquele plano desse certo, Fausto 
estaria acabado e terminaria tudo com Jlia. Caso contrrio... No 
queria nem pensar. E havia ainda os Zylberberg. Avaliando as armas 
que tinha contra o irmo, achou que os Zylberberg poderiam 
esperar. Mesmo que comparecessem  festa, no faria nada contra 
eles... Por enquanto.

        O que devo fazer?
        Depois que a festa acabar, v para o seu quarto. L 
encontrar as roupas de Fausto, que tirei de seu armrio sem 
que ele percebesse. Se vista depressa e fique  espreita. 
Quando o lampio do quarto de Jlia se apagar, espere cerca 
de meia hora e entre. Depois, faa como lhe mandei. Mas no 
se esquea: seja gentil e no a force. Disso vai depender todo 
o sucesso de nosso plano.
        No se preocupe Constncia. Farei tudo direitinho.
        Na manh seguinte, agirei bem cedinho. A hora do caf j 
terei contado tudo a Fausto,  minha maneira. Provavelmente 
ele ficar agressivo com voc. Mas no revide nem tente 
desmentir o acontecido. Diga-lhe que Jlia o convidou, e que 
voc, por mais que se esforasse, no pde resistir  
tentao.
        E quanto a Jlia?
        Esquea Jlia e confie em si mesmo. Voc  inteligente e 
saber escolher as palavras certas para se defender. Mas no 
tente dizer que no aconteceu. Diga que s aconteceu porque 
Jlia o provocou, e insista em que ela sabia que era voc, e 
no Fausto.

Tudo acertado, Rodolfo voltou para perto de Marta, que no 
desconfiava de nada.

        O que ela queria?  indagou a moa.
        Nada. Apenas mostrar-me o presente que vai dar a mame.

No dia seguinte, os arranjos para a festa de Palmira estavam 
praticamente concludos, restando apenas alguns detalhes de ltima 
hora. A matriarca da famlia Sales de Albuquerque, apesar de 
saudosa dos que a haviam precedido no tmulo, sentia-se feliz. 
Tinha a companhia dos filhos, dos netos e da sobrinha.

Constncia despertou ansiosa. Estava bem prximo o dia em que, 
finalmente, ultimaria sua vingana. Mais um pouco e teria em suas 
mos aquela que fora a causa de toda a sua desgraa. Mais um 
pouco e Tonha sentiria toda a fria de seu dio e experimentaria na 
carne a lmina afiada de seu punhal. J antegozava o prazer que 
sentiria ao ver o sangue da negra espalhado pelo cho. A imagem 
de Tonha morta encheu-a de euforia, e Constncia foi para a 
cozinha, onde Tonha preparava os quitutes para a festa. Quando 
Tonha a viu entrar, soltou um grito e ficou parada a olh-la, como 
se tivesse visto um fantasma, e a outra indagou com rispidez:

        O que foi que houve negra? Por acaso pareo alguma 
assombrao?

Tonha ficou a olh-la com ar de espanto, at que respondeu:

        Perdo, sinh, no foi nada.

Tonha voltou a concentrar sua ateno nos doces que estava 
preparando. Constncia aproximou-se do fogo e comeou a 
levantar as tampas das caarolas, cheirando seu contedo. Tonha, a 
seu lado, fingia no lhe prestar ateno, mas podia sentir a 
presena de algum ali. Quando ela entrara, vira nitidamente o 
esprito de Incio a seu lado, envolto em uma tnica branca, 
acompanhando-a com ar de tristeza e preocupao. Incio... O 
grande amor de sua vida. Lembrou-se dele com ternura, da poca 
em que estavam apaixonados, dos momentos em que mais nada 
parecia importar.    Como o amara... E como sofrer com sua 
perda. Desde que ele morrera naquele incndio, no havia um dia 
sequer em que no pensasse nele.

Por uma frao de segundos, seus olhos se encontraram, e Tonha 
pde perceber que Incio tentava dizer-lhe alguma coisa, mas ela 
no conseguiu compreender. H muito tempo nem sonhava com 
ele, e v-lo causou-lhe enorme emoo. Tonha sabia que a 
presena de Incio ali deveria ter algum motivo srio. Talvez 
quisesse alert-la de algum perigo ou proteg-la. No sabia. Em 
silncio, elevou seu pensamento a Deus e guardou silncio.

A festa estava marcada para comear s seis horas, com uma missa 
a ser rezada na capela pelo padre Joo, para comemorar tanto sua 
inaugurao quanto o aniversrio de Palmira. Ainda era cedo e j 
estava tudo praticamente pronto. Camila e Jlia cuidaram de tudo 
direitinho, e no havia muito mais o que fazer. Os quitutes estavam 
adiantados, a decorao impecvel. Fausto at mandara trazer do 
Rio de Janeiro uma pequena orquestra, para animar o baile.

A hora do almoo, com a famlia toda reunida, Rodolfo pediu licena 
e levantou-se para falar. Todos voltaram para ele sua ateno, e 
ele, retirando do bolso um pequeno embrulho, depositou-o na frente 
de Palmira, dizendo com a voz carregada de uma emoo forada e 
pouco convincente:

        Mame, quero que aceite esta pequena lembrana como um 
presente especial do meu corao.
Palmira abriu o embrulho com mos trmulas. Dentro, um pequeno 
pssaro todo de esmeraldas brilhou ao contato com a luz externa, e 
ela exclamou admirada:

        Oh! Meu filho, mas  lindo! Deve ter custado uma fortuna.
        O preo no importa. O que importa  v-la feliz.
        Mas, meu filho, no precisava. Voc e Fausto j no me 
deram a capela de presente? O que mais poderia desejar?
        Mas este  um presente especial de meu corao. Meu e de 
Jlia.

Jlia olhou-o espantada. O broche fora uma idia dela sim, mas 
Rodolfo lhe dissera que o estava comprando para d-lo em seu 
nome e no de Fausto. Colocara at o nome do irmo no carto que 
escrevera na ocasio. Jlia apenas ajudara a escolher a jia, nada 
mais.

        Seu e de Jlia?  repetiu Palmira.
        Sim, mame, meu e de Jlia.
        Na verdade, dona Palmira  contestou a moa , eu apenas 
ajudei Rodolfo a escolher. Mas a idia foi dele, no minha.
        Logo vi  disse Palmira para si mesma.
        Bem, mame, isso no importa, no  mesmo?  disse Fausto 
com ironia.  O que importa  que Rodolfo lhe deu o 
presente, no ?

Rodolfo enrubesceu, mas no disse nada. Palmira pegou o broche e 
admirou-o. Era mesmo uma beleza, e ela tencionava us-lo mais 
tarde, na hora da missa.

Depois do almoo, Jlia saiu de braos dados com Fausto para o 
quintal, e Rodolfo seguia-os com o olhar. Era visvel o esforo que 
Fausto fazia para no demonstrar contrariedade. Rodolfo mentira a 
respeito do broche. Por qu? E Jlia? Ser que no sabia? Fausto 
sentia vontade de interpel-la, mas, lembrando-se da promessa que 
lhe fizera, no disse nada. Jlia, por outro lado, no se sentia  
vontade. Rodolfo armara-lhe uma cilada, e ela se sentia enganada e 
usada. O que estaria ele pretendendo? Ser que ainda a amava? 
Pensando nisso, Jlia concluiu que Fausto talvez tivesse razo. E se 
Rodolfo estivesse fingindo todo aquele tempo, fazendo-se passar por 
amigo desinteressado quando, na verdade, o que queria mesmo era 
conquist-la, afastando-a de Fausto? Ela sentiu um calafrio e j ia 
expor ao noivo suas idias quando Terncio apareceu, a mando de 
Rodolfo, chamando Fausto s pressas. Era um problema com o 
fornecedor de vinhos, e algum precisava resolver.

        Mas justo hoje?  fez Fausto indignado.  Era s o que me 
faltava. Ficarmos sem vinho logo no dia da festa.
        Acalme-se, meu bem. Tenho certeza de que no  nada de 
mais.

Enquanto Fausto se afastava, Rodolfo resolveu entrar em ao. 
Vendo que Jlia voltava sozinha para a casa grande, esgueirou-se 
para o quintal e deu a volta por trs dela, surpreendendo-a pelas 
costas. A moa levou um susto enorme e soltou um grito agudo, 
mas Rodolfo tranqilizou-a:

        No se assuste Jlia. Sou eu...

Ela estava furiosa com ele, e foi logo exigindo explicaes:

        Por que fez aquilo, Rodolfo?
        Aquilo o qu?  indagou, fingindo-se surpreso.
        Disse-me que o broche era um presente seu e de Fausto. Por 
que mentiu?

Fazendo-se de magoado, Rodolfo justificou:

        Perdoe-me, Jlia, mas no menti...
        Como no? Pois se inventou que o presente era meu 
tambm...
        Minha querida, mas que bobagem. Ficou aborrecida por isso? 
E eu que pensei que a estivesse ajudando... A voc e a 
Fausto.
        Ajudando-nos? Mas como, se fez parecer que havia entre ns 
algum tipo de cumplicidade?
        Jlia, minha querida, voc entendeu tudo errado. Eu apenas 
pensei que isso ajudaria mame a olh-la com outros olhos. 
Minha me no  como eu, que esquece as ofensas 
rapidamente, e s o que quis foi mostrar-lhe que voc no lhe 
guarda mgoa pelo que aconteceu no dia em que discutiram 
por causa de Trajano.
        Isso j foi h tanto tempo...
        Mas minha me no se esqueceu.

Ela coou a testa, desconfiada, e retrucou:

        Se  assim, por que no incluiu Fausto tambm?
        Por qu? No sei. Esqueci-me. Talvez tenha sido um erro e 
uma grosseria, mas no tive a inteno de causar nenhum 
problema. Fausto se aborreceu?
        Ele no me disse, mas creio que sim. Eu o conheo e sei que 
estava contrariado.
        Jlia, por favor, acredite em mim. No quis aborrec-los. 
Novamente, peo que me perdoe. E no se preocupe com 
Fausto. Falarei com ele e tudo se resolver.
Jlia j no acreditava mais nele. Fausto tinha razo. Ele era 
ardiloso e parecia ter sempre uma desculpa para justificar suas boas 
intenes. No entanto, no queria brigar com ele. Afinal, era dia do 
aniversrio de dona Palmira, e uma briga nesse momento s serviria 
para piorar as coisas. Ela daria razo ao filho e estabelecer-se-ia 
entre eles um clima de animosidade que era melhor evitar. O mais 
apropriado no momento era fingir que no percebera nada e ir 
mostrando-lhe que estava perdendo seu tempo, se pensava que ela 
trocaria Fausto por ele. Enquanto isso, Fausto se desembaraara do 
fornecedor e voltara,  procura de Jlia. Rodolfo, aproveitando-se 
da distrao da moa com a conversa, foi conduzindoa para o 
jardim, em direo ao caramancho, e ela nem percebera quando 
pararam e se sentaram em um banco,  sombra de uma roseira. 
Por isso Fausto no a encontrara. Constncia, porm, mancomunada 
com o primo, logo que viu Fausto aparecer, seguiu distrada em sua 
direo, como se estivesse apenas passeando e tomando ar.

        Constncia  chamou ele , por acaso viu Jlia?
        Jlia? Ah, sim  e fingindo que os confundia, acrescentou:  
Estava agorinha mesmo caminhando com Fausto pelas 
alamedas do jardim.

Sem responder, Fausto virou-lhe as costas e saiu desabalado em 
direo ao caramancho, alcanando-o bem no momento em que 
Rodolfo, percebendo-lhe a aproximao, segurava a me de Jlia e 
perguntava:

        Amigos?

Fausto chegou feito um furaco e quase espancou Rodolfo que, 
espertamente, soltou a mo de Jlia e exclamou:
        Fausto! Que bom que chegou. Queria mesmo falar com voc, 
pedir-lhe desculpas...

Mas Fausto no queria escutar. Estava farto de Rodolfo e de suas 
desculpas. E Jlia... Por mais que quisesse, no conseguia afastar a 
desconfiana. Ele olhou rapidamente para o irmo, sorriu 
amargamente e puxou Jlia pela mo, sem dizer nada. Fizera-lhe 
uma promessa e pretendia cumpri-la, mas no conseguia disfarar o 
cime e o despeito que lhe oprimiam o corao. Jlia, temendo que 
Fausto se zangasse, comeou a dizer:

        Fausto, deixe-me explicar...
        No precisa explicar nada  cortou ele.  J vi tudo e prefiro 
que no diga nada.

Jlia silenciou, os olhos rasos d'gua. Ser que Fausto duvidava 
dela? Tudo indicava que sim. E se duvidada mesmo, ento no era 
mais digno de seu amor.

CAPTULO 22

s seis horas em ponto, o padre Joo iniciou a missa na capela de 
So Jernimo, padroeiro da fazenda havia mais de cinqenta anos. 
A capela estava toda enfeitada, com a imagem do santo imponente 
sobre o altar. Todos os fazendeiros da regio estavam presentes, e 
havia at gente em p. S a irm de Palmira, Zuleica, e a sobrinha, 
Berenice, no compareceram. Estavam prestes a chegar da Europa, 
mas no conseguiram voltar a tempo.

Uma hora depois, quando o padre deu por encerrado o culto, 
Palmira convidou os presentes para o jantar.  noite, as portas do 
salo de baile se abriram. A orquestra comeou a tocar e os pares 
comearam a se formar para a dana. Palmira, apesar de feliz, no 
aceitara o convite de nenhum dos filhos para a valsa. Ainda estava 
de luto, e o fato de haver concordado com aquela festa no a 
isentava dos procedimentos adequados ao seu estado de pesar pela 
morte do marido.

Fausto, cabisbaixo, procurava disfarar o mau humor e danava 
maquinalmente com Jlia, que tentava ocultar a mgoa e a 
decepo. Rodolfo no largava Marta e, a todo instante, tomava 
conta dos passos do irmo, intimamente adivinhando-lhe os 
pensamentos. Ele se deixara dominar pela desconfiana, e era 
patente que ele e Jlia havia se desentendido. Tanto melhor. Aquilo 
ainda facilitaria as coisas, pois Jlia, na nsia de fazer as pazes com 
Fausto, acabaria por entregar-se a ele, Rodolfo, sem nem perceber.

Estava to absorvido com os movimentos de Fausto que nem se 
lembrava mais dos Zylberberg. Embora ele soubesse que a presena 
deles ali acabaria por desequilibrar ainda mais o irmo, que tudo 
faria para afast-los da companhia da me, os judeus haviam 
passado a segundo plano. Haveria tempo para eles, e no importava 
que no tivessem comparecido.

Os Zylberberg, na verdade, desconfiaram do convite de Tlio e 
acharam melhor consultar Camila. Embora ela muito quisesse 
apresent-los  me, temia uma reao adversa por parte dela e 
achara melhor esperar. Assim, Camila aconselhara-os a no ir, e 
eles at se sentiram aliviados, no se considerando ainda prontos 
para enfrentar a adversidade de Palmira.

O baile transcorreu sem incidentes, e Palmira exibia orgulhosa, o 
broche de esmeraldas que Rodolfo lhe dera, cuidadosamente 
ajeitado sobre a renda preta do vestido. Apesar de no entender por 
que Fausto fora o nico a no presente-la, no disse nada. Afinal, a 
capela era um presente maravilhoso, e ela no tinha do que se 
queixar. No fundo, porm, ao receber o broche de Rodolfo, esperou 
que Fausto tambm lhe desse algo mais pessoal e ficou um pouco 
decepcionada quando ele chegou ao baile de mos abanando.

De madrugada, quando o ltimo convidado se retirou, estavam 
todos exaustos e s o que queriam era dormir. Fausto ainda no 
voltara a falar direito com Jlia, e quando ela o procurou para dar-
lhe um beijo de boa noite, ele virou discretamente o rosto, 
oferecendo-lhe a face. Aquilo a magoou profundamente, mas 
Rodolfo, que a tudo assistira, exultou. Parecia que o cu conspirava 
a seu favor. J em seu quarto, Jlia trocou de roupa e deitou-se na 
cama, soprando o lampio, e ps-se a pensar em Fausto. Ela o 
amava muito. Seu quase desprezo a magoara profundamente, e ela 
comeou a chorar baixinho. Sentindo, porm, as plpebras 
pesarem, Jlia logo adormeceu, ainda com Fausto em seus 
pensamentos. Cerca de meia hora depois, um rudo na porta fez 
com que despertasse. Ela abriu os olhos, sonolenta, e viu uma 
silhueta masculina aproximar-se da cama. Assustou-se e fez que 
fosse se levantar, mas o vulto, acercando-se mais dela, beijou-a 
apaixonadamente e sussurrou:

        Jlia, querida, perdoe-me. Eu a amo e fui injusto com voc.

No fossem aquelas suas palavras e talvez Jlia at desconfiasse. No 
entanto, ele dissera exatamente aquilo que ela esperara ouvir a 
noite toda, e ela nem pensou que pudesse no ser Fausto o homem 
que ali estava, atendendo ao seu desejo, desculpando-se e falando 
de amor. Alm disso, Rodolfo falava to baixinho, e sua voz era to 
parecida com a de Fausto, que Jlia nem sequer desconfiou. 
Parecia-lhe que ele sussurrava em seu ouvido as doces palavras que 
ela, to desesperadamente, ansiava por escutar. Totalmente 
enleada, retrucou:

        Oh! Fausto! Nem sabe o quanto esperava ouvir isso. Como 
pde desconfiar de mim?
        Perdoe-me! Perdoe-me!  sua voz era quase splice.  Fui 
cego, o cime me tirou a razo. Mas eu a amo tanto...

E comeou a beij-la delicadamente, primeiro nos lbios, depois 
descendo pelo pescoo, pelas orelhas, pela nuca. Jlia sentiu um 
arrepio de prazer. Sabia que no devia, mas ela o amava e tambm 
estava confiante em seu amor por ela.  medida que Rodolfo a 
beijava, ela ia amolecendo, e ele comeou a deslizar as mos sobre 
o seu corpo, ao mesmo tempo em que sussurrava:

        Meu amor... Quero que seja minha... Minha, para sempre...

Jlia j estava quase se deixando seduzir, sentindo o corpo trmulo 
de Rodolfo de encontro ao seu. Ele comeou a levantar-lhe a 
camisola, de forma suave e delicada, e ela foi se entregando. At 
que, de repente, sentindo prxima a consumao do ato sexual, 
uma luzinha de discernimento comeou a despontar dentro dela e, 
empurrando-o delicadamente, disse:

        No, Fausto, no... No est direito...

Rodolfo, consumido pelo desejo, a muito custo conseguiu conter-se. 
Com voz hesitante, respondeu baixinho:

        Tem razo, minha querida, perdoe-me. No devia ter feito 
isso. Mas  que a amo...
Com gestos de calculada compreenso e resignao, Rodolfo 
afastou-se de Jlia, sentando-se na cama, de costas para ela. A 
moa, ouvindo-lhe a respirao ofegante, levantou o rosto para ele, 
vislumbrando-lhe o trax musculoso na penumbra. Naquele 
momento, sentiu o corao disparar, e o desejo tomou conta de seu 
corpo. Ela abraou-o por trs e mordeu-lhe o lbulo da orelha, 
acrescentando, cheia de emoo:

        Eu o amo. Quero ser sua.

Rodolfo voltou-se para ela e tomou-a nos braos, mansamente 
recomeando seu ritual de amor. S que dessa vez, Jlia no o 
repeliu. Ao contrrio, entregou-se a ele com paixo, certa de que 
estavam concretizando seu amor.

Tudo terminado, Rodolfo beijou-a apaixonada e carinhosamente, 
fez-lhe juras de amor e saiu. No corredor s escuras, caminhou de 
volta a seu quarto e ainda pde vislumbrar a porta do quarto de 
Constncia se fechando lentamente. Despiu as roupas de Fausto e 
guardou-as no armrio, bem escondidas, para, no dia seguinte, 
coloc-las junto com a pilha de roupas para lavar. Estava exultante! 
O resultado de sua empreitada sara melhor do que esperara.

Na manh seguinte, bem cedo, Constncia pulou da cama e foi 
bater na porta do quarto de Fausto. O rapaz, ainda semi-
adormecido, foi atender e assustou-se com a presena da prima ali, 
quelas horas.

        Constncia!  exclamou, num bocejo.  O que faz aqui to 
cedo?
        Vim preveni-lo  respondeu a meia-voz, entrando 
rapidamente e fechando a porta atrs de si.
        Prevenir-me? De qu?
        Oua no quero me intrometer em sua vida, nem tampouco 
censur-lo. J fui jovem tambm e apaixonada, e sei como 
so os arroubos da juventude.
        No entendo o que quer dizer.
        O que voc fez foi muito imprudente. A sorte foi que fui eu 
quem viu, e no sua me...

Fausto, embora desconhecendo o que havia se passado, imaginou 
tratar-se de Rodolfo. Na certa, o irmo fizera alguma besteira, e ela 
os confundira. O mais provvel era que tivesse dormido com alguma 
escrava, o que, efetivamente, enfureceria a me. Balanando a 
cabea em negativa, protestou:

        Creio que est enganada, prima. Seja o que for que tenha 
visto, no fui eu. Provavelmente, Rodolfo.
        Rodolfo?!  fez ela, admirada.  Ora, meu caro, no precisa 
fingir para mim, pois no direi nada. Imagine... Rodolfo saindo 
do quarto de Jlia no meio da noite, semi-despido e 
desalinhado! Ora, Fausto, francamente...

Fausto desabou fulminado. O que era aquilo? Algum pesadelo? 
Completamente fora de si, correu em direo ao quarto de Jlia e 
escancarou a porta. A moa dormia placidamente, um sorriso de 
felicidade a iluminar-lhe o rosto. Por um momento, seu corao se 
enterneceu. Ela parecia um anjo e no seria capaz de tra-lo de 
forma to vil. Constncia devia ter se enganado. Na certa, sonhara 
e se confundira. Com os olhos midos, abaixou a cabea e suspirou. 
Foi ento que viu, jogado a um canto, um lenol branco, 
cuidadosamente dobrado e oculto sob a mesinha. Curioso, abaixou-
se e puxou o lenol, desdobrando-o freneticamente. Em seguida, 
atirou-o no cho, horrorizado, e correu porta afora. Jamais 
esqueceria aquela imagem. A imagem do sangue de Jlia 
derramado sobre o lenol.
Partindo dali, correu para a cocheira, encilhou o cavalo e saiu sem 
rumo. Queria esquecer o que vira esquecer que amava Jlia. Esta, 
porm, logo que ele saiu, despertou com o barulho. Ao levantar-se, 
percebeu que algum estivera ali. Vendo a porta escancarada e o 
lenol aberto, jogado no cho, compreendeu que havia sido 
descoberta. Rapidamente, lavou-se, vestiu-se e correu ao quarto de 
Camila. A cunhada tambm acabara de se levantar e preparava-se 
para o caf.

        Bom dia  disse Camila, beijando-a no rosto.  Dormiu bem?

Jlia balbuciou um tanto quanto constrangida:

        Camila... Por acaso esteve em meu quarto hoje cedo?
        Eu? No, por qu? -Jura?
        Juro. Por qu? O que foi que houve?

Percebendo-lhe a palidez, Camila tomou-a pela mo e f-la sentar-
se.

        Muito bem  disse.  O que aconteceu? Vamos, conte-me. 
Pode confiar em mim. Sou sua amiga e quero ajud-la.

Jlia confiava em Camila como jamais confiara em mais ningum. 
Se ela dissera que no havia estado em seu quarto, era porque no 
estivera mesmo. Mas quem teria sido? Pelo estado em que 
encontrara a porta e o lenol podia deduzir que, fosse quem fosse 
no gostara nada do que vira. E s havia duas pessoas que 
reagiriam assim: Rodolfo ou Palmira.

Calmamente, Jlia contou  cunhada tudo o que havia acontecido na 
noite anterior, sem omitir nenhum detalhe. Fora maravilhoso, mas 
algum os descobrira, e ela precisava avisar Fausto. Ao final da 
narrativa, Camila considerou:

        Oua, meu bem, no se atormente tanto. O que voc fez foi 
uma loucura, uma precipitao. No entanto,  certo que vocs 
se amam e que pretendem se casar.
         verdade.
        Ento, no h com o que se preocupar. Por mais que mame 
ou Rodolfo os recriminem, no podero fazer nada. J est 
consumado. S o que temos a fazer  marcar para logo a data 
do casamento.
        Acha mesmo?
        Claro que sim. Voc e Fausto se amam, j tiveram uma noite 
de amor. No h por que esperar.
        Oh! Camila, voc  to boa!
        No se esquea de que passei por situao semelhante. S 
que o homem que me desonrou no me amava e quase 
arruinou minha vida.

Jlia, percebendo certo tom de tristeza na voz de Camila, retrucou 
penalizada:

        Eu sinto tanto!
        No precisa minha filha. Hoje sou feliz ao lado de seu irmo. 
Mas voc no precisa passar por nada do que eu passei. E 
agora, v procurar Fausto e converse com ele.  importante 
que estejam unidos.

Por mais que tentasse, Jlia no conseguiu encontrar Fausto. 
Procurou por toda parte. At foi a cavalo ao cafezal, onde ele se 
escondera da outra vez, mas nada. Ningum o vira e ningum sabia 
onde estava. Rodolfo tambm havia desaparecido. Desaparecido 
no. Refugiara-se no quarto o dia todo, pretextando uma forte dor 
de cabea, conseqncia do vinho da noite anterior. Jlia comeou a 
se inquietar. Ser que Fausto se arrependera e no tinha coragem 
de enfrent-la? Se assim fosse, era porque no a amava. Seno, 
que outros motivos teria para sumir no dia imediato  sua primeira 
noite de amor?

Ela estava desanimada e, ao cair da noite, sentou-se na varanda em 
companhia de Camila, que tentava, de todas as formas, encoraj-la. 
Foi ento que divisaram no crepsculo o vulto de Fausto se 
aproximando a cavalo. Jlia deu um salto da cadeira e, corao em 
disparada, correu para a escada, esperando que ele chegasse e 
fosse falar com ela. Em vez disso, ele subiu, batendo as botas no 
assoalho, e passou por ela feito uma bala, sem lhe dirigir um olhar 
sequer. Jlia foi atrs dele, tentando segurar-lhe o brao, e chamou:

        Fausto! O que houve? Por qu...?

Ele puxou o brao bruscamente, encarou-a com os olhos em fogo e, 
chispando de dio, vociferou:

        Solte-me, sua ordinria! Por que no corre atrs de seu 
amante?

Os olhos de Jlia encheram-se de lgrimas e ela soltou-o, confusa. 
Fausto saiu em disparada, e ela lanou para Camila um olhar de 
indignao. No conseguia compreender. Ento Fausto a amava de 
noite e, no dia seguinte, a rejeitava e ofendia? Ser que a estava 
acusando de indigna por haver-se entregado a ele antes do 
casamento? Teria ele coragem de acus-la de mulher fcil s 
porque no o repelira, julgando-a indigna de tornar-se sua esposa? 
Pensaria que ela deveria ter resistido a suas carcias, mesmo 
sabendo que o amava e que s se entregaria a ele? A ele e a mais 
ningum? Jlia no sabia o que pensar e desatou num choro 
convulso, que Camila tentava conter.

        Acalme-se, minha menina  disse com brandura.  Alguma 
coisa deve ter acontecido.
        Mas o qu? O qu? Fausto disse que me amava, prometeu 
casar-se comigo. Ser que me enganei com ele?
        No creio. O mais provvel  que algo de muito grave tenha 
acontecido.
        Mas o qu? O que seria to grave a ponto de faz-lo esquecer 
nosso amor e humilhar-me daquela maneira?
        No sei Jlia, mas prometo que vou descobrir.

Camila levou-a para o quarto, deitou-a na cama e s saiu depois 
que ela adormeceu indo direto bater na porta do quarto de Fausto. 
Como o irmo no respondesse, ela rodou a maaneta e entrou. 
Fausto estava sentado em uma poltrona, de frente para a janela, e 
no a ouviu bater nem a viu entrar. Ela aproximou-se dele e tocou-o 
levemente no ombro. Fausto virou-se lentamente e fitou-a.

        O que quer?  indagou com raiva.  Veio tentar defender sua 
protegida?
        Como posso defender algum que nem sabe do que  
acusada?
        Ora, Camila, no se faa de desentendida. Duvido que Jlia 
no tenha lhe contado o que aconteceu.
        Contou sim. Mas isso no  motivo para trat-la do jeito que a 
tratou. Se ela fez o que fez, foi por amor.
        Mas que bonito! Se ela ama Rodolfo, e no a mim, por que 
no foi sincera comigo e no me contou? Eu ficaria triste,  
verdade, mas acabaria por entender e aceitar. Mas trair-me... 
Isso no. No posso admitir.
Camila, a princpio, no entendeu bem do que ele estava falando e 
permaneceu ali parada, olhando para ele meio apalermada. No 
entanto, tudo comeava a fazer sentido. O desaparecimento de 
Fausto, sua reao... A conveniente dor de cabea de Rodolfo... De 
repente, foi como se todas as peas de um quebra-cabea se 
encaixassem, e ela pde nitidamente visualizar toda a trama de que 
Jlia fora vtima. Coberta de horror, ela deu um salto e indagou:

        O que est me dizendo? Era Rodolfo na noite passada, e no 
voc?
        Oua Camila, no adianta agora tentar me convencer de que 
Jlia no sabia que era Rodolfo. Esse truque dos irmos 
gmeos j  velho e no convence ningum.
        Mas ela no sabia mesmo. Ela me disse que foi voc...
        Mentira! No adianta querer me fazer acreditar nesse conto da 
carochinha, porque no vai! No sou nenhum tolo! Eu bem 
que deveria ter desconfiado. Aqueles dois, sempre juntos, 
sempre fingindo nada existir entre eles, fazendo com que 
parecesse que eu era um idiota ciumento. Como fui estpido!
        Mas Fausto, ela no sabia. Posso lhe assegurar que os 
confundiu.
        Confundiu... Pois se foi ela mesma quem disse que ramos 
inconfundveis.
        Mas estava escuro. Ela me disse que era voc. A mesma voz, 
os mesmos gestos carinhosos. At as roupas eram as suas. 
Fausto, voc e Rodolfo so idnticos. No  difcil se enganar, 
ainda mais na penumbra.
        Vai querer agora me convencer desse absurdo? De que Jlia 
se entregou a Rodolfo pensando que era eu? Ora, minha cara, 
isso  ridculo. E depois, Rodolfo jamais iria ao quarto de Jlia 
se ela no o convidasse ou, ao menos, o estimulasse.
        Est errado, Fausto. Tudo  possvel.
        Ser que Jlia no reconheceria meus beijos, meus carinhos? 
No, Camila, Jlia sabia que estava nos braos de Rodolfo, e 
no nos meus. Na certa, pensou que eu no fosse bom demais 
para ela. Sempre a respeitando, querendo esperar. Ela  uma 
ordinria, isso sim.
        No diga isso! Ela o ama.
        Bem se v o quanto me ama.

Camila deixou carem os braos ao longo do corpo e suspirou 
desanimada. Como faria para convenc-lo?

        Escute Fausto, e tente raciocinar. Se tudo ia bem entre vocs, 
por que Jlia se entregaria a Rodolfo?
        No sei. Talvez no tenha tido coragem suficiente para 
assumir que j no era a mim que desejava, e sim a ele. 
Afinal, Rodolfo  impetuoso, arrojado, e eu sou um tolo 
respeitador. E as mulheres gostam disso, no  Camila? No 
fundo, gostam de homens atrevidos e ousados.
        Mas isso  um disparate!
        Ser? Eu estava cego de amor e no pude perceber que Jlia 
j no se interessava mais por mim.
        Fausto isso  um absurdo. Jlia o ama, no o trocaria por 
ningum.
        No acredito em voc. Ela estava me enganando, e bem 
debaixo do meu nariz. No fosse por Constncia, jamais teria 
descoberto.
        Constncia? O que ela ter a ver com isso?
        Foi ela quem me avisou sobre eles.

Camila comeava a entender. Tudo no passara de uma trama 
diablica para separar Fausto e Jlia. Mas por qu? O que 
Constncia lucraria com isso?
        Por que acha que Constncia o avisou? No acha que 
pretendia, deliberadamente, provocar uma briga entre vocs?
        Isso  uma tolice. Constncia contou-me sem querer. Ela sim, 
confundiu Rodolfo comigo e pensou que fosse eu quem vira 
saindo do quarto de Jlia, no meio da noite. Veio alertar-me 
quanto  mame.
        Fausto, seja razovel. No v que Constncia e Rodolfo 
armaram tudo isso direitinho? E que voc caiu sem nem 
pestanejar?
        Por que Constncia faria isso? O que lucraria com nossa 
separao?
        No sei. Mas algum motivo deve existir.
        No acredito nisso. Voc est tentando arranjar uma desculpa 
que justifique a indignidade de Jlia.
        Oua Fausto, conheo Constncia muito bem. Ela sempre foi 
ardilosa, maquiavlica. Se entrou nessa histria,  porque 
alguma coisa em troca Rodolfo lhe prometeu.
        Isso  loucura! Rodolfo nada tem que possa lhe interessar.
        Tem sim, Fausto. S no sei o que . Mas vou descobrir. Pode 
apostar.

Por mais que se esforasse, Fausto no conseguiu conter o pranto e 
desatou a chorar, agarrando-se  cintura da irm. Camila acariciou 
seus cabelos, ergueu seu queixo e perguntou:

        Voc confia em mim?

Ele olhou-a em dvida e replicou:

        Por qu?
        Confia ou no confia?
        Sim...  respondeu hesitante.
        Pois muito bem. Faamos o seguinte: deixe-me investigar. Se 
descobrir que Jlia  inocente, promete que a aceitar de 
volta?
        Vai perder seu tempo.
        No faz mal. Voc promete?
        Mas ela agora j no  mais moa... Como aceit-la, se j foi 
deflorada por outro?
        Voc a ama?
        Sim. Apesar de tudo, no posso negar que a amo.
        Ento saber vencer o preconceito e aceit-la. Camila saiu dali 
disposta a descobrir a verdade. Ela no tinha dvidas de que 
aquilo era obra de Constncia. Era bem seu estilo. O que tinha 
a fazer era desmascar-la, e era o que faria.

CAPTULO 23

Mais um dia amanhecia, e Sara preparou-se para sair. Tivera uma 
noite pssima, com febre e calafrios. Tossira sem parar e chegara a 
pensar que morreria. Frei ngelo no saiu de sua cabeceira, rezando 
e pedindo a Deus que no a deixasse desistir. No quando tudo 
comeava a melhorar. Aos poucos ela foi se acalmando, at que a 
febre cedeu, a tosse cessou e ela conseguiu adormecer.

Sara lavou-se e penteou os cabelos, auxiliada por Laurinda, e olhou-
se no espelho. Sob os olhos, a mancha roxa comeava a se dissipar. 
A tez, se bem que bastante plida, j mostrava sinais de um 
colorido fugidio, embora ainda no houvesse readquirido o vio 
prprio da mocidade. Estava magra, quase esqulida, os ossos 
despontando aqui e ali, e ainda sentia no peito uma dor que parecia 
queimar. Apesar de sem apetite, pensou em juntar-se  famlia para 
o caf. Podia no sentir muita fome, mas tinha vontade de participar 
da alegria do desjejum.

A mesa do caf, apenas a me no estava presente. Encontrava-se 
na cozinha, preparando uma bandeja para levar-lhe no quarto. Frei 
ngelo conversava com Ezequiel, que estacou, sustendo no ar a 
xcara de ch que j ia levando aos lbios assim que viu a filha se 
aproximar. De um salto, soltou a xcara e exclamou:

        Sara! O que faz aqui, minha filha?
        Ora, papai, vim juntar-me a vocs.
        Mas... Mas...
        Est se sentindo melhor?  indagou frei ngelo.
        Sinto-me bem melhor sim, obrigada. Parece que recobrei um 
pouco do nimo.
        Mas que notcia maravilhosa!  animou-se o pai.  Era tudo o 
que espervamos ouvir.
        E mame?
        Na cozinha, preparando uma bandeja para levar a seu quarto.
        Pobre mame. Sempre a se desvelar. Pois vou l dizer-lhe que 
no se incomode. Estou mais bem disposta hoje.

Nesse instante, Rebeca, avisada por Laurinda da presena de Sara  
mesa, chegou apressada e, vendo a filha sentada ao lado do 
marido, derramou lgrimas de felicidade e disse:

        Oh! Graas aos cus, minha filha! Quando Laurinda me disse, 
no pude acreditar.
        No pde acreditar por que, dona Rebeca?  indignou-se frei 
ngelo.  A recuperao de Sara j era esperada. Ou no 
era?

Rebeca, um pouco confusa, retrucou meio sem jeito:

        Claro... Claro que era... Mas depois da noite passada...
        Ora, mame, a noite passada foi apenas uma recada. No vai 
se repetir.
        Assim  que se fala minha filha  disse frei ngelo, animando-
a.
        Frei ngelo est operando milagres  retrucou Sara, sorrindo 
para ele.

Rebeca voltou-se para ele e acrescentou com emoo:

        Obrigada, frei ngelo. O que est fazendo por minha filha no 
tem preo.
        O nico preo possvel  sua felicidade. E agora, dona Rebeca, 
por que no se senta? Sara deve estar com fome.

Ela torceu o nariz e, olhando para um bolo de fub que se 
encontrava sobre a mesa, objetou:

        Na verdade, no estou com muita fome, no. Mas queria 
fazer-lhes companhia.

Rebeca e Ezequiel se entreolharam, e ela insistiu:

        Por que no toma ao menos uma xcara de ch ou de leite?

Sara pensou por alguns instantes. No sentia fome, era verdade, 
mas a idia de uma xcara de leite at que lhe pareceu apetitosa, e 
ela acabou por concordar:

        Leite est bem, mame.

Rebeca serviu-lhe uma xcara de leite puro, e Sara comeou a 
beber devagarzinho. Estava uma delcia! Doce e morninho, e ela 
sentiu imenso prazer em saborear aquele leite. Sem perceber, 
bebeu a xcara inteira e pediu mais, servindo-se de um pedacinho 
de po, para acompanhar. No comeu muito, mas j era um bom 
comeo. Depois do caf, frei ngelo e Sara retiraram-se para o 
jardim, onde costumavam ter suas conversas. A manh estava 
fresca e ensolarada, e Sara inspirou fundo, sentindo o ar puro 
penetrando em seus pulmes. Tossiu levemente, olhou para frei 
ngelo e sorriu. Apesar do tanto que tossira na noite anterior, ao 
menos no expelira sangue, o que era bom sinal. Os dois sentaram-
se e levantaram os rostos para o Sol. quela hora o calor ainda era 
ameno, e um banho de Sol era extremamente saudvel e 
prazeroso. Frei ngelo fechou os olhos e, sem abri-los, observou:

        Voc nos assustou ontem, Sara. Pensei que fssemos perd-
la.
        E por pouco no perdem mesmo. Cheguei a pensar que fosse 
morrer.
        Graas a Deus que voc se recuperou.
        Sim, graas a Deus.
        Sabe, Sara, pensei que sair com Jlia e os demais fosse bom 
para voc.
        Oh, mas ! Gosto de nossos passeios.  exceo de Rodolfo, 
sempre sarcstico e mordaz, os outros so muito agradveis. 
Tm-me ajudado bastante.
        timo! Fico feliz em saber disso.
        No se deixe impressionar pelo que houve ontem, frei ngelo. 
Foi uma crise isolada e passageira.
        O que ser que provocou isso?
        No sei. Talvez tenha sido a decepo por no poder estar 
junto de Drio na festa de sua av.
        Ser?
        Creio que sim. Eu queria ir estar junto dele, apresentar-me 
como sua noiva. Mas quando papai disse que no iramos, 
fiquei frustrada, sentindo-me rejeitada de novo, s porque 
somos judeus. Como se ser judeu fosse algo do que se 
envergonhar.
        No h do que se envergonhar Sara. Mas  bem possvel que 
sua recada tenha sido causada por isso, sim. Afinal, sabemos 
que uma das maiores causas de sua enfermidade , 
justamente, o sentimento de rejeio, no  mesmo?
         sim. Mas j passou. Sinto como se, em meio a toda aquela 
crise, algo em mim tivesse se transformado, trazendo para 
meu esprito uma compreenso que antes no sentia.
        Como assim?
        No sei explicar. E como se conseguisse ter mais confiana em 
mim mesma e, sobretudo, em Deus. Se no pude estar junto 
de Drio ontem, com certeza  porque esse ainda no era o 
momento mais apropriado. Talvez dona Palmira fosse nos 
destratar ou algo de muito ruim pudesse nos acontecer.
        Que bom que pensa assim, Sara.
        Pois . Fiquei imaginando que, se fosse algo bom para ns, 
tudo teria dado certo e ns teramos ido  festa.
        Posso saber o que foi que deu em voc para alcanar essa 
compreenso?
        O senhor, frei ngelo. O senhor foi quem me ensinou a ter f 
e confiana em mim e em Deus. Hoje de manh, quando 
acordei e vi que havia sobrevivido  noite passada, foi que me 
dei conta da infinita bondade de Deus. Sei que Deus  perfeito 
e nada faria que pudesse me prejudicar. S o que foi 
necessrio foi que eu compreendesse que a ajuda que vem de 
Deus nem sempre  aquela que desejamos, mas, com 
certeza,  a de que mais precisamos no momento. Quando 
compreendi isso, foi muito mais fcil aceitar.
        Sara, o que me diz  maravilhoso.  por isso que voc hoje 
est melhor. Se conseguiu entender essas coisas e est 
tentando transform-las, no ser mais necessrio que a 
enfermidade venha para alert-la.
         verdade. No vou dizer que no estou triste nem frustrada. 
Estou. Mas consegui encarar a tristeza e a frustrao como 
coisas que acontecem na vida de todo mundo, com as quais 
aprendemos a lidar e, sobretudo, que elas no significam que 
no sejamos queridos ou que sejamos rejeitados por quem 
amamos.
        Continue assim, Sara, e tenho certeza de que conseguir 
controlar sua doena.
        O senhor, mais do que ningum, vem me ajudando muito. Os 
passeios e os amigos so agradveis, fazem-me sentir viva e 
com vontade de viver. Mas s o senhor consegue acender em 
mim a luz da compreenso.
        Isso  muito bom. Somente quando nos compreendemos  
que podemos nos modificar.
        Sabe, frei ngelo, desde que o senhor aqui chegou, comecei a 
me olhar de uma maneira diferente. No como uma 
pobrezinha ou um estorvo, mas como algum que  capaz de 
ser algum, de se dar o devido valor, de se olhar no espelho e 
se sentir capaz de ser amada.  claro que, de vez em quando, 
tenho uma recada, como ontem, e me vejo de novo naquela 
posio da pobre menina abandonada. Mas isso passa rpido, 
e logo retomo o equilbrio sobre mim mesmo.
        Sara, voc  mesmo uma menina especial. E pode ter 
certeza: a cura de sua doena est mesmo em suas mos.
        Pois . Hoje acredito nisso. Com o desenrolar de nossas... 
Sesses... Comecei a analisar minha vida, meus medos, minha 
solido, e hoje estou certa de que o senhor tinha razo. Eu 
sempre fui uma menina s e triste, e se esses sentimentos no 
tm origem nesta vida, essa origem s pode estar em vidas 
anteriores.
        Acredita agora?
        Sim. Os sonhos me levaram a isso. Analisando-os bem, vejo 
que tudo se encaixa. S eles podem explicar o fato de eu 
sentir tanta rejeio, sem que nunca tenha sido rejeitada.
         verdade. Como voc mesma pde perceber, em uma vida 
anterior voc no conseguiu suportar essa rejeio e passou a 
se fechar cada vez mais dentro de si. Em vez de lutar contra a 
tristeza, deixou que o sentimento a dominasse e entregou-se 
ao desnimo, desistindo de tentar ser feliz. Com isso, foi-se 
fechando, fechando, at que adoeceu, e logo de qu? Dos 
pulmes.
        Sim. Como lhe disse, sonhei que era uma menina e que tinha 
pneumonia.
        Est vendo? Sempre a mesma coisa. Solido e tristeza. 
Naquela vida voc desenvolveu uma pneumonia que a acabou 
matando, e nessa, quase envereda pelo mesmo ou por 
caminho pior, abrindo espao em seu corpo fsico para que a 
tuberculose se instalasse.
        Tem razo. Mas no quero padecer. No dessa vez. Sinto que 
deixei para trs algo muito importante em minha vida e que 
hoje quero resgatar.
        Drio?
        Sim. Sei que o perdi, pois a morte prematura impediu-me de 
viver a seu lado. Hoje tenho novamente essa oportunidade e 
no quero desperdi-la. Quero viver e ser feliz ao lado do 
homem que amo.
        Assim  que se fala, Sara.
        Sei que vou conseguir. Hoje posso dizer que compreendo 
minha doena, e graas ao senhor, que me fez acreditar que 
j vivemos muitas vidas.

Frei ngelo voltou o rosto contra o Sol e viu que Drio ia se 
aproximando, em companhia de Jlia.

        Por falar em Drio...

Sara ergueu-se vagarosamente e estendeu os braos para ele, que 
foi correndo ao seu encontro. Logo que a alcanou, tomou-a nos 
braos e ergueu-a, beijando-a suavemente. Ela corou e, virando-se 
para Jlia, cumprimentou:

        Ol, Jlia.
        Ol, Sara. Como est?
        Melhor agora que vocs chegaram.
        Venha  interrompeu Drio.  Caminhemos um pouco ao Sol.

Frei ngelo convidou Jlia a sentar-se junto dele. Ela estava abatida, 
e os olhos inchados demonstravam que havia chorado. No 
querendo violar sua intimidade, mas ansioso por ajud-la, 
perguntou:

        Est tudo bem, Jlia?

Jlia no respondeu. Desatou a chorar, e de forma to sentida que 
frei ngelo se preocupou. O que teria acontecido?

        No quer me contar o que houve?  arriscou.
        Oh! Frei ngelo, por favor, deixe-me apenas ficar aqui a seu 
lado.

Ela pousou a cabea no colo do frei e continuou a soluar. Embora 
ela no lhe dissesse, frei ngelo tinha certeza de que algo muito 
srio havia acontecido, e sua intuio lhe dizia que havia sido com 
Fausto. Contudo, achou melhor no falar nada. Estava claro que 
Jlia no queria conversar. Queria apenas um colo amigo e 
acolhedor, onde pudesse dar livre curso s lgrimas e desabafar. 
Vendo que ela, finalmente, se acalmara, frei ngelo tentou 
novamente:

        No quer mesmo me contar o que aconteceu?

Jlia no sabia o que dizer. Sequer sabia ainda o que acontecera. S 
o que sabia era que Fausto a tratara mal e no conseguia atinar no 
motivo.

        Frei ngelo, gostaria de me confessar.
        Pois no, minha filha. Vamos l dentro. Preciso me preparar 
e...
        No, frei ngelo, isso no ser necessrio. Posso confessar-me 
aqui mesmo, e sem qualquer indumentria especial.
        Est bem, minha filha, fale.
        Frei ngelo, eu... Eu... Entreguei-me a Fausto na noite 
passada.
        E...?
        E agora ele me despreza. Oh! Frei ngelo, estou desesperada, 
no sei o que fazer. Entreguei-me porque o amava e pensei 
que ele tambm me amasse. Mas agora, no sei mais em que 
acreditar. Ele me destratou, humilhou-me. Foi horrvel! Sei que 
errei, mas foi por amor! Por amor, entende isso?

Ele tomou suas mos com ternura e disse com voz bondosa:

         claro que sim, criana. No se desespere.
        Como no? Ele me abandonou, no quer me ver, no fala 
comigo...
        Minha filha, quer a absolvio do padre ou o conselho do 
amigo?
        Os dois.
        Pois bem. Como padre, devo recomendar-lhe que entregue 
seu corao a Deus e pea para que tudo se esclarea. Como 
amigo, devo dizer-lhe que no acredito que Fausto a tenha 
abandonado.
        No?
        No. Alguma coisa aconteceu que o fez trat-la da forma 
como a tratou.
        Mas o qu? Eu no fiz nada.
        No sei minha filha, mas sinto que vocs foram vtimas da 
maldade alheia.
        Ser? Mas quem faria uma coisa dessas?
        No sei e no quero conjecturas. No devemos julgar nem 
levantar falsos testemunhos.
        E o que farei?
        Confie e aguarde. Deus jamais desampara aqueles que nele 
crem.

Jlia voltou para casa com o corao mais sereno mais confiante. 
Em seu ntimo, sabia que estava prestes a atravessar duras provas, 
mas acreditava que as superaria. Tinha que acreditar.

CAPTULO 24

Quando Jlia descobriu o que havia acontecido, desesperou-se. No 
fosse to corajosa, teria se matado. Aquilo no podia ser real. Era 
uma crueldade do destino, e ela no podia se conformar, embora 
Camila tentasse, a todo custo, consol-la.

        Acalme-se, querida. Desespero no leva a nada.
        Oh! Camila! Sinto que o mundo inteiro ruiu sob meus ps.
        No diga isso. Nem tudo est perdido.
        Como no? O que ser de mim agora? Perdi Fausto... A vida 
sem ele no vale a pena.
        Minha querida, deixe tudo por minha conta. Descobrirei a 
verdade e Fausto ser seu novamente.
        Fausto nunca acreditar em mim. E depois, mesmo que 
acredite, j no servirei mais para ele.
        Engana-se. Ele a ama e saber superar o que aconteceu.
        Acha mesmo que ele um dia poder me perdoar?
        No, no acho que voc deva pedir-lhe perdo. O perdo  
para os que erram, e voc nada fez de errado. Voc apenas 
seguiu seu corao e foi enganada, agiu sob a influncia de 
uma iluso. Pense apenas no sentimento que a moveu, e no 
no homem que a seduziu. Se soubesse que era Rodolfo quem 
ali estava, voc jamais teria se entregado a ele. Mas lembre-
se que o que sentiu foi verdadeiro e maravilhoso, porque 
sentiu por Fausto. Era a Fausto que voc queria se entregar. 
Foi para Fausto que voc soprou palavras de amor. No 
invalide esse sentimento, que foi puro, s porque Fausto, 
naquele momento, era uma iluso. Pense apenas no seu amor 
por ele, e esse amor lhe dar foras para coloc-lo no lugar 
que lhe pertence.

Jlia estava chorando e retrucou entre lgrimas:

        Camila, voc  maravilhosa!
        Sou sua amiga, alm de uma mulher bastante vivida,  claro.
        Como far para descobrir a verdade?
        Se Constncia est metida nisso, s pode ser por um motivo.
        Que motivo? Dona Constncia mal me conhece; mal conhece 
seus irmos. Que motivos poderia ter para querer destruir-
me?
        Voc no, meu bem. Acho que voc foi apenas um 
instrumento. Tenho certeza de que o que ela quer  destruir 
Tonha.
        Tonha? Mas por qu?
        Lembra-se da histria que lhe contei? De como Constncia se 
apaixonou por Incio que, por sua vez, apaixonou-se por 
Tonha? Pois . Constncia jamais conseguiu separ-los, e 
agora creio que voltou para terminar sua vingana.
        Se quer vingar-se de Tonha, por que teve que me usar? Gosto 
de Tonha, mas no tenho com ela nenhum tipo de relao.
         isso o que me intriga. Se bem conheo minha prima, ela 
deve ter ajudado Rodolfo em troca de algum favor. Mas que 
favor seria esse?
        E quanto a Rodolfo?
        No sei. Rodolfo est arredio, evitando encontrar-se com 
Fausto.
        Fausto no lhe tomou satisfaes?
        Ao que me consta, no. Creio que Fausto no quer mais 
mexer na ferida, por medo ou por vergonha. Mas no est 
falando com Rodolfo.
        Minha vontade  de mat-lo! Eu mesma vou procur-lo e 
exigir explicaes! Aquele canalha!
        Voc no vai fazer nada disso. E depois, de que adiantar? S 
servir para atiar ainda mais o dio de Fausto, que entender 
sua reao como cobrana de uma atitude por parte de 
Rodolfo, e no como desabafo e indignao.

Jlia desabou, desanimada.

        O que fao, ento?
        Por enquanto, nada.
        Ser que algum mais sabe o que houve?
        Creio que no. Se mame soubesse, por exemplo, j teria 
acontecido algum rebulio. Mas tudo est calmo, e  melhor 
que continue assim.
        Camila... Quero ir embora. No posso mais ficar aqui entre 
Fausto e Rodolfo, agindo como se nada tivesse acontecido.
        J esperava por isso e acho que tem razo.  melhor que voc 
fique por uns tempos na fazenda Ouro Velho. Tenho certeza 
de que Ezequiel e Rebeca no se importaro.

No dia seguinte, bem cedo, Jlia partiu para a fazenda Ouro Velho 
sem maiores explicaes. Palmira, apesar de desconhecer aquela 
histria srdida, logo desconfiou que Fausto e Jlia houvesse 
brigado, e exultou. No disse nada, mas, intimamente, regozijava-se 
por ver a moa afastada dali.

Na Ouro Velho Jlia foi recebida com carinho, e todos respeitaram 
sua tristeza. Trataram de acomod-la e fazer com que se sentisse 
em casa, e frei ngelo dizia-lhe sempre:

        No se preocupe minha filha. Tenha f e Deus a ajudar.

Depois que Jlia se foi, Camila sentiu-se mais  vontade para agir.

Com a desculpa de que no andava se sentindo muito bem, pediu  
me que lhe disponibilizasse uma negrinha, para fazer-lhe 
companhia durante a noite. Palmira, sem desconfiar de nada, 
mandou vir da senzala uma escrava novinha, e assim, toda a noite 
Camila mandava que ela montasse guarda, espreitando a porta do 
quarto de Constncia. Durante o dia, Camila fazia-a dormir. No 
queria que ela nem cochilasse em sua viglia, e a negrinha passava 
as noites em claro, sem nem piscar, para ver se Constncia saa ao 
apagar das velas.

Enquanto isso, Rodolfo se felicitava. O plano fora perfeito, e o irmo 
estava arrasado. Ao contrrio do que esperara Fausto no o 
procurara e nem dissera nada. Na certa, no queria expor sua 
vergonha, a vergonha de ser trado, enganado, ludibriado pela 
mulher que dizia am-lo. Mas ele no podia perder a oportunidade 
de espica-lo. Vencera e estava por cima, e era preciso humilhar e 
espezinhar o irmo.

Fausto, no querendo expor sua dor, tentou disfarar o mais que 
pde. Contudo, no podia suportar a presena do irmo. No podia 
nem olhar para ele, muito menos escutar sua voz. Por isso, deixou 
de acompanhar a famlia s refeies, optando por comer em seu 
quarto ou na cozinha. Palmira sabia que havia algo errado, mas 
preferiu no perguntar. O filho brigara com Jlia, e era bvio que 
no queria tocar no assunto com ningum. 

Alguns dias aps a partida de Jlia, Rodolfo, vendo Fausto atravessar 
a sala a caminho da cozinha, perguntou a Camila, com falsa 
displicncia:

        Por que Jlia partiu sem nem ao menos se despedir?

Pronto. Aquilo foi o suficiente para tirar Fausto do eixo. O rapaz, que 
vinha guardando dentro de si um dio surdo e imensurvel, no 
pde resistir e explodiu:

        Canalha!

E desfechou violento soco no queixo do irmo, que caiu para trs, 
por cima da cadeira. Fausto, enlouquecido, partiu pra cima dele e 
continuou a esmurr-lo, gritando com um brilho de dio no olhar:

        Canalha! Cafajeste!
Os demais, apavorados, levantaram-se e acorreu, Drio tentando 
segurar os braos do tio.

        Pelo amor de Deus, tio Fausto  implorava , o que foi que 
lhe deu?

Fausto no dava ouvido e continuava a bater. Apenas Tlio parecia 
satisfeito. Rodolfo bem que merecia uma surra. Palmira, porm, 
recobrando-se do susto, acercou-se deles e ordenou:

        Chega Fausto, estou mandando! Largue-o!

Ouvindo a voz da me, Fausto soltou o irmo e ajoelhou-se no cho, 
ao lado dele, arfando, exausto. Constncia correu para Rodolfo, 
ajudando-o a se levantar, enquanto Tonha chegava da cozinha 
trazendo uma bacia com gua morna e toalhas limpas. Ajudada por 
Drio, conduziram-no para o sof e o deitaram, e Tonha ps-se a 
limpar-lhe as feridas. Nesse momento, Constncia lanou-lhe um 
olhar de tanto dio, que Tonha chegou a sentir-se mal e recuou 
assustada. Mas Rodolfo precisava de cuidados, e ela no deixaria de 
cuidar de seu menino por causa daquela bruxa. O rapaz, vendo a 
bondade e a dedicao com que Tonha limpava e tratava seus 
ferimentos, por um momento, arrependeu-se. A prima, todavia, 
percebendo o que lhe ia  alma, sentou-se a seu lado e soprou-lhe 
no ouvido:

        Nem pense em voltar atrs na palavra empenhada.

E afastou-se no exato instante em que Palmira ia chegando. 
Conseguira, finalmente, acalmar Fausto e queria certificar-se de que 
Rodolfo estava bem. Vendo que no se ferira gravemente, indagou:

        Muito bem. Podem me explicar o que  que est acontecendo?

Rodolfo, fingindo sofrimento, considerou:

        Pergunte a Fausto. Afinal, foi ele quem me bateu.

Ela virou-se para Fausto e continuou:

        E ento?
        E ento o qu?  retrucou, num misto de raiva, vergonha e 
confuso.
        Estou esperando que me diga o que aconteceu. Por que bateu 
em seu irmo?

Fausto no queria dizer. Sentia tanto dio que parecia que ia 
explodir, e rosnou entre dentes:

        Pergunte a ele.
        Estou perguntando a voc. Voc o agrediu. Quero saber por 
qu.

Como Fausto no respondesse, ela prosseguiu:

        Aposto que  por causa de Jlia, no  mesmo?  claro que , 
e essa no  a primeira vez. Mas vocs deviam se 
envergonhar, os dois. Brigar assim pelo amor de uma 
mulher...
        Eles me traram, mame!  explodiu Fausto, no conseguindo 
mais conter a fria dentro do peito.  Dormiram juntos, aqui 
mesmo, nesta casa, bem debaixo de nossos narizes!

Palmira levou um choque. No esperava por aquilo. Contudo, j 
vivera o suficiente para no se deixar impressionar e, tentando 
manter a calma, replicou:

        E isso  motivo para espancar seu irmo?

Ele fitou-a, incrdulo.

        Acha que no? Ele me traiu, meu prprio irmo, deitou-se com 
a mulher que eu amava, bem ao lado de minha porta!
        S fiz isso porque ela me provocou  defendeu-se Rodolfo, 
com voz hesitante.
        Canalha!  gritou Fausto.  E voc no podia perder a 
oportunidade, no  mesmo?
        Fausto  o retrucou em tom conciliador e amistoso , sei que 
o que vou lhe dizer  difcil, mas procure entender. No quis 
tra-lo, mas Jlia me provocou, se ofereceu...
        Cale-se! Cale-se, cretino! No quero ouvir mais nada!
        Mas  preciso, Fausto, voc tem que saber quem  Jlia.
        No! No!
        Sinto meu irmo, mas  Jlia quem no presta. Deitou-se 
comigo porque disse que voc no era homem suficiente para 
ela. Roia-se de desejo, mas voc, cheio de pudores, no 
queria faz-la mulher...
        Pare! Por Deus, pare! No me torture!
        Sinto muito, meu irmo. Eu no queria, tentei lutar contra 
meus instintos. Voc  meu irmo, no queria tra-lo. Mas sou 
homem, e ela provocou... Fui fraco, sei, no resisti...

Constncia estava impressionada. Rodolfo saa-se melhor do que ela 
esperava. Estava perfeito em seu papel de pobre irmo seduzido. 
Todos pareciam convencidos, at aquela idiota da Tonha. S Camila 
no se deixara convencer. Em dado momento, no podendo mais 
suportar aquela cena pattica, achou que j era hora de intervir.

        Chega Rodolfo! A quem quer enganar? Pensa que no sei o 
que fizeram? Pensam que no descobri seu plano srdido?
        Camila  objetou a me  do que  que est falando?
        Estou falando do plano que Rodolfo e Constncia engendraram 
para destruir Jlia e Fausto.
        Eu?!  fez Constncia, indignada.  Era s o que me faltava. 
No seja ridcula, Camila. Sei o quanto gosta de Jlia, mas 
deixe-me fora dessa histria. No tenho nada com isso.
        No seja tola, Camila  repreendeu Palmira.  Por que quer 
justificar a indignidade de sua cunhada acusando injustamente 
sua prima? No v que isso no  direito?
        Mas foi exatamente o que aconteceu.
        No acredito em voc. Constncia no tem motivo algum para 
prejudicar Jlia.
        Vai defend-la de novo, mame, como fez trinta anos atrs?
        Isso  uma outra histria, minha filha. No misture as coisas.
        Sim  cortou Constncia, com voz chorosa.  S porque errei 
uma vez serei culpada pelas desgraas de todo mundo?
        Constncia est certa, Camila. Ela no tem nada com isso. 
No arrume escusa inslita e infundada s para salvar Jlia.

Camila calou-se. No adiantava tentar convenc-los, porque 
ningum acreditaria. No tinham mesmo motivos para acreditar. 
Assenhoreando-se da situao, Palmira decretou:

        Muito bem. No quero ouvir mais nem uma palavra sobre essa 
histria. Jlia no  digna de nenhum de meus filhos, e fico 
feliz que tenha partido. De hoje em diante, no se toca mais 
no nome daquela vagabunda aqui.
        Mame!  ia protestando Camila.
        No diga mais nada, minha filha. Est decidido. E quem no 
estiver satisfeito, pode ir juntar-se a ela.

Ningum disse mais nada. Camila estava perplexa e revoltada com 
a atitude da me. Mais uma vez ela defendia Constncia, mesmo 
sabendo do que ela era capaz. No fosse a determinao em 
desmascarar a prima, teria partido tambm. Mas, por enquanto, no 
podia. A felicidade de Jlia e de Fausto dependia dela, e ela no 
permitiria que a cunhada carregasse para sempre a culpa por algo 
que no cometera.

        CAPTULO 25
                                                          
Desde esse dia em diante, Palmira, sempre que possvel, evitava 
tocar no nome de Jlia, considerando encerrada aquela histria. Ela 
fora indigna e mentirosa, e no merecia perdo. Por isso, no queria 
mais ouvir falar em seu nome. Drio e Tlio tambm no 
acreditavam na verso de Rodolfo mas, aconselhados por Camila, 
no disseram nada. Tlio, principalmente, sabia muito bem do que o 
tio era capaz. Em vista disso, julgou que Rodolfo, j satisfeito, no 
precisasse mais dele, e comeou a relaxar. Mas Rodolfo, ao 
contrrio do que ele pensava, no se esquecera, e logo tratou de 
lembr-lo de seu indigno compromisso.

        Ol, Tlio  disse Rodolfo, em tom sarcstico, assim que o 
sobrinho abriu a porta do quarto.
        O que quer?  perguntou apreensivo e nada satisfeito.
        No v me dizer que j se esqueceu do nosso compromisso.
        No tenho compromisso algum com voc.
        Ah, tem sim. E dos mais importantes.
        Escute aqui, tio Rodolfo, por que no me deixa em paz? J no 
conseguiu o que queria? No dormiu com minha tia Jlia? O 
que mais quer de mim?
        Quero apenas lembr-lo de sua promessa.
        Por qu?
        Porque posso precisar. No quero desperdiar nenhuma das 
minhas armas contra Fausto.
        Est louco! O que pretende? J no o destruiu?
        No o suficiente.

Naquele momento, Tlio pde perceber o quanto Rodolfo estava 
perturbado. Pensara que o tio gostava de Jlia, mas percebia que a 
verdade  que odiava o irmo. Rodolfo no estava interessado em 
conquistar o amor de sua tia, mas em destruir seu prprio irmo. 
Mas por qu? O que ele lhe fizera? Tlio, por mais que se 
esforasse, no conseguia atinar nos motivos que impulsionavam 
Rodolfo a destruir Fausto. E, realmente, no havia motivo algum. 
No nessa vida, mas em outra, muitos sculos atrs.

Tlio e Rodolfo eram, ento, os filhos mais jovens de Licurgo, que 
ficara vivo quando eles ainda eram bem pequenos. No podendo 
suportar a ausncia da mulher, Licurgo casara-se de novo, e sua 
nova esposa, Palmira, tambm viva, trouxera consigo um filhinho, 
Fausto, quase da mesma idade que seus enteados.

A nova madrasta, embora no fosse pobre, no possua a nobreza 
do pai de Rodolfo, o que, inclusive, levara seu irmo mais velho a 
abandonar a casa paterna. Rodolfo, porm, ainda criana, logo 
tratara de discriminar Fausto, afastando-o das brincadeiras e dos 
passeios. Quando Fausto, indignado, pedia para acompanh-los, 
Rodolfo respondia do alto de sua soberba:

        No pode. Voc no  igual a mim.

Naquela poca, Jlia era prima dos rapazes e ia se casar com 
Rodolfo, at que conhecera Fausto e interessara-se por ele. A moa, 
a princpio, ainda hesitara em romper o romance com o primo, em 
virtude de sua alta posio social, o que causara enorme desgosto 
em Fausto. Mas depois, vendo que seu corao pendia mesmo para 
Fausto, acabara por entregar-se a ele e abandonara o primo para 
poder despos-lo, ocasionando violenta reao de Rodolfo.

Para completar, Fausto era um moo hbil e inteligente. Dedicara-se 
 carreira poltica e logo fora chamado a representar seu pas em 
embaixadas do mundo todo. Ao mesmo tempo em que sua carreira 
crescia vertiginosamente, Rodolfo no conseguira ser mais do que 
um simples capito, encarregado de dirigir inexpressivo exrcito e, 
assim mesmo, por influncia de seu pai. A inveja o foi dominando. 
Fausto, embora no fosse dotado da mesma nobreza de sangue que 
ele, conseguia sobressair-se em tudo o que fazia, ao passo que 
Rodolfo, por mais que se esforasse, no conseguia igualar o brilho 
e o sucesso do outro.

Fausto se casaria com Jlia e com ela partiria para um pas distante. 
Mas Rodolfo no estava disposto a permitir. s vsperas do 
casamento, lanara-lhe em face um duelo, e Fausto o teria matado, 
no fosse  interferncia de Jlia. Rodolfo, porm, embora poupado, 
acabara humilhado, escarnecido por todos, e terminara seus dias 
sozinho, isolado no castelo da famlia, alimentado apenas pelo dio 
que sentia do rival.

Mas a interferncia de Jlia cobrira Fausto de desconfiana. Por mais 
que ela fizesse ou dissesse, o fato era que Fausto no conseguia 
acreditar que a moa no tinha mais nenhum interesse em Rodolfo 
e que s intercedera em seu favor por uma questo de humanidade. 
Afinal, eram primos, estiveram comprometidos, e no lhe agradava 
nada ser o motivo da morte de seu antigo namorado. Jlia sentia 
muita pena de Rodolfo e sempre que estava de volta a seu pas ia 
visit-lo em seu castelo. Quando Fausto descobrira, enchera-se de 
cime, julgando que a esposa o estava traindo, e no conseguira 
acreditar quando ela lhe dizia que no havia nada entre eles. Desde 
esse dia, Fausto passara a tratar Jlia com certa indiferena, sempre 
desconfiado de seus gestos e de suas palavras. Afinal, no havia se 
entregado a ele antes do casamento? Por que no poderia entregar-
se a Rodolfo depois?

Depois que desencarnou Fausto e Rodolfo assumiu o compromisso 
de nascer como irmos gmeos, numa tentativa de superar suas 
diferenas, aprendendo que todos so iguais aos olhos de Deus. 
Fausto, mais consciente, mais depressa se imbura do desejo de se 
reconciliar com o irmo, mas Rodolfo, ainda muito apegado aos 
valores terrenos, no conseguira vencer suas prprias tendncias e 
novamente enveredava pela amarga senda do dio.

Mas nada disso Tlio conhecia. Para ele, o dio de Rodolfo por 
Fausto no tinha motivo nem explicao, ainda mais porque eram 
gmeos, e ele no conseguia entender aquela rivalidade. Achava 
que o tio estava enlouquecendo e sentia medo dele.

Mas queria afastar-se de tudo aquilo. J no tinha seus problemas, 
sua culpa? Por que ter que carregar tambm a cruz de Rodolfo?

        No se esquea  tornou Rodolfo, chamando-o de volta  
realidade.  Posso precisar de voc. No v falhar comigo.

Tlio no respondeu, e ele se foi. At quando seu martrio 
continuaria?

Em pouco tempo Rodolfo reunia-se a Constncia. Precisava, ele 
tambm, pagar a promessa que fizera.

        J pensou em tudo?  indagou Rodolfo.
        Como sempre.
        E o que idealizou dessa vez?
        Quero que a chame ao seu quarto.
        Para qu?
        Assim que todos se recolherem, chame-a ao seu quarto. Diga-
lhe que a comida lhe causou certa indisposio e pea-lhe 
para preparar-lhe um ch. Pelo que conheo de Tonha, ela ir 
l aos fundos colher algumas ervas. Por via das dvidas, eu 
mesma me encarregarei de esvaziar as caixinhas de ch, o 
que a obrigar a usar ervas frescas. L, ento, a ss com ela, 
executarei minha vingana.
        Esta noite?
        Esta noite. No posso esperar nem mais um dia.

Naquela noite, depois que todos foram dormir, Rodolfo puxou a 
sineta, que tocava na cozinha, e Tonha apareceu.

        Deseja alguma coisa, sinh?
        Sim, Tonha...  disse devagarzinho, enquanto se retorcia na 
cama, as mos apertando a barriga.
        Est sentindo alguma coisa?
        Hum, hum. Uma dor aqui no estmago, no sei o que .
        Ser que foi algo que comeu? Eu bem falei a sinh Palmira 
para no colocar pimenta no piro...
        Por favor, Tonha, deixe isso pra l. Faa-me um ch, por 
favor.
         pra j, sinhozinho. Vou fazer um ch de boldo especial. Se 
vomitar, no faz mal. Vai limpar por dentro.

Quando Tonha saiu, a porta do quarto de Camila se fechou. A 
negrinha encarregada de vigiar os aposentos de Constncia, ouvindo 
barulho no corredor, entreabriu a porta e espiou. Vendo, porm, 
que se tratava de Tonha, no deu importncia ao fato e tornou a 
fechar a porta, vagarosamente. Com o clique da fechadura, Camila 
despertou.

        O que houve?  indagou sonolenta.
        Nada, sinh. Foi apenas Tonha, que foi ao quarto de sinh 
Rodolfo.
        Tonha? Est bem...

De repente, Camila deu um salto. O que estaria Tonha fazendo ali, 
justamente no quarto de Rodolfo, e quelas horas? Ela pulou da 
cama e correu ao quarto de Constncia, empurrando a porta bem 
devagar. A prima no estava, e a cama, ainda feita, delatava que 
ela ainda nem se deitara. Intuitivamente compreendendo o que 
estava se passando, voltou a seu quarto e ordenou  escrava:

        V agora mesmo ao quarto de mame e diga-lhe para se 
encontrar comigo l fora!
        Mas sinh...
        Agora! V!

Nesse nterim, Tonha, no encontrando nenhuma erva na cozinha, 
saiu para o quintal, a fim de colher algumas para o ch. Ao chegar 
perto do canteiro, ouviu uma voz fantasmagrica atrs de si:

        Ol, Tonha.
Ela se assustou e levou a mo ao peito. Constncia sorriu aquele 
sorriso diablico e aproximou-se dela.

        Sinh Constncia! O que faz aqui?
        Quero conversar.
        No acha que j  um pouco tarde? S vim preparar um ch 
para...
        Nunca  tarde para falar de Incio  cortou Constncia, 
rispidamente.
        Incio? Desculpe sinh, mas Incio est morto, e no quero 
falar sobre ele, no. A sinh no tem o direito.
        No? Mas eu o amava! E o merecia. Muito mais do que voc... 
Negra!

Tonha abaixou os olhos e retrucou com voz sumida:

        O que quer sinh?
        Vingana!
        Mas Incio est morto. No pode pensar que fui eu que o 
matei...
        Voc? No negra estpida, sei que no foi voc. E sabe como 
sei? Porque fui eu! Fui eu que matei Incio!
        A sinh?
        Por sua culpa, negra, ateamos fogo naquela casa, eu e Baslio, 
para queim-la viva. A voc e quela intrometida da Aline, e 
seu maridinho. Pensvamos que Incio estivesse em seu 
prprio quarto, na ala oposta da casa. Mas ele no estava no 
 negra? Estava com voc, em sua cama, em seus braos...
        Sinh, por favor...
        Por que foi se intrometer entre ns? Voc  apenas uma 
escrava. Por que teve que me roubar Incio? O nico homem 
a quem amei em toda a minha vida.
Constncia chorava desesperadamente. A saudade e o remorso a 
roam por dentro, e ela no podia suportar. Tonha, apesar de tudo, 
condoeu-se dela. Colocando a mo em seu ombro, disse com voz 
humilde e branda:

        Sinh Constncia, deixe isso para l. J passou. No adianta 
mais. A sinh deve esquecer e viver sua vida...
        No, negra! Jamais poderei viver em paz enquanto voc no 
estiver morta!

Constncia ergueu o brao, e a lmina do punhal brilhou na luz do 
luar. J ia desferir o golpe quando sentiu que a seguravam por trs, 
subjugando-a, e ela tombou.

        No!  gritou Camila, enquanto se esforava para domin-la.

As duas lutaram, at que o punhal caiu da mo de Constncia, e 
Palmira o recolheu. Quando a negrinha fora ao seu quarto, berrando 
feito uma cabrita, Palmira ficara furiosa e at lhe dera uns tapas. 
Mas ela falava no nome de Camila com tanta insistncia, que ela 
acabou se convencendo. Andando o mais depressa que podia, 
auxiliada pela negrinha, chegou bem a tempo de ouvir a confisso 
de Constncia. Camila, que chegara primeiro, vendo a porta da 
cozinha aberta, correu e avistou as duas discutindo. Em silncio, deu 
a volta no terreiro e ocultou-se nas sombras, atrs da prima, o que 
lhe permitiu saltar sobre ela bem a tempo de impedir que desferisse 
em Tonha o golpe fatal.

        Pode solt-la, Camila  ordenou Palmira, olhos secos, 
chispando de dio.  No suje suas mos com o sangue de 
uma assassina.
        Tia Palmira, eu...
        Cale a boca, sua vbora! Como pde enganar-me dessa 
forma? Confiei em voc, dei-lhe meu apoio. Mais do que isso; 
amei-a como a uma filha. Por que me apunhala pelas costas?
        Eu... Eu...
        Voc matou meu filho. Voc matou Incio... E Aline...
        No, no. A culpa foi de Tonha...
        Tonha  uma tola e uma atrevida. Mas voc...  uma 
assassina! Assassina!

Constncia descontrolou-se. Ouvindo as acusaes da tia, desatou a 
chorar. Nesse momento, atrados pela gritaria, os outros 
comearam a chegar. Primeiro chegou Fausto. Depois chegaram 
Tlio e Drio. E, por fim, Rodolfo, todo nervoso. O plano falhara o 
que era extremamente perigoso.

        Saia daqui!  berrava Palmira.  Terncio! Terncio! 

Terncio, cujas acomodaes ficavam ali bem prximo, ouvira toda 
a conversa.

        Chamou dona Palmira?
        Terncio, pegue essa criminosa, leve-a para a vila e entregue-
a ao chefe da guarda  disse secamente.  Nunca mais 
quero v-la.
        Sim, senhora.

Terncio agarrou-a pelos punhos e comeou a arrast-la, ao mesmo 
tempo em que ela gritava:

        Por favor, tia Palmira, perdoe-me! No quero ser presa! Foi 
um acidente, eu no queria! Tenha piedade, por favor!
Palmira j lhe havia dado as costas, fazendo-se surda a suas 
splicas, quando Camila fez parar o capataz, dizendo:

        Espere um pouco, Terncio. H algo que preciso saber  
virou-se para Constncia e indagou:  Como foi que preparou 
tudo isso, Constncia? Como sabia que Tonha estava aqui 
fora?

Ela encarou Rodolfo e gargalhou. Ia cair, sim, mas levaria mais 
algum com ela. Sem hesitar, apontou para o primo e disparou:

        Foi  paga que recebi por ajudar Rodolfo a enganar aquela 
tola da Jlia e deitar-se com ela.
        O qu?  urrou Fausto, perplexo.  O que est dizendo?
         mentira!  gritou Rodolfo.  No vem o que ela est 
fazendo? Quer acusar-me s para salvar a pele.
         mesmo?  replicou Constncia.  Ento, como  que sei 
que ele chamou Tonha a seu quarto, fingindo uma 
indisposio, e pediu-lhe para preparar-lhe um ch? Como  
que sei que no havia ervas em casa, e que ela veio colh-las 
aqui no terreiro?

Fausto voltou-se para Tonha e indagou:

        Isso  verdade?
        Sim, sinh  respondeu em lgrimas, fitando Rodolfo com 
mgoa.
         mentira!  insistia Rodolfo.
        No  no  protestou Constncia.  Fui eu quem lhe disse 
para entrar no quarto de Jlia, naquela noite, fingindo-se 
passar por Fausto. Disse-lhe que usasse suas roupas, que 
imitasse sua voz, seus gestos, seus carinhos. Foi o que ele fez, 
e a tola, ingnua, pensando que se entregava ao amado, 
entregou-se ao rival!
Antes que Fausto pudesse alcan-lo, Rodolfo fugiu. Sumiu no meio 
da noite. Fausto quis ir atrs dele, mas Camila no permitiu.

        Deixe-o  disse.  Estar a ss com sua conscincia.

O dia mal clareara e Camila, em companhia de Drio, partiu rumo  
fazenda Ouro velho. Precisava falar com Jlia o quanto antes, 
contar-lhe o que havia acontecido.

Quando chegaram, foram informados de que Sara ainda estava 
dormindo, e Drio sobressaltou-se. Teria ela piorado? Rebeca, 
contudo, tranqilizou-o:

        No foi nada disso, meu filho.  que ontem Sara resolveu nos 
brindar com um concerto ao piano, e ficamos at tarde a 
escut-la.
         mesmo?  fez Drio surpreso.  Ela tocou para vocs?
        Sim. E com que alegria!
        Mas isso  maravilhoso! Pena que no pude estar presente.
        Realmente, foi uma pena. Mas no se preocupe, no vo 
faltar oportunidades.
        Com certeza no faltaro  interrompeu frei ngelo, que ia 
chegando.  Sara est muito melhor, e tenho certeza de que, 
em breve, podero se casar.
        Fala srio?
        Voc mesmo poder dizer. Ento no notou como ela vem 
melhorando ultimamente?
         verdade. E tudo isso graas ao senhor.
        Tudo isso graas a ela mesma, a sua f, a sua enorme 
capacidade de compreender as coisas.
        Mas que coisas so essas?  indagou Rebeca.  Vocs ficam 
o tempo todo por a, cochichando, e eu no sei de nada...
        Ora, dona Rebeca  protestou Drio , o que importa  que 
Sara est melhorando, no  mesmo?
        Tem razo, meu filho. S o que quero  ver minha filha feliz e 
saudvel.
        Rebeca  acrescentou Camila , nem pode imaginar o quanto 
essa notcia tambm me deixa feliz. A felicidade de Sara e de 
Drio  um de meus maiores desejos.
        Quanto a isso, no precisa se preocupar. Sara est 
readquirindo a alegria de viver, principalmente de viver em 
famlia. Aos poucos ela vai saindo daquela solido que a 
estava matando e integrando-se ao ambiente familiar.
        Oh! Mas ela sempre esteve integrada  famlia.
        De corpo, podia ser. Mas de alma...
        No entendo o que diz.
        Quero dizer que Sara sempre viveu junto de vocs 
fisicamente, mas seu interior, sua essncia, sempre se sentiu 
sozinha e abandonada.
        Ora essa, mas por qu?
        Quem pode saber?  fez frei ngelo, ergueu os ombros em 
sinal de dvida, no querendo revelar-lhes os segredos de 
Sara.  A alma humana  um mistrio que s Deus  capaz 
de compreender.
        Bem  atalhou Camila , seja como for, o importante  que 
Sara est praticamente curada.
        Sim, isso  o que importa, no  mesmo?
         sim  concordou Rebeca.

Pouco depois Sara chegou. Estava bem mais corada e chegara a 
ganhar alguns quilinhos, perdendo aquelas feies cadavricas que 
lhe roubavam a beleza. Vendo Drio ali presente, correu para ele e, 
abraando-o, cumprimentou:
        Bom dia, meu querido. Que bom encontr-lo aqui, logo pela 
manh.
        Estava com saudades.

Drio tomou-lhe o brao e saiu com ela para o jardim, a fim de 
aproveitar o Sol da manh.

        Ah, os jovens!  exclamou frei ngelo.  Como  bom v-los 
apaixonados!
        E Jlia, onde est?  perguntou Camila, logo que eles se 
afastaram.
        No jardim  respondeu frei ngelo.  Estive at agora 
conversando com ela.

Camila pediu licena. O que tinha a falar com Jlia no podia 
esperar.
Jlia estava sentada de costas, fitando as montanhas, quando 
Camila se aproximou, tocando-a gentilmente no ombro.

        Jlia, querida, como est?

A moa levantou-se apressada e atirou-se nos braos da cunhada, 
exclamando:

        Camila! Que bom v-la!
        Trago-lhe boas notcias.
        Boas notcias?
        Sim. Sente-se que lhe contarei tudo.

Minuciosamente, Camila contou a Jlia tudo o que se passara na 
noite anterior. Jlia ficou abismada. Aquele Rodolfo era mesmo uma 
praga. E Constncia, ento? Uma vbora. Mas, e Fausto? O que 
pensaria disso tudo?
        Fausto ainda est profundamente abalado e confuso.
        No vai me perdoar, no  mesmo?
        D tempo ao tempo. Ele s precisa se acostumar. Tenho 
certeza de que, logo, logo, ir no perdo-la, porque, como 
disse voc no fez nada de errado. Mas aceit-la.
        Ser que posso sonhar com isso?
        Pode. Ver como seu sonho est a um passo de se realizar.

CAPTULO 26

Deixando o local onde se desenrolara todo aquele drama, Rodolfo 
embrenhou-se no mato, com medo da reao de Fausto. O irmo, 
na certa, o mataria. No dia seguinte, Palmira foi avisada de que 
faltava um cavalo na cocheira e concluiu que o filho, 
provavelmente, fugira para a vila. Mais tarde, quando Terncio 
chegou, disse que vira o cavalo de Rodolfo parado em frente  
estalagem, e que ele passara a noite l.

        E Constncia?
        Entreguei-a ao chefe da guarda e contei-lhe tudo o que 
aconteceu.
        O que ele disse?
        Disse que, pelo tempo, acha que no poder fazer mais nada. 
Os crimes, provavelmente, j esto pescr... Presc...
        Prescritos  completou Palmira, e ele assentiu.

Ela mordeu os lbios e no disse mais nada. Ainda que estivessem 
prescritos, dado o enorme transcurso de tempo, ela arranjaria um 
jeito de fazer com que Constncia apodrecesse na cadeia. No havia 
nada que o dinheiro no pudesse comprar. No momento, porm, 
estava mais preocupada com seu filho, Rodolfo. Ele errara, trara o 
irmo. Mas aquela Jlia... Na certa que o provocara. E agora, os 
filhos no se falavam por causa daquela mulher. Isso no estava 
direito.

        Mande preparar a carruagem  ordenou.  Quero ir  vila.
        Sim, senhora.

Palmira foi ter com o filho e ficou surpresa com seu estado de quase 
demncia. Ele estava diferente, o olhar vidrado, o rosto afogueado, 
suando frio. Ela tocou sua testa e certificou-se: Rodolfo estava 
doente, muito doente. Mandou que Terncio sasse  procura do 
mdico e, quando ele chegou, examinou o rapaz e confirmou: ele 
estava com muita febre e comeava a delirar. Em sua loucura, 
balbuciava:

        No... Somos diferentes... O duelo!... Maldito!...

A me, sem entender que ele rememorava fragmentos de outra 
vida, julgava que aqueles delrios fossem resultados da febre e no 
lhes deu muita importncia. Mas era preciso tir-lo dali. Precisava 
lev-lo de volta a casa. S l poderia trat-lo como devia, em meio 
a todo o conforto de seu lar. Quando a carruagem chegou, Fausto 
foi receber a me e estacou estarrecido ante a viso do irmo, 
deitado no banco, com a cabea pousada no colo dela.

        O que significa isso, mame?  indagou, cheio de dio.  
Ainda tem coragem de trazer esse patife aqui?
        Quieto, Fausto, e escute-me. Seu irmo est doente.
        Doente... Ele est  fingindo isso sim.
        Deixe de besteira e ajude-me aqui.

Fausto no se moveu, e Terncio deu a volta  carruagem, parando 
perto de Palmira. Ele estendeu os braos, tentando erguer Rodolfo, 
mas j estava velho, e o moo era muito pesado para ele carregar 
sozinho.

        O que est esperando?  tornou ela.  No v que Terncio 
no pode com ele?
        Sinto mame, mas se quer acreditar nesse canalha, o 
problema  seu. No conte comigo.
        Fausto, por favor, ajude seu irmo. Ele no est nada bem.
        Se ele entrar por aquela porta, eu saio por outra. No vou 
dividir o mesmo teto com um crpula, um canalha, um patife, 
um cnico, um poltro!
        Acabou o seu vocabulrio de imprecaes? Agora me ajude.
        Mame, estou falando srio! Se a senhora permitir a entrada 
desse biltre em nossa casa, juro que nunca mais vai me ver. 
Vou-me embora daqui agora mesmo!
        Fausto, pelo amor de Deus!  gritou ela, j impaciente.  
Aquiete essa tempera e olhe para seu irmo. Ele est muito 
doente. O que quer que eu faa? Que o deixe morrer sozinho, 
atirado no quarto imundo de qualquer estalagem barata? Olhe 
para ele, vamos! Olhe para ele!

Ainda contrariado, Fausto fitou o rosto do irmo. Reparando melhor, 
viu que havia gotculas de suor banhando sua testa, e que seus 
lbios tremiam. Ele estava plido feito cera, os olhos semicerrados 
parecendo sem vida. Aproximou a mo de sua tmpora e tocou-a 
de leve. Ele estava ardendo em febre. Em silncio, fitou a me, j 
penalizado, e ela considerou:

        Fausto, meu filho, sei que o que Rodolfo fez foi muito grave e 
no lhe tiro a razo de estar zangado com ele. No entanto,  
meu filho tambm, tem o seu sangue. Gostaria de ver morrer 
seu prprio irmo?
Ele engoliu em seco e retrucou:

        No... Claro que no... Mas  que... Pensei que ele estivesse 
fingindo...
        Como v, no est. Rodolfo est muito doente. O mdico j o 
examinou, e o caso dele  grave. Se a febre no baixar, ele 
no vai resistir.
        Sinto muito...
        Agora vamos, ajude Terncio a lev-lo de volta ao quarto.

Corao bondoso, Fausto ajudou o capataz a instalar o irmo de 
volta em seu quarto, e o mdico todos os dias ia visit-lo, levando-
lhe elixires e infuses amargas, fazendo-lhe ventosas e sangrias, 
tudo na esperana de salv-lo.

No dia seguinte  chegada de Rodolfo, Marta apareceu e montou 
guarda junto ao leito. Sabia de tudo o que tinha acontecido, mas 
no se importava. Amava-o de qualquer jeito e estava disposta a 
ficar ao lado dele, ainda que ele no a quisesse.

O tempo foi passando, e a recuperao de Rodolfo seguia 
lentamente. A febre custava muito a ceder, e ele vivia delirando, 
falando de coisas estranhas, que ningum conhecia. Apesar das 
reservas que tinha quanto  posio social de Marta, Palmira no 
pde deixar de observar-lhe a dedicao. Ela, efetivamente, 
montara guarda  cabeceira do doente e raramente se ausentava, 
fazendo suas refeies no quarto.  noite, depois que Rodolfo 
dormia, ela ia para casa, retornando no dia seguinte, bem cedo, 
para que ele, ao despertar, j a encontrasse ali. Aos poucos, 
Palmira foi se acostumando com a presena da moa. Ela era de 
uma amorosidade sem igual, e Palmira ficou-lhe extremamente 
grata. J estava velha e cansada, e no tinha mais foras para 
cuidar do filho doente.
 medida que Rodolfo ia melhorando, Marta ia introduzindo novos 
mtodos no auxlio  sua convalescena. Conhecendo j o dom que 
possua, todo o dia elevava o pensamento a Deus e apunha suas 
mos sobre o rapaz, o que fazia com que ele se sentisse bem 
melhor. No raras eram s vezes em que vomitava, e Marta lhe 
dizia baixinho, com extrema ternura:

        Isso, meu querido, deixe sair todo esse dio que invadiu seu 
corao e abra espao para receber o meu amor.

Rodolfo, pouco a pouco, ia se sentindo melhor. A presena de Marta 
causava-lhe imensa alegria, e ele s conseguia dormir com ela a seu 
lado. No dia seguinte, se despertava muito cedo, ficava ansioso, 
remexendo-se na cama  espera que ela chegasse. Ela era seu 
alento.

Mais tarde, quando ele conseguiu reunir foras para se levantar, 
Marta levou-o a passear no jardim e lia para ele os novos romances 
que a me mandava vir da corte. Ele a escutava extasiado, 
bebendo-lhe as palavras e admirando-lhe a graa e a beleza. Marta, 
por sua vez, exultava! Estava certa de que conseguiria conquistar 
seu corao.

Quando Fausto descobrira o que o irmo fizera, tivera vontade de 
esgan-lo. Mas, vendo-o assim, totalmente dependente, sentiu um 
aperto no corao e compadeceu-se de seu sofrimento. Rodolfo 
enlouquecera, era a nica explicao que conseguira encontrar. Em 
sua bondade e ingenuidade, Fausto conclura que Rodolfo se 
apaixonara por Jlia e, ao contrrio do que dissera, no a 
conseguira esquecer. Movido pelo cime e pelo despeito, deixara-se 
arrastar por aquele desatino e entregara-se  indignidade. Era uma 
pena!
Ao ver o irmo sentado no banco do jardim, com Marta a seu lado 
lendo para ele, Fausto pensava em Jlia, e seu corao se apertava. 
Ele a amava muito e queria perdo-la. Mas como passar por cima 
do orgulho e da hombridade e desposar uma mulher que j 
pertencera a outro homem? Jlia, a cada dia esperava ansiosa que 
ele a fosse buscar, mas Fausto no aparecia. Cada cavalo, cada 
charrete, cada carruagem faziam seu corao se sobressaltar, e ela 
corria para a porta, na esperana de que fosse ele. Em seguida, 
voltava tristonha e decepcionada e j comeava a acreditar que ele 
no a amava. Os Zylberberg se condoam e faziam de tudo para 
anim-la. At Sara parecia melhorar, vendo na dor da amiga uma 
oportunidade para se fazer mais presente em sua vida. Elas 
passavam longas horas a conversar e, s vezes, frei ngelo juntava-
se a elas. Tinha, ento, duas almas para orientar. Muitas vezes, 
quando Jlia chorava de mansinho, ele lhe dizia:

        No perca as esperanas, minha filha. Tenho certeza de que 
ele vir.

Mas Jlia j no acreditava mais. Fausto se fora para sempre, no 
queria mais v-la, no a amava mais.

Certa vez, Fausto observava da janela o irmo passeando com 
Marta, que o amparava pelo brao, quando Camila chegou perto 
dele. Durante algum tempo tambm ficou a acompanhar o andar 
vagaroso e inseguro de Rodolfo, e comentou:

        Ele est sofrendo muito, no acha?

Sem desviar os olhos da janela, Fausto respondeu:

        Est pagando pelo que fez.
        No diga isso, Fausto. Ele  nosso irmo. Apesar de tudo, tem 
nosso sangue. Seu sangue ainda mais que o meu.
        Eu sei Camila. No quis parecer insensvel ou cruel. Sinto 
muita pena dele e compreendo que est louco. Mas no posso 
negar que, pensando em tudo o que ele fez, sinto um grande 
dio. Ele estragou-me a felicidade, destruindo todas as 
chances que tinha de ser feliz ao lado de Jlia.
        Por qu?
        Voc sabe.
        Sei, mas no compreendo e no aceito. Voc no a ama?
        Voc sabe que sim. Todavia, ela j no  mais moa e j no 
serve mais para o casamento.
        Isso  uma infmia. Voc se esquece, meu caro, de que eu 
tambm no me casei virgem?
         diferente.
        Sim, muito. O canalha que me roubou a honra iludiu-me, 
fingindo amar-me, e depois sumiu, entregando-me nas mos 
de outro, que s queria o meu dinheiro. Por isso fui para um 
convento. Porque no aceitei me casar com um aproveitador 
s para salvar minha reputao. Mas, hoje, sou feliz ao lado 
de Leopoldo. Ele se apaixonou por mim e me aceitou do jeito 
que sou. Casamo-nos e somos felizes, sem que ele nunca 
tenha me atirado na face o mau passo que dei. E dei porque 
quis, porque fui tola, porque me apaixonei pelo homem 
errado. Mas Jlia, no. Ela foi enganada, no por um homem 
que dizia am-la, mas por um homem que se fez passar por 
aquele que  o seu verdadeiro amor  Fausto ficou pensativo, 
e ela prosseguiu:  Ento, por que no vai falar com ela?
        No posso Camila. Por mais que queira, no posso perdo-la.
        Fausto, meu irmo, no pense em perdo. Pense em 
reencontro. Se conseguir entender que Jlia no errou, mas 
que agiu movida por uma iluso, vai conseguir aceit-la. Ela o 
ama.
        Eu sei. Sei tambm que ela foi vtima. Contudo, jamais poderei 
esquecer aquela mancha de sangue no lenol. Sangue que 
deveria ter sido derramado por mim, em nossa noite de 
npcias.
         isso o que ela representa para voc? Uma mancha de 
sangue? Isso  que  importante em Jlia? E o amor, onde 
fica? Pensa que Jlia teria se entregado a Rodolfo? No. Ela se 
entregou a Fausto.

Naquela noite, foi a Fausto que viu, foi por ele que se deixou tocar, 
foi a Fausto que amou. No a Rodolfo.

        Mas era Rodolfo!
        S que ela no sabia. Ela pensou que fosse voc, e s disse o 
que disse, s fez o que fez porque pensou que era voc. Ser 
que voc  to cabea-dura que no consegue entender?

Fausto suspirou e tornou a olhar para o irmo, que tambm olhava 
em sua direo. Quando seus olhos se cruzaram, teve um 
estremecimento, mas Rodolfo no esboou nenhum tipo de 
reconhecimento. Parecia alheio a tudo e s dava sinais de vida ao 
lado de Marta.

        Por favor, Camila, deixe-me pensar  tornou ele.  Quero ter 
Jlia de volta, mas no consigo.
        Seu orgulho fala mais alto do que seu amor. Sabe Fausto, 
voc  mais digno de pena do que Rodolfo.
        O qu?
        Ao menos Rodolfo fez o que fez porque est adoecido, 
profundamente adoecido. Voc no.  um homem so e 
desperdia a felicidade por orgulho e preconceito.

Em seguida, sorriu para ele e rodou nos calcanhares, sumindo no 
interior da casa. Ela estava certa. Mas, por mais que se esforasse, 
era-lhe difcil aceitar.

CAPTULO 27

Aquele dia chegou sombrio, e Tonha sentiu um arrepio estranho ao 
passar pela porta do quarto que Constncia ocupara. Tinha ido levar 
o caf para Rodolfo na cama e sentiu como se um hlito frio lhe 
percorresse a espinha. Instintivamente, persignou-se e seguiu 
avante. Aquilo parecia um pressgio.

Mesmo sabendo que fora Rodolfo quem a entregara a Constncia, 
Tonha no conseguia sentir raiva dele. Ao contrrio, sabia-o 
enfermo, muito enfermo. No do corpo, mas da alma. Tonha via em 
Rodolfo um ser doente, que envenenara sua prpria alma em troca 
de alguns momentos de prazer. E, por ironia ou por destino, estava 
praticamente entrevado, sem nem sombra do rapaz robusto e ativo 
que costumava ser.

Ao entardecer, um homem bateu  porta. Vestia trajes estranhos e 
pediu para falar com Palmira. Tonha no o conhecia, mas sabia 
tratar-se de gente honesta, ou Aldo no o teria deixado passar. 
Palmira desceu s pressas, cumprimentou o estranho e trancou-se 
com ele na biblioteca. Vendo-se a ss, foi logo dizendo:

        E ento? Conseguiu?
O homem olhou para ela, enfiou a mo no bolso e puxou uma 
bolsinha de couro, dela retirando um punhado de moedas de ouro.

        Isso no ser mais necessrio  disse com voz rouca e 
vibrante.
        Por qu? O que houve? No v me dizer que o magistrado se 
recusou a receber, digamos  oferta que lhe mandei.
        No, senhora, no se trata disso.
        Trata-se de que, ento?

O homem tossiu meio sem jeito e prosseguiu:

        Senhora, lamento informar que sua sobrinha faleceu...
        Faleceu?
        Enforcou-se hoje cedo, em sua cela.

Palmira debruou-se sobre a mesa, escondendo o rosto entre as 
mos. No fundo, era bem-feito. Teve o que merecia. Ela ergueu a 
cabea, os olhos secos, e comeou a recolher as moedas, que 
serviriam de suborno para que o juiz local arranjasse um meio de 
trancafiar Constncia para sempre. Antes de colocar tudo de volta 
na bolsinha ela parou, escolheu uma moeda e colocou-a na mo do 
homem, dizendo:

        Muito obrigada por seus servios. O homem olhou a moeda e 
sorriu.
        Eu  que agradeo senhora, por sua generosidade.
        Digamos que  apenas um agrado, em reconhecimento a sua 
boa vontade. E agora pode ir. No preciso mais de seus 
servios.
Depois que o homem se foi, Palmira mandou reunir a famlia. 
Apenas Rodolfo no estava presente. Depois que todos se 
acomodaram, ela tomou a palavra e, com voz solene, anunciou:

        Mandei reuni-los aqui para informar que minha sobrinha, 
Constncia, suicidou-se hoje pela manh, enforcando-se em 
sua cela.

Apesar de Constncia no ser bem quista por ningum, aquela 
notcia era muito triste, e todos lamentaram aquele seu ltimo gesto 
de desespero. Camila, penalizada, ainda desabafou:

        Pobre Constncia...

Ningum disse mais nada. Nem Palmira, que at sentira certo prazer 
com a morte da infeliz, teceu mais nenhum comentrio. Apenas 
disse a Fausto:

        Meu filho,  preciso providenciar a remoo do corpo.
        Deixe tudo por minha conta, mame. No precisa se 
preocupar com nada.
        timo. Sabia que podia contar com voc.
        Onde quer que a enterre?
        Enterr-la? No, no quero que a enterre. No aqui, entre 
nossos entes queridos. Quero que leve seu corpo para a corte 
e o entregue a sua me, minha irm Zuleica.
        No estavam viajando?
        J esto de volta. Outro dia mesmo recebi uma carta de 
Berenice.

Eu ia escrever-lhe em resposta, contando-lhe o ocorrido, mas, em 
vista das circunstncias...
        No acha que ser um choque?
        Sinto muito, mas o que posso fazer? Constncia no  minha 
filha. Entregue-a para os seus.
        Est bem, mame, se  o que deseja.
        E depois, nunca mais quero escutar o nome daquela assassina 
nesta casa. Ela teve o fim que mereceu, e quero apagar de 
minha memria sua passagem por aqui.

Fausto fez como prometeu. Contratou um carro fnebre e partiu 
primeiro sozinho, a cavalo, a fim de levar a notcia funesta. Depois 
que o corpo chegou, ele ficou para o enterro, s voltando  fazenda 
aps o sepultamento.

Vinha ele voltando a cavalo, sozinho, e j quase alcanando a 
cancela que dava para a estradinha da fazenda quando avistou uma 
mancha branca correndo contra o Sol. Estreitou a vista, quase cego 
pela luminosidade, at que conseguiu distinguir o porte elegante e 
garboso de um cavalo branco. A viso foi rpida demais, e o cavalo 
dobrou a curva, desaparecendo de suas vistas. O corao de Fausto 
disparou. Embora no pudesse ver o cavaleiro, sabia tratar-se de 
uma dama. Tinha a impresso de ter visto um pequeno leno azul 
esvoaando ao vento. Seria Jlia? S podia ser Jlia. Ele pensou em 
seguir avante e atravessar a cancela, mas algo em seu ntimo fez 
com que desistisse. Tinha que se certificar.

Fez meia-volta e deu rdea ao animal, disparando estrada acima. 
Perto da curva, estacou, procurando pelo leno, at que o 
encontrou cado no cho, perto de uns arbustos. Imediatamente, 
saltou de seu alazo e apanhou o leno, levando-o s narinas. Que 
perfume suave! Ele conhecia aquele perfume. Era de Jlia. Pensou 
em soltar o leno ali mesmo e fugir, quando ouviu o rudo de cascos 
batendo no solo e se virou. Jlia ali estava, montada em belssimo 
cavalo branco, os olhos a cintilar. Ao v-la, seu corao tornou a 
disparar, mas to forte e com tanta intensidade que ele pensou que 
Jlia o estivesse ouvindo.

Ele no sabia o que dizer, e Jlia, tentando conter a emoo, 
apontou para o leno e disse:

        Obrigada por apanhar meu leno.

Fausto ficou a encar-la, embevecido, e balbuciou:

        O... O... Qu...?
        Meu leno. Vejo que o encontrou.
        Hein? Oh! Sim... O leno.

Fausto estendeu para ela o objeto procurado, tocando de leve em 
suas mos. Jlia, trmula, apanhou o leno e murmurou:

        Obrigada.

Em seguida, voltou-se bruscamente e chicoteou de leve o animal. 
Estava chorando e no queria que ele a visse chorar. O cavalo 
iniciou a marcha, e ela comeou a se afastar. Fausto, olhando-a de 
costas, sentiu certo desespero, uma sensao de que, se a deixasse 
partir, a perderia para sempre. Mas ele a amava. E como a amava! 
Enquanto no a via, era-lhe mais fcil resistir. Mas, vendo-a ali, ao 
seu alcance, no pde suportar a idia de no tornar a v-la. Mais 
que depressa, desatou a correr e chamou:

        Jlia! Jlia!

Ela virou-se para ele, ainda chorando. Eram lgrimas de felicidade, 
que Fausto logo reconheceu. Estendendo-lhe os braos, ajudou-a a 
descer. Ela trazia ao pescoo o leno azul, que ele segurou e levou 
aos lbios. Em seguida, puxou-o pelas pontas e trouxe para perto de 
si o rosto de Jlia. Soltou o leno, segurou-lhe as faces coradas e 
pousou-lhe um beijo doce e suave, que ela correspondeu com 
ternura. Depois a olhou bem fundo nos olhos e estreitou-a de 
encontro ao peito. E chorou. Ambos choraram. Sem nada dizer, 
permaneceram ali abraados, apenas sentindo a enorme emoo 
que os unia. Naquele momento no precisavam de palavras. S o 
que precisavam era de amor.

Camila exultou ao saber que Jlia e Fausto fizeram as pazes e 
pretendiam marcar a data do casamento. Imediatamente, correu ao 
seu quarto e escreveu uma carta a Leopoldo. Era imperioso que o 
marido estivesse presente nas bodas da irm. Jlia concordou em 
esperar a volta do irmo. Tambm no queria casar-se sem a 
presena dele. No tinha pai, e queria ser conduzida ao altar por 
Leopoldo, que a criara desde menina.

Apesar de tambm no guardar dio de Rodolfo, Jlia preferiu 
permanecer na fazenda Ouro Velho at o dia do casamento. 
Chegaria bem cedinho e iria para seu antigo quarto se arrumar. 
Camila j teria deixado tudo pronto, e ela teria tempo de dar uma 
olhada nos preparativos para a festa e de vestir-se com calma. Jlia 
queria evitar o encontro com Rodolfo. Sabia que ele estava doente e 
que no poderia mais fazer-lhe nenhum mal. Fausto dissera-lhe que 
ele estava meio apatetado e quase no falava.         Embora Jlia se 
apiedasse dele, alguma coisa dentro dela fazia com que o evitasse. 
Era um desconforto, um mal-estar, um instinto de defesa que 
despontavam logo que ouvia seu nome. Camila e Fausto acharam 
natural sua reao. O que ele lhe fizera fora muito grave, e Fausto 
at que preferia mant-la afastada do irmo. Depois do casamento, 
quando voltassem da lua-de-mel, mudar-se-iam para a fazenda 
Ouro Velho. Ezequiel concordara em hosped-los at o fim do 
contrato de arrendamento, quando ento partiriam, e o jovem casal 
poderia assenhorear-se de sua nova residncia.

Rodolfo parecia alheio a tudo e a todos. Olhava para as pessoas e as 
reconhecia, mas no demonstrava por elas qualquer tipo de 
sentimento. Era como se fossem estranhas. Pouco falava, quase 
sempre por monosslabos, e s se sentia  vontade em companhia 
de Marta. A moa era incansvel.

A notcia do casamento de Fausto e Jlia, aparentemente, no lhe 
causaram nenhum impacto. Rodolfo permaneceu impassvel, sem 
dar a menor importncia ao fato, o que levaram todos a crer em 
seu total estado de alheamento. Palmira, se bem que um pouco 
contrariada, no se ops. Fausto casar-se-ia com a moa de 
qualquer jeito, e era melhor que fosse ali, junto dela.

Rodolfo assistia aos preparativos do casamento sem maior interesse. 
Um tal de frei ngelo celebraria a cerimnia, mas isso no fazia a 
menor diferena. S o que parecia interess-lo era a presena de 
Marta. Era como se ele soubesse que s Marta era capaz de 
compreend-lo e am-lo, e ele podia sentir-se seguro junto dela.

No entanto, um fato extraordinrio abalou a tranqilidade que ento 
se instaurara na fazenda. Alguns dias antes do casamento, quando 
Marta lia para Rodolfo no jardim, ela se espantou ao ouvir com 
clareza sua voz, que dizia:

        Marta, quero que me faa um favor.
Ela se assustou e soltou o livro, encarando-o perplexa. Pensando 
que ele comeava a recobrar o juzo, retrucou confusa:

        Rodolfo... Sua voz... Oh! Graas a Deus!
        Oua Marta, no tenho tempo para isso  redargiu-o, com 
certa rispidez.
        Mas, Rodolfo... O que foi que houve meu amor?
        No houve nada. Sinto-me melhor agora,  s.
        Mas assim, de repente?
         por qu? No est feliz?
        No se trata disso. Mas  que eu pensei...
        Pensou que eu estava invlido?
        No, claro que no. Pensei, isto , pensamos que voc 
estava...
        Louco? Ora, minha cara, mas o que  isso? Louco, eu? Loucos 
so vocs de acreditarem numa tolice dessas.
        Mas, ento...?
        Ento nada. Passei um tempo doente e agora estou curado.
        Simples assim?
        Simples assim. Mas por que o espanto? At parece que me 
preferia alienado. No est feliz?
        Estou claro. Foi s a surpresa do momento, mas j passou.
        timo.

Ela se levantou e anunciou:

        Sua me precisa saber disso.  o casamento de seu irmo e...
        No!  cortou ele com exasperao.  No conte nada a 
ningum por enquanto.
        Mas por qu? Sua me ficar muito feliz ao ver que voc j 
est curado.
        Por isso mesmo. No quero precipitar as coisas. No sei se 
estou curado ainda.
        No sabe? Mas o que  isso que diz? No estou entendendo.
        No precisa entender. Quero apenas que confie em mim.
        Confiar em voc? Para qu?
        Para fazer-me um favor.

Marta estava profundamente desconfiada. Aquela histria estava 
ficando muito estranha.

        Favor?
        Sim, um favor.
        E que favor seria esse?
        Voc me ama?
        Ainda duvida?
        No. Sei que me ama, e  por isso que s posso contar com 
voc.

Marta olhou-o magoada. Nenhuma palavra de gratido, nenhum 
gesto de carinho. Nada que pudesse demonstrar o reconhecimento 
por tanta dedicao. Fazendo beicinho, tornou sentida:

        O que quer que eu faa?
        Isso, assim est melhor. Muito bem. Quero que traga Tlio at 
aqui.
        Tlio. Para qu?
        No lhe interessa. Faa apenas o que estou pedindo.

Sem responder, Marta pousou o livro no banco e saiu, deixando 
Rodolfo com aquele ar idiota no rosto. Na verdade, desde que a 
febre baixara, ele recobrara suas faculdades mentais e tinha 
perfeita conscincia do que acontecia ao seu redor. No entanto, era-
lhe mais prudente fingir. Se todos soubessem que se curara, teria 
que se explicar e no conseguiria ultimar sua vingana.
Pouco depois, Marta voltou levando Tlio pela mo, e Rodolfo foi 
logo dizendo:

        Agora, deixe-nos a ss.

Marta rodou nos calcanhares, e Tlio, erguendo as sobrancelhas em 
sinal de espanto, indagou:

        Voc no estava louco?
        Isso no vem ao caso.
        Estava fingindo no  mesmo?
        E da?
        Eu devia imaginar.  bem tpico de voc.
        Sou esperto, no sou?

Tlio deu um sorriso de ironia e revidou:

        O que quer?
        Voc sabe.
        Ser possvel que voc no desiste? Por que no me deixa em 
paz? No v que seus truques no surtem mais efeito? Que 
ningum mais vai acreditar em voc?
        Escute aqui, rapaz, no se faa de besta comigo. Ainda posso 
contar a sua mamezinha que voc continua matando as 
negrinhas...

Tlio fitou-o com raiva. At quando seria presa daquele tormento?

        O que quer que eu faa?
        O combinado.
        Quando?
        Na manh do casamento de Fausto.
        Quer impedir o casamento?
        Sim.
        No v que no conseguir? Acha que algum acreditar em 
voc?
        Em mim, no, em voc. Estou louco, lembra-se?
        Est mesmo.
        Cale essa boca, idiota, e escute-me. No dia do casamento, 
rena a famlia em meu quarto e conte tudo, do jeitinho que 
combinamos. D um jeito de trazer Trajano e mande-o 
confirmar essa verso. O depoimento daquele negro imbecil 
ser fundamental para aqueles tolos acreditarem.
        Acha mesmo que isso dar certo?
        Acho bom que d. Para o seu bem,  melhor fazer tudo 
direitinho. Ou ento, posso melhorar subitamente e contar a 
histria verdadeira. No tenho nada a perder, mas voc...

O dia do casamento rapidamente chegou, e pouco antes do horrio 
marcado para a cerimnia, Tlio foi ao quarto de Jlia. Camila 
atendeu e mandou-o entrar. O que poderia ele querer?

        Tlio!  exclamou Jlia.  O que faz aqui?
        Jlia preciso lhe falar.
        Agora no, querido. Estou me aprontando para a cerimnia. 
Frei ngelo j deve estar chegando.
        Mas  importante.
        Nada pode ser mais importante do que meu casamento.

Jlia podia perceber o nervosismo na voz do sobrinho e imaginou 
que algo de muito grave deveria estar acontecendo. Caso contrrio, 
ele no iria procur-la justo no dia de seu casamento. Ela pousou na 
penteadeira a escova com a qual estava se penteando, encarou-o e 
indagou:
        Muito bem. Do que se trata?
        Ser que pode me acompanhar ao quarto de tio Rodolfo? Por 
favor,  importante, principalmente para voc. Disso vai 
depender toda a sua felicidade.

Ela estranhou aquele pedido e hesitou. Ir ao quarto de Rodolfo? Era 
pedir-lhe demais. J ia protestar quando escutou a voz de Camila:

        Est tudo bem, querida, no se preocupe. Irei com voc.

Jlia deu de ombros e aquiesceu. Com Camila a seu lado, no tinha 
o que temer. Saindo para o corredor, encontrou Fausto que, ao lado 
de Trajano, j os aguardava.

        Algum pode me explicar o que  que est acontecendo?

Tlio pediu-me que o aguardasse aqui com Trajano. O que  que 
h? Seja o que for no pode esperar?

        Por favor, tio Fausto, venha comigo e no faa perguntas. 
Acredite-me,  importante. Se no fosse, no os reuniria logo 
hoje, no dia do seu casamento.

Todos se calaram e seguiram para o quarto de Rodolfo. O rapaz 
estava sentado na cama, com Marta o seu lado, servindo-lhe uma 
xcara de ch. Pouco depois, Palmira apareceu seguida de Leopoldo 
e Drio. Vendo a famlia toda ali reunida, mais aquele escravo 
insolente, perguntou atnita:
        Mas o que significa isso?
        Tenha calma, vov. Logo ficar sabendo de tudo. Todos 
ficaro. Por favor, escutem-me. Tenho uma revelao muito 
importante a fazer.
Logo que todos se acomodaram, Tlio encarou Fausto e comeou:

        O assunto que me fez reuni-los aqui  deveras grave. Como 
todos sabem, tio Rodolfo perdeu o juzo e no poder falar por 
si mesmo. Alm disso, sua imagem est comprometida por 
seus atos ignbeis, mas  preciso que no o condenemos por 
tudo o que acontece de ruim, s porque ele j errou uma vez. 
No. Ele no  o nico aqui a errar, e no deve agora tambm 
ser considerado culpado pelos erros dos outros. Eu, como seu 
sobrinho, no posso me calar, e sinto-me no dever de expor a 
todos a verdade sobre alguns fatos que aconteceram aqui.
        Que fatos?
        Trata-se de um crime.
        Um crime? Mas que crime?
        Um crime ao qual ningum deu muita importncia, mas que 
deve ser revelado antes de seu casamento, Jlia, para que 
voc saiba tudo a respeito do homem com quem vai se casar.
        Tlio, pare j com isso!  explodiu Palmira.  Isso no  hora 
para brincadeiras desse tipo.
        No, vov, no so brincadeiras.

Rodolfo no mexia um msculo sequer. Nem piscava. Estava louco 
para pular daquela cama e atirar na face do irmo toda sorte de 
improprios, mas se conteve. Jlia, indignada, retrucou:

        No estou entendendo nada do que diz. Aonde quer chegar?

Sem tirar os olhos de Fausto, Tlio continuou:

        Quero chegar ao crime que meu tio cometeu, ou melhor, aos 
crimes que ele cometeu, violentando e matando uma pobre 
escrava indefesa, e depois ameaando seu prprio sobrinho, 
caso ele contasse a verdade a algum.

Um raio no os teria atingido com mais violncia. Fausto abriu a 
boca perplexo, sem saber o que dizer. Nem sequer podia imaginar 
de onde Tlio tirara aquela histria. Ser que enlouquecera 
tambm?

        Tlio, voc bebeu?  tornou indignado.
        Gostaria de ter bebido. S assim poderia esquecer aquela 
monstruosidade. Mas no se espantem. Sei o que digo e posso 
provar. H testemunhas.
        Testemunhas?  perguntou Jlia indignada  Quem? 
Testemunhas de que, meu Deus?
        Em primeiro lugar, eu mesmo.
        Voc?

Ele olhou para Jlia rapidamente e, escolhendo bem as palavras, 
suspirou e comeou a dizer:

        Sim, Jlia, eu presenciei a morte de Etelvina.
        Voc o qu?

Tlio fitou o rosto estarrecido de Fausto e disparou, sem desviar o 
olhar do tio.

        Vi, com meus prprios olhos, meu tio matar Etelvina.
        O qu?  indignou-se Fausto.  Por acaso enlouqueceu? Por 
que est fazendo isso?
        Tlio  repreendeu Palmira severamente.  Eu o probo de 
falar sobre esse assunto. Voc diz que Etelvina foi morta, 
embora isso nunca tenha ficado provado. E embora ela fosse 
apenas uma escrava, no acredito na participao de meu 
filho nesse episdio. Contudo, isso no vem ao caso agora, e 
eu lhe ordeno que se cale e no estrague o casamento de seu 
tio.
        No, dona Palmira  objetou Jlia.  Embora tambm no 
acredite, Tlio diz que Fausto teve participao na morte da 
moa. E se Fausto tem mesmo alguma coisa a ver com isso, 
tenho o direito de saber.
        Mas esse assunto no  importante e pode esperar.
        No  insistiu Jlia.  O assunto envolve Fausto, e quero 
saber do que se trata.
        Jlia, no v me dizer que voc acredita que eu tenha algo a 
ver com isso.
        Por favor, por favor  interrompeu Tlio.  Por que no me 
deixam terminar? Afinal, ainda no acusei ningum.
        Isso  que no  disse Palmira.  No vou permitir.
        Por favor, mame  interrompeu Fausto , deixe que Tlio 
nos conte sua histria. No tenho nada a temer.

O rapaz suspirou e retomou a narrativa. Mas, para surpresa de 
Rodolfo, ele comeou falando a verdade, desde o dia em que 
brigara com Trajano por causa da moa:

        Eu estava louco da vida. Louco com Trajano, que me batera, 
louco por Etelvina, que me parecia apetitosa. Foi ento que 
meu tio me procurou com uma idia. Iria me ajudar a deitar 
com a negrinha, ao mesmo tempo em que eu poderia vingar-
me de Trajano. Ns sabamos que ele estava apaixonado por 
Etelvina, e ela por ele, e meu tio pensou que seria uma boa 
idia fazer com que ele presenciasse sua amada sendo 
ultrajada por mim.

Ele fez uma pausa e olhou para Rodolfo, que no tirava os olhos 
dele. Se Tlio resolvera contar de sua participao naquele episdio, 
tanto melhor. Dava at mais autenticidade. S o que ele no podia 
era revelar seu nome. Rodolfo, porm, comeou a sentir-se pouco  
vontade. Por que estaria ele se incriminando, se tudo o que fizera 
fora exatamente para salvar a pele? E por que no falava logo o 
nome de Fausto, referindo-se ao autor do crime apenas por tio?
Tlio, engolindo em seco, prosseguiu:

        Bem, logo depois que eu me servi da negrinha, sob o olhar 
agoniado de Trajano, meu tio tambm resolveu aproveitar e 
deitou-se sobre ela. Mas Etelvina no parava de se debater, e 
ele comeou a apertar seu pescoo, at que a esganou...
        Meu Deus!  exclamou Jlia horrorizada.
        Pois . Depois disso, deu ordens para que Trajano a enterrasse 
e ameaou-nos, a ele e a mim, caso falssemos alguma coisa.
        Tlio  interrompeu Fausto.  Por que est fazendo isso? Diga 
a verdade.
        Oh! Mas eu disse a verdade.
        Tlio!  gritou Palmira.  Essa histria j foi longe demais. 
Exijo que essa reunio seja encerrada agora mesmo.
        Mas, vov...
        Nada de, mas. No quero ouvir nem mais uma palavra dessa 
infmia. Seu tio jamais mataria algum, ainda que uma 
escrava. E depois, deitar-se com uma negra? Isso  ultrajante, 
e meus filhos jamais se prestariam a esse papel.
        Lamento vov, mas essa  a verdade. Meu tio no s se 
deitou com a escrava, como tambm a matou.
Fausto, no podendo mais suportar aquela agonia, agarrou Tlio 
pelos punhos e, sacudindo-o, explodiu:

        O que deu em voc, Tlio? Por que no conta logo  verdade? 
Voc diz que foi seu tio quem fez isso. Mas que tio?

Ele encarou Rodolfo com um brilho de satisfao nos olhos e, 
calmamente, declarou:

        Tio Rodolfo.
         mentira!  gritou Rodolfo, dando um salto da cama, para 
espanto geral.  Mentira!
        Rodolfo, meu filho, o que significa isso? Como pode...?

Mas Rodolfo no escutava. Em sua loucura, s conseguia pensar em 
desmoralizar o irmo e continuou:

        Fausto o ameaou, s pode ser isso. Mas o escravo sabe, ele 
viu. Vamos, Trajano, conte a verdade ou eu o mato!

Trajano, ante o olhar inquisidor dos presentes, respondeu com voz 
humilde:

        O sinh sabe que sinhozinho Tlio disse a verdade.
        Mentira! Voc tambm est mentindo. Passou-se para o lado 
deles! Fausto ameaou-o tambm? No acredite neles, 
mame! E tudo uma farsa. Um plano para acabar comigo e 
me impedir de contar-lhe a verdade! Fausto no quer ser 
desmascarado! Ele a enganou esse tempo todo, mame, e 
sabe que eu sou o nico que conhece toda a verdade!

Palmira, sem entender bem por que obra miraculosa Rodolfo 
recobrara o juzo, retrucou surpresa:

        Mas que verdade? Do que  que voc est falando?

Rodolfo, sem saber o que fazer, tentou sua ltima e desesperada 
cartada:
        Dos Zylberberg!  isso: os Zylberberg. Nossos vizinhos. So 
judeus.

Palmira olhou para o filho, penalizada. Ele pulava e gritava na sua 
frente, confirmando sua loucura. Seus olhos encheram-se de 
lgrimas e ela, tentando acalm-lo, segurou-lhe a mo e disse com 
tranqilidade:

        Eu j sabia.

Ele recuou estarrecido. Estava perdido. Tudo dera errado. Fora 
desmascarado e desmoralizado diante da me e de toda a famlia. 
Desesperado, virou-se para a porta e desatou a correr. No lhe 
restava mais nada. S o que lhe restava era morrer.

Rodolfo atravessou o quarto feito um furaco, e Marta saiu atrs 
dele. Ele alcanou a estradinha e desatou a correr, sem destino, 
com Marta em seu encalo, chamando por ele, mas ele no 
respondia. S queria morrer. Por fim, extenuado, Rodolfo parou e se 
ajoelhou no cho de terra batida, ocultando o rosto entre as mos e 
chorando em desespero. Marta parou a seu lado, ajoelhou-se junto 
a ele e envolveu sua cabea com os braos desnudos, murmurando 
em seu ouvido:

        Meu querido, por que fez isso?

Rodolfo, em vez de responder, empurrou-a para longe, jogando-a 
ao cho, e levantou-se, encarando-a com horror e gritando, 
completamente fora de si:

        Deixe-me em paz! O que veio fazer aqui? Rir da minha 
vergonha?
Ela se recomps e ajeitou o vestido, um tanto quanto sujo e 
amassado pelo tombo, e retrucou:

        No, claro que no. Vim apenas ajud-lo.
        Mentira! Veio acusar-me, humilhar-me. Mas no vou permitir, 
est ouvindo? No vou permitir!

E comeou a gesticular feito louco, ameaando Marta com os 
punhos fechados. Ela, porm, calmamente acercou-se dele e, 
segurando com doura as mos fechadas do rapaz, acariciou-as e 
tentou tranqiliz-lo:

        Psiu! Meu querido, mas o que  isso? Sou eu, Marta, quem 
est aqui. No vim aqui para acus-lo de nada. Eu o amo e 
estarei sempre a seu lado.

Ele fitou seu rosto sereno e contestou incrdulo:

        No acredito! Voc veio aqui a mando deles, s para me 
espicaar ainda mais.

Em vez de contestar, Marta beijou-o suavemente. Mas Rodolfo 
continuava ainda desconfiado. No sabia se podia confiar nela. Ela 
dizia que o amava, mas no estaria tambm se aproveitando da 
situao para vingar-se dele? Contudo, ao penetrar a doura de seu 
olhar, no teve mais dvidas. Marta o amava e jamais o trairia. Ele 
podia ver naqueles olhos toda a dor por v-lo sofrer, e teve certeza 
de que ela estaria disposta a enfrentar tudo e todos s para ficar 
com ele. Desesperado e no podendo mais conter a frustrao por 
ver malogrado seu plano de destruir o irmo, Rodolfo atirou-se a 
seus ps, agarrando sua cintura e chorando em desespero:

        Oh! Marta, Marta! Eles me humilharam, escarneceram de 
mim. S quero morrer. Por favor, deixe-me morrer!

Ela ergueu-o gentilmente e o abraou, e ele, desesperado, colou-se 
a ela e a beijou, buscando em seus lbios o sabor de seu beijo. Em 
seguida, afastou-h por uns instantes, olhou bem fundo em seus 
olhos e, como se uma sombra de lucidez e reconhecimento lhe 
perpassasse a mente, sussurrou:

        Marta, eu... Sinto muito... Voc  to boa... No merece um 
homem feito eu...

Ela segurou seu queixo entre as mozinhas alvas e suplicou:

        Eu o amo, Rodolfo, e voc  o nico homem que jamais 
sonhei merecer.

Sem dizer nada, Rodolfo beijou-a novamente, a princpio de 
mansinho, mas depois com uma paixo avassaladora, um desejo 
incontido, uma fria quase animal. Marta assustou-se, mas o amor 
fez com que cedesse, ela tambm, ao enorme desejo que sentia por 
ele, e entregou-se ali mesmo, sobre a relva macia que ladeava a 
estradinha.
Quando terminaram de se amar, Marta estava feliz. Ele fora um 
pouco bruto, era verdade, mas aquele ato selara para sempre seu 
amor. Rodolfo seria somente seu, ela sabia, assim como sabia que 
ele se casaria com ela.

Rodolfo, por sua vez, apesar de arrasado, sentia-se um pouco mais 
confiante. A presena de Marta dava-lhe essa confiana, fazendo 
com que acreditasse que nem tudo estava perdido. Ele sabia que 
no tinha mais armas contra o irmo. Seus recursos haviam se 
esgotado, e ele no conseguiria mais separ-lo de Jlia. Casar-se-ia 
com Marta. Ao menos ela seria capaz de afogar seu despeito, 
ajudando-o a ostentar uma capa de dignidade e respeito, impedindo 
que seu orgulho fosse enxovalhado pela vergonha.

CAPTULO 28

Apesar desse episdio infeliz e inslito, o casamento de Jlia se 
realizou. Fausto, j farto das extravagncias e das loucuras do 
irmo, recusou-se a adiar a cerimnia. Se Rodolfo quis se fazer 
passar por maluco, era problema dele. Mas ele no estava mais 
disposto a adiar sua felicidade por causa de seus desatinos. Era at 
melhor que ele no estivesse presente. Assim no precisaria ter o 
desgosto de casar-se na companhia de to abominvel criatura.

O casamento foi celebrado por frei ngelo, e a festa transcorreu 
normalmente. Para os convidados que estranharam a ausncia de 
Rodolfo, Palmira se justificou alegando que o filho estava doente e 
que piorara naquela tarde, em virtude da forte emoo.

A festa ia a meio quando Palmira pediu licena aos convidados e se 
recolheu ao seu quarto, alegando cansao, deixando tudo a cargo 
de Camila, que se esforava para esconder dos convidados o 
desagradvel episdio que ali se desenrolara. Deitada em seu leito, 
Palmira relembrou a conversa que tivera com Fausto, quando ento 
ficara sabendo da procedncia de seus inquilinos.

        Mame  comeara ele a dizer , h algo que preciso lhe 
contar.
        Sim, meu filho, do que se trata?
        A senhora  uma mulher piedosa e temente a Deus, no  
verdade?
Ela refletira durante alguns segundos, tentando imaginar o motivo 
daquela conversa, e retrucara:

        Sim, sou por qu?
        Porque o que tenho a lhe contar vai exigir sua piedade e 
compreenso, e ser uma boa oportunidade para testar seu 
esprito cristo.
        Fausto, v logo ao assunto. No estou entendendo aonde quer 
chegar.

Enchendo-se de coragem, ele indagara:

        Bem, sabe os nossos inquilinos?
        O que h com eles? No me v dizer que esto atrasando o 
pagamento do aluguel.
        No, no  isso. O aluguel  pago rigorosamente em dia.
        Ento, do que se trata?
        Bem, mame, trata-se de sua, digamos, preferncia religiosa. 
Ou melhor, de sua raa.

Palmira inquietara-se. No estava gostando nada do rumo que 
aquela conversa estava tomando. Primeiro fora Rodolfo, pedindo-lhe 
que os convidasse para sua festa de aniversrio,  qual, inclusive, 
eles nem foram, e agora era Fausto, que parecia saber algo 
comprometedor sobre aquela gente.

        Mas o que  que est tentando me dizer? Por acaso eles no 
so catlicos?
        No, mame.
        So protestantes?
        Tambm no.
        Mas o que so ento?  diante do silncio do filho, ela 
completara atnita:  No me v dizer que so judeus!

Olhando fundo em seus olhos, Fausto respondera:

        Sim, mame.

Ela ficara estarrecida. Se fossem protestantes, a situao seria ruim. 
Sendo judeus, era praticamente insustentvel. Mal contendo a 
indignao, retorquira:

        Fausto, como pde fazer uma coisa dessas comigo, sua 
prpria me? Ento no sabe que essa gente no presta, no 
tem escrpulos ou moral?
        Mame, isso no  verdade. Os Zylberberg so pessoas 
honestas e decentes, e possuem elevados valores morais.
        No acredito. Todos sabem que os judeus so imprestveis, 
interesseiros e mesquinhos.
        No entanto, vm pagando regiamente os aluguis.
        Isso  outra histria. Podem ser honestos, admito, mas a 
moral deles  outra.
        Que outra? Por acaso no pautam sua conduta pelos mesmos 
costumes sociais que ns? Por acaso no se vestem como 
ns? No se sentam  mesa como ns? No trabalham como 
ns? No consigo ver onde possa estar  diferena.
        Meu filho, os judeus no prestam. No acreditam no 
Nazareno.
        E da, mame?
        E da que Jesus morreu na cruz por causa da maldade deles.
        No acha que  muito preconceito julgar e condenar a todos 
s porque alguns, h sculos e sculos passados, cometeram 
um ato que, pelos nossos padres de conduta, seria 
considerado um crime medonho?
        Mas eles crucificaram Jesus. Isso no lhe parece medonho?
        Mame, isso  um fato histrico, como tantos outros. Por 
acaso os padres catlicos, h bem pouco tempo, no levaram 
centenas de pessoas  fogueira s porque tinham algum tipo 
de crena ou de conhecimento que, pelos padres da poca, 
foi julgado imoral e ofensivo s leis divinas? E as Cruzadas? 
Quantos no padeceram em nome da Cruz? Acha justo que 
algum tenha que morrer s por pensar ou agir diferente?
        Isso  outra coisa...
        No  no.  a mesma coisa. A nica diferena  que os 
judeus, como voc diz, crucificaram um homem s, ao passo 
que os catlicos, em nome desse mesmo Jesus, assassinaram 
inmeros inocentes. E se quer saber, no creio que Jesus 
tenha ficado nada satisfeito com isso.
        Fausto, no blasfeme!
        No estou blasfemando. Acredito em Jesus e em sua 
maravilhosa misso aqui na Terra. Mas se foi ele mesmo quem 
pregou o amor, como nos pode, sculos depois, pretender 
selecionar aqueles que so e os que no so dignos de ser 
amados? Ao que me conste, Jesus no fazia essa distino. Ao 
contrrio, amou a todos igualmente: ricos e pobres, cristos e 
romanos, sadios e leprosos...
        Por favor, Fausto, pare!  gritara Palmira.  Voc s est 
tentando me confundir.
        No, mame. Estou apenas tentando cham-la  razo. Os 
judeus, assim como quaisquer outras pessoas, so seres 
humanos. Tm os mesmos sentimentos, as mesmas 
necessidades, os mesmos desejos, os mesmos medos. 
Sujeitam-se s mesmas vicissitudes e alegrias que ns. 
Amam-se, casam-se, tm filhos. Em que so diferentes de 
ns?
        No sei meu filho. Mas Jesus morreu para nos salvar...
        Para que aprendssemos a nos amar e respeitar, e no para 
que nos odissemos ou discriminssemos.
        Amar, sim. Mas no aos judeus.
        Por que no? Onde est escrito que catlicos, judeus, 
protestantes, ne...  ia dizer negros, mas mudara de idia e 
se corrigira ... rabes e turcos no podem se amar?
        Isso que est dizendo  uma heresia.
        Ser mesmo? Por que se julga to superior? Por que acha que 
Deus s tem olhos para os catlicos? Deus no tem religio e  
cultuado em todas as religies, at nas africanas. Nossos 
escravos tambm no cultuam seus deuses?
        Fausto, como pode comparar Nosso Senhor aos deuses 
africanos? Eles so pagos, politestas!
        Mas por qu? Porque algum convencionou que s devemos 
amar a Deus da maneira como foi por uns concebidos? A 
concepo de Deus no deve ser limitada, mas de acordo com 
a crena e o corao de cada um.
        Meu filho, de onde tirou essas idias?

Fausto olhara-a assustado. Nem ele sabia de onde surgiram aqueles 
pensamentos. S o que sabia  que eles, de repente, afloraram em 
sua mente, clareando-a e tornando-a mais lcida, como se o vu do 
obscurantismo fosse aos poucos caindo, descortinando idias para as 
quais, at ento, no havia ainda despertado. Como que retornando 
 realidade, ele respondera:

        No sei mame. Confesso que isso me ocorreu agora. Mas no 
importa. O que importa  que essas idias me parecem 
bastante lgicas e sensatas. Por que distinguir onde Deus no 
distingue?

Palmira estava perplexa. Apesar de sua patente averso s pessoas 
no catlicas, tinha que concordar que no sabia responder s 
perguntas que Fausto lhe fazia. Acostumara-se a rejeitar os judeus 
porque assim lhe ensinaram no catecismo, mas nunca lhe ocorrera 
pensar neles como pessoas de carne e osso. Contudo, era-lhe difcil 
abandonar tantos conceitos pr-concebidos assim, de forma to 
repentina, conceitos h muito estabelecidos e aos quais j estava 
apegada pela fora do hbito. Ela o encarara seriamente e, 
balanando a cabea, acrescentara:

        Fausto, no tenho idia do que est falando. Contudo, fui 
criada na Igreja e no me cabe discutir seus dogmas.
        Por que no? Por acaso no pensa, no tem raciocnio?
        No nos  lcito raciocinar sobre verdades que a Igreja nos 
ensina.
        Mas que verdades? Como pode algum intitular-se dono da 
verdade, se a verdade absoluta  privilgio de Deus? Ou ser 
que algum est tentando igualar-se a Deus?
        Fausto que horror! Isso  uma blasfmia.
        No, mame, isso  raciocnio. Deus nos deu a faculdade do 
raciocnio e no nos imps limitaes para us-la. No estaria 
de acordo com a natureza divina possuirmos um dom ou 
faculdade para no o utilizarmos. De que vale o violino se no 
h ningum que o saiba tocar? Para que o dom da pintura se o 
artista no se dispe a expressar-se nas telas? No seria isso 
um desperdcio?
        Meu filho, no sei o que lhe dizer. Nunca havia pensado nessas 
coisas e nem sei se  direito pensar nelas agora.
        Mame, por favor, seja razovel. Os Zylberberg so pessoas 
de bem. Cumprem suas obrigaes para conosco em dia. Tm 
uma filha doente, que est se recuperando graas, em parte, 
ao ar puro de nossa regio. O que pretende fazer? Expuls-los 
daqui s porque no acreditam que Jesus seja o Messias?
        No sei meu filho, confesso que no sei o que fazer. No 
quero parecer insensvel, mas ter contato com judeus... J  
demais.
        E se eu lhe disser que alguns membros de nossa famlia 
mantm estreitas relaes com eles?
        Refere-se  Camila e Jlia? Eu sei, mas o que posso fazer? 
Embora lamente muito, Camila  adulta, e no posso obrig-la 
a cortar relaes com essa gente. S o que posso lhe pedir  
que no me pea para aceitar sua presena em minha casa. E 
quanto a Jlia, bem, ainda no  parte da famlia.
        No  a Camila que me refiro. Nem a Jlia.
        No? E a quem mais?
        Mame, Drio est comprometido com a moa, Sara, e quero 
que saiba que pretendem se casar.

Ela quedara mortificada. Aquilo j era demais. Seu neto misturar 
seu sangue ao sangue de uma judia? Nunca! S passando por cima 
de seu cadver.

        O que est me dizendo?  indagara atnita.  Isso s pode 
ser alguma brincadeira.
        Pois lhe asseguro que no  brincadeira alguma. Drio e Sara 
esto apaixonados e vo se casar assim que ela melhorar.
        No, isso no pode ser verdade. No vou admitir. Vou falar 
com Camila, fazer com que veja o absurdo desse romance.
        Pare mame. No h absurdo algum, e a senhora no vai 
fazer nada. Lembre-se do que aconteceu a Incio. Acha justo 
deixar que seu neto tambm sofra por causa de um amor 
incompreendido?

Palmira calara-se e ficara a pensar. J estava ficando velha e 
cansada, e talvez nem vivesse para ver o casamento dos netos. 
Ser que valeria a pena desgostar-se com eles s para fazer valer 
sua vontade?

        No quero fazer ningum sofrer.
        Pois ento, mame, aceite e ver que Sara  uma excelente 
moa, e que seus pais so pessoas bondosas e decentes. 
Tenho certeza de que gostar muito deles.
        No sei Fausto. No sei se conseguirei.
        Por favor, mame, tente. Drio ama a moa e vai se casar 
com ela, quer a senhora queira, quer no. Se a senhora no a 
aceitar, eles com certeza partiro daqui magoados com a 
senhora.  isso o que quer?
        Tem razo, meu filho. Amo meu neto e no quero desgostar-
me com ele  ela ficara pensativa por alguns segundos, at 
que continuara:  Apenas no entendo uma coisa.
        O que ?
        Por que resolveu me contar isso agora? Por que no antes ou 
nunca?

Ele acercara-se dela, segurara-lhe as mos com firmeza e dissera:

        Porque vou me casar com Jlia, e  importante a presena 
deles em nosso casamento. E se  importante para Jlia,  
importante para mim tambm.
        Entendo.

Diante disso, Palmira achara melhor no insistir. Ainda no sabia que 
a doena de Rodolfo era uma farsa e no queria indispor-se com 
Fausto. Por isso, resolvera tolerar aquela gente. O que mais poderia 
fazer?
Logo que marcaram a data, Fausto, a pedido de Jlia, acompanhara 
Drio em uma de suas visitas a Sara. Queria formalizar o convite 
para seu casamento. Esperara que Sara e Drio terminassem de se 
abraar, chamara Rebeca e Ezequiel, e anunciara:

        Meus amigos, vim aqui para, juntamente com Jlia, fazer-lhes 
um convite especial. Gostaramos de convid-los para o nosso 
casamento, que se realizar dentro de um ms, 
aproximadamente.
        O qu?  indagara Ezequiel.  Mas j?
        Sim, j. No temos por que esperar.
        E onde ser o matrimnio?  perguntara frei ngelo.
        L mesmo na fazenda  respondera Jlia.  E gostaramos 
que o senhor, frei ngelo, celebrasse a cerimnia.
        Ora, ser um prazer.
        E vocs iro, no  mesmo, Rebeca?
        Gostaramos muito, mas no sei se devemos. Dona Palmira, 
na certa, no aprovar nossa presena.
        Quanto a isso, no precisam se preocupar  objetara Fausto.
        J conversei com mame e contei-lhe tudo sobre vocs.
        Quer dizer que ela j sabe que somos judeus?
        J, sim.
        E o que ela disse?
        No vou mentir. No comeo, ficou um pouco chocada. Mas 
depois acabou concordando que os convidssemos.
        Posso perguntar como foi que conseguiu essa proeza?
        Nem eu mesmo sei seu Ezequiel. S o que sei  que mame 
acabou se convencendo, ao menos parcialmente, de que esse 
preconceito no tem fundamento.
        Ser que no a constrangeremos com nossa presena?
        Em absoluto. Podem ir sem se preocupar. Mame no os 
importunar e nem se sentir ofendida com a presena de 
vocs. Ao contrrio, trat-los- muito bem. Ainda mais agora, 
que sabe que Drio e Sara vo se casar.
        Voc contou a ela?  indagara Sara, perplexa.
        Sim, meu bem  dissera Drio.  E ela aceitou. No  
maravilhoso?
         sim. Oh! Papai podemos ir? Diga que iremos, por favor.
        Bom, se  assim, iremos  concordara Ezequiel.
        Imaginem se faltaria ao casamento de minha querida Jlia, a 
quem considero como uma filha  acrescentara Rebeca.
        Obrigada, dona Rebeca. Ficarei muito feliz com a presena de 
vocs.

Lembrando-se de sua conversa com o filho, Palmira suspirou e 
fechou os olhos. Estava feliz por Fausto e triste com o 
comportamento de Rodolfo. Por isso, a festa para ela perdera 
metade de seu encanto. No se sentia com nimo para fingir mais 
diante dos convidados. Ela sabia que Camila se desincumbiria bem 
da tarefa que lhe dera e no se preocupou.

Ao final da festa os noivos se recolheram e, no dia seguinte, bem 
cedo, partiram para Paris em viagem de npcias. Apesar de tudo, 
estavam felizes. Lamentavam o ocorrido, mas Rodolfo escolhera seu 
prprio destino. Tivera a chance de se reconciliar com o irmo e 
Jlia e de desfrutar de sua companhia. Em vez disso, optara por 
atirar-se naquele precipcio de cime e inveja, de onde j no podia 
retornar.
Marta e Rodolfo ficaram at altas horas assistindo de longe o 
movimento do casamento do irmo. Depois que o ltimo convidado 
se retirou, ele tornou a beij-la, levantou-se e estendeu-lhe a mo, 
perguntando em seguida:

        E agora? O que faremos?

Ela no sabia bem a que ele se referia. Se ao fato de hav-la 
deflorado ou se ao episdio de ainda h pouco. Ela estalou-lhe um 
beijo na testa e retrucou:

        Por que no vamos at minha casa? Tenho certeza de que 
papai no se importar que voc passe a noite l. Pode dormir 
na poltrona...
        Voc acha melhor?
        Acho, sim. O que aconteceu em sua casa foi muito grave, e  
melhor que voc no volte l por enquanto.
        Tem razo.

Puseram-se a caminhar de mos dadas, e Marta acrescentou:

        Por que fez isso?

Rodolfo suspirou e chutou uma pedrinha, respondendo com voz 
sumida:

        No sei. No sei se voc entenderia.

Ela parou, virou-se para ele e, apertando forte suas mos, decretou:
        Oua Rodolfo, quero que compreenda uma coisa. Hoje me 
tornei sua mulher e quero continuar sendo sua mulher pelo 
resto de nossas vidas. Mas quero que saiba que, acima de 
tudo, serei sempre sua amiga.

Rodolfo encarou-a, emocionado, e disse-lhe do dio que sentia pelo 
irmo, cuja origem ou razo desconhecia. Estranhamente, sabia que 
podia confiar em Marta e no seu amor. Ela jamais o julgaria ou 
trairia, e isso lhe dava certo conforto, como se ela passasse, de 
repente, a representar a figura do abrigo seguro em noites de 
tempestade. Marta ouviu tudo em silncio, sem esboar nenhum 
tipo de reao. Quando chegaram  porta de sua casa, sua 
fisionomia continuava serena, e ela beijou-o de leve nos lbios, 
dizendo bem de mansinho:

        Obrigada por confiar em mim.

No dia seguinte, quando Anita acordou, ficou extremamente 
surpresa ao encontrar Rodolfo adormecido na poltrona da sala, todo 
torto, e correu a chamar o marido. Aldo chegou sem nada entender, 
sentou-se ao seu lado e, cutucando-o devagar, tentou despert-lo. 
Rodolfo abriu os olhos um pouco aturdidos e, logo que se lembrou 
de tudo o que havia acontecido, pulou da poltrona e ficou a olhar o 
capataz, meio sem jeito. Aldo, surpreso, disse:

        Seu Rodolfo, o que foi que aconteceu? O que est fazendo 
aqui? No est doente? Sente-se bem? Precisa de ajuda?

Marta, ouvindo vozes na sala, levantou-se apressada, jogou o 
penhoar por cima da camisola e correu para onde eles estavam 
chegando bem a tempo de ouvir as emocionadas palavras de 
Rodolfo:
        Aldo, peo que me perdoe  intromisso. Vim aqui para pedir-
lhe a mo de Marta em casamento e ficaria muito feliz se a 
concedesse.

Foi uma surpresa. Anita, a princpio, quedou boquiaberta, e Aldo, 
atnito, retrucou:

        Seu Rodolfo, h pouco estava doente, mal falava...
        Para voc ver, Aldo. Foi o amor de sua filha que me curou.

Aldo e Anita se entreolharam, e ele prosseguiu:

        Seu Rodolfo, tem certeza de que  isso mesmo o que quer? O 
senhor  o patro, e Marta  apenas uma menina pobre...
        Sim, Aldo, tenho certeza. Sua filha e eu nos amamos e 
queremos nos casar.

Diante disso, Aldo no teve outro remdio seno consentir no 
casamento. Ele no sabia de nada do que acontecera, mas no 
gostava muito de Rodolfo. Contudo, tinha que concordar que ele era 
um excelente partido, membro de uma das mais importantes 
famlias da regio. E depois, se Marta o amava, que direito teria ele 
de impedir que fosse feliz? Ele s esperava que ela, realmente, 
conseguisse ser feliz.

Tlio, por sua vez, vendo que Rodolfo o ameaava, tentando for-
lo a executar seus planos srdidos, primeiro contra Trajano, depois 
contra Fausto, achara que j era hora de acabar com aquilo. 
Desesperado e arrependido enchera-se de coragem e acabara por 
procurar a me, abrindo-se com ela, e Camila orientara-o no sentido 
de dizer a verdade, pois s a verdade seria capaz de libert-lo, no 
s da culpa, mas tambm do medo de ser descoberto. Seria um 
passo difcil, ela sabia, mas a coragem era uma virtude nobre, e 
assumir seus erros, um ato de bravura e dignidade. Tlio se 
arrependera e, com isso, dera o primeiro passo para sua 
regenerao. Mas era preciso enfrentar seus medos e sua culpa, 
assumindo seu erro com coragem e sinceridade. S assim 
conseguiria o respeito por si mesmo e conquistaria o respeito dos 
demais.

Fingindo concordar com as idias do tio, a conselho da me, Tlio 
sara em busca de Trajano, colocando-o a par do acontecido 
instruindo-o para que, ao ser chamado  sua presena, falasse 
apenas a verdade, sem medo de ser humilhado ou castigado. 
Trajano ficara muito feliz com a atitude de Tlio. Ainda mais porque 
pudera se reconciliar com ele, por quem nutria sincera afeio.

No entanto, Tlio estava envergonhado de si mesmo, e depois de 
tudo o que fizera no se sentia com nimo de encarar Fausto e Jlia. 
Afinal, no fora a primeira vez que se metera em situao 
semelhante e comeara a julgar-se um rprobo, merecedor de todo 
desprezo que lhe pudessem enderear. Com isso, foi se tornando 
cada vez mais acabrunhado e tristonho.         Evitava a companhia 
dos demais e voltara a trancar-se no quarto. Por mais que a me, a 
av, o irmo, Jlia e Fausto tentassem anim-lo, ele no conseguia 
se livrar da culpa. Tlio, a todo instante, lembrava-se de Etelvina, 
por cuja morte fora diretamente responsvel. Sua prpria 
conscincia atormentava-o dia e noite, acusando-o de estuprador e 
assassino. Ningum conseguia anim-lo, a no ser Trajano, que o 
visitava regularmente. Palmira, vendo o abatimento do neto, a 
quem adorava, acabara por consentir que o escravo o visitasse, e 
era s na presena de Trajano que Tlio dava vazo  culpa, 
chorando e implorando-lhe que o perdoasse. Tlio estava 
sinceramente arrependido e, se pudesse tudo faria para reparar os 
crimes que havia cometido. To sincero era seu arrependimento, 
que o esprito de Etelvina, alma nobre e generosa, acabara por se 
aproximar dele, e Tlio sonhara.

Em seu sonho, ele estava novamente no local em que tudo 
acontecera, chorando  beira do riacho. De repente, ouvira rudo de 
passos na relva e, quando se virar, quase cara de susto. Etelvina 
estava ali, parada diante dele, um sorriso nos lbios, convidando-o 
para um passeio. Tlio sentira medo e quisera fugir, mas ela 
docemente o chamara:

        Por que foge Tlio? No se lembra mais de mim?
        Lembro-me sim. Voc  Etelvina, a quem vi morrer a mesmo 
onde est parada.
        No, Tlio. No se lembre de Etelvina. Lembre-se de sua 
antiga criada.

De repente, Etelvina como que desaparecera, e em seu lugar 
surgira uma moa bonita, muito loura, de seus dezenove anos, 
vestida em trajes de servial. Tlio assustara-se, e ela correra para 
dentro da mata. Sem pensar, ele correra atrs dela e atravessara 
uma porta, indo parar na imensa cozinha de um castelo medieval. 
Atnito, olhara em volta e vira Etelvina ajudando a cozinheira a 
rechear um faiso. Ele se aproximara mais da moa e ela olhara 
para ele, abaixando os olhos e sorrindo maliciosamente. Em 
seguida, cochichara alguma coisa no ouvido da cozinheira e sara 
por uma porta lateral, e Tlio sara atrs dela.

Nessa poca, Tlio e Rodolfo eram irmos, e Trajano, capito da 
guarda de seu pai. Rapaz orgulhoso e frio morria de inveja dos 
patres. Era filho bastardo de um tio dos rapazes, e o mximo que 
conseguira na vida, por condescendncia do patro, fora aquele 
cargo de guarda pessoal. No entanto, apaixonara-se por Etelvina e 
pretendia casar-se com ela. Mas eram pobres, e a vida que se lhes 
apresentava era uma vida simplria, sem qualquer tipo de luxo ou 
conforto. Etelvina e Trajano, extremamente ambiciosos, armaram 
um plano. Roubariam os patres e fugiriam. Como chefe da guarda, 
ser-lhe-ia fcil arranjar uma fuga, assim como seria fcil para 
Etelvina entrar na sala de tesouros do castelo.

Para isso, Etelvina contava com o desejo e a paixo de Tlio. O 
moo vivia seguindo-a com o olhar e s no a forara a entregar-se 
a ele com medo de que o pai descobrisse. Um dia, porm, a sorte 
lhe sorrira. A moa estava polindo a prataria quando vira Tlio se 
aproximar. Conhecedora de sua influncia sobre o rapaz, logo o 
seduzira, tornando-se sua amante. A partir da, encontravam-se 
todas as noites, e ela sempre insinuava que muito lhe apreciaria 
entrar na sala de tesouros de seu pai. No princpio, ele recusara. Era 
muito perigoso. Mas depois, quando a paixo dominara-o por 
completo, no pudera mais se furtar. Etelvina ameaava deix-lo, 
caso no atendesse quele seu capricho.

Marcaram a visita para o dia seguinte, e Etelvina prevenira Trajano, 
que, esgueirando-se pelos corredores do castelo, ocultara-se nas 
sombras,  porta do quarto de Tlio. J era madrugada quando 
saram, e Trajano os seguira de longe, sem produzir um s rudo. O 
rapaz entrara num salo, chegara perto da pintura de sua me, 
ladeada por duas tochas, e torcera a da esquerda. Imediatamente a 
parede se abrira, e eles passaram. Etelvina estava assustada, mas 
no dissera nada. Caminharam por um corredor escuro, at que 
chegaram diante de outra porta, cuja chave Tlio tirara do quarto 
do pai. Ele abrira a fechadura e empurrara. Etelvina ficara 
maravilhada. Aquele tesouro era incalculvel. Havia ali pratarias, 
tapearias e um ba cheio de jias e pedras preciosas.
Trajano, que vinha logo atrs, esperara cerca de dez minutos e 
repetira o gesto de Tlio, abrindo a passagem secreta e caminhando 
pelo corredor, at chegar  sala dos tesouros. Quando entrara, Tlio 
se espantara vendo a lmina que reluzia em sua mo. Olhando para 
Etelvina, compreendera tudo e quisera fugir. Tarde demais. A lmina 
cortara-lhe a garganta, e ele tombara morto sem pronunciar um ai 
sequer.

No dia seguinte, Rodolfo, irmo de Tlio, sara a sua procura. Os 
dois eram ntimos, combinavam em tudo e tudo sabia a respeito um 
do outro. Rodolfo sabia que Tlio e Etelvina havia se tornado 
amantes, e at o estimulara. Mas quando o irmo lhe contara que 
pretendia mostrar a ela a sala de tesouros, no concordara. Pensara 
at em contar ao pai, mas Tlio implorara. Estava apaixonado pela 
moa e no queria perd-la. E depois, que mal haveria? Ela era 
apenas uma mulher e nada poderia contra ele. Rodolfo, a 
contragosto, no tivera outro remdio seno concordar.

Quando ele abrira a porta do quarto de Tlio e no o encontrara, 
correra para a sala de tesouros. Atravessara a passagem secreta e, 
quando vira a porta entreaberta, seu corao disparara. Tlio jazia 
morto sobre o cho de pedra, a garganta cortada, olhos fitando o 
vazio. Olhando ao redor, vira que o ba estava aberto e que vrias 
peas haviam sido retiradas. Aquilo o enchera de dio. Teria Etelvina 
agido sozinha?

Dado o alarme, constatara-se que o capito da guarda havia 
sumido, bem como Etelvina, e no fora difcil adivinhar o que havia 
acontecido. O pai de Tlio enviara seus homens por toda parte, mas 
ningum conseguira encontr-los, e os criminosos permaneceram 
impunes.

Rodolfo, no entanto, no se conformava. O dio o consumia cada 
vez mais, e ele sempre se lembrava da aterradora viso que tivera 
do irmo morto. Aquela cena macabra o acompanhava por toda 
parte, e ele fizera um juramento. Faria com que Etelvina e Trajano 
pagassem tudo na mesma moeda.

Estarrecido diante desse sonho, ou melhor, dessa viso, Tlio 
sentira-se envolvido por uma nuvem perfumada, e logo fora 
transportado de volta ao seu quarto, onde Etelvina o aguardava. Ela 
o beijara suavemente e partira e, desde esse dia, Tlio tornara-se 
um rapaz mais alegre, embora comedido e discreto. Sorria com 
moderao, largara os vcios, deixara de molestar as escravas. 
Concentrara-se no futuro, vido por retornar a sua cidade e dedicar-
se a auxiliar o pai com os negcios. Tencionava casar-se e ter filhos. 
Queria ser um homem normal, levando uma vida normal, porque j 
era outro homem: digno, honesto, gentil. E tudo graas a um 
estranho sonho que tivera, cuja lembrana lhe parecia um pouco 
nebulosa, mas que fora capaz de acender em sua alma a chama da 
esperana e do perdo.

CAPTULO 29

Desde que frei ngelo chegara  fazenda Ouro Velho, Sara comeou 
a se sentir melhor. Todo o dia bebia as infuses que ele mandava 
preparar para ela, que pareciam fortalec-la cada vez mais. Alm 
disso, a companhia dos amigos e as conversas que tinha com o frei 
foram aos poucos a animando. Ela sempre falava de seus sonhos, 
de seus temores e de suas dvidas. Abria seu corao para ele, 
revelando-lhe suas angstias e seus sentimentos, e j estava 
consciente de que o mal de que sofria realmente tivera uma causa 
no passado, e que essa causa estava mesmo ligada a sua relao 
com seus pais em outra vida.
Naquele dia, ao sair para o jardim, frei ngelo l estava, olhos 
fechados, banhando-se ao Sol. Ela chegou e levemente o tocou, 
dizendo sorridente:

        Bom dia, frei ngelo. Desculpe-me se o desperto do sono...
        Oh, no, minha menina, no estava dormindo. Apenas 
aproveitava o Sol da manh. Mas vamos, sente-se aqui junto 
de mim e diga-me: como se sente esta manh?

Ela sentou-se a seu lado, encheu os pulmes com o ar fresco da 
manh e respondeu com jovialidade:
        Maravilhosamente!
        timo. Seu progresso tem mesmo sido notvel.
        Graas ao senhor.
        Graas a voc mesma. Ao seu desejo de se curar. A sua 
enorme capacidade de compreender, aceitar e modificar as 
coisas.
        Sabe, frei ngelo, sinto como se, de repente, pudesse 
compreender por que meus pais so como so, e por que eu 
sinto tanta insegurana.
        E por qu?
        Pelo que pude compreender de todos os sonhos que j tive, 
minha me ficou viva logo cedo, mas no se conformava em 
viver s. Por isso, vivia flertando com vrios homens, sempre 
na esperana de arranjar novo marido. Mas os homens, logo 
que descobriam que ela tinha uma filha, em sua maioria se 
afastavam, e ela ficava aborrecida comigo. Passou ento a 
quase me ignorar. Tratava-me bem, cumpria com seus 
deveres de me, ou seja, alimentava-me, dava-me roupas, 
brinquedos... Mas nenhum carinho. No tinha tempo para isso. 
Creio mesmo que ela tentava compensar sua falta de amor 
comprando-me presentes caros e bonitos. Bem, o fato  que 
eu fui me sentindo cada vez mais sozinha, fui me isolando, 
pensando que no era amada.

Ela suspirou e prosseguiu:

        Agora compreendo a antipatia que minha me sentiu por 
Marta. Ela afeioou-se muito a mim e tratava-me como se eu 
fosse sua filha. Dava-me coisas tambm, mas, em especial, 
dava-me ateno, carinho, amor. Era bondosa e 
compreensiva, e eu fui me apegando a ela e, com o tempo, 
passei a no ligar mais para minha me. Eu era tambm 
pequenina, devia ter uns seis anos no mximo, e substitu o 
amor de minha me pelo de Marta, feliz por haver encontrado 
algum que me fizesse sentir amada. E minha me, quando se 
deu conta do que havia acontecido, ficou furiosa. Ela nem 
teria notado, no fosse pelo fato de haver conhecido meu pai, 
que passou a cobrar-lhe que me desse ateno, e ela, para 
agrad-lo, procurava a minha companhia. Mas eu, cada vez 
mais distante, no queria estar junto deles, mas sim de minha 
tia, o que deixou minha me furiosa. Da o sentimento que ela 
tem por Marta, que nem sabe explicar.
         verdade. E como voc se sentiu com tudo isso?
        Eu fiquei extremamente infeliz. Apesar de procurar minha 
companhia, eu sentia que aquele interesse no era sincero. 
Minha me s queria impressionar seu novo marido. Na frente 
dele dava-me beijos, abraos. Mas depois que ele saa, 
colocava-me no cho e voltava a me ignorar. Segundo dizia, 
no tinha pacincia para manhas de crianas.
        Voc deve ter se sentido extremamente s.
        E como! Minha tia foi proibida de me ver, e eu sofria muito 
com isso. O que mais desejava no mundo era poder estar 
junto de Marta. Com o tempo, fui me fechando cada vez mais. 
No saa para brincar e me alimentava muito mal. At que, 
um dia, bastante enfraquecida pela m alimentao, apanhei 
um golpe de ar e adoeci. Tossia sem parar e ardia em febre. 
Minha me se apavorou e chamou o mdico, mas j no havia 
muito que fazer. A pneumonia j havia tomado conta de meu 
pulmo, e s o que se podia fazer era esperar. Poucos dias 
depois, vim a falecer, deixando minha me entregue a 
profundo abatimento, sentindo-se culpada por minha morte. 
Mas, no querendo admitir sua culpa, passou a acusar Marta, 
dizendo que ela havia colocado coisas na minha cabea, na 
esperana de roubar-me dela. Marta e ela cortaram relaes 
e, durante anos, no mais se falaram. At que, mais tarde, 
por convenincias polticas, passaram a manter uma relao 
fria e artificial. Minha me nunca pde perdo-la e morreu 
levando consigo muita mgoa e ressentimento.

Sara calou-se e frei ngelo ficou olhando-a, profundamente 
emocionado com o que acabara de ouvir. Toda a histria fazia 
sentido, e ele estava feliz por ver que a moa conseguira, sem 
muito esforo, chegar quelas concluses. Depois de alguns 
instantes, segurou-lhe a mo e indagou:

        E agora, o que pretende fazer? Vai contar a verdade a seus 
pais?
        No, absolutamente no. Meus pais jamais entenderiam. 
Principalmente minha me.
        Bem se v que ela carrega muita culpa no corao.
        Por isso mesmo. Se ela acreditasse nessa histria, passaria a 
se culpar. Isso sem falar que poderia aumentar sua antipatia 
por Marta.
        Tem razo, minha filha.  muito sbia essa deciso. Foi por 
isso que Deus permitiu que voc descobrisse essas verdades, 
porque sabia que voc j estava preparada para entend-las e 
aceit-las. Seus pais, contudo, ainda precisam de mais algum 
amadurecimento. Revelar-lhes essas coisas agora poderia 
causar-lhes mais mal do que bem, visto que eles no 
conseguiriam alcanar a magnitude da justia de Deus.
        Minha me entenderia justia como vingana. Pensaria que 
Deus a estaria castigando por haver me rejeitado.
        Como se Deus castigasse algum...
        V como  melhor deixar tudo como est?

Nesse instante, Drio se aproximou. Ia sorrindo, vendo a alegria de 
Sara. Era impressionante sua melhora, e Drio pensou que frei 
ngelo operara um verdadeiro milagre. Acercando-se mais dela, 
segurou sua mo e beijou-a na face, falando sorridente:

        Sara minha querida, como est alegre!
        Sim, Drio, sinto-me muito bem.
        Isso  maravilhoso!
         sim.
        Em breve poderemos nos casar.

Ele olhou para frei ngelo, que se levantou, pediu licena e se 
retirou. Era hora de entrar e deixar que os moos aproveitassem  
juventude e o amor. Drio sentou-se ao lado de Sara, e ela o 
encarou com ar enigmtico. Lembrou-se de outro sonho que tivera, 
talvez de uma vida anterior, quando ele fora seu marido e morrera 
bem velhinho a seu lado. Ela sorriu para ele e, segurando-lhe o 
queixo entre as mos, disse cheia de ternura:

        Sabe que o amo h muito, muito tempo?
Drio, pensando que ela se referia ao tempo em que se conheciam, 
abraou-a com ternura, estreitando-a de encontro ao peito, certo de 
que ela viveria para continuar a am-lo por muito, mas muito mais 
tempo ainda.

At a partida de Fausto e Jlia em viagem de lua-de-mel, no dia 
seguinte ao casamento, Rodolfo permaneceu oculto na casa de 
Marta. Aldo e Anita estranharam, mas no disseram nada. Ele era o 
patro, e no convinha contrari-lo.

Quando a carruagem levando os recm-casados saiu da estradinha 
que ligava  casa grande, o capataz foi avis-lo, e Rodolfo voltou 
para casa cabisbaixo e desconfiado. Entrou sem falar com ningum 
e foi direto para o quarto. Poucos minutos depois, escutou batida na 
porta. Era a me, que ia ver como estava passando.

        Como est, meu filho? Por onde andou? Fiquei preocupada.

Ele virou o rosto para a janela e retrucou:

        Por qu? Pensei que tambm quisesse ver-me longe daqui.
        No diga isso. Voc  meu filho. Haja o que houver, ser 
sempre meu filho.

Encarando-a, Rodolfo declarou:

        Mame, sei que errei, mas errei porque pensava amar Jlia.  
mentiu  No entanto, agora vejo que no a amava tanto 
assim. Por causa dela, quase destru meu irmo. Quase me 
destru...
        No pense mais nisso. O importante agora  que vocs se 
reconciliem. Ele partiu para a Europa, vai demorar a voltar.  
o tempo de que necessitamos para que tudo se ajeite.
        Acha mesmo?
        Tenho certeza. Fausto  um bom rapaz, e Jlia tambm me 
parece que tem bom corao. Iro perdo-lo e esquecer o 
ocorrido. Mas voc tem que me prometer que nunca mais 
tentar nada contra eles. Promete?

Ele ainda hesitou, mas acabou concordando.

        Prometo.
        Muito bem.
        Eles vo continuar morando aqui?
        No. Eles vo para a Ouro Velho. E melhor assim.
        Sim, . Escute mame, no quero mais saber de Jlia. Por 
isso, gostaria de anunciar que pretendo me casar com Marta.
        Fico muito feliz, meu filho, que tenha decidido se casar com 
ela. Confesso que, no comeo, no a julgava digna de voc. 
Mas depois, vendo-lhe a dedicao, comecei a rever meus 
conceitos. Marta tem muito valor, e sei que o ama.
        Quer dizer, ento, que nos dar sua bno?
        Sim. E ficarei muito feliz se continuarem vivendo aqui. Com 
Fausto na outra fazenda, e Camila de volta a So Paulo com 
meus netos, sentir-me-ei muito s.
        Nada me dar mais prazer, mame. E no se preocupe. 
Pretendo encher esta casa de crianas.

Ela sorriu e deu uma tapinha de leve em seu brao.

        Agora me diga meu filho, apenas por curiosidade. Desde 
quando estava se fingindo de doente?
Ele abaixou os olhos e suspirou com amargura.

        H muito tempo, mame. Tanto que nem posso me lembrar.

Palmira achou estranha aquela resposta e mudou de assunto:

        Vou mandar providenciar um novo quarto para vocs. Este 
aqui  muito pequeno para acomodar um casal.
        Como quiser mame. Ah, j ia me esquecendo. Prometi a Aldo 
que lhe daria um pequeno stio, para que possa se aposentar e 
viver com a mulher. No fica bem meu sogro trabalhando 
para mim de capataz.
        Fez bem.

O casamento se realizou conforme o esperado, em cerimnia 
simples, s com a presena dos familiares. Nenhum amigo, nenhum 
fazendeiro da regio ou pessoa ilustre foi convidada. Rodolfo no 
tinha nimo para festas, e Marta no fazia questo de luxo. Ele 
apenas quis receber a noiva no altar, toda de branco. Depois da 
cerimnia, partiram para a corte em lua-de-mel e s retornaram 
dali a um ms.

Quando voltaram, Marta parecia feliz, apesar de mais madura e 
vivida. Camila j havia partido em companhia de Leopoldo e Tlio, e 
apenas Drio permanecera. No queria ir sem Sara. A moa 
freqentava a fazenda So Jernimo e l iam quase todos os dias 
em companhia de frei ngelo. Vendo a amizade entre um frei e uma 
judia, Palmira se espantou. Frei ngelo, porm, dissera-lhe:

        Dona Palmira, Deus no se preocupa com raa, cor ou credo. 
Ele enviou seu filho no para que desagregasse os homens, 
impondo-lhes diferentes crenas e conceitos, mas para que, 
reconhecendo suas prprias diferenas, pudessem se amar e 
se reconhecer como irmos.
        Mas... E a crucificao?
        Jesus foi crucificado pela incompreenso de uns, e no pela 
maldade de todos. No  justo nos julgarmos melhores do que 
ningum, ainda mais porque os cristos surgiram do meio dos 
judeus. No  verdade?
        Sim... Pensando bem, Jesus tambm nasceu judeu.
        E ento? Viu? No perca a oportunidade, dona Palmira, de 
conhecer pessoas maravilhosas, que muito tm a oferecer, s 
porque seguem uma crena diferente.

A exemplo de Marta Sara era tambm uma boa moa. Um pouco 
plida, talvez, mas muito franca e generosa.
        O que ser dela?  tornou Palmira.  O que ser dela quando 
voltar a So Paulo?
        No sei. Esperamos que sua doena no volte a evoluir longe 
do ar puro das montanhas. Sara tem a doena sob controle, 
mas no se pode afirmar que esteja propriamente curada.
        Mas por que ela tem que voltar? Por que no pode ficar aqui? 
Por acaso no gosta da vida na fazenda?
        No sei dizer. Por que no pergunta a ela?

Sara amava a vida na fazenda, mas ela no lhe pertencia. Pertencia 
a Fausto e a Jlia, que para ali se mudariam to logo voltassem de 
sua viagem. E ela no tinha o direito de tomar-lhes o lugar. Palmira, 
porm, j afeioada  moa e com medo de que ela piorasse se 
voltasse para So Paulo, tomou uma deciso. Falaria com Fausto. 
Se ele concordasse, pediria a Ezequiel e Rebeca que se mudasse em 
definitivo para l com a menina, depois do casamento. Apesar da 
tristeza que a partida de Fausto lhe causaria, Palmira pensou que 
aquela seria a deciso mais acertada a tomar. Fausto e Jlia tinham 
sade e viveriam bem em qualquer lugar.

CAPTULO 30

Fausto e Jlia voltaram cerca de seis meses depois. Chegaram 
felizes, cheios de presentes, novidades e muitas saudades. A alegria 
foi geral, e Jlia ficou espantada ao saber que Marta e Rodolfo havia 
se casado. Depois que se acomodou, Jlia foi ter com a amiga e 
acariciou seu ventre, que j comeava a se avolumar.

        Est feliz?  perguntou Jlia.

Marta fitou o horizonte e respondeu:

        Sim. Era o que eu queria, no era?
        Ele a trata bem?
        Ele  gentil e carinhoso. E est feliz com o beb.
        Fico feliz por voc tambm, Marta. Toro para que tudo d 
certo.
        Quando vo partir?
        Daqui a uns dias. Logo aps o casamento de Drio e Sara.
        Vocs foram muito generosos cedendo-lhes a fazenda Ouro 
Velho.
        Eles merecem. E Trajano ficar com eles.
        Vocs tambm no poderiam ficar?
        No, Marta. Fausto e eu j havamos mesmo decidido partir. 
Ainda que Sara no precisasse da fazenda, ns partiramos. 
Para ns  difcil estar perto de Rodolfo.
        Sei disso e compreendo. Mas sentirei muito sua falta.
        Em breve no sentir  gracejou, apontando para sua 
barriga.
        Tem razo. Rodolfo e eu queremos ter muitos filhos.
        Isso  timo.

Naquela noite, quando Marta se recolheu, teve um sonho estranho. 
Sonhou que era irm de Rebeca e que havia brigado com ela por 
causa de Sara, sua sobrinha, a quem amava como se fosse sua 
filha. Depois que a menina morrera, Marta sentira-se muito s e 
casara-se logo em seguida. Tivera, ento, trs filhos, sendo Rodolfo 
e Tlio os mais novos. Mas Rodolfo era seu preferido, era a razo de 
sua existncia, e ela se desvelava por ele. Amava-o profundamente 
e cuidava dele com muita dedicao. Quatro anos depois, ao dar  
luz novamente, Marta no resistira ao parto difcil e desencarnara, 
logo aps o nascimento de Tlio. Liberta da carne, Marta continuara 
a amparar Rodolfo, a quem j amava havia muitas e muitas vidas.

Rebeca, sua irm, aps perder a filhinha, tivera uma outra menina, 
fruto de seu segundo casamento com Ezequiel. A menina, Jlia, era 
prima de Rodolfo e Tlio, e fora crescendo com eles, at que, um 
dia, conhecera Fausto, filho de Palmira, nova madrasta de Rodolfo. 
Jlia era ento namorada de Rodolfo, mas acabara por apaixonar-se 
por Fausto, que pedira sua mo em casamento.         Mas Rodolfo, 
cheio de cime, desafiara-o para um duelo, e ele s no fora morto 
porque Jlia intercedera, o que o cobrira de vergonha, e ele acabara 
seus dias desmoralizado e desonrado, s em seu castelo.

Marta despertou suando frio. Lembrava-se parcialmente do sonho, 
mas ficara com uma sensao estranha a oprimir-lhe o peito.

        O que foi? indagou Rodolfo, despertando assustado.   o 
beb?
        No foi nada, querido, durma.

Depois do casamento de Drio e Sara Fausto achou que j era hora 
de partir. Aproveitando a companhia de Camila, aprontou suas 
coisas e se foi com Jlia, ansioso por uma nova vida. Era um bom 
negociante e, com a ajuda de Leopoldo, no seria difcil se 
estabelecer.

Assim que a carruagem sumiu na estrada, Rodolfo, em casa, teve 
um estremecimento. No pudera ver quando eles deixaram  
fazenda, mas sentira que se distanciavam e comeou a chorar. No 
estava triste. Ao contrrio, sentia-se aliviado por no precisar mais 
dividir o mesmo teto com o irmo. Mas era uma sensao estranha; 
um misto de alvio e de perda, como se, de alguma forma, uma 
parte de sua vida estivesse partindo com ele.

Palmira, depois das despedidas, sentou-se  janela e ps-se a 
observar as carruagens, at que desaparecessem e, depois disso, 
continuou ainda sentada ali. Estava to absorta em seus 
pensamentos que nem percebeu quando Terncio entrou. Depois 
que Aldo se estabelecera com a mulher, o cargo de capataz ficara 
vago, e fora logo ocupado por um rapaz jovem e robusto.

        Dona Palmira  comeou , ser que eu poderia falar com a 
senhora?
        O que quer?  respondeu ela, sem olhar para ele.
        Bem, dona Palmira,  que os meninos se casaram, veio um 
novo capataz, e eu estava pensando. J estou velho, no 
agento mais a labuta. Ser que a senhora tambm no pode 
me substituir? Conheo um rapaz muito bom que poderia ficar 
em meu lugar.
        Est bem, Terncio, o que pede  justo.
        A senhora concorda?
        Concordo sim. Mande-o vir amanh para falar com Rodolfo.
        Mais uma coisa, dona Palmira.
        O que ?
        Ser que eu poderia morar na casa que foi de Aldo?  que fica 
um pouco mais afastada e  mais sossegada.
        Como quiser Terncio. Apesar de tudo o que se passou, voc 
foi fiel a Licurgo durante muitos anos.  justo que receba uma 
recompensa.
        Obrigado, dona Palmira  agradeceu com os olhos rasos 
d'gua.

Terncio nunca fora um homem bom. Ao contrrio, sempre fora 
cruel e sanguinrio, gostava de bater nos escravos e de se deitar 
com as negras. Alm disso, era venal e egosta, e s pensava em si 
mesmo. Terncio era capaz de tudo por dinheiro, at mesmo de 
trair e matar. S nunca trara Licurgo, para com quem tinha uma 
lealdade exagerada, que beirava o absurdo. Terncio amava e 
respeitava Licurgo acima de qualquer coisa, e seria capaz de matar 
e morrer por ele.

Na verdade, Terncio era filho de Licurgo, embora nunca tivesse 
ficado sabendo disso. Palmira tambm no sabia. S descobrira a 
verdade quando o marido, sentindo a aproximao da morte, 
confidenciara-lhe esse segredo, pedindo-lhe que o mantivesse bem 
guardado. Da me, uma costureira pobre que ele deixara na Bahia, 
nunca mais ouvira falar. E, como ltimo desejo, Licurgo pedira a 
Palmira que no desamparasse o capataz, como ele fizera durante 
todos aqueles anos em que o protegera em silncio. Terncio nunca 
desconfiara de sua origem, e no seria conveniente revel-la nesse 
momento. E depois, ele tambm j era um velho. Para onde iria?
Depois que ele saiu, Palmira continuou ali, at que a noite chegou, e 
quando Tonha entrou para acender as velas, assustou-se com a 
sinh, sentada ali no escuro, fitando as trevas que se estendiam 
sobre o horizonte. Ela deu um salto para trs e, levando a mo ao 
corao, exclamou:

        Sinh Palmira! O que faz a no escuro?

Palmira voltou-se lentamente para ela e sorriu. J no lhe tinha mais 
dio. Chegava mesmo a ter-lhe certa admirao. Ainda sorrindo, 
chamou:

        Deixe isso, Tonha, e sente-se aqui ao meu lado.

Tonha, sem entender, balbuciou:

        Como... Como disse, sinh?
        Disse para sentar-se junto a mim. Vamos, venha no tenha 
medo.

Um tanto quanto confusa, Tonha obedeceu e sentou-se junto dela. 
Palmira tornou a fitar o horizonte e foi s aps alguns minutos que 
disse:

        Sabe Tonha, hoje sinto que renasci...

Tonha voltou  cabea para ela, cada vez entendendo menos, mas 
ela parecia dormir. Os olhos semicerrados pareciam voltados para 
dentro de si, e ela, adormecida, sonhou.

Palmira caminhava por entre os escombros de uma fazenda que 
parecia em runas, sentindo nas narinas um forte odor de cinzas. 
Fora andando vagarosamente, passando as mos por cima dos 
mveis semi-destrudos, experimentando na pele a sensao porosa 
da fuligem. Onde estaria? Aquele lugar lhe parecia familiar, mas no 
atinava onde fosse. S o que podia perceber era que os cmodos 
por onde andava estavam praticamente destrudos, vigas e pilastras 
derrubadas no cho, s paredes cobertas por uma crosta negra e 
grossa.

Chegara perto de uma janela e olhara para fora. Era quase noite, 
mas a paisagem que se ia descortinando despertara sua lembrana. 
Como no havia percebido antes? Estava na fazenda Ouro Velho, 
caminhava por seus corredores, adentrava seus quartos, e era a 
floresta exuberante que via estender-se diante de seus olhos. No 
entanto, estava diferente, destruda, como no dia em que aquele 
incndio nefasto havia tirado a vida de Incio, Cirilo e Aline.
Mas como era possvel? Apesar dos escombros, Palmira tinha 
certeza de que aquele incndio havia acontecido mais de trinta anos 
antes. E a fazenda havia sido reformada. Como podia ento estar 
ainda destruda? Sem entender, ela entrara por um corredor 
comprido, que levava  sala, e estacara quando l chegara. 
Sentados em uma poltrona de veludo, dois rapazes a fitavam com 
um sorriso no rosto. Eram jovens e bonitos, e vestiam-se com cala 
e tnica brancas. Por uns instantes, Palmira ficara a olh-los 
tambm. De onde  que os conhecia?

Subitamente, seu corao disparara e ela soltara um grito de 
euforia:

        Cirilo! Incio! So vocs mesmo?

Os rapazes se levantaram no mesmo instante, aproximando-se dela 
e abraando-a afetuosamente. Palmira, de to abismada, quase no 
conseguia falar. Efetivamente, eram seu filho e seu sobrinho que 
tinha ali diante de si. Mas como podia ser? Eles no haviam 
morrido? Ser que ela morrera tambm? Ou ser que estava 
sonhando?
        No, mame  apressara-se Cirilo em dizer, lendo-lhe os 
pensamentos.  A senhora no morreu.

Completamente inebriada com a presena do filho e do sobrinho, 
Palmira deixara-se abraar com alegria.

        Meus queridos  balbuciou , quantas saudades senti de 
vocs!
        Ns sabemos mame, e estamos aqui para ajud-la.
        Ajudar-me. Por qu? O que vai me acontecer?
        Tia Palmira, em breve a senhora deixar esse corpo de carne 
e partir para uma nova vida. No entanto,  preciso que 
reveja algumas de suas atitudes, a fim de que sua conscincia 
no a conduza para mundos inferiores.
        Como assim? Serei julgada?
         claro que no, mame. O julgamento que far de si mesma 
partir de seu prprio corao, e no de um tribunal ilusrio. 
Ele poder at existir, se a senhora assim desejar. Mas s ser 
real no seu plano de pensamento, pois que ser mera criao 
mental. No entanto, como disse,  preciso rever suas atitudes. 
S assim alcanar a compreenso libertadora.
        Mas... Em toda minha vida, fiz apenas o que achava certo.
        A concepo de certo e errado muitas vezes esbarra no 
sentimento que devemos nutrir por ns e por nossos 
semelhantes. Antes de os julgarmos ou condenarmos, 
devemos entender que so nossos iguais, filhos do mesmo 
Deus que nos criou, nem melhores, nem piores do que ns 
mesmos. Apenas seres humanos que, como ns, encontra-se 
em franco processo de evoluo. Sejam escravos, judeus, 
protestantes. Pobres ou ricos, somos todos essncia do mesmo 
sopro divino, que nos d vida e nos anima, impulsionando-nos 
a buscar nosso crescimento atravs das provas e dificuldades 
que experimentamos, sempre atendendo ao nosso livre-
arbtrio e s escolhas que fazemos. A natureza divina  
perfeita, e ns, como parte dessa perfeio, devemos libertar 
o germe da compreenso que trazemos dentro de ns e reg-
lo com amor. S assim poderemos encontrar a felicidade.

Palmira abaixou a cabea e sussurrou:

        Ento estou condenada. Minha conscincia me diz que tenho 
muito que aprender.
        Pois ento aprenda. Com humildade, com benevolncia, com 
simplicidade. Ore e pea a Deus uma nova chance. Reconhea 
seus erros e procure transform-los em lies para o futuro. 
Mas no se condene. No se deixe abater pala culpa ou pelo 
medo. Tenha f e confiana, e saiba que todos esses 
processos de amadurecimento, apesar de dolorosos, so 
necessrios para a compreenso dos verdadeiros valores do 
esprito. E ame mame. Sobretudo, abra seu corao para o 
amor. S ele  capaz de nos libertar...

Gradativamente, Palmira foi abrindo os olhos, ainda escutando as 
palavras do filho e do sobrinho ecoando em seus ouvidos. J era 
noite fechada, mas ela pde ver na escurido dois vultos brancos se 
esvaecendo no ar, e ouviu perfeitamente quando Cirilo disse a 
Incio:

        Talvez precise reencarnar... No corpo de uma negra, servial, 
para aprender a reconhecer os verdadeiros valores do esprito 
e desapegar-se do orgulho...

Reconhecendo naqueles vultos as figuras do filho e do sobrinho, e 
no compreendendo bem aquela conversa, Palmira arregalou os 
olhos, estendeu as mos para frente e exclamou:
        Incio! Cirilo! No me deixem! Esperem-me... Esperem-me...

E tombando a cabea sobre o peito, abandonou o corpo e os seguiu.


Fim
Com o Amor No Se Brinca                Mnica de Castro
Papyrus_digitais@googlegroups.com
